A China e o seu perpétuo presidente têm produzido eficazes respostas às iniciativas de Trump acerca da guerra comercial em curso. O que é irónico.
À superfície, pelo menos, podemos ver um país comunista a dar "lições de economia" ao país que o senso comum associa a ideais capitalistas. Curioso.
Será por isso que se têm multiplicado outros episódios de "projecção de força"?
Será?
E que dizer do cão que ladra?
Partilhamos com os nossos leitores uma entrevista a Oana Lungescu (conselheira da NATO para as políticas de comunicação e presença nas plataformas sociais, sim a guerra também já passa por elas) levada a cabo por Jonathan Eyal (Royal United Services Institute - RUSI).
Não deverá espantar-nos que uma conselheira para a área da comunicação social seja entrevistada para dar conta da natureza e condição do sistema de alianças da NATO. É precisamente no plano da mensagem e da sua divulgação que a guerra para já se desenvolve.
Todo o desenvolvimento e desfecho da eleição de Trump (mas também do Brexit, não esqueçamos) deve ser considerado um caso exemplar para compreender a dimensão e a natureza das tensões e dos conflitos que se desenvolvem por estes tempos. A guerra, por agora, está focada na mensagem, na iniciativa de orientar a narrativa acerca dos eventos mais relevantes da história e da política internacional.
A luta pela interpretação destes eventos não é nova, é certo. Mas os meios para disputar a narrativa determinada unilateralmente multiplicaram-se. Seja pelo reforço das posições de alguns gigantes - China e Rússia -, seja pela renovada importância de que alguns (pequenos) actores se vêem investidos. A tensão entre os diferentes interesses das grandes potências atingiu uma intensidade tal que estes pequenos actores podem ser decisivos na determinação da próxima peça de dominó que há-de cair.
Não podemos sublinhar mais a importância de perceber a que ponto chega o desespero em controlar a interpretação dos eventos (vejam-se as mudanças legislativas para punir a "dissidência" em Inglaterra). Esta entrevista é, julgamos, paradigmática desse receio. A decadência que se tornou evidente nos meios de comunicação convencionais, especialmente a propósito de Trump, elevou a constatação do senso comum a verdadeira função que esses meios ocupavam nas respetivas máquinas de propaganda.
E o que Lungescu faz nesta entrevista? Dar orientações para quem as quer ouvir de como "falar verdade". Assim como afirmar a frescura e a vitalidade do sistema de alianças e informações da NATO, cujo modo se pode aferir pelas recentes demonstrações de prontidão por essa Europa fora (veja-se na Lituânia, há dias). Chega a ser deliciosa a candura do lema "responder à agressão russa" presente nestas manobras. Mas como muitas coisas deliciosas, mostram-se deliciosamente perigosas.
Prosseguimos hoje com a publicação da tradução do texto, co-assinado por Václav Klaus e Jiří Weigl, cuja primeira parte foi publicada aqui. Depois de terem proporcionado um enquadramento histórico do espaço geográfico a que corresponde hoje a Ucrânia e dos povos que a habitam - A herança difícil do passado -, os autores dissecam agora as razões que, no seu entender, explicam o insofismável fracasso do estado ucraniano pós-comunista, antes e depois da "Revolução Laranja", à luz das quais devem ser interpretados os acontecimentos recentes. Irão esquissar dois modelos que, no essencial, suportam as duas principais "narrativas" em confronto e acabam por concluir pela imperatividade de evitar que se dêem passos que tornem efectivo o que já muitos designam de Guerra Fria 2.0. (Os realces no texto são os que constam da versão em língua inglesa do artigo.)
Como se explicou acima, a Ucrânia nasceu após a queda do comunismo enquanto estado essencialmente não-histórico, amaldiçoado com um problema de identidade fundamental desde o primeiro dia. Isto foi sempre um impedimento sério ao desenvolvimento do país, situação que permanece até hoje.
A Europa Ocidental e os Estados Unidos, ou melhor, os político dessa parte do mundo, não vêm problemas nesse condicionamento e pensam que tudo o que é preciso é "introduzir a democracia e o estado de direito". Nada aprenderam até agora com o facto de as repetidas tentativas de "exportação da democracia" terem fracassado e que mesmo as duas décadas de apoio ocidental maciço à Bósnia-Herzegovina, artificialmente criada após a desintegração da Jugoslávia, não frutificaram. E isto para já não falar da Primavera Árabe.
A CNN passava uma peça onde se discutia uma eventual ajuda militar dos EUA a Kiev, na sequência da visita de Merkel a Obama. A RT estava atenta (o que não é propriamente novidade).