domingo, 28 de outubro de 2012

Citação do dia (89)

"It is hard to imagine a more stupid or more dangerous way of making decisions than by putting those decisions in the hands of people who pay no price for being wrong."
Thomas Sowell

O inesperado impacto do "multiplicador" do azeite

Segundo o Público,
A produção nacional de azeite atingiu, na última campanha, o valor mais alto desde os anos 1967 e 1968: 76.203 toneladas que ajudaram a estimular o ímpeto exportador do sector.
...
"Há cinco anos, ninguém teria imaginado que seria possível este crescimento. A forma como os indicadores dispararam não era expectável", admite Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, Associação do Azeite de Portugal.
Pois é, eis mais uma partida dos "multiplicadores". Depois dos tomates e das castanhas, chegou agora a vez do azeite surpreender (talvez não tanto os destinatários dos múltiplos subsídios à produção agrícola). Dogbert explica a coisa, de forma singela:


Portanto, e em resumo: não sendo as autoridades (nem de resto ninguém) capazes de antecipar o que vai acontecer, a prazo, com o mercado dos tomates ou o das castanhas, como crer, por um segundo que seja, na presunção - uma presunção fatal - de serem capazes de prever o resultado das escolhas e das interacções de milhões de indivíduos num dado intervalo de tempo? Não se trata de "errar" as previsões (por ter havido erro nas "contas"), trata-se tão só e apenas da incapacidade de prever o resultado de um fenómeno de  natureza caótica, não-linear. A Matemazição da disciplina da Economia é uma fraude intelectual como já em 1962, Ludwig von Mises, observava: "Como método de análise económica, a econometria é um acriançado jogo com números que em nada contribui para elucidar a realidade dos problemas económicos".

Futilidade estatista

O texto de que junto cópia digitalizada, da autoria de Paula Blank, inserto na edição em papel no Público de hoje, é um dos melhores exemplos que conheço em que se ilustra, com a crueza da realidade, a inutilidade do exercício voluntarista que constitui o Acordo Ortográfico de 1990. Falo dos propósitos enunciados pelos seus adeptos, em defesa da língua portuguesa, de um património que o Estado, na sua insuportável e aliás ilegítima presunção, entende ser de sua conta - e monopólio - tratar.

Andar há mais de 20 anos preocupados com algo de acessório, cuja adopção desfigura a forma escrita do português europeu (e africano) quando a evolução das variantes se vem realmente afirmando mas por uma cada vez maior dissemelhança vocabular e sobretudo sintáctica, é, também aqui, andarmos preocupados com o totalmente irrelevante e teimar em não querer ver a realidade. A tradução, de há muito, é uma das actividade em que a emergência das marcadas diferenças entre as variantes de português do Brasil e de Portugal é mais evidente. Trata-se de algo com que tenho lidado desde o tempo da faculdade e atravessou todo o meu percurso profissional. Hoje em dia, basta usar o Google (ou o Bing) para tentar traduzir um texto de uma qualquer língua que nos seja mais próxima. E retirar as devidas conclusões.

Paul Halley - Winter

sábado, 27 de outubro de 2012

Citação do dia (88)

Sempre achei fascinante a forma como muitos intelectuais, particularmente os de "direita", não se aventurando nos detalhes da coisa económica, por mero pudor ou simples desdém da disciplina (afinal uma dismal science, nas palavras de Thomas Carlyle), condensem o seu pensamento num único postulado actuante: o da (suposta) necessidade de subordinar a Economia à Política. E ponto. José Pacheco Pereira é um deles. Ao ler o artigo que hoje escreveu no Público (link ainda não disponível), recordei-me desta passagem de um texto que li muito recentemente  e que tentei traduzir da seguinte forma1:
"Os críticos da disciplina da Economia dizem que os economistas sabem o preço de tudo mas o valor de nada. Nada, talvez, seja tão intelectualmente perigoso no domínio das ciências políticas que um economista que apenas saiba de economia, excepto, acrescentaria eu, um filósofo moral que nada saiba de Economia."

Peter J. Boettke, Introdução à nova edição de Socialismo,
de Ludwig von Mises
1Procurarei regressar em breve a este (inesgotável) tema.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O multiplicador das castanhas

Ano de menos castanha, mas mais proveitos para produtores transmontanos.

Nota: durante este fim-de-semana, eventualmente num momento de pausa para provar umas castanhas, talvez valha a pena dar uma olhadela ao original da 5ª avaliação do FMI a Portugal (na página 13, há um parágrafo sobre "multiplicadores", matéria que tanto tem entretido os comentadores profissionais e contribuído para encher páginas dos jornais).

O longo prazo chegou e tão cedo não se irá embora

Vasco Pulido Valente (VPV), na sua crónica no Público de hoje, pergunta: "É a democracia compatível com o Estado providência?" Por outras palavras: será que precisamos de "suspender" a democracia para salvar o Estado social? VPV, fazendo referência aos apelos que se vão ouvindo para que um qualquer Monti lusitano ocupe o lugar de Passos Coelho, terminava a crónica com um sério aviso a Cavaco Silva "[Q]ue tome cuidado. Muito cuidado."

A mim, o que me parece totalmente incompatível é a persistência de um Estado social da dimensão do nosso quando a economia não gera recursos para o manter. E esse é que é o problema que em Portugal, praticamente, só Medina Carreira fala e os restantes, olimpicamente, ignoram (talvez por ignorância dos princípios elementares da aritmética). Não obstante, chega um momento em que já não será possível continuar a empurrar o problema com a barriga e, nestes últimos dois anos, já vimos sentindo a violência que o contacto com a realidade pode significar. Aliás, em minha opinião, boa parte do longo prazo de que falava Keynes, já chegou. E tão cedo não se irá embora.

O problema não me parece que resida na potencial oposição entre Estado social e democracia. A verdadeira questão está na (in)capacidade em ultrapassar a irresponsabilidade financeira do estado português democrático de que os últimos 38 anos constituíram exemplo exuberante. Mas um qualquer "Monti à moda do Minho" ou até mesmo um general, não poderá deixar de escapar ao inevitável recuo do Estado social1. Fá-lo-emos, como de costume, e por razões essencialmente ideológicas, demasiado tarde. Iremos pagar com língua de palmo por isso.
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1Por exemplo, nas pensões de reforma, através da introdução de plafonamento (veja-se o caso da Suíça onde a pensão máxima de reforma por velhice não excede os 1900 euros para um indivíduo e 2840 para um casal (dados de 2011)).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Esquizofrenia sem cura

Temos vindo a assistir a crescentes manifestações de protesto de muitos perante a falta de vontade incapacidade do governo em reduzir a despesa do Estado situação que, à superfície, seria de saudar não se desse o caso, quando a ameaça do "corte" recai sobre quem quer que seja, logo alguém vir "demonstrar" a sua "inviabilidade". Razões do domínio da "sensibilidade social" e do veemente repúdio do "economicismo" são invocadas para evitar o "recuo civilizacional" que significariam os temidos "cortes". E ficamos arrumados quanto à redução das despesas do Estado (Camilo Lourenço está mais confiante, mas francamente não percebo por quê). Os portugueses preferem, afinal, mais e mais impostos (ao que o governo, convenhamos, tem correspondido exemplarmente).

Há também os "crescimentistas" que contrapõem que o que é necessário é promover o "crescimento" e não reduzir a despesa pública porque tal induzirá e acentuará a "recessão". O instrumento essencial desta política, na míngua financeira em que nos encontramos, é essencialmente de ordem retórica. Mas quando o governo, por uma vez, anuncia quer[er] IRC de 10% para novas empresas já em 2013 (acima de um limiar de investimento de 3 a 5 milhões de euros) aqui-d'el-rei, grita João Proença, que afirma que IRC a 10% será uma "vigarice",

Ou seja, num país com uma taxa de desemprego elevadíssima, onde o investimento privado não ocorre, em boa medida pela descapitalização generalizada das empresas nacionais, Proença acha que as novas empresas, as que não existem, deviam também ajudar a pagar a crise pelo que oferecer-lhes a possibilidade de uma taxa de IRC competitiva (atrás da da Irlanda), seria ma "vigarice social". Vamos longe, vamos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Culpado até prova em contrário redux

Já me tinha pronunciado acerca do caso de Lance Armstrong tendo na altura concluído que estávamos provavelmente em presença de um caso típico de "culpado até prova em contrário". Nestes últimos dias em que o assunto voltou às primeiras páginas, nada li que me levasse a alterar a ideia que tinha formado.

Mas agora que, por intermédio de Gabriel Silva, dei conta da "prova" que "justifica" a retirada dos títulos de Armstrong, não posso calar a minha veemente indignação. Com a devida vénia ao blasfemo Gabriel Silva, reproduzo os dois excertos relevantes (meus realces):
«Armstrong’s refusal to testify and his refusal to confront the evidence against him leads to a strong inference that Armstrong doped exactly as charged by USADA [United States Anti-Doping Agency]» [página 88].

«Each of the six (6) witnesses who were still active cyclists at the outset of their cooperation with USADA has voluntarily accepted a sanction of six (6) months ineligibility and loss of competitive results as a consequence of his own rule violations.»[página 129]
Uma condenação pois sem qualquer prova e onde as testemunhas de acusação tinham interesse próprio em a sustentar pois eles sim foram "apanhados" em controlo anti-doping e deste modo se livraram de maiores penalizações. Uma vergonha sem nome.

George Carlin - On Global Warming

George Carlin já abandonou o mundo dos vivos há mais de 4 anos. Mas as suas palavras não estão menos actuais por isso. A linguagem é, como sempre, vernacularmente colorida.

Tomates e energias renováveis, a mesma luta!

Só a Califórnia é mais produtiva do que Portugal no tomate.

A notícia é, aparentemente, muito positiva. Portugal terá atingido uma produtividade recorde na produção de tomates, da ordem dos 92 toneladas por hectare, segundo dados da Associação dos Industriais de Tomate (AIT). Tal significará certamente que o país dispõe de condições agro-climáticas favoráveis ao seu cultivo e que detemos o know-how necessário.

Porém, a Associação antevê o aparecimento de nuvens negras no horizonte para os nossos tomates caso a Política Agrícola Comum (PAC) venha a sofrer uma "reforma" no sentido de diminuir o subsídio que atribui aos produtores dos actuais 2100€/hectare para 179€/ha. Como este ano se produziram 1,2 milhões de toneladas em cerca de 13.000 hectares, o montante dos subsídios atribuídos foi de 27,3 milhões de euros. Não admira pois que já se ouçam os gritos de aqui-d'el-rei e que a ministra Cristas, sempre atenta, tenha prometido "lutar pelos interesses portugueses"!

Significa isto que, actualmente, a irracional e absurda PAC (desenhada desde o início para os agricultores franceses e assim permanece no essencial) atribui  um subsídio de quase 25 cêntimos/quilo (!) ao produtor de tomate. Adivinhe só de onde vem o dinheiro!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A paz é o bilhete para a vitória

Patrick J. Buchanan, na sua coluna habitual na The American Conservative: Peace Is the Ticket to Victory. A tradução é da minha responsabilidade. Ver-se-á, dentro em pouco (quando acabar o debate que agora decorre), se Buchanan tinha razão.
Normalmente, não sempre, o partido da paz ganha.

O atear do fogo a Atlanta e a Marcha para o Mar do general Sherman asseguraram a Abraham Lincoln a reeleição em 1864. William McKinley, com o seu triunfo sobre a Espanha e a determinação em pacificar e manter as Filipinas, facilmente afastou William Jennings Bryan [da corrida presidencial] em 1900.

No entanto, Woodrow Wilson ganhou em 1916 com o slogan: "Ele manteve-nos fora da guerra!" E Dwight Eisenhower conquistou uma vitória esmagadora com a sua declaração sobre o impasse da guerra de Harry Truman: "Irei à Coreia." Richard Nixon prometeu em 1968 que "a nova liderança porá fim à guerra e ganhará a paz". O vice-presidente Hubert Humphrey, com dois dígitos de desvantagem nas sondagens, em 1 de Outubro, prometeu suspender o bombardeamento do Vietname do Norte. Ele uniu o seu partido e diminuiu a diferença para menos de um ponto no dia da eleição.

George McGovern concorreu como o candidato anti-guerra em 1972. Em Novembro, porém, quase todas as tropas americanas no Vietname tinham regressado a casa, e no final de Outubro Henry Kissinger tinha anunciado: "A paz está próxima." Nixon tinha expropriado a questão da paz. Resultado: 49 estados.

Hoje, após as mais longas guerras da nossa história no Afeganistão e no Iraque, os americanos estão fartos dos 6.500 mortos e dos 40.000 feridos, fartos dos 2 milhões de milhões de dólares do custo da guerra e desiludidos com os resultados que uma década de sacrifícios produziu em Bagdad e em Cabul.

Consciente deste cansaço de guerra, especialmente entre as mulheres, o presidente Obama e o vice-presidente Biden parecem dispostos a comparecer perante a nação no dia da eleição como o único partido da paz. Este facto ressalta de uma leitura atenta da transcrição do debate por parte de Biden.

Estatismo e mercado: incompatibilidade universal

Por Henry Payne

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Citação do dia (87)

"The first lesson of economics is scarcity: there is never enough of anything to satisfy all those who want it. The first lesson of politics is to disregard the first lesson of economics."
Thomas Sowell

Steve Forbes apela ao regresso ao padrão-ouro

A política monetária levada a cabo pela generalidade dos bancos centrais tem visado, sistematicamente, sustentar o preço dos activos e o aparecimento cíclico de cada vez maiores bolhas especulativas. Para o efeito, têm fixado administrativamente as taxas de juro a níveis próximos de zero (política conhecida pela sigla ZIRP) daí decorrendo a efectiva destruição da poupança e dos aforradores, tudo isto levando a uma gigantesca redistribuição da riqueza em favor dos tubarões protegidos pelas promessas de bailouts.

Vai, felizmente, crescendo a voz dos que se opõem a esta insanidade cleptocrática. Steve Forbes é um nome de peso que se junta à causa daqueles que defendem o retorno a um regime monetário fundado no padrão-ouro - Gold Can Save Us From Disaster.