quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Estanha austeridade, esta (2)

Seguro quer "mais tempo e menos austeridade" para consolidar contas públicas.

Bancada socialista [na AR] gastou 210 mil euros em quatro novos carros.

Citação do dia (82)

"[T]he capitalist system of production is an economic democracy in which every penny gives a right to vote. The consumers are the sovereign people. The capitalists, the entrepreneurs, and the farmers are the people’s mandatories. If they do not obey, if they fail to produce, at the lowest possible cost, what the consumers are asking for, they lose their office. Their task is service to the consumer. Profit and loss are the instruments by means of which the consumers keep a tight rein on all business activities."
Ludwig von Mises, Bureaucracy

Keynesianismo e aquecimento global - I

Ontem tentei aqui explicar sucintamente no que consiste a teoria económica keynesiana e qual a razão pela qual ela é adoptada, com entusiasmo, pela generalidade dos políticos. Se efectuar despesa pública é, por si só, algo de intrinsecamente bom (com o dinheiro dos outros, claro) que se dirá então quanto surge a oportunidade conjunta de contribuir para salvar a humanidade e, em simultâneo, "estimular" a economia, "criando" empregos? É nestas ocasiões que os  píncaros da insanidade governamental são mais facilmente atingidos.

Fazendo parte daqueles que, à força de subsídios de todo o tipo, quiseram - e continuam a querer - salvar o mundo do "aquecimento global", dedicámo-nos alegremente a espalhar ventoinhas e barragens dotadas de bombagem reversível pelo país fora, garantindo confortáveis rendas (através de preços garantidos) aos promotores. Em simultâneo, devido à intermitência das renováveis, também foi necessário instalar capacidade excedentária, através de centrais a gás, para acorrer aos períodos em que não há vento (nem água nas barragens). A certa altura, quando os políticos se dão conta que uma das consequências dessa insanidade seria o aumento brutal do custo de produção de energia eléctrica, criámos esquemas (não vejo outra palavra) para empurrar o problema com a barriga, em nome da "protecção" dos consumidores e das empresas! Nasceu assim, e assim continua, a monstruosidade do défice tarifário. Este governo praticamente nada fez neste domínio senão adiar e anunciar (vamos a ver se a realidade corresponde ao anúncio...) que não promoverá novas instalações de "renováveis" a preços garantidos acima dos de mercado.

Ninguém fica contente com os males dos outros sendo que com eles podemos nós bem. Mas é de facto verdade que o problema do défice tarifário espanhol é bem pior que o nosso e que o horror do solar espanhol só é suplantado pelo da Alemanha. Mas a loucura "aquecimentista" (um feliz termo que os nossos amigos brasileiros inventaram) atingiu limites tais que já nem a própria Alemanha os consegue sustentar. E quando é a Spiegel a pôr o dedo na ferida, sem rebuço, é sinal que a maré se apresta a mudar. Nesse sentido, parece-me útil partilhar com os leitores uma tradução em português do artigo de ontem, dia 10, com o título German Energy Plan Plagued by Lack of Progress. Como se trata de um artigo longo, deixo aqui a 1ª parte da tradução, ficando a promessa que a 2ª e 3ª partes virão logo a seguir.
Parte I

O ministro da Economia da Alemanha, Philipp Rösler, está de pé na sala da caldeira de uma casa geminada na cidade de Hönow, perto de Berlim. Não parece nada satisfeito com o que está vendo: um tubo de aquecimento que não está isolado. Que desperdício de dinheiro e energia!

A proprietária do edifício, Petra Röfke, de 54 anos, e o seu sócio Hartmut, de 58, parecem envergonhados. Mas o ministro tem alguns bons conselhos para lhes dar. A aplicação de um pouco de espuma de isolamento em volta do tubo permitiria poupar uma grande quantidade de energia, diz ele acrescentando: "Tenho o mesmo tipo de tubo em minha casa."

Na verdade, diz Rösler, ele não se importaria nada em ir de carro até à loja e cuidar ele próprio da questão, juntamente com a substituição das antigas e ineficientes lâmpadas que viu enquanto visitava a casa. Também não deixou de reparar na antiquada televisão de raios catódicos na sala de estar. "Há muito para fazer aqui", diz o ministro, dando ao casal o seu veredicto final.

