Damos continuidade à publicação da entrevista a Willem Middlekoop realizada por Koos Jansen. A terceira e quartas partes vão focar-se na abordagem a um capítulo específico da sua última
obra “The Big Reset” com o título “War on Gold” e que resulta de investigação
que o autor tem vindo a fazer desde 2002.
A Guerra ao Ouro
Koos Jansen – Por que razão os EUA lutam
contra o ouro?
Willem Middlekoop – Os EUA
querem que o sistema-dólar prevaleça, de maneira que têm todo o interesse em
prevenir o abandono do dólar e a aposta
no ouro. Ao venderem ouro em papel [contratos de futuros e não ouro físico
– nota do tradutor], os banqueiros têm tentado manter o controlo do preço do
ouro nas últimas décadas. Esta guerra já tem quase cem anos, mas ganhou impulso
nos anos 60 do séc. XX com a criação da plataforma de ouro de Londres (London Gold Pool). Julgo que, da mesma
maneira que essa plataforma e o seu desígnio de controlar o preço falhou em
1969, assim vai falhar o actual esquema de manipulação dos preços do ouro e da
prata.
KJ – Em que consiste essa guerra?
WM – a sobrevivência do corrente sistema
financeiro mundial depende, justamente, da preferência das pessoas recair sobre
o papel-moeda em vez de recair no ouro. Depois do dólar se ter libertado da
ligação ao ouro em 1971, os banqueiros têm andado a demonetizar o ouro. Um dos argumentos que eles usam para
deter os investimentos em ouro é que estes metais não permitem obter um retorno
directo, seja em juros ou dividendos. Mas os juros e os dividendos são
pagamentos face ao risco, são contrapartidas face à possibilidade de os
devedores não cumprirem as suas obrigações. Ora o ouro não acarreta esse risco.
A guerra ao ouro é, na sua
essência, um esforço para suportar o dólar, mas há mais motivações. De acordo
com alguns estudos, o preço do ouro e as expectativas das pessoas face à
inflação estão fortemente relacionadas. Como sabemos, os bancos centrais
trabalham arduamente para influenciar as expectativas de inflação. Em 1988, um
estudo de Summers e Barsky confirmou a relação entre o preço do ouro e as taxas
de juro, concluindo que um preço mais baixo do ouro conduz a taxas de juro
igualmente mais baixas.
KJ – E quando começou essa guerra?
WM – A primeira evidência de que os EUA
estavam a interferir no mercado do metal pode ser encontrada logo em 1925,
quando a FED falsificou informação relativa às reservas de ouro do Banco de
Inglaterra para influenciar as taxas de juro. Todavia, esta guerra começou, de
um modo mais intenso e organizado, a partir dos anos 60 quando a confiança no
dólar começou a ser posta em causa. Conflitos geopolíticos como a construção do
Muro de Berlim, a Crise dos Mísseis em Cuba e a escalada da violência o
Vietname conduziram ao aumento considerável dos custos militares dos Estados
Unidos, o que se traduziu em défices orçamentais crescentes.
Um memorando de 1961, com título
“US Foreign Exchange Operations: needs and methods”, descreve o plano para manipular, simultaneamente, o
mercado cambial e o mercado do ouro através de intervenções estruturais,
mantendo e defendendo o dólar e limitando o preço do ouro nos 35 dólares/oz.
Era vital para os EUA gerir o mercado do ouro, caso contrário, outros países
podiam trocar o seu excedente em dólares por ouro, depreciando o dólar e
valorizando o ouro.
KJ – Como era gerido o preço do ouro nos
anos 60?
WM – Durante as reuniões de governadores
dos Bancos Centrais no Bank of
International Settlements [BIS – o Banco Central dos Bancos Centrais – nota
tradutor] em 1961 ficou acordada a criação de uma plataforma de reserva de 270
milhões de dólares em ouro que seria alimentada por oito países ocidentais.
Esta plataforma de Ouro de Londres (London
Gold Pool) era destinada a previnir e a impedir a subida do preço do metal
acima dos 35 dólares/oz, através da venda das reservas oficiais dos respectivos
Bancos Centrais dos países participantes.
A ideia subjacente era, caso os
investidores tentassem canalizar os seus activos para algo seguro como o ouro,
a plataforma ofereceria uma maior quantidade de metal a comercializar no
mercado, assim impedindo a consequente subida do preço. Por exemplo, durante a
Crise dos Míssões de Cuba em 1962, pelo menos 60 milhões de dólares em ouro
foram vendidos entre 22 e 24 de Outubro. O FMI providenciou ouro extra para ser
vendido assim que fosse necessário.
Em 2010, uma série de relatórios
secretos americanos foram tornados públicos pelo Wikileaks. Alguns relatórios de 1968 descrevem o que teve de
ser feito para manter o controlo do preço do ouro. A finalidade era convencer
os investidores de que não era proveitoso apostar na subida do preço. Um dos
relatórios refere os esforços das campanhas de propaganda para convencer o público
que os Bancos Centrais continuavam a ser ´os
mestres do ouro`. Não obstante estes esforços, em Março de 1968 a
plataforma foi suspensa porque a França já não cooperava e o mercado do ouro
esteve fechado durante duas semanas. Noutros mercados [não ocidentais] o preço
do ouro subiu imediatamente 25%. Isto pode acontecer, actualmente, caso o COMEX
falhe nas suas obrigações.
(continua)