segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Momento de humor negro

Lendo o Obamatório, dou-me conta que faltam apenas três meses para as eleições presidenciais americanas. É pois uma boa altura para confrontar uma particular promessa do presidente recém-eleito com os factos. Os leitores habituais deste blogue não estranharão que ela verse sobre a matéria orçamental. Primeiro, a transcrição das (sábias) palavras de Barack Obama, em 15 de Fevereiro de 2009 (realces meus):
"We can not and will not sustain deficits like these without end.

Contrary to the prevailing wisdom in Washington these past few years, we can not simply spend as we please and defer the consequences to the next budget, the next administration or the next generation. We are paying the price for these deficits right now.

In 2008 alone we paid $250 billion in interest on our debt, that is more than three times what we spent on education that year, more than seven times what we spent on VA healthcare.

So if we confront this crisis without also confronting the deficits that helped cause it, we risk sinking into another crisis down the road as our interest payments rise, our obligations come due, confidence in our economy erodes and our children and grandchildren are unable to pursue their dreams because they are saddled with our debts.

That's why today I am pledging to cut the deficit we inherited by half by the end of my first term in office.

This will not be easy - it will require us to make difficult decisions and face challenges we have long neglected but I refuse to leave our children with a debt they can not repay.

And that means taking responsibility right now in this administration, for getting our spending under control."
Para quem quiser apreciar a eloquência destas palavras com a expressão facial com que as proferiu, deixo o link para o clip respectivo. Quando à evolução, real, do défice do orçamento federal - sempre acima de um trillion sob Obama - uma olhadela a este boneco é suficiente para soltar uma gargalhada  Ou uma sonora imprecação.

Watergate à espanhola?

"Veo todo lo que haces y oigo todo lo que dices". É a ameaça que, segundo Carlos Floriano, na altura deputado do Partido Popular, lhe terá sido dirigida por Alfredo Pérez Rubalcaba, actual líder do PSOE, à época (18 de Novembro de 2009) Ministro do Interior, como resultado da insistência do primeiro em fazer perguntas sobre a utilização do sistema de escutas telefónicas SITEL em utilização naquele Ministério.

Este episódio voltou agora à baila no quadro de uma investigação em curso pela polícia sobre suspeitas de corrupção que, segundo o El Mundo, envolve altos quadros do Ministério do Interior àquela mesma época.

Chavela Vargas - El último trago

In memoriam.


Letra:

E não é outra coisa

Pedro Santos Guerreiro (PSG), hoje no Jornal de Negócios (realce meu), denota, também ele, sofrer da síndrome da epifania serôdia:
A RTP finalmente contratou os seus assessores para a reestruturação que há-de levar à privatização. O projecto, diz o Governo, há-de fazer-se nem que a vaca tussa. E a vaca agora está a tossir a ideia peregrina de vender uma licença. Repete-se: isso não é privatizar a RTP. É o contrário: é manter a RTP no Estado e criar o famigerado quinto canal.
Mais à frente, e depois de fazer a sua (higiénica, diga-se) declaração de interesses, PSG insurge-se conta a "perfídia" governamental:
Se o Estado alienar a licença da 2 e mantiver a 1, o que está a fazer é a criar mais um canal comercial. Em vez de dois canais e meio (a RTP tem metade do espaço publicitário dos canais privados), passará a haver três canais e meio. Para o Estado, o interesse desta operação só surge do eventual encaixe com a venda da licença. Os custos da RTP não reduzirão substancialmente em relação ao trabalho que já está a ser feito hoje. E a tentação política de lá mandar mantém-se intacta. Genial, não é?
Entendamo-nos. Estou-me borrifando para as dificuldades, actuais ou futuras, dos accionistas dos canais generalistas privados. Não entendo sequer, ainda por cima depois de a TDT ter chegado, por que razão é necessária uma licença para que possa surgir um, dois, dez novos canais generalistas. É mau para os que já estão no mercado? Talvez. Mas é a vida.

O que é realmente inadmissível, do ponto de vista moral e político é a manutenção da RTP no perímetro estatal e que todos sejamos obrigados a manter essa estrutura que nada tem para oferecer senão, em última instância, propaganda ao governo da Situação e venda de favores ao autoproclamado "ecossistema cultural" e seus directos beneficiários. Marcelo Rebelo de Sousa, o talking head dominical, foi ontem claríssimo: "[P]oliticamente é muito útil para todos os governos manter a RTP1, tem um peso que não tem a RTP2.” E não é outra coisa.

O caso BPN e o jornalismo que temos

Mr. Brown já ontem tinha feito uma justa observação em Compra vs venda a propósito do folhetim BPN. Mas não posso deixar de sublinhar a descarada inconsistência manipulação que resulta da adopção do título "Compra do BPN foi precipitada e pouco transparente" quando, no corpo da notícia, se cita o CEO do Lloyd's Bank, Horta Osório, afirmando:
"No caso do BPN (...) foi precipitado adquirir a totalidade do banco e fazer pagamentos a investidores institucionais, que neste momento não se sabe exactamente quem foram, em vez de proteger apenas os depositantes e tratar depois da massa falida". "Essa segunda parte não foi feita da melhor maneira nem de forma transparente"

O que são direitos?