Com o governo a provocar a subida do preço da electricidade, Rösler parece sentir uma necessidade de se tornar útil, dando conselhos sobre como poupar dinheiro e energia. Na segunda-feira, os operadores da rede de transporte de energia anunciaram um aumento significativo dos preços da electricidade na Alemanha, preços que já são os segundos mais altos na Europa.

O aumento dos preços é o resultado de uma "avaliação", nos termos da Lei das Energias Renováveis (EEG), de uma espécie de sobretaxa de solidariedade para com a energia verde que é automaticamente adicionada à factura de electricidade de todos os consumidores. Com o acordo alcançado na última ronda de negociações, dessa avaliação irá resultar o aumento da sobretaxa de 3,6 cêntimos para 5,4 cêntimos por kilowatt-hora.

Com as novas tarifas, os cidadãos alemães irão pagar no próximo ano um total de mais de 20 mil milhões de euros (25,7 mil milhões de dólares) para promover a energia renovável. Isto é mais do que 175 euros para um agregado familiar médio de três pessoas, um aumento de 50% relativamente aos valores actuais. E depois há os custos adicionais que um consumidor paga como o imposto sobre a electricidade, a "avaliação" de cogeração, a tarifa de concessão e o imposto sobre o valor acrescentado.

Este desenvolvimento é um embaraço para o governo alemão de coligação, composto pela União Democrata Cristã (CDU) do centro-direita, da chanceler Angela Merkel, pelo seu partido irmão da Baviera, a União Social Cristã (CSU) e pelo Partido Democrático Liberal (FDP) tido por favorável ao desenvolvimento dos negócios das empresas. Nos últimos meses, o governo tem negado as alegações de que a transição gradual para a energia verde poderia custar aos cidadãos alemães uma montanha de dinheiro.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Diz o roto ao nu

Reformas que Europa está a implementar "vão demorar anos e anos até dar frutos", é o que terá afirmado o secretário de Estado do Tesouro (o equivalente ao ministro das Finanças nos EUA), segundo o Jornal de Negócios.

Já relativamente aos EUA, Timothy Geithner está "relativamente confiante" em que o país consiga evitar o "abismo orçamental" que se avizinha caso o projectado aumento de impostos de Obama não vá por diante. O "abismo" de que ele fala, será resultante da aplicação automática de "cortes" na despesa, caso o Presidente e o Congresso não cheguem a uma solução de compromisso. Nada melhor que um gráfico para ilustrar de que abismo ele fala:


Um abismo extraordinário, não é? E pronuncia-se esta criatura sobre os problemas europeus!

Pagliacci e Danegeld

Segundo o Jornal de Negócios, a ministra Cristas terá afirmado que o Governo está a trabalhar "intensamente" para limitar subida do IMI.

Ora esta é uma notícia extraordinária! Primeiro anuncia-se a eliminação da "cláusula travão" para, depois, se ir ver o que é possível fazer para a repor (parcialmente?). Influenciado pela ida ontem ao cinema, para ir ver o mais recente (e divertido) filme de Woody Allen, é-me impossível não pensar em Pagliacci.

Mas o mais adequado ainda será, devedor ficando a James Delingpole por mo recordar aqui, lembrar um famoso imposto que os vikings impuseram em terras de Inglaterra e França (entre os séculos IX e XI) em troca do qual se abstinham de invadir as suas terras com as consequências que se advinham. Rudyard Kipling escreveu mesmo um poema sobre o Dane-Geld. Ei-lo:
It is always a temptation to an armed and agile nation
To call upon a neighbour and to say: --
"We invaded you last night--we are quite prepared to fight,
Unless you pay us cash to go away."

And that is called asking for Dane-geld,
And the people who ask it explain
That you've only to pay 'em the Dane-geld
And then you'll get rid of the Dane!

It is always a temptation for a rich and lazy nation,
To puff and look important and to say: --
"Though we know we should defeat you, we have not the time to meet you.
We will therefore pay you cash to go away."

And that is called paying the Dane-geld;
But we've proved it again and again,
That if once you have paid him the Dane-geld
You never get rid of the Dane.

It is wrong to put temptation in the path of any nation,
For fear they should succumb and go astray;
So when you are requested to pay up or be molested,
You will find it better policy to say: --

"We never pay any-one Dane-geld,
No matter how trifling the cost;
For the end of that game is oppression and shame,
And the nation that pays it is lost!"

Confundindo o termómetro com a febre

Para os keynesianos, em caso de situação económica depressiva, quanto mais despesa pública, melhor. Se as receitas se mostrarem insuficientes, e se os contribuintes se mostrarem muito recalcitrantes em acatar novos aumentos de impostos (que imporão uma muito provável sanção eleitoral), a solução para financiar o acréscimo de despesa pública "agulha" para o recurso ao endividamento. Não há limites para o endividamento. A única excepção a este princípio ocorre quando os emprestadores, por qualquer motivo (por exemplo, por perderem a confiança na capacidade dos devedores em assegurar o serviço da dívida ou por perderem a confiança na moeda em que a dívida está denominada), deixarem de comprar títulos de dívida pública (se não estiver disponível um submisso banco central emissor, situação actual dos PIIGS). Neste caso, e porque a "austeridade" nunca é uma solução para o governo keynesiano, ele  recorre à derradeira arma do seu arsenal: imprime dinheiro nas quantidades necessárias, infinitas que sejam, que lhe permitam continuar a "pagar" as suas dívidas (Alemanha durante a República de Weimar,  Áustria, Jugoslávia, Brasil, Argentina, Israel, Zimbabwe, etc.). Nisto consiste o governo keynesiano. A justificação desta "arquitectura" reside no postulado central de que é a procura que constitui o "motor" da economia pois que, segundo os keynesianos, seria ela que provocaria o subsequente desenvolvimento da oferta necessária para responder à procura gerada. A lei de Say estaria errada. 

Se havia algo com que sempre os estatistas (da variante não totalitária) deseja(va)m ouvir, era isto. Sendo a despesa pública uma coisa (sempre) boa, o keynesianismo veio permitir libertar políticos das grilhetas das doutrinas do passado, nomeadamente das que defendiam a necessidade de poupar, ou seja, de diferir no tempo o potencial de consumo presente em ordem a permitir a acumulação de capital. E tanto mais era assim quanto a nova geração de economistas  tinha abraçado, quase unanimemente, uma visão "matemática" da economia, materializada nos famosos, sofisticados e elegantes "modelos". A matemática, ou melhor, a estatística, vinha oferecer a caução "científica" à coisa.

Robert Murphy, na American Conservative, explica a falácia: Spending Isn’t Production. À semelhança do que fez Gary North aqui, também Murphy escolhe Krugman como seu opositor. Krugman acha que a que a procura que o novo iPhone 5 suscitou é mais uma prova da bondade da doutrina keynesiana sobre a despesa pública. Murphy acusa-o - bem - de confundir o termómetro com a febre.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Da situação espanhola ou por que os banqueiros idiotas adoram o keynesianismo

Resolvi traduzir mais um (longo) texto de Gary North - Why Dumb Bankers Love Keynesianism. Não por me  ter decidido dedicar-me à tradução (após uma tentativa, na aparência bem sucedida, a avaliar pelo número de hits directos) mas porque me parece estar a crescer o movimento entre nós dos que defendem a saída da zona euro como forma de resolver os nossos problemas. Não é esta a minha opinião e North, no seu estilo muito particular mas sempre cristalino, também não a sustenta. Creio valer a pena conhecer a sua argumentação, 100% anti-keynesiana, nesta sistemática refutação de um texto de Paul Krugman.
Os banqueiros idiotas adoram os resgates governamentais. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas abominam as consequências económicas negativas de decisões estúpidas. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas adoram a inflação monetária que conduz a lucros bancários. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas adoram governos nacionais suficientemente grandes para salvar os grandes bancos. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas odeiam as corridas aos bancos. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas querem o comando sem terem de arcar com as suas responsabilidades pessoais. O mesmo acontece com os keynesianos.

Paul Krugman é o principal porta-voz do keynesianismo no nosso tempo. Ele vê como sua a função de assegurar que os contribuintes socorram os grandes bancos multinacionais. Quando os contribuintes resistem, ele ridiculariza-os por terem vistas curtas.

Ele dissimula a sua posição de defensor dos interesses dos banqueiros falando em nome dos trabalhadores. Mas os grandes resgates bancários são a consequência inescapável das políticas que preconiza. Ele é o amigo dos banqueiros multinacionais. Tal como sucede com o seu colega de Princeton, Ben Bernanke.

Podemos ver isto no seu recente artigo [link] apelando ao governo alemão, ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Central Europeu para emprestarem mais dinheiro ao governo espanhol muito embora o governo se recuse a cortar na despesa.

Ele quer que a economia evite o custo de liquidar os empréstimos que vieram do Norte. Que deve haver ainda mais empréstimos ao estado para que possa haver mais pagamentos às pessoas desempregadas, que irão gastar o dinheiro e pôr a economia a "rolar". Em seguida, isto permitirá que os devedores espanhóis satisfaçam o pagamento dos juros aos bancos alemães.

Portanto, uma vez apanhados na armadilha dos maus empréstimos, os banqueiros devem fazer ainda mais maus empréstimos. Por que farão eles isso? Porque o governo alemão, o BCE e o FMI vão continuar a comprar títulos de dívida pública do estado espanhol.

Se isto soa como Bernanke e Paulson, em 2008, é porque foram eles que estabeleceram o padrão.

A Europa está entrando em recessão. Há uma contínua crise fiscal na Grécia, em Portugal e em Espanha, que é enorme.

A Alemanha entrou agora em recessão. A Grã-Bretanha, provavelmente, já lá entrou.

Krugman está consternado com as exigências do FMI, do BCE e dos políticos alemães segundo as quais a redução da despesa dos governos dos PIIGS deve ser uma condição para beneficiarem do auxílio do FMI e da Alemanha. Ele é um keynesiano. Ele odeia a ideia de austeridade, que significa austeridade para as burocracias estatais. Ele quer mais despesa por parte dos governos.

sábado, 6 de outubro de 2012

Infindável lista de horrores

Depois da Catalunha ter solicitado ao Fundo de Resgate Liquidez Autonómica cerca de 5 mil milhões de euros, seguiu-se-lhe Valência (4,5 mil milhões), Murcia (641 milhões), Castela-La Mancha (848 milhões de)  e de a Andaluzia estar a considerar solicitar, "muito provavelmente", uma ajuda de 4,9 mil milhões de euros, chegou ontem a vez do governo das Canárias anunciar um pedido de resgate ajuda de 756,8 milhões de euros. Confirma-se assim, também empiricamente, a tese das metástases e o virtual esgotamento dos 18 mil milhões de euros com que o Fundo foi dotado, ainda o andor não saiu do adro...

Não admira assim que o ministro das Finanças espanhol, Luís de Guindos, quando declarou, perante uma assembleia de professores e estudantes da London School of Economics, na passada 5ª feira, que "a Espanha não necessita, de todo, de um bailout", tenha posto a sala a rir às gargalhadas. Guindos confirma assim a sua propensão para tomar desejos por realidades.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Citação do dia (81)

‎"A claim for equality of material position can be met only by a government with totalitarian powers."
Friedrich A. von Hayek

Utentes de greves

É o que os desgraçados dos clientes dos transportes públicos têm sido há quase quarenta anos. Isto vai continuar até quando?

Os nossos líderes: perplexos, ignorantes e perigosos

Não vi o debate televisivo entre Obama e Romney. Por essa razão não posso (in)validar a surpreendente "janela de optimismo" que rui a. nele detectou (relativamente aos EUA). Do que tenho lido sobre os dois candidatos, esperaria que a leitura do debate fosse mais nesta linha, justamente aquela a que Jim Rogers e Marc Faber aludem no vídeo abaixo da CNBC, do qual, no ZeroHedge, sublinham a seguinte passagem:
Marc Faber: "Both candidates are clueless and completely artificial..."

Jimmy Rogers: "It's worse than clueless, because they think they know what they're doing.. and so they are dangerous! If they were just clueless and looked out the window, we wouldn't have a problem, but they think they have the solution - but their solutions are what's making the situation worse..."

Marc Faber: "That is precisely the point. It is very dangerous to have ignorant people believing that they know something!"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Não há "equidades" grátis

Amigos pedem-me que escreva alguma coisa a propósito do novo e brutal assalto fiscal. Confesso que não tenho vontade alguma - não vejo necessidade - de acrescentar algo mais ao que aqui e aqui deixei.