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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quando a poeira assenta, eis os resultados do voluntarismo estatal

Dei conta deste ilustrativo gráfico no sempre excelente Carpe Diem do Prof. Mark Perry. Depois de mais de quinze anos - de Bush I a Bush II, passando por Clinton - a promover a aquisição de habitação própria, mediante todo o tipo de incentivos e regulamentações para fazer baixar os padrões de exigência na atribuição de crédito (subprime) perseguindo a famigerada política de "affordable housing", conjugada com a longa manipulação em baixa das taxas de juro por parte da Fed, eis-nos chegados ao ponto de partida. Pelo meio, uma devastadora destruição de riqueza e uma crise bancária de proporções egrégias em resultado do estouro da bolha imobiliária.


ACTUALIZAÇÃO: mas há quem não aprenda.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Radar

Alan Greenspan, em entrevista no WSJ: "Nunca experimentámos nada de semelhante a isto [a política monetária da Fed desde Bernanke e Yellen], pelo que não vou agora, sentado aqui, dizer qual irá ser o resultado" e, mais à frente, "[p]enso que a pressão efectiva irá ocorrer não por iniciativa da Reserva Federal mas pelos próprios mercados". Pelo meio vai aconselhando o ouro como um bom veículo de investimento nos tempos que correm. Sinais...

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O lado mau

Bytes

A leitura deste último artigo de Doug Noland, de que aqui se publicam algumas passagens, é muito recomendada. Pleno de realismo não deixa, porém, de causar inquietação. Isto porque ao discurso e à discussão pública falta considerar as consequências do que já se fez e se continua a fazer - política e economicamente. E esse raciocinar pela metade está a ter sucesso. O entorpecimento é generalizado. Mas, não tenhamos dúvidas, as "soluções mágicas" estão traçadas e serão apresentadas num brilhante (e trágico) encadeamento. O guião está escrito, aguarda apenas o momento da sua encenação.
O lado mau de “fazer tudo o que for preciso” - Doug Noland - 17 de Outubro de 2014

"Alguém que não esteja realmente preocupado não percebe o que se está a passar.

Considero todo o cenário surreal. E, quanto mais as pessoas agem como se nada se passasse, mais preocupado fico. Por estranho que pareça, estes dias lembram-me a minha perplexidade quando estudava o período que conduziu à crise bolsista de 1929. Como é que foi possível não ver o que estava para vir? Como pôde toda a gente permanecer optimista – “num topo contínuo” – face àquilo que, posteriormente, era tão óbvio e perturbador: uma deterioração do mercado e das perspectivas da economia global.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Regra de Ouro

Alan Greenspan, "A Regra de Ouro - a razão pela qual a China está a comprar" - Foreign Affairs - 29 de Setembro de 2014

"A questão de fundo - o regresso a um qualquer padrão-ouro - não está no horizonte de ninguém. Essa ideia tem poucos apoiantes num mundo em que, virtualmente, todos aceitam papel-moeda e taxas de câmbio livres. No entanto, o ouro tem propriedades especiais que nenhuma moeda, com a excepção da prata, pode reivindicar. Durante mais de dois mil anos, o ouro gozava do estatuto de meio de pagamento inquestionável e não exigia garantias de crédito a terceiros. Não se levantavam questões quando, o ouro ou títulos directos sobre ouro, eram oferecidos em pagamento de uma obrigação.

Nos dias de hoje a aceitação de papel-moeda - moeda sem ligação a qualquer activo com valor intrínseco -, fundamenta-se na garantia de crédito das nações soberanas com poder efectivo de taxar. Mas essa garantia não consegue igualar o estatuto, que o ouro possui, de ter aceitação universal."
Surpreendente este artigo. Seja pelo momento em que é publicado, mas também por ser escrito por Alan Greenspan. Assistimos, neste momento, a uma correcção mais acentuada do que muitos previam nos metais preciosos, em especial depois de ocorrerem mudanças relevantes na estrutura e organização do próprio mercado.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Radar

Este programa de rádio é uma viagem obrigatória aos centros nevrálgicos da decisão e regulação financeira. Para compreender como são as relações entre os reguladores e agentes bancários e financeiros em pouco mais de uma hora. É uma análise feita nos EUA, à FED e, neste caso, ao Goldman Sachs. As dúvidas avolumam-se quanto à qualidade do papel dos reguladores, à transparência de todo o sistema financeiro. Atente-se na descrição do que significa, para a FED e nas palavras de um alto quadro da instituição, credibilidade. Ou no caso apresentado acerca do Goldman Sachs e Santander. Alguém se lembra do comportamento recente do nosso Banco de Portugal?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Delícias para as noites de Verão

Toda uma outra História

Recentemente mão amiga fez-me chegar um exemplar da revista Exame (Julho 2014). Não foi o tema de capa ou o teste a um Maserati ("de luxo" escreveram, mas há de outro tipo?) que motivou essa chamada de atenção, mas o dossiê "Os grandes banqueiros da História". Para lá do tom deslumbrado das descrições e da narrativa focada em oposições superficiais (para enaltecer o carácter dos "vencedores", digamos), uma passagem deixou-me perplexo. Não sei se pela perigosa simplificação (mal de que padecem publicações convencionais) ou da (muito pior) deturpação histórica que essa passagem encerra. A passagem é a seguinte (com edição minha):

"O ouro e a operação de salvamento
(…) Durante o pânico euro-americano de 1890-1895, on investidores europeus vendem os seus dólares. O Estado Federal arrisca uma crise de liquidez, senão mesmo entrar em incumprimento. J.P.Morgan monta, na Casa Branca, a operação de salvamento (…) A confiança recuperada permite a revenda dos títulos com lucro e depois de propor um empréstimo público de 67 milhões de dólares, em 1896, montado por J.P.Morgan. A sua capacidade transatlântica e, sobretudo, a sua habilidade jurídica e financeira entram para a história da banca. Isto conduzirá ao estabelecimento oficial do gold standard (padrão-ouro) nos Estados Unidos, em 1900."

Esta passagem é uma evidência da simplificação a que estamos sujeitos através dos meios de comunicação convencional. Tom deslumbrado? O título desta secção ("O ouro e a operação de salvamento") é tudo o que basta para o evidenciar. Exemplo de oposições superficiais? Repare-se na oposição entre entre os "investidores europeus" (os maus) e "J.P.Morgan" (o bom). Mas se alguém perguntar porque vendiam os europeus os seus dólares, fica sem saber. Conclui pelo papel absolutamente altruísta e desinteressado de J.P.Morgan. Simples, não é?
Mas o banqueiro "monta operações de salvamento" a partir da Casa Branca! Haverá maior sinal do conluio entre poder político e financeiro? Que perdura até hoje. Com as consequências que todos conhecemos.
E a última afirmação relativa ao padrão-ouro? Inacreditável.
O vídeo que proponho hoje na rubrica das "Delícias" é um esforço para colocar os últimos cem anos de história política e financeira americana (com ramificações para todo o mundo) numa perspectiva crítica, mostrando a verdadeira natureza da narrativa oficial (sejam os seus silêncios ou as suas deturpações) acerca de temas tão relevantes como o papel dos bancos centrais, a criação da moeda e do crédito ou os interesses de estado que se relacionam com certos personagens como J.P.Morgan, por exemplo.
O autor James Corbett apresenta toda a investigação que suportou este filme à disposição dos leitores (muitas das fontes são oficiais). Os dados apresentados e a sua relação não andam longe do que Rothbard (e outros) já descreveram.
Em conclusão: simplificação ou deturpação?
Os leitores que decidam.

Votos de uma tranquila e proveitosa noite de Verão.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Bolhas e oportunidades

A verdade de muitas mentiras

A entrevista que a seguir se propõe é-me muito querida. Em primeiro lugar, pela sabedoria que dela se pode tirar. Há uma naturalidade, uma disponibilidade em traduzir, de modo simples e elegante, os desafios e obstáculos que enfrentamos na economia global, poluída por governos, bancos centrais e demais interesses especiais a eles associados.
Em segundo lugar, pela coragem (terá alcance moral) de defender, não só aquilo em que se acredita, mas aquilo que é racionalmente justificado, numa adequação entre princípios, meios e fins. Assistir a este exercício de desmontagem dos mitos e da dissimulação que povoam o discurso político (económico e financeiro, igualmente) com tamanha elegância e humor é invulgar. Exemplos? Que tal a frase: "Macroeconomia é política mascarada de álgebra". Ou ainda: "Ser bom investidor é ter toda a gente a concordar comigo. No futuro".
O entrevistado é Jim Grant que, para além da inteligência e do laço que exibe, se faz também acompanhar de uma pequena porção de "trabalho condensado".
A entrevista contempla vários temas, dos quais se destacam:

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O fim desta narrativa

A responsabilidade dos bancos centrais na situação económica e financeira mundial tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais central nos meios de comunicação convencional. Lentamente, é certo. Um detalhe, um personagem, um acto de cada vez (o próximo a revelar-se). Há tentativas levadas a cabo para compreender a dinâmica e o possível fim da narrativa vigente (esta última identificada, pelo menos, aqui e aqui).
O artigo (parcial) que a seguir se apresenta foi traduzido e editado por mim
Quando quebra esta história?”, Ben Hunt - 25 de Maio de 2014

“Acredito que os mercados, hoje, são essencialmente vazios, já que o que passa por volume e liquidez corresponde, essencialmente, a máquinas a falar umas com as outras, estabelecendo posicionamentos em carteiras de investimento ou arbitragens efémeras. Ao invés da expressão do desejo dos humanos em serem proprietários de acções de empresas reais.
Acredito que hoje o nível de preços no mercado reflectem a maior política de acomodação monetária na história humana, em vez de resultados de empresas reais.
Acredito que os riscos políticos para a estrutura do mercado de capitais, bem como para o comércio internacional não eram assim tão graves desde os anos trinta. Em conclusão e face a estes riscos, acredito que alguém está a dar-nos música de violinos.
No entanto, isto não significa que pense que as coisas vão mudar para a semana, ou para o mês que vem. (...) Mas todos sabemos que toda a gente sabe que são as políticas dos bancos centrais a determinar os resultados do mercado. Também não estou a dizer que é impossível existir uma grande mudança nas crenças e comportamentos dos agentes no mercado.
Convenientemente, a Teoria dos Jogos providencia a ferramenta certa para desmontar estes processos sociais. Para iniciarmos esta explanação, considerem uma experiência mental clássica do Jogo do Conhecimento Comum – a ilha da tribo dos olhos-verdes. Segue assim:

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Para lá das primeiras linhas dos balanços

Quando queremos - mesmo - compreender o alcance do jogo que decorre para lá dos títulos das edições políticas ou económicas dos meios de comunicação convencional, podemos encontrar quem nos explique. A seguir partilha-se um programa gravado (podcast) acerca do que são os grandes movimentos financeiros que misturam autoridades soberanas e grandes operadores institucionais.
O que está para lá das primeiras rubricas dos balanços não é bonito. Essas rubricas são as mesmas em que todos parecem acreditar (vejam-se os índices bolsistas) e nas quais grandes entidades financeiras, bancárias ou industriais se apoiam para obter avaliações que, de seguida, hão-de respaldar créditos para negócios cada vez mais especulativos e nos quais o risco se encontra, em absoluto, distorcido. O desfecho dos quais, todavia, se encontra assegurado. E assim sucessivamente… "estando uma parte da mesa a acumular todas as fichas".

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Aquela primeira semana de Junho



A equipa de sábios do Banco Central Europeu (BCE) prometeu. E cumpriu. A orientação prospectiva que manifestou é, apesar de tudo, espelho das dúvidas que existem na Europa. Da cartola tirou as taxas de juro negativas, condições especiais para operações de refinanciamento, mas ficou aquém de um programa de "facilitamento quantitativo" - QE à americana. Ou seja, não deu o passo que a FED já deu há muito - a da injecção directa de liquidez nos mercados financeiros. A FED assumiu essa política porque podia e não tinha dúvidas que o podia. Ou não queria deixar adivinhar hesitações a ninguém. Mas e a Europa? E o projecto europeu? Estariam os alemães disponíveis para a "solução americana"?
Seja como for estas medidas suscitam umas quantas perguntas. Não são originais, mas, julgo, oportunas:
- Pode o BCE obrigar os bancos a fornecerem mais crédito à economia? (estando com rácios de capital em limites - considerados até bem recentemente - baixos e sem terem do outro lado parceiros com bom perfil de risco);
- Mais dívida pode conduzir à prosperidade?
- De que forma a penalização da poupança conduz à criação de riqueza?
- Por que razão se tem, da deflação, um medo como do mar sem fim e dos monstros que o habitam?
Haverá alguém que articule respostas?
Isto, deixando toda a aparelhagem keynesiana de parte, claro.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Planeamento central ou a exuberância de uma adivinha

Imagem daqui

Quando nos perguntamos em que circunstâncias económicas nos encontramos, como podem ser entendidas as políticas impostas ou, simplesmente, para onde caminhamos, hesitamos em aceitar as respostas que gravitam no nosso espaço político e comunicacional. Por isso é útil ouvir os verdadeiros protagonistas, sempre que eles facilitam o acesso aos seus momentos de sinceridade. Ainda que tenhamos de usar de cautela face a ela, aproveitemos o que há de revelador nas palavras e nos discursos.
A seguir apresentam-se partes de um discurso de Richard W. Fischer, que é governador do Banco da Reserva Federal de Dallas (rede de bancos que compõem a FED – nt), numa cerimónia em Hong Kong no início deste mês. Dêmos, então, espaço aos excertos que traduzi, a que acrescentei alguns sublinhados e pequenas observações.

Planeamento central”, discurso de Richard W. Fischer perante a Sociedade Ásia - delegação de Hong Kong

“Quando a FED compra obrigações do Tesouro americanas ou outros produtos financeiros complexos como MBS (Mortgage-Backed Securities), pagamos por isso injectando moeda na economia, com a expectativa de que essa liquidez seja usada pelos bancos e outros investidores para financiar investimentos que criem emprego, a compra de casas e outras actividades económicas expansivas. Até agora, muita dessa liquidez injectada na economia tem estado a ser retida em vez de ser gasta no grau desejado.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Esvaziando o mito da deflação

A uma mentira que mil vezes se repete só resta contrapor, com uma frequência equivalente, o seu rebatimento. Assim, face a múltiplas notícias que dão conta do papão deflacionista (por exemplo, Vítor Constâncio terá ainda ontem afirmado que (meu realce) “[e]speramos [no BCE] que o valor baixo de Março seja corrigido para um registo mais elevado em Abril”), volto a insistir no combate ao endeusamento da inflação como fenómeno essencialmente benévolo (se contido num valor "baixo") acompanhado do esconjurar da autêntica peste negra que a deflação representaria. Têm sido múltiplos os meus posts sobre o tema. Mas julgo ser preciso insistir. Primeiro, evocando Mises:
"O mais importante a recordar é que a inflação não é um acto de Deus, que a inflação não é uma catástrofe dos elementos ou uma doença que surge como uma praga. A inflação é uma política."
Depois, procurando contribuir para a desmistificação do fenómeno deflacionário pela via de uma tradução, da minha responsabilidade (notas do texto original substituídas por links), de um texto de Chris Casey ontem publicado cujo título roubei para encimar o presente post.
2 de Abril de 2014
Por Chris Casey
Esvaziando o mito da deflação

O temor da deflação funciona como a justificação teórica para todas as acções inflacionistas levadas a cabo pela Reserva Federal e pelos bancos centrais em todo o mundo. É por isso que a Reserva Federal tem por objectivo uma taxa de inflação de preços de 2% e não de 0%. Em larga medida, esta é a razão que levou a Reserva Federal a mais do que quadruplicar a base monetária de Agosto de 2008 até hoje. E é, de forma notável, um enorme mito, pois não há nada de intrinsecamente perigoso ou prejudicial na deflação.

A deflação é temida não apenas pelos seguidores de Milton Friedman (os designados monetaristas ou membros da Escola de Chicago), mas também pelos economistas keynesianos. Um dos mais destacados keynesianos, Paul Krugman, num artigo do New York Times de 2010 intitulado "Por que é a deflação uma coisa má", apontou a deflação como a causa da contracção da procura agregada uma vez que "quando as pessoas têm a expectativa de que os preços vão baixar, elas tornam-se menos propensas a consumir, e, em especial, menos dispostas a contrair empréstimos".

Presumivelmente, ele acredita que este diferimento na despesa durará para todo o sempre. Mas sabemos por experiência própria que, mesmo em presença de uma descida de preços, os indivíduos e as empresas acabarão por, num dado momento, vir a comprar o bem ou serviço em questão. Não é possível renunciar eternamente ao consumo. Vemos isto suceder todos os dias na indústria da informática / electrónica: o valor da utilização de um iPhone ao longo dos próximos seis meses é superior ao da poupança que resultaria do adiar da sua compra.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A Morte da Moeda

Tenho trazido à consideração dos leitores a temática da reformulação do sistema monetário internacional. Assinalei também alguns dos contornos que este tema possui (aqui e aqui). Publica-se agora a tradução da entrevista realizada por Koos Jansen a James Rickards a propósito da publicação do seu livro - "The Death of Money" (lançamento internacional a 3 de Abril e sem tradução portuguesa prevista) - que tem, como pano de fundo, a situação difícil do sistema monetário e financeiro internacional e as possibilidades da sua evolução, articulando com precisão o papel das grandes potências económicas (presentes e futuras), a função disciplinadora do ouro e alguns dos argumentos da Escola Austríaca de economia.
A tradução é da minha responsabilidade, bem como algumas observações ou sublinhados.

Willem Middelkoop, Koos Jansen e James Rickards


James Rickards e "A morte do dinheiro" - 14 de Março de 2014

Koos Jansen – Considera que haverá um colapso do sistema monetário global, acompanhado de caos social e problemas nos bancos face ao que os políticos não estão a fazer ou farão tarde demais?
James Rickards – O meu livro mais recente – The Death of Money – é, justamente, acerca da morte do dólar. Um colapso monetário global e o colapso do dólar são uma e a mesma coisa. O dólar é a chave do actual sistema, ora se o mundo deixar de ter confiança nessa chave, então, o sistema como o conhecemos entra em derrocada.
Se ocorrerão distúrbios a acompanhar esse colapso? Bem, penso que eles já estão a acontecer. Veja-se a Ucrânia, a Crimeia. A China está a enviar navios para o largo das ilhas que disputa com o Japão. Podemos ver também tensões e conflitos associados à primavera árabe por causa disso. É inegável que há sinais preocupantes em diversas regiões. Considero que os políticos vão continuar a prosseguir políticas erradas, não julgo que façam as reformas e ajustes necessários: o desemprego continua alto, o crescimento continua anémico e o perigo de deflação está à espreita. Estes fenómenos potenciam a instabilidade social, as disparidades no rendimento e riqueza. Assistiremos ao agudizar destes problemas durante o definhar do sistema.
Os bancos centrais e os governos já disseram que os maiores bancos e instituições finaceiras não podem cair. Isto impedirá, igualmente, que as correcções aconteçam. Quais são as consequências que conhecemos dessas decisões? Bom, isso convida a práticas irresponsáveis e a posturas parasitárias por parte dos banqueiros. Isso permite que eles cresçam e que destabilizem o sistema. Julgo que não veremos, para já, falências de grandes bancos, no entanto, quando o colapso acontecer alguns deles vão cair. É a própria política dos grandes demais para cair que conduz ao agravamento das disfunções no sistema e isso levará ao colapso.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VI)


Retomando o tema da Iª Grande Guerra, publicamos o testemunho de David Stockman. Este texto é apenas uma pequena parte de um ensaio maior (ver título no final) que o autor elaborou e publicou na sua mais recente plataforma de comunicação. Não podemos deixar de recomendar a visita e a leitura de tão rico espaço de reflexão, que conta também com contributos de John Butler, Michael Krieger, Detlev Schlichter e Mike "Mish" Shedlock, entre outros.

Retomam-se as relações já experimentadas (aqui) na tentativa de dirigir a atenção às raízes dos actos da peça que ainda hoje pautam a nossa vida colectiva.
A Grande Guerra e o seu legado, por David Stockman

"O meu propósito aqui é elaborar um esboço do que foi a longa história da Iª Grande Guerra, começando, precisamente, há cem anos. Nesse mesmo ano, a Reserva Federal (FED) abria as suas portas enquanto a carnificina decorria no norte de França, o que acabou por encerrar um período de meio século de liberalismo internacionalista e de dinheiro honesto suportado pelo ouro.

terça-feira, 11 de março de 2014

O que importa é a peça

Comunicação e mercado – guião e coreografia

O texto que a seguir se traduz é um exercício para identificar a natureza do guião da verdade oficializada. É uma tentativa de elencar os movimentos daquilo que, parecendo desconexo ou contraditório, acontece no palco daquela verdade alinhavada.

Parte de um texto maior, que desde já convidamos os leitores a considerar, é um convite a considerar aquilo que não é manifesto nos actos e nas palavras daqueles que levam a cabo a encenação de um guião que acabará por determinar o conteúdo da própria opinião pública acerca do que acontece. Esse guião oficial transporta, no desenrolar da sua encenação, as ferramentas da sua descodificação, semelhante a um ready-made. O guião contém os parâmetros da sua compreensão partilhada.

Os agentes dessa peça comunitária são políticos, empresários do regime, economistas, jornalistas ou governadores de bancos centrais. Acrescentaria também comentadores, de ofícios vários, mas que ocupam um lugar nos canais de comunicação convencionais.

Antes de avançarmos, tenhamos presentes alguns actos que vão enriquecendo a trama. Comecemos por considerar a seguinte peça jornalística. Dela destaco apenas uma passagem, que traduzo: "Fratzscher disse que o BCE deveria comprar dívida de todos os países da zona euro - incluindo da Alemanha - numa base proporcional para retirar toda a Zona Euro do baixio onde se encontra." Já aqui se fez referência à decisão do tribunal alemão em descartar responsabilidades na condenação ao BCE e às suas acções para salvar o euro.

Na semana passada, Draghi aludiu a uma ilha de estabilidade quando se referiu ao euro e este encontra-se em máximos de três anos face ao dólar. O que numa economia que está "nos baixios" não permite antecipar nada de bom.

Barroso (re)afirmou recentemente que a crise estava para trás. Registam-se descidas importantes nos juros da dívida portuguesa (e não só). Vemos tudo isto, mas sabemos porque sucedem estas cenas? Por exemplo, sabemos como podem os países em grandes dificuldades financeiras (e respectivas junk bonds), numa economia que está "nos baixios", ter os seus juros a baixar?

O que nos diz o guião acerca disso?
Há uma tendência a tratar a comunicação económica – seja de um famoso director geral, de um conhecido investidor, economista ou governador de um banco central – como sendo depurada da natureza teatral, sem alcance cénico ou atenção coreográfica para além da sua expressão política imediata. Mas isto é um erro.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Grande Recomeço IV

       

         (última parte)

KJ – Há mais provas dessa manipulação?
WM – Através da análise de uma transcrição de uma reunião da FED em Março de 1978, sabemos que a manipulação do preço do ouro foi um dos pontos discutidos. Durante essa reunião, o governador Miller refere que nem foi necessário vender ouro para fazer baixar o preço, bastou fazer uma declaração aludindo à disponibilidade da FED em fazê-lo. E porque o Tesouro dos EUA não está autorizado a vender as sua reservas, a FED decidiu em 1995 estudar a criação e implementação de mecanismos especiais ´gold-swaps` [contratos de futuros ou papel-ouro – nota tradutor] para poder aceder às reservas dos Bancos Centrais ocidentais. Através destes mecanismos, o ouro pode ser cedido em empréstimo à FED para que possa ser vendido pelos bancos de Wall Street, obtendo com isso a supressão do preço. Por causa destes contratos (swap´s) o ouro é, oficialmente, apenas emprestado, pelo que os Bancos Centrais podem manter nos seus balanços esses activos. A FED também informava antecipadamente os Bancos Centrais se esperava uma descida do metal e, desse modo, as reservas destes inundavam o mercado antes dessa descida. O que, como é obvio, acentuava a queda do preço.
Do ponto de vista logístico esta operação era muito fácil de concretizar, uma vez que os cofres em Nova Iorque tinham a maior colecção das reservas de ouro estrangeiro. Desde a década de 30, muitos países europeus escolheram armazenar o ouro que possuíam nos EUA por receio de uma invasão alemã ou soviética.
KJ – O Reino Unido teve algum papel nessas intervenções?
WM – Entre 1999 e 2002, o Reino Unido deu início a uma venda agressiva das suas reservas de ouro, precisamente, quando o preço estava em mínimos de 20 anos. Antes mesmo de dar início a essa venda, o responsável pelo Tesouro Gordon Brown anunciou que o Reino Unido iria colocar no mercado mais de metade do seu ouro numa série de leilões, com a intenção manifesta de diversificar as reservas do Tesouro. A reacção dos mercados foi de choque, porque nunca um governo tinha anunciado aos investidores que iria vender. Gordon Brown estava a seguir a mesma estratégia da FED que assinalei atrás, para induzir uma quebra do preço por via desses avisos. A intenção dessa acção não era a de obter o melhor preço, antes a de manter uma pressão constante para acentuar a baixa no preço. Assim, o Reino Unido vendeu perto de 400 toneladas ao longo de 17 leilões em apenas três anos. Durante este período o mercado estava a encontrar o seu fundo, ou seja, enquanto estabilizava de uma queda prolongada, esses leilões forçaram mais quedas no preço. No meu entender, a decisão de Gordon Brown foi uma resposta a um pedido dos Estados Unidos. Os EUA apoiaram Gordon Brown desde então.
KJ – Como é que essas manipulações ocorrem hoje?
WM – A transição de um mercado presencial para um mercado electrónico e digital abriu novoas possibilidades para controlar os mercados financeiros. O consagrado advogado de Wall Street Jim Rickards apresentou um artigo em 2006 onde se explica como os ´derivativos podem ser usados para influenciar os mercados físicos do petróleo, do cobre ou do ouro`. No seu sucesso de vendas “Currency Wars”, Rickards explica como a proibição da regulação dos derivativos no Commodity Futures Modernization Act (2000) ´abriu a porta para o aumento do tamanho e variedade destes mecanismos que estão, agora, escondidos e fora dos balanços dos maiores bancos, pelo que é quase impossível de acompanhar ou regular`. Estas mudanças permitem manipular facilmente os mercados financeiros, especialmente porque os preços dos metais (como o ouro ou a prata) são determinados pela negociação dos contratos de futuros no mercado global. E porque 99% destas transacções são conduzidas por especuladores que não querem a entrega física desses metais, ficam satisfeitos com os lucros que retiram desses contratos de futuros. Assim, os mercados do ouro, da prata ou de outras matérias-primas são fortemente condicionados pelas transacções desses contratos [a que se chama também de oferta sintética – nota do tradutor].
A quebra de 200 dólares no preço da onça (oz) de ouro nos dias 12 e 15 de Abril de 2013 é um exemplo perfeito e recente desta estratégia. A quebra no preço da prata, após ter alcançado os 50 dólares/oz no dia 1 de Maio de 2011, é outro claríssimo exemplo.
KJ – Por quanto tempo pode continuar esta guerra?
WM – Como Koos tem tornado público com as suas investigações, são vários os indícios de problemas no mercado físico do ouro. Eu ficaria surpreendido que este jogo de papel-ouro [oferta sintética] pudesse continuar por mais dois anos. Este jogo pode ruir ainda em 2014. O incumprimento num contrato de futuros (em ouro ou prata) no COMEX é uma possibilidade real. Aconteceu algo de semelhante no mercado da batata em 1976, quando um contrato de futuros não foi cumprido no NYMEX. Um magnata da batata vendeu muitos contratos que ficaram por cumprir na data em que expiraram, o que resultou em incumprimentos nas entregas físicas dos bens contratados. Como podemos ver, isso já aconteceu. Num cenário desses, os contratos serão dissolvidos através do pagamento em dinheiro e não através da entrega dos bens contratados. E num preço determinado unilateralmente. Julgo que o COMEX vai recorrer a estes acordos e indeminizações e não serão cumpridos os contrados de entrega dos metais contratados. Isso acontecerá em breve. Depois de um acontecimento desses, o preço do ouro será determinado nos mercados asiáticos como o Shangai Gold Exchange, pelo que espero uma subida rápida de 1000 dólares no preço do ouro e a duplicação do preço da prata, literalmente, da noite para o dia. Essa é uma das razões pelas quais o nosso Commodity Discovery Fund investe em empresas de mineração desvalorizadas, mas com largas reservas por explorar de ouro e prata. Terão, seguramente, um grande potencial de valorização quando o cenário que apresentei se concretizar.


Pela apresentação desta quarta parte, fica concluída a publicação da tradução da entrevista a Willem Middlekoop. Convido os leitores, numa releitura da entrevista, a colocar em perspectiva toda a informação histórica disponibilizada e que procurem ver o momento presente à luz desse enquadramento.       
Nos dias que antecederam a publicação e a tradução desta entrevista alguns acontecimentos tiveram lugar que têm relação com o que, de substancial, nela se abordou, pelo que deixo aqui a sua referência. Que cada um dê a importância e o significado que quiser dar-lhes. 
Para além da polémica do repatriamento do ouro alemão que está nos EUA (a polémica quanto ao  atraso nessa operação), é de notar que um grande banco internacional começou a impor limitações nos movimentos de capital em Inglaterra (o leitor lembra-se da referência ao artigo de Rogoff e Reinhart para o FMI?). Por outro lado, a “casa da moeda” austríaca (responsável pela cunhagem de uma das moedas mais conhecidas para investimento em ouro e prata – Wiener Philarmoniker) estar a trabalhar 24 sobre 24 horas para responder à importante subida nas encomendas dos seus produtos.
        Terá Willem Middlekoop razão e dois anos são um luxo que o sistema financeiro internacional não pode pagar?


(edição) - mais um importante facto que importa assinalar quanto à possibilidade de imposto sobre poupanças bancárias na Europa. É esta a União bancária que desejam os políticos europeus?






domingo, 26 de janeiro de 2014

O Grande Recomeço III

         Damos continuidade à publicação da entrevista a Willem Middlekoop realizada por Koos Jansen. A terceira e quartas partes vão focar-se na abordagem a um capítulo específico da sua última obra “The Big Reset” com o título “War on Gold” e que resulta de investigação que o autor tem vindo a fazer desde 2002.




A Guerra ao Ouro
Koos Jansen – Por que razão os EUA lutam contra o ouro?
Willem Middlekoop – Os EUA querem que o sistema-dólar prevaleça, de maneira que têm todo o interesse em prevenir o abandono do dólar e a aposta no ouro. Ao venderem ouro em papel [contratos de futuros e não ouro físico – nota do tradutor], os banqueiros têm tentado manter o controlo do preço do ouro nas últimas décadas. Esta guerra já tem quase cem anos, mas ganhou impulso nos anos 60 do séc. XX com a criação da plataforma de ouro de Londres (London Gold Pool). Julgo que, da mesma maneira que essa plataforma e o seu desígnio de controlar o preço falhou em 1969, assim vai falhar o actual esquema de manipulação dos preços do ouro e da prata.
KJ – Em que consiste essa guerra?
WM – a sobrevivência do corrente sistema financeiro mundial depende, justamente, da preferência das pessoas recair sobre o papel-moeda em vez de recair no ouro. Depois do dólar se ter libertado da ligação ao ouro em 1971, os banqueiros têm andado a demonetizar o ouro. Um dos argumentos que eles usam para deter os investimentos em ouro é que estes metais não permitem obter um retorno directo, seja em juros ou dividendos. Mas os juros e os dividendos são pagamentos face ao risco, são contrapartidas face à possibilidade de os devedores não cumprirem as suas obrigações. Ora o ouro não acarreta esse risco.
A guerra ao ouro é, na sua essência, um esforço para suportar o dólar, mas há mais motivações. De acordo com alguns estudos, o preço do ouro e as expectativas das pessoas face à inflação estão fortemente relacionadas. Como sabemos, os bancos centrais trabalham arduamente para influenciar as expectativas de inflação. Em 1988, um estudo de Summers e Barsky confirmou a relação entre o preço do ouro e as taxas de juro, concluindo que um preço mais baixo do ouro conduz a taxas de juro igualmente mais baixas.
KJ – E quando começou essa guerra?
WM – A primeira evidência de que os EUA estavam a interferir no mercado do metal pode ser encontrada logo em 1925, quando a FED falsificou informação relativa às reservas de ouro do Banco de Inglaterra para influenciar as taxas de juro. Todavia, esta guerra começou, de um modo mais intenso e organizado, a partir dos anos 60 quando a confiança no dólar começou a ser posta em causa. Conflitos geopolíticos como a construção do Muro de Berlim, a Crise dos Mísseis em Cuba e a escalada da violência o Vietname conduziram ao aumento considerável dos custos militares dos Estados Unidos, o que se traduziu em défices orçamentais crescentes.
Um memorando de 1961, com título “US Foreign Exchange Operations: needs and methods”, descreve o plano para manipular, simultaneamente, o mercado cambial e o mercado do ouro através de intervenções estruturais, mantendo e defendendo o dólar e limitando o preço do ouro nos 35 dólares/oz. Era vital para os EUA gerir o mercado do ouro, caso contrário, outros países podiam trocar o seu excedente em dólares por ouro, depreciando o dólar e valorizando o ouro.
KJ – Como era gerido o preço do ouro nos anos 60?
WM – Durante as reuniões de governadores dos Bancos Centrais no Bank of International Settlements [BIS – o Banco Central dos Bancos Centrais – nota tradutor] em 1961 ficou acordada a criação de uma plataforma de reserva de 270 milhões de dólares em ouro que seria alimentada por oito países ocidentais. Esta plataforma de Ouro de Londres (London Gold Pool) era destinada a previnir e a impedir a subida do preço do metal acima dos 35 dólares/oz, através da venda das reservas oficiais dos respectivos Bancos Centrais dos países participantes.
A ideia subjacente era, caso os investidores tentassem canalizar os seus activos para algo seguro como o ouro, a plataforma ofereceria uma maior quantidade de metal a comercializar no mercado, assim impedindo a consequente subida do preço. Por exemplo, durante a Crise dos Míssões de Cuba em 1962, pelo menos 60 milhões de dólares em ouro foram vendidos entre 22 e 24 de Outubro. O FMI providenciou ouro extra para ser vendido assim que fosse necessário.
Em 2010, uma série de relatórios secretos americanos foram tornados públicos pelo Wikileaks. Alguns relatórios de 1968 descrevem o que teve de ser feito para manter o controlo do preço do ouro. A finalidade era convencer os investidores de que não era proveitoso apostar na subida do preço. Um dos relatórios refere os esforços das campanhas de propaganda para convencer o público que os Bancos Centrais continuavam a ser ´os mestres do ouro`. Não obstante estes esforços, em Março de 1968 a plataforma foi suspensa porque a França já não cooperava e o mercado do ouro esteve fechado durante duas semanas. Noutros mercados [não ocidentais] o preço do ouro subiu imediatamente 25%. Isto pode acontecer, actualmente, caso o COMEX falhe nas suas obrigações.
(continua)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Depois de 100 anos de fracasso, é hora de acabar com o Fed!"

Minha tradução do texto de um homem, Ron Paul, que pôs milhões na América a gritar "End the Fed" e cujas sementes continuam a germinar.

Por cá, volto a fazer notar que aqueles que mais têm os pobres na boca e na pena são exactamente os mesmos que eregem os banqueiros centrais aos novos deuses do Olimpo. A bem da redistribuição da riqueza dos pobres para os ricos.
Ron Paul
De hoje a oito dias, o Sistema da Reserva Federal irá celebrar o 100º aniversário da sua fundação. Resultado das negociações secretas entre os banqueiros e os políticos em Jekyll Island, a criação do Fed estabeleceu um cartel bancário e um conselho de supervisores de nomeação governamental cujo poder não tem parado de crescer ao longo dos anos. Poder-se-ia pensar que este aniversário pudesse vir a desencadear alguma espécie de tomada de consciência pública do crescimento do Fed de um quase-agente do Departamento do Tesouro com a missão de proporcionar uma moeda elástica, a uma instituição independente de facto que assumiu o controlo total da economia por via do seu planeamento central monetário. Mas tal como sucedeu com a criação do Fed, o seu 100º aniversário corre o risco de passar quase despercebido.

Tal como sucedeu com muitas outras peças legislativas terríveis e inconstitucionais, o projecto de lei que criou o Fed, o Federal Reserve Act, foi aprovado sob uma grande pressão, em 23 de Dezembro de 1913, nos momentos que antecederam a suspensão das actividades do Congresso pelo Natal, quando muitos dos seus membros já não estavam presentes aquando das votações finais. Este método dissimulado de pressionar o Congresso para aprovar o Federal Reserve Act num tal prazo forneceria um prenúncio dos efeitos insidiosos do Fed sobre a economia dos EUA - com acções levadas a cabo sem transparência.

Formado ostensivamente com o objectivo de prevenir a eclosão de crises financeiras como o Pânico de 1907 [link], o Fed veio a tornar-se cada vez mais poderoso ao longo dos anos. Em vez de prevenir crises financeiras, porém, o Fed tem constantemente provocado novas crises. Poucos anos depois da sua criação, a política monetária inflacionária do Fed para ajudar a financiar a I Guerra Mundial levou à Depressão de 1920 [link]. Depois da economia ter recuperado daquele episódio, uma nova injecção de dinheiro fácil e de crédito por parte do Fed levou aos Loucos Anos 20 [link] e à Grande Depressão, a pior crise económica da história americana.

Mas muito embora o Fed tenha continuado a cometer os mesmos erros repetidamente, nunca ninguém em Washington questionou a sabedoria da existência de um banco central. Pelo contrário, na sequência de cada episódio, mais e mais poder sobre a economia foi concedido ao Fed. Apesar do Fed ter provocado a estagflação [link] da década de 1970, o Congresso decidiu atribuir formalmente à Reserva Federal, em 1978, o mandato de manutenção do pleno emprego e de preços estáveis combinando-o com o constante adicionar de regulamentações horrendamente prejudiciais. Caso para falar dos loucos a tomar conta do asilo!

Estamos agora a colher os efeitos nocivos de um século de política monetária acomodatícia, quando a nossa economia continua atolada na mediocridade e está totalmente dependente de um fluxo de dinheiro fácil proveniente do banco central. Há um século atrás, os políticos não conseguiram compreender que os pânicos financeiros do século XIX foram causados pelo conúbio entre o governo e o sector bancário. O monopólio crescente do estado sobre a criação da moeda, as elevadas barreiras à entrada no sector bancário para proteger os incumbentes politicamente favorecidos, e o tratamento preferencial para a dívida pública combinaram-se para criar um sistema bancário frágil e propenso a pânicos. Soubessem então os legisladores o que sabemos agora, poderíamos esperar que nunca teriam criado o Sistema da Reserva Federal.

Hoje, todavia, já não nos deixamos levar. Sabemos que a Reserva Federal continua a reforçar o conluio entre os bancos e os políticos. Sabemos que a política monetária inflacionária do Fed continua a proporcionar lucros a Wall Street enquanto empobrece a Main Street. E sabemos que o actual regime monetário está à beira de um precipício. Cem anos é tempo suficiente. End the Fed.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O estranho sucesso de um prejuízo de dez mil milhões de dólares

Não fosse um frequentador de mundividências além-Rectângulo, teria ficado com a ideia de que esta semana foi particularmente importante para a Government General Motors pelo facto, abundantemente amplificado entre nós, de ser sido anunciado que o próximo CEO será uma mulher, o que acontece pela primeira vez ha história daquela companhia. Para encontrar uma referência nos media portugueses à venda do último lote de acções que o Tesouro norte-americano ainda detinha, assim selando um prejuízo de dez mil milhões de dólares (!), tive que muito porfiar. Mais uma "pequena" evidência da informação (?) politicamente correcta.

Quando entre nós se desanca no governo  pela solução desenhada para os Estaleiros Navais de Viana do Castelo1 (e em parte bem, como faz hoje João Miguel Tavares no Público, ainda que o problema seja bem antigo e o governo anterior nada tenha feito senão adiar o inadiável) o caso do resgate à GM, que supostamente foi um sucesso, calcule-se!, merece uma dilucidação especial. Daí que tenha achado interessante amplificar o alcance deste texto de Chris Rossini (em definitivo, um grande blogger) através de tradução da minha responsabilidade
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1 Entidade que há muito teria sido alvo de liquidação, ou pelo menos de um profundo downsizing, caso fosse uma empresa privada sem especiais ligações ao poder. Tratando-se de uma empresa pública, com um passivo reconhecido de 280 milhões de euros (fora o resto como, por exemplo, activos sobrevalorizados, por exemplo), o estertor foi artificialmente prolongado à custa dos do costume: os contribuintes.
"Bem, é oficial. O governo dos EUA vendeu ontem [9 de Dezembro] as acções remanescentes que ainda detinha da resgatada GM [General Motors].
O secretário do Tesouro, Jack Lew, declarou: "... este importante capítulo na história da nossa nação está agora encerrado." Eu sustento que ele se parecido mais com uma nódoa na história da nação. A única forma que poderei admitir que se trata de um "importante capítulo" seria a de nos estarmos a referir à história criminal.

O presidente da GM afirmou: "Nós ficaremos para sempre gratos pela segunda oportunidade que nos foi concedida e estamos a fazer o nosso melhor e a tirar o máximo partido dela." Bem, a segunda oportunidade não foi "concedida" por aqueles que foram forçados a pagar a conta. A GM, pura e simplesmente, recebeu dinheiro de emergência [a curto prazo] para que pudesse salvar o seu negócio.

Uma manchete que eu continuo a ver nos media do mainstream é que "Nós perdemos 10 mil milhões de dólares no resgate à GM". Por outras palavras, a diferença entre o que o governo pagou pelas acções da GM e o valor obtido pela sua venda significou um prejuízo de 10 mil milhões de dólares. E uma vez que os principais meios de comunicação social sempre fazem equivaler o estado a "nós", isso significa que fomos "nós" que perdemos o dinheiro.

Ora realmente... há muito que dizer de tais alegações.

Primeiro de tudo, o estado/governo seguramente que não equivale a "nós". Eu nunca autorizei o governo a socorrer uma corporação crony com o meu dinheiro. De facto, eu nem sequer entreguei o meu dinheiro ao governo voluntariamente. Ele foi-me tirado (como a milhões de outras pessoas), sob a ameaça do emprego da força se o não fizesse.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

David Stockman: "voltámos à situação de 2007/2008"

Por cortesia do Fed. O entrevistador, Neil Cavuto, céptico do prognóstico de Stockman (tanto mais que, como afirma, "os tempos estão bons"), pergunta-lhe quanto vai o estouro ocorrer. A resposta de Stockman é a habitual nos "austríacos": reconhecer a impossibilidade de se saber quando algo irá ocorrer não é de todo incompatível com a validade do prognóstico do que irá suceder quando se está a aplicar uma framework teórica que se mostra válida desde os tempos que Hayek e Mises anteciparam o crash bolsista de 1929. Isto, quanto um dos grandes "monstros" do monetarismo, Irving Fisher, três (!) dias antes da Quinta-feira Negra, afirmava: "Os preços das acções alcançaram o que parece ser um patamar permanentemente alto".


(Via Circle Bastiat)