Na sequência da última incursão em "A Natureza dos Direitos", o Professor Aeon Skoble explicita a diferença entre direitos naturais, os estritamente decorrentes da condição humana, dos direitos outorgados pela lei, ou melhor, pela legislação e, como tal, ao contrário dos primeiros, variáveis no tempo e no espaço.

Pico quantos? (3)

No seguimento de Pico quantos e Pico quantos (2), via Carpe Diem, de onde retirei o gráfico abaixo, soube que a Energy Information Administration, uma agência governamental americana, actualizou as suas estimativas de reservas provadas de petróleo e gás natural nos EUA por referência a 2010. Mais 12,8% e 11,9%, respectivamente. Significa isto que nunca quanto agora foram tão elevados os montantes de reservas provadas, ou seja: apesar do crescente consumo, as reservas não cessam de aumentar!


Os alarmistas de profissão não compreendem por que razão as suas profecias teimam em não se concretizar e isto porque desconhecem os mecanismos básicos de funcionamento dos mercados e do mecanismo dos preços assim como - e este é o seu principal pecado - subestimam a capacidade daquele que Julian Simon designou como o Derradeiro Recurso: o Homem.

É certo que um pouco por todo o lado, cegos pelas ruinosas mas politicamente correctas doutrinas "verdes", os próprios governos sabotam, ou pelo menos, atrasam a exploração dos combustíveis fósseis como a pergunta que James Delingpole fazia não há muito tempo ilustrava: Por que razão não celebramos as boas notícias?

Mas o vento está a mudar. O caos financeiro em que se encontram a generalidade dos estados europeus está progressivamente a impor o abandono dos tão megalómanos quanto ineficazes e ruinosos investimentos em fontes de energia intermitentes. Vai chegar a vez do gás de xisto também à Europa, por muito que isso custe a Vladimir Putin que hoje nos tem bem agarrados por onde mais pode doer.

Mas, como o blogue Terrorismo Climático bem ilustra, na tradução que nos proporciona deste artigo, será da China que virá, a prazo, o maior change game logo que disponha do domínio das novas tecnologias necessárias para exploração das enormes reservas que dispõe de shale gas. Também estou convencido do mesmo.

Contrafacção legalizada

não deixa de ser contrafacção. Sendo a actividade de criação de moeda totalmente discricionária, naturalmente que os governos (suportados pelos economistas do mainstream keynesiano e monetarista) tendem a exercitá-la, em doses cada vez maiores, para "estimular" a criação de "riqueza". Estranho é que os cidadãos, individualmente, sejam engavetados se se dedicarem à mesma prática.


Houve um tempo que o Ocidente se preocupava com a sorte dos cristãos

Manifestamente, já não é esse o tempo, como até no próprio New York Times se reconhece: Syria’s Crumbling Pluralism.

sábado, 4 de agosto de 2012

Al-Qaeda - Aliados, inimigos e vice-versa

Há pelo menos umas três semanas que neste portal, mantido pelas Nações Unidas, a informação referente a "Security in Iraq" (uma estatística mensal de "incidentes" e consequentes baixas), está indisponível. Não consigo assim ilustrar o incremento significativo no número de "incidentes" (e correspondentes mortos e feridos) que se verificou naquele país desde o início do ano, voltando a aproximar-se dos números macabros por alturas da "surge" (conduzida por David Petraeus, actual director da CIA).

De modo que fica mais fácil concentrarmo-nos no que se passa na Síria onde os esforços de compilação estatística parecem estar por conta destes senhores. Aqui, o que acho difícil aceitar é que a presença e as acções da Al-Qaeda (como na Líbia) tenham uma natureza e um sentido moral diferentes de quando ocorrem no Iraque. É pois tempo para um Reality-Check:

Correspondente às expectativas

assim se confirma tudo o que por aqui tenho escrito quanto à "privatização" da RTP. Um embuste.

Expresso, 04-08-2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Variações eufemísticas

A reunião do conselho dos governadores do BCE terminou... com um comunicado em que o banco revela (!) que irá "desenhar medidas não convencionais", ou seja, a uma nova velhíssima bazooka: imprimir dinheiro, imprimir mais dinheiro e imprimir ainda mais dinheiro. Não resultando - como não irá resultar - adivinha-se que a receita (?) irá prosseguir, em doses cada vez mais elevadas. Até que a metáfora bélica chegue à bomba de hidrogénio e esta expluda.

Gore Vidal

“As societies grow decadent, the language grows decadent, too. Words are used to disguise, not to illuminate, action: you liberate a city by destroying it. Words are to confuse, so that at election time people will solemnly vote against their own interests.”

Por razões como, por exemplo, esta ou esta, Gore Vidal tornou-se uma figura detestada pelo establishment americano. Seja pelo revisionismo explícito da história americana desde os pais fundadores, expresso nos seus romances históricos (desde "Burr"), seja pelo teor dos seus ensaios políticos resultante do repúdio crescente que o "Last Empire" lhe causava.

Ei-lo, numa das suas últimas entrevistas (2011):