quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Da "oportunidade" de combate ao desemprego do furacão Sandy

É, por assim dizer, fatal como o destino. De cada vez que ocorre uma desgraça natural - um furacão, um sismo, um tsunami - ou não natural - uma guerra, ou um qualquer devaneio de governantes sob regime ditatorial (ocorre Ceausescu e a destruição que levou a cabo do centro histórico de Bucareste) ou democrático (por exemplo as olimpíadas de Atenas que ontem aqui referia) - eis que comentadores de vária espécie e, em particular, economistas de uma escola de pensamento conhecida, exultam com as "oportunidades" de "crescimento" que elas supostamente proporcionam. Quem, entre os menos novos, não se lembra, por exemplo, de ler e ouvir que o atraso português se atribuía à circunstância, desfavorável, de não termos participado na II Grande Guerra?

Robert P. Murphy, em Hurricanes Are Nature’s Keynesianism, desmonta pela n-ésima vez a mistificação keynesiana. Pareceu-me oportuno proporcionar uma tradução, de minha responsabilidade, do seu artigo na The American Conservative.
Era inevitável que com a chegada do furacão Sandy vários analistas económicos iriam especular sobre os seus efeitos sobre "a economia". Escusado será dizer que alguns diziam que o furacão iria estimular a despesa - tanto ao nível do comércio de retalho como ao da reconstrução - e nesse sentido poderia realmente proporcionar um aumento do PIB. Todo o episódio é ainda outro lembrete de que as velhas falácias teimam em persistir em economia. A noção de senso comum de que um desastre natural é algo de mau está correcta; só analistas "sofisticados" poderiam pensar de outra forma.

O problema básico aqui é o que Henry Hazlitt designou por "falácia da janela quebrada", seguindo a exposição famosa de Frédéric Bastiat. A ideia fundamental é que é uma miopia concentrar a atenção apenas no emprego dado aos trabalhadores que têm de proceder à reconstrução após um qualquer acto de destruição. No presente caso, é certamente verdade que os vidraceiros, os produtores de cabo telefónico e as diversas equipas de construção observarão uma maior procura pelos seus serviços após a passagem do furacão Sandy. Os seus lucros mais elevados, por sua vez, poderão levá-los a gastar mais em restaurantes, artigos de luxo e assim por diante, promovendo o emprego também nesses sectores [o "efeito multiplicador"]. Esta é a génese da noção de que um acto de destruição pode ser um mal que venha por bem.

Mas o que este ponto de vista esquece, explicou Bastiat e depois Hazlitt, é que as pessoas iniciais que estão a gastar dinheiro na reconstrução poderiam ter gasto o seu dinheiro noutras coisas. Assim, em vez de pagar, digamos, 1000 dólares para substituir a sua estilhaçada vitrina da loja, um lojista poderia em vez disso ter gasto 1000 dólares comprando um computador novo. Assim, a utilização adicional dada ao vidraceiro et al., por causa do furacão, seria meramente redireccionada da utilização que de outra forma poderia ter ido para a indústria de software e para todos os restaurantes, etc., nos quais os seus colaboradores teriam gasto os salários.

Além disso, Bastiat e Hazlitt assinalaram que não é simplesmente um jogo de soma nula: no caso do furacão, não há nenhuma nova riqueza criada, as pessoas têm que despender trabalho e outros recursos escassos apenas para regressar ao status quo. Na ausência da tempestade, as despesas extras teriam levado à criação de novos itens de riqueza, ou de um fluxo adicional de serviços.

Agora, um economista keynesiano sofisticado poderia responder aos meus argumentos acima apresentados argumentando de acordo com as linhas seguintes: "Sim, de um modo geral um desastre natural não confere qualquer benefício económico. Porém, no caso de existirem recursos disponíveis ociosos e um desemprego elevado -  situação que agora enfrentamos - o choque artificial da procura faz aumentar de facto o PIB, em vez de alterar meramente a composição daquilo que é produzido. As pessoas adicionais postas a trabalhar para reparar os danos causados por tempestades não se limitam a provir de outras cadeias produtivas, porque havia uma gigantesca pool de pessoas desempregadas nas vésperas da tempestade".

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Notícias do ultraliberalismo reinante (6)

Foi publicada hoje a portaria nº 352/2012 que visa actualizar a "regulação" do regime legal referente à abertura de novas farmácias (atribuição de alvará) e a transferência da sua localização (e do respectivo alvará). Podemos ficar descansados! Continua a vigorar um panóplia de medidas preventivas, respaldadas no "princípio da precaução", que assegura a impossibilidade de uma qualquer conjura capitalista nos envenenar, porventura em larga escala, na busca do lucro imoral (o das farmácias já existentes não interessa ao caso). Apenas um cheirinho quanto a alguns dos requisitos a observar para que uma nova farmácia possa surgir, recomendando também uma olhadela ao Capítulo III, referente à "transferência da localização da farmácia":

Epifania tardia (2)

Até já Miguel Sousa Tavares percebeu:

"Como se viu agora, pela estrutura de despesa do estado, 90 e tal e por cento disto é despesa fixa, ou seja, o estado não pode cortar isto sem estar a cortar ou no funcionalismo público, ou na defesa, ou na justiça, ou na política externa ou então nas prestações sociais das pessoas. Significa que não sobra nada, nem sequer para pagar a dívida que temos para reduzir o défice a zero, ou para o estado, ele próprio, investir."

Falácia ominosa

Quem percorra o país de automóvel fica siderado com o vasto conjunto de obras rodoviárias que ou já estão paradas ou se aprestam a parar. Para não falar das muitas mais que se concretizaram e nunca tiveram tráfego que se visse (não me canso de me espantar com a extraordinária variante ao Troviscal-Castanheira de Pera). Havia que aproveitar os fundos comunitários e "estimular" a economia, tanto mais que o país estava em recessão e o desemprego já subia. Era esta a doutrina oficial, nitidamente "crescimentista". De resto, havia que completar esse monumento à arrogância e ao desperdício do planeamento central baptizado, ao melhor estilo estalinista, por Plano Rodoviário Nacional.

Mas persiste a falácia ominosa. Ouve-se, inclusivamente de pessoas distintas e até de amigos com quem tenho o prazer de "terçar armas" a uma mesa de refeições: "não as acabar será o mesmo que jogar o dinheiro já despendido à rua". Mas não compreenderão que gastar ainda mais dinheiro em obras inúteis é desperdiçar ainda mais recursos que não temos? Haverá ainda alguma dúvida que teria sido melhor parar a desistir da construção de boa parte dos estádios de futebol do Euro quando a sua construção estava a meio? Ou será que acham preferível chegar a coisas como a que se segue a título de assegurar o prestígio do país (no caso, a Grécia) e, claro está, dos seus governantes?

Foto retirada deste conjunto
E não se pense que são apenas os PIIGS que embarcam neste frenesi "estimulador". Também os "conservadores" britânicos abraçaram a causa apesar dos seus efémeros efeitos no presente (e persistente dívida no futuro...).

Talvez por não irem facilmente em cantigas deste tipo, a Holanda é um dos poucos países que ainda mantêm  a notação AAA. O novo governo holandês acaba de anunciar o abandono "[d]a ideia da Holanda se candidatar a sedear os Jogos Olímpicos devido aos 'riscos financeiros'".

domingo, 28 de outubro de 2012

Citação do dia (89)

"It is hard to imagine a more stupid or more dangerous way of making decisions than by putting those decisions in the hands of people who pay no price for being wrong."
Thomas Sowell

O inesperado impacto do "multiplicador" do azeite

Segundo o Público,
A produção nacional de azeite atingiu, na última campanha, o valor mais alto desde os anos 1967 e 1968: 76.203 toneladas que ajudaram a estimular o ímpeto exportador do sector.
...
"Há cinco anos, ninguém teria imaginado que seria possível este crescimento. A forma como os indicadores dispararam não era expectável", admite Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, Associação do Azeite de Portugal.
Pois é, eis mais uma partida dos "multiplicadores". Depois dos tomates e das castanhas, chegou agora a vez do azeite surpreender (talvez não tanto os destinatários dos múltiplos subsídios à produção agrícola). Dogbert explica a coisa, de forma singela:


Portanto, e em resumo: não sendo as autoridades (nem de resto ninguém) capazes de antecipar o que vai acontecer, a prazo, com o mercado dos tomates ou o das castanhas, como crer, por um segundo que seja, na presunção - uma presunção fatal - de serem capazes de prever o resultado das escolhas e das interacções de milhões de indivíduos num dado intervalo de tempo? Não se trata de "errar" as previsões (por ter havido erro nas "contas"), trata-se tão só e apenas da incapacidade de prever o resultado de um fenómeno de  natureza caótica, não-linear. A Matemazição da disciplina da Economia é uma fraude intelectual como já em 1962, Ludwig von Mises, observava: "Como método de análise económica, a econometria é um acriançado jogo com números que em nada contribui para elucidar a realidade dos problemas económicos".

Futilidade estatista

O texto de que junto cópia digitalizada, da autoria de Paula Blank, inserto na edição em papel no Público de hoje, é um dos melhores exemplos que conheço em que se ilustra, com a crueza da realidade, a inutilidade do exercício voluntarista que constitui o Acordo Ortográfico de 1990. Falo dos propósitos enunciados pelos seus adeptos, em defesa da língua portuguesa, de um património que o Estado, na sua insuportável e aliás ilegítima presunção, entende ser de sua conta - e monopólio - tratar.

Andar há mais de 20 anos preocupados com algo de acessório, cuja adