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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Como lidar com os génios da lâmpada iranianos?

Com a recusa do Reza Khan em adoptar um estatuto de país "neutral" colaborante para com os Aliados durante a II Guerra Mundial, britânicos e soviéticos invadiram o Irão em Agosto de 1941. A ideia era tomar o controlo do que ficou conhecido como o "Corredor Persa", servido pela linha de caminho-de-ferro trans-iraniana, ligando o Golfo Pérsico ao Mar Cáspio. O xá foi obrigado a abdicar em favor do seu filho Mohammad Reza Pahlavi cuja atitude foi bem mais colaborante (declararia guerra à Alemanha em Setembro de 1943). Ficava assim assegurada uma rota para o fornecimento de petróleo à Grã-Bretanha e para o abastecimento, especialmente de armas, à União Soviética. A interferência estrangeira no país, incessante pelo menos desde o início do século XX, ajudou a propagar os sentimentos nacionalistas, em particular, a percepção de uma grande injustiça na partilha dos lucros da exploração do seu principal recurso natural - o petróleo - dominada por interesses britânicos na então designada Companhia Anglo-Iraniana do Petróleo. Os britânicos recusaram ceder uma partilha a 50%-50% (como então acontecia no reino saudita) e, em Março de 1951, as duas câmaras do congresso iraniano decretaram a nacionalização do sector. No mês seguinte, o muito popular Mohammad Mossadegh, que tinha tido um importante papel naquela decisão no parlamento, foi eleito primeiro-ministro e empossado pelo xá. Os britânicos, entretanto, vendo os seus interesses afectados viriam a pedir ajuda aos "primos", que não se fizeram rogados. As autoridades americanas, onde então pontificavam os dois irmãos Dulles (John Foster, secretário de Estado e Allen, director da CIA) sob Eisenhower, meteram mãos à obra (após um primeiro sucesso na Guatemala) e, em seguida a uma primeira tentativa falhada, à segunda dar-se-ia o sucesso da "Operação AJAX", como a própria CIA iria reconhecer em documentos desclassificados em 2013. Pela sua "intermediação", os EUA reservaram para as suas petrolíferas 40% da "nova" Companhia Nacional Iraniana dos Petróleos, restando 40% para as britânicas (a BP nasceria nesta altura) e 20% para outras companhias europeias. Mossadegh tinha sido por sua vez sido deposto num golpe (Agosto de 1953) e detido em prisão domiciilária até ao fim dos seus dias. Os britânicos aperceberam-se tarde demais que teriam feito melhor em ter aceitado o que lhes tinha sido proposto inicialmente. Seguiram-se 26 anos tirânicos de "modernização dirigida" (com a segurança possibilitada pela selvática SAVAK) segundo, assim  se alegava, os padrões ocidentais. Quando, na sequência da Revolução Islâmica de 1979, o xá foge do país, ninguém o quer receber de bom grado, nem sequer os EUA. Em paralelo, decorria a crise dos reféns americanos (que, provavelmente, ditou o desfecho da disputa ente Jimmy Carter e Ronald Reagan negando ao primeiro o segundo mandato). Em 1980, o Iraque invade o Irão assim se iniciando uma longa carnificina que duraria oito anos. Os americanos intervieram abertamente ao lado de Saddam Hussein ao longo de toda a guerra. Esta terminaria em Agosto de 1988, inconclusiva. Em Julho desse mesmo ano, o navio americano Vincennes derrubou (acidentalmente, crê-se) com um míssil um avião civil iraniano tendo daí resultado a morte dos seus 290 ocupantes. George H. Bush declararia na altura: "Eu nunca pedirei desculpa pelos Estados Unidos. Nunca. Não quero saber dos factos para nada."

Já vai longa a introdução, mas pareceu-me relevante dar algum contexto histórico prévio, porventura menos conhecido por alguns leitores, ao artigo de Eric Margolis cuja leitura vos proponho hoje. Um artigo cujo conteúdo se afasta em muito da narrativa incessantemente "martelada" pelos media convencionais.
11 de Abril de 2015
Por Eric Margolis


O acordo alcançado em Lausanne, na Suíça, pelo Irão e cinco potências lideradas pelos EUA, aparenta dizer respeito à capacidade nuclear.

Eric Margolis
Na verdade, o tema real em questão não foi o das armas nucleares, que o Irão não possui, mas antes o potencial poder geopolítico do Irão.

O Irão, um país de 80,8 milhões de habitantes, foi, como o génio da história, fechado numa lâmpada pelas sanções impostas por uma coligação liderada pelos EUA desde a revolução islâmica de 1979, que depôs o corrupto regime monárquico de Reza Pahlavi. O Xá tinha sido devidamente instruído para ser o guardião dos EUA no Golfo.

Mais de uma dúzia de tentativas americanas para derrubar o governo islâmico em Teerão redundaram num fracasso. Washington recorreu à sabotagem e à guerra económica, tentou estrangular as principais exportações do Irão, petróleo e gás, desestabilizar o seu sistema bancário, e impedir as importações do que quer que fosse, de máquinas a vitaminas.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O inimigo do meu inimigo tornou-se inimigo do meu amigo

A incapacidade de reconhecer os erros cometidos e assumir as respectivas responsabilidades é uma característica excessivamente comum nos políticos para reduzir estas declarações de Tony Blair a um mero caso do foro psiquiátrico. A mentira das "armas de destruição maciça" não foi no essencial diferente - à excepção, talvez, da sua escala - dos "incidentes" do Golfo de Tonkin, da explosão a bordo do USS Maine no porto de Havana ou do bombardeamento do Fort Sumter entre inúmeros outros exemplos. Mas a História ensina-nos que os Impérios não são eternos e, a meu ver, os acontecimentos recentes no Iraque são já extremamente parecidos com a última fase da guerra do Vietname (que começou com os franceses, recorde-se). Por muitas "linhas vermelhas" que se tracem (em caso de conveniência, já se vê). E não é que não tenha havido avisos prévios do que aí viria (um bom exemplo de avivar de memória pode ser lido aqui).

Com tradução de minha responsabilidade (tal como as imagem e os links introduzidos), o texto abaixo de Eric Margolis fornece uma narrativa que, infelizmente sem surpresa, não encontro eco nem nos media nem na blogosfera portuguesa. Também aqui as pistas para o que está a suceder no Médio Oriente remontam aos tempos da I Guerra Mundial e às maquinações imperiais das "Grandes Potências".
14 de Junho de 2014
Por Eric Margolis

Iraque: o caos todo-poderoso

Eric Margolis
O falecido Saddam Hussein tinha realmente razão quando previu que a invasão americana do Iraque se iria tornar na "mãe de todas as batalhas". Onze anos depois, a batalha continua.

Nesta semana, assistimos ao colapso de duas divisões do exército governamental do Iraque, 30 mil homens correndo como galinhas diante do avanço implacável dos combatentes do ISIS - Estado islâmico do Iraque e do Levante (Síria). O mesmo exército fantoche que foi treinado e equipado durante uma década pelos EUA pela soma de 14 mil milhões de dólares. Um mau augúrio para aquilo que aguarda o exército e a polícia do Afeganistão, também eles criados pelos EUA.

Recordam-se de quando o presidente George W. Bush se vangloriava da "missão cumprida"? Não foi o malévolo Saddam Hussein linchado pelos aliados xiitas dos EUA? Não foi a temida Al-Qaeda derrotada e o seu líder, Osama bin Laden, assassinado? Recordam-se de todo aquele palrar proveniente de Washington para "drenar o pântano" no Iraque?

Logo que os EUA derrubam um desafiante ao seu domínio no Médio Oriente - aquilo que chamo de American Raj - há outro que se ergue. O mais recente: o ISIS, uma feroz força jihadista que agora controla grandes parcelas da Síria e do Iraque.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Eric Margolis: Síria - o objectivo último é o Irão

Eric Margolis, escreve que o "Buldózer americano está pronto para começar a rolar" e crê haver fortes razões para supor que o objectivo último é o Irão como aliás Wesley Clark publicamente já tinha deixado nas entrelinhas. A tradução é da minha autoria.

Importante (e inteligente) desenvolvimento de última horaRússia pede à Síria para entregar arsenal químico para evitar ataque dos EUA.
"Recordando os massacres e destruição durante a guerra da independência da Grécia durante a década de 1820 do Império Otomano, Victor Hugo escreveu na altura: "Os turcos passaram por aqui. Está tudo está em ruínas e todo o mundo está de luto".

Hoje, as nações em ruínas e sob luto são o Iraque, o Sudão, o Afeganistão e, em menor grau, a Líbia, todos desmembrados ou divididos pela força do poderoso Império americano ["American Raj"].

A Síria é claramente o alvo seguinte do buldózer imperial americano. Após dois anos de uma brutal rebelião, armada e financiada pelos EUA e seus aliados regionais, a Síria enfrenta agora a devastação.

A campanha de ataques aéreos e de mísseis irá esmagar a força aérea síria, os tanques, a artilharia e as comunicações. Israel está preparado para esquadrinhar as ruínas da Síria.

Pura comédia negra. Roubando desavergonhadamente a propaganda da administração Bush, a Casa Branca de Obama tem vindo de facto a advertir que as armas químicas sírias (a maioria das suas matérias-primas proveniente da Europa) representam uma ameaça terrível para os Estados Unidos. A Síria adquiriu armas químicas para enfrentar o grande arsenal de armas nucleares de Israel, originalmente fornecidas pela França.

Não actuar equivalerá a um outro apaziguamento à la Munique, adverte Obama. Mas o Congresso dos EUA não podia agir porque ainda estava de férias de Verão.

O presidente Obama até concedeu que não havia urgência em agir. O importante era, segundo declarou, que a "credibilidade" dos Estados Unidos estava em jogo. Os políticos invocam a credibilidade como uma desculpa depois de terem cometido um enorme erro - em especial, as insensatas "linhas vermelhas" de Obama na Síria que encurralaram o presidente num beco [numa box] criado por ele mesmo.

domingo, 18 de agosto de 2013

A situação no Egipto: da Primavera ao Inverno Árabe

Eric Margolis, jornalista, comentador e também autor de vários livros sobre o Islão, o Médio Oriente ou o conflito Indo-Paquistanês sobre Caxemira,  assina o artigo Storm on the Nile ("Tempestade no Nilo") que, a meu ver, enquadra e explica de forma sucinta mas correcta (bem diferente da "narrativa" que os media de "referência" proporcionam) os trágicos acontecimentos que estão a ocorrer no Egipto, a responsabilidade das sucessivas administrações norte-americanas e, em particular, da actual e das suas tergiversações. Profetiza também o que me parece ser muito provável: o regresso ao mubarakismo onde o principal intérprete será agora o general al-Sissi.

A tradução do artigo de Eric Margolis é da minha responsabilidade. O título do post também foi roubado ao autor.

ACTUALIZAÇÃO: Advogado diz que Mubarak deve ser libertado esta semana
As Forças Armadas do Egipto, financiadas pelos EUA, entraram em guerra contra o povo do Egipto. A Primavera Árabe transformou-se no Inverno Árabe.

Até ao momento, o exército e a polícia de segurança conseguiram brilhantes vitórias no campo de batalha contra homens desarmados, mulheres e crianças, matando e ferindo milhares que exigiam um retorno ao governo democrático.

Os mais recentes protestos, levados a cabo no Cairo por apoiantes do governo eleito de Morsi, foram dispersados por tiros e enormes buldózeres blindados semelhantes aos veículos gigantes usados por Israel para esmagar as barricadas e os manifestantes palestinianos. Todos os egípcios que se opõem à ditadura de Sissi são agora, oficialmente, "terroristas".

Os generais do Egipto e os apoiantes da direita dura mubarakista já abandonaram qualquer pretensão de que existe um governo civil e dependem agora das baionetas e dos tanques. Os homens que detêm as armas fazem as regras.

Este é o terceiro governo árabe, resultante de eleições razoavelmente justas, a ser derrubado ou sitiado, como em Gaza, por regimes militares apoiados pelo Ocidente. Ao contrário do que sucedeu na Argélia, onde o primeiro governo eleito foi esmagado, os islamistas do Egipto não têm armas e é improvável que sejam capazes de organizar uma resistência interna séria para além de algumas alfinetadas no Alto Egipto e no Sinai.

A sangrenta contra-revolução mubarakista, financiada pela Arábia Saudita e por outras monarquias do Golfo, colocou os Estados Unidos, o patrono do Egipto, numa séria embrulhada. Washington foi forçada a denunciar o golpe e a repressão estatal em curso como "deplorável", nas palavras do Secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

No entanto, semanas antes, o evidentemente confuso Kerry tinha elogiado o golpe que derrubou o primeiro governo democraticamente eleito do Egipto falando da "restauração da democracia". Ele recusou-se a classificar o putsch militar como um golpe de estado, pois isso significaria cortar os 1,3 mil milhões de dólares anuais em pagamentos dos Estados Unidos às forças armadas do Egipto, um importante aliado dos EUA. O presidente Obama limitou-se a evitar toda esta questão.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

História moderna do Médio Oriente em 10 minutos

Via LRC, um excelente vídeo que ajuda a perceber o conflito israelo-árabe, remontando até ao célebre Acordo de Sykes-Picot, celebrado entre o Reino Unido e a França (com o assentimento da Rússia czarista), em Maio de 1916, no preenchimento do "vazio" subsequente à expulsão do império otomano da região que hoje conhecemos como Médio-Oriente.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O Homem Mais Perigoso do Mundo

Com o som do rufar dos tambores de guerra a aumentar significativamente esta semana (veja-se, por exemplo, aquiaqui ou aqui) Patrick J. Buchanan tenta apelar à sanidade. A tradução, algo livre, é minha.
No Outono, os jornais dos EUA irão dedicar inúmeros centímetros de colunas de artigos assim como as redes de TV reservarão intermináveis horas revisitando o mês mais perigoso da história da república, se não mesmo do mundo.

A decisão de Nikita Khrushchev de, secretamente, instalar em Cuba mísseis balísticos de médio alcance, equipados com armas nucleares, começou a formar-se na sua mente algum tempo antes, talvez em Abril de 1961.

Foi nessa altura que o novo e jovem presidente dos EUA, John F. Kennedy, promoveu o desembarque de uma brigada de cubanos com a intenção desta se vir a tornar a vanguarda de um exército de guerrilha tendo em vista o derrube do regime de Fidel Castro.

A Baía dos Porcos tornou-se uma metáfora para a loucura irresponsável e para o fracasso.

Khrushchev tinha ordenado a um exército de tanques que entrasse em Budapeste para esmagar a Revolução Húngara de 1956 e assistiu, atónito, à recusa de um presidente dos EUA em usar seu poder para eliminar uma base soviética situada a 90 milhas da costa da América.

Em Junho, Kennedy encontrou Khrushchev em Viena e foi verbalmente atacado. Em Agosto, Khrushchev voltou a testar Kennedy construindo um muro para separar Berlim Oriental e selar o sector soviético. Os berlinenses que procuravam fugir foram baleados.

Kennedy ordenou um ano de mobilização dos reservistas.

Moscovo, em seguida, quebrou uma moratória sobre testes atmosféricos de armas nucleares, fazendo explodir uma gigantesca bomba de 57 megatoneladas no Árctico.

Em meados de Outubro de 1962 os mísseis soviéticos estavam em Cuba. O seu raio de alcance de 2400 quilómetros colocava Washington, D.C., ao seu alcance.

O chefe da Força Aérea era o general Curtis LeMay, ex-chefe do Comando Aéreo Estratégico, que se gabava da actuação da sua frota de B-29 durante a guerra do Pacífico, "Nós incendiámos, cozemos e assámos até à morte mais pessoas em Tóquio naquela noite de 9 para 10 de Março da que foi reduzida a vapor no conjunto de Hiroshima e Nagasaki."

LeMay queria bombardear e invadir Cuba, mesmo depois de Khrushchev ter retirado os mísseis. Quando Mao Zedong denunciou o recuo de Khrushchev, chamando à América "um tigre de papel", Khrushchev terá recordado a  Mao que "Este tigre de papel tem dentes nucleares." Mao, alegadamente, teria então indicado a sua disposição para perder 300 milhões de chineses numa guerra nuclear se tal guerra acabasse com os Estados Unidos.

Estes foram tempos graves e de homens perigosos. O que leva a esta recitação de como era o nosso mundo há 50 anos é a história da mais recente capa da The Weekly Standard, "O Homem Mais Perigoso No Mundo."

A foto da capa é do Ayatollah Ali Khamenei, o "homem com uma missão" no Irão, de quem se diz estar tentando obter uma bomba atómica e que "abomina os Estados Unidos num grau superior ao de Stalin, Mao, Tojo e Hitler em conjunto." Se este "líder supremo obtiver armas nucleares, será necessário um milagre para que ele não conduza estupidamente o seu país à guerra."

O objectivo último do artigo de 5000 palavras é: Tenha medo. Tenha muito medo deste homem.

sábado, 7 de julho de 2012

Uma síndrome perigosa

Patrick J. Buchanan assina Iran Derangement Syndrome. Eu tento, mais uma vez, uma tradução que cumpra os mínimos. Querendo o leitor ajuizar da qualidade dessa tentativa, aceite também a referência ao artigo de Philip Giraldi (ex-quadro da CIA), igualmente na American Conservative, intitulado Iran Guilty, Facts Be Damned.
"O Irão não pretende ter a bomba atómica, cuja posse é inútil e perigosa e constitui um grande pecado do ponto de vista intelectual e religioso."

Foi desta forma que o líder supremo Ayatollah Ali Khamenei declarou em Fevereiro que a posse por parte do Irão de armas atómicas seria um pecado mortal contra Alá.

É também unânime a opinião da comunidade dos serviços de informações dos EUA, declarada em 2007 e afirmada em 2011, que o Irão abandonou quaisquer programas para construir armas nucleares.

Estará o Ayatollah mentindo? Estará todo o conjunto dos serviços de intelligence dos  EUA errado?

As instalações do Irão, em Natanz, onde o urânio é enriquecido a 5 por cento, e em Fordow, onde é enriquecido a 20 por cento - em ambos os casos abaixo do limiar necessário para a construção de armas - estão sob controlo constante das Nações Unidas. O Irão ofereceu-se para entregar o seu urânio enriquecido a 20 por cento e a parar o enriquecimento a esse nível, se o Ocidente fornecer isótopos para a sua medicina nuclear e levantar algumas das sanções mais gravosas.

No deal, afirmam os Estados Unidos. O Irão deve renunciar, completamente, ao enriquecimento e por tempo indefinido.

Este é o ponto problemático nas negociações. O Irão alega que, como signatário do Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, tem o direito de enriquecer urânio para fins pacíficos. Neste aspecto, o povo iraniano apoia o seu governo.

Poderá este impasse ser motivo para uma guerra?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ron Paul: política externa e Israel

Motivado pela leitura disto pareceu-me oportuno contribuir para divulgar, pelo próprio Ron Paul, a substantiva diferença entre "pacifista" e "não-intervencionista" num tema tão delicado como o que envolve a defesa de Israel. Hoje, perante o Irão, como ontem face a Saddam Hussein e a Bashar al-Assad. E, já agora, recordo esta outra nota.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Irão: Guerra ou Paz?

Mais um excelente artigo de Patrick J. Buchanan, na The American Conservative, que procurei traduzir na íntegra pela sua actualidade e importância. "Pat" Buchanan, que foi candidato à nomeação pelo partido republicano às eleições presidenciais de 1992 e 1996, é um paleoconservador, um homem da Old Right.
«David Petraeus, comparecendo ao lado do director da CIA, James Clapper, perante o Comité de Intelligence do Senado na semana passada, o director dos serviços secretos afirmou sobre o Irão: "Nós não acreditamos que eles na realidade tenham tomado a decisão de prosseguir com a construção de uma arma nuclear."

Antes da audiência, como relata James Fallows do The Atlantic, Clapper divulgou a sua "Avaliação de ameaças em todo o mundo." Nela lia-se: "Não sabemos ... se o Irão irá eventualmente decidir-se por construir armas nucleares."

Clapper reafirmou assim a avaliação de 16 serviços de informações dos Estados Unidos em 2007, alegadamente repetida em 2011, segundo a qual os EUA não acreditam que o Irão tenha decidido tornar-se num estado dotado de armas nucleares.

Em Dezembro, quando o secretário da Defesa Leon Panetta, disse que se o Irão apostasse tudo, talvez pudesse ser capaz de construir uma arma nuclear num ano, o porta-voz do Pentágono George Little apressadamente esclareceu aqueles comentários: "O secretário foi claro pois não temos qualquer indicação de que os iranianos tenham tomado a decisão de desenvolver uma arma nuclear".

Em 8 de Janeiro, o próprio Panetta disse à CBS: "(Está o Irão) tentando desenvolver uma arma nuclear? Não. Mas nós sabemos que eles estão tentando desenvolver capacidade nuclear. E é isso que nos preocupa. E a nossa linha limite para o Irão é: Não desenvolvam uma arma nuclear".

No Super Bowl no domingo, o presidente Barack Obama disse a Matt Lauer da NBC, que espera resolver o problema iraniano "diplomaticamente".

Do acima exposto, podemos concluir que a administração não acredita que o Irão tenha cruzado qualquer linha limite sobre a questão nuclear - e o presidente Obama não deseja a guerra com o Irão.

Quem, então, quer a guerra? O Ayatollah Ali Khamenei? O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad?

Julgando pelas suas acções, dir-se-ia que não. Se o Irão quisesse a guerra com os Estados Unidos, qualquer ataque terrorista no interior deste país ou sobre as forças dos EUA no Iraque ou no Afeganistão seria possível ser levado a cabo numa tarde.

A expulsão dos inspectores internacionais da Agência Internacional da Energia Atómica da unidade de enriquecimento de Natanz, a obstrução das câmaras da AIEA, o rompimento dos selos do urânio pouco enriquecido (UPE) lá armazenado, ou a remoção do UPE seria como que uma campainha de alarme para o Pentágono.

Mas os inspectores da AIEA e o UPE ainda lá estão.

Quando a alegada conspiração levada a cabo por um vendedor de carros usados ​​no Texas para contratar criminosos de um cartel mexicano para fazer explodir um restaurante em Washington D.C. e matar o embaixador saudita foi revelada, o Irão negou enfaticamente qualquer envolvimento e exigiu entrevistar o suposto mentor.

Além do mais, Teerão ainda não retaliou pelos assassinatos de cinco dos seus cientistas nucleares e dos quatro ataques terroristas levados a cabo pela Jundallah no Sistan-Baluquistão e pelo PJAK, uma organização curda terrorista que opera a partir do Curdistão iraquiano. O Irão alegou envolvimento de ocidentais e israelitas nesses ataques.

Agora que a secretária de Estado Hillary Clinton negou qualquer envolvimento dos EUA, a Mossad é o principal suspeito por trás do assassinato dos cientistas nucleares. E nos EUA o escritor Mark Perry, na Foreign Policy, alega que agentes do Mossad se fizeram passar por elementos da CIA e usaram dólares norte-americanos ​​em Londres para recrutar a Jundallah.

Se isto for verdade, esta seria uma operação clandestina para provocar o Irão a atacar a América. Aparentemente, o Irão não mordeu a isca.

Por que não prosseguiram os iranianos a sua ameaça de fechar o estreito de Ormuz e pelo contrário começaram a recuar nessa ameaça?

A guerra com os Estados Unidos seria um desastre. Embora o regime de Teerão pudesse sobreviver - como Saddam Hussein sobreviveu à "Tempestade no Deserto" - a marinha do Irão, a maior parte do seu armamento, das defesas anti-aéreas e anti-navio e a sua força de mísseis estratégicos seria destruída, como seria muita da infra-estrutura do país. O Irão recuaria anos.

Quem, então, quer a guerra com o Irão?

Todos aqueles que gostariam de a ver exactamente acontecer ao Irão.

E quem são eles? O governo de Netanyahu e a sua câmara de ressonância na política dos EUA e nos media, os neoconservadores, os membros do Congresso, Newt Gingrich e o Rick Santorum.

E como a administração Obama é a força principal na política dos EUA que se opõe à guerra com o Irão, a sua derrota em Novembro aumentaria, à quase certeza, a probabilidade de uma guerra dos EUA com o Irão em 2013.

No entanto, se o Pentágono dos EUA e os serviços de informações estão correctas - o Irão não tem uma bomba e não decidiu construir uma bomba - por que deveríamos entrar em guerra com o Irão?

Resposta: o Irão representa "uma ameaça existencial" para Israel.

Mas Israel tem 200 bombas atómicas e três formas distintas de as lançar, enquanto o Irão nunca construiu, testou ou armou um dispositivo nuclear. Quem é a ameaça existencial para quem aqui?

E apesar de que uma guerra dos EUA contra o Irão seria desastrosa para o Irão, ela não seria nenhum passeio para os americanos, que poderiam tornar-se alvos terroristas durante anos no Golfo, Afeganistão, Zona Verde de Bagdad, Líbano e mesmo aqui nos EUA.

O ano de 2012 está assim se configurando numa eleição de guerra ou paz, com os Republicanos a representarem o partido da guerra e os Democratas o partido da paz e da diplomacia.

E com o passar dos meses daqui até Novembro, tal tornará-se-á claro para a nação.»

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A propósito de um relatório que muito pouco relata

A propósito de um relatório que ainda não exist[e]ia, aproveito agora a oportunidade para o ajudar a divulgar. Está aqui. Estive a lê-lo com atenção e estou totalmente de acordo com Flynt Leverett, professor de Relações Internacionais na Universidade do Estado da Pensilvânia: "o relatório é, em termos substantivos, um colossal não-evento". Não há - ou eu não consigo encontrar -, qualquer prova veiculada no relatório que ateste que o Irão tenha tentado construir uma arma nuclear.

Aliás vale a pena, com a ajuda do Christian Science Monitor [realces meus], fazer uma pequena viagem pelos sucessivos episódios das iminentes ameaças nucleares provenientes do Irão. Começaram exactamente em 1979 com a queda do Xá, remember?
Late 1970s: US receives intelligence that the Shah had "set up a clandestine nuclear weapons development program."

1979: Shah ousted in the Iranian revolution, ushering in the Islamic Republic. After the overthrow of the Shah, the US stopped supplying highly enriched uranium (HEU) to Iran. The revolutionary government guided by Ayatollah Ruhollah Khomeini condemned nuclear weapons and energy, and for a time stopped all projects.

1984: Soon after West German engineers visit the unfinished Bushehr nuclear reactor, Jane's Defence Weekly quotes West German intelligence sources saying that Iran's production of a bomb "is entering its final stages." US Senator Alan Cranston claims Iran is seven years away from making a weapon.

1992: Israeli parliamentarian Benjamin Netanyahu tells his colleagues that Iran is 3 to 5 years from being able to produce a nuclear weapon – and that the threat had to be "uprooted by an international front headed by the US."

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A propósito de um relatório que ainda não existe

Os tambores de guerra já rufam há algum tempo. Agora, o seu som tornou-se mais nítido com a indicação de que o relatório - que ainda irá ser publicado - supostamente provará que o Irão estará no limiar do  "estatuto" de potência nuclear. Recordo-me entretanto do Iraque, dos "relatórios" e das "provas" que justificaram uma horrível guerra sem qualquer sentido que está muito longe de ter terminado. Recordo-me que o Paquistão é um autêntico "barril de pólvora nuclear" e pergunto-me quantos candidatos a mártires surgirão por cada dano humano "colateral" que os drones vêm causando. Pergunto-me qual a dimensão do exército de mártires que se formará se o Irão for atacado preventivamente. 
It is unfortunate that an analytic frenzy has begun over a report that has not yet been published. It is impossible to analyze the contents of the IAEA report on Iran until we can read it.

Even absent the document itself, however, two points bear repeating. First, even if the cultivated panic surrounding the report’s release is well founded, the suggestion that a military strike against suspected nuclear weapons sites in Iran would solve the problem lacks strong support. The net effect of such an action is difficult to judge beforehand. However, military action seems certain to convince the Iranian leadership that the United States and Israel are implacable aggressors. We should also wonder whether purchasing a delay in Iran’s nuclear program would be worth the cost of making its government—and possibly its people—absolutely certain that the only way to stop aggression against it is the acquisition of a nuclear weapon.

Second, while the consequences of military action are uncertain, so too would be the consequences of a nuclear Iran. These consequences would be different for the United States than for Israel. While one hesitates to advise the Israelis on their national security policies, the nature of the relationship between the United States and Israel means that Israeli action would likely implicate the United States. And it is far from clear that the Israeli leadership believes the Obama administration holds any cards that it could play to constrain Israeli behavior. For this reason, Washington may not hold its regional destiny in its own hands.

domingo, 25 de setembro de 2011

Refém

titula o Público (itálico meu):
O Presidente americano deixou na quarta-feira a Assembleia Geral da ONU gelada ao não fazer a menor cedência perante o apelo palestiniano por um Estado devidamente reconhecido. Há um ano, prometera fazer tudo para que esse apelo se transformasse numa realidade. Desta vez, o seu tema foi o compromisso inalienável dos EUA com a segurança de Israel. Obama não quer correr qualquer risco até à reeleição. Está refém da versão mais extremista do Partido Republicano. Também na política externa.
Resumindo a lengalenga, Obama está apenas refém de uma coisa: da tentativa da sua reeleição.

Também a Aljazeera acha que Rick Perry está refém de si próprio. De tal modo que escreve: "On Israel and Palestine, Obama is Rick Perry".

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pat Buchanan sobre Israel

Aconselho a leitura integral de Is the Window Closing on Israel?
[T]oday Israel is more isolated than she has ever been, and the prospects are bleak that she can break out of this isolation.

Hamas rules Gaza. Hezbollah rules Lebanon. The Turks have turned hostile. The Palestinian Authority has given up on Barack Obama and is demanding a state from the Security Council and U.N. General Assembly. Israel’s partner in Egypt, Hosni Mubarak, is gone. The Israeli embassy in Cairo has been sacked. Mobs in Amman have sought to do the same.

George W. Bush was persuaded by neocons that an invasion of Iraq would start the dominoes of Arab tyranny falling and usher in an era of pro-Western democracies in the region.

Not quite. The Arab Spring that followed the U.S. invasion by a decade is bringing down the despots but also unleashing the demons of ethnonationalism and Islamic fundamentalism that are anti-American and anti-Zionist.

Israel’s great patron, America, is in retreat from the region, with her army in Iraq home by year’s end and her autocratic allies down in Egypt and Tunisia and tottering in Bahrain and Yemen.

By 2050, Palestinians west of the Jordan will outnumber Israelis two to one. Syria, Jordan and Egypt, which had 40 million people at the time of the Six-Day War, will have 170 million. Militarily, Israel remains dominant, but neither time nor demography seems to be on her side.

domingo, 4 de setembro de 2011

Que se passa em Israel?

No Guardian: Israeli protests: 430,000 take to streets to demand social justice

Segundo o jornal, "[a]mong the issues raised were the cost of housing, transport, childcare, food and fuel" o que não é de espantar quando, de acordo com a Business Week, se sabe que o custo da habitação subiu cerca de 40% nos últimos três anos embora, segundo a revista, o mercado de habitação em Israel seja estruturalmente distorcido pelo facto de o Estado deter, ou gerir directamente, 93% da superfície do país. Mais preocupante, diria eu, é a manipulação monetária levada a cabo pelo banco central israelita (a massa monetária cresceu mais de 50% em 2009).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Perseguindo a paz perpétua através da perpétua guerra

Estou a "devorar" o livro que coloquei hoje na vitrina: Washington Rules, America's Path to Permanent War, por Andrew Bacevich (juntei um link para uma recensão do mesmo no NYT). O autor, professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Boston, coronel reformado do exército americano, sentiu a invasão do Iraque em 2003 como a última gota  que o  obrigou a adoptar, activa e publicamente, o "dark side" do establishment consensus de Washington, que se formou com Truman e vem perdurando até Obama.

Poucos foram os que se lhe opuseram. Fiquei a saber que J. William Fullright, senador americano, presidente do  Comité das Relações Externas, foi um deles. Perante a preparação da escalada da guerra do Vietnam a que se opunha, durante a presidência de Lyndon B. Johnson, Fullright escreveu:
«Power tends to confuse itself with virtue and a great nation is peculiarly susceptible to the idea that its power is a sign of God favor, conferring upon it a special responsability for other nations - to make them richer and happier and wiser, to remake them, that is, in its own shining image... Once imbued with the idea of mission, a great nation easily assumes that it has the means as well as the duty to do God's work. The Lord, after all, would surely not choose you as His agent and then deny you the sword with which to work His will.»
Lembrei-me desta passagem a propósito deste post no Zerohedge (via TheBurningPlatform), inspirado nas recentes movimentações dos vasos de guerra americanos ilustrados na figura abaixo:

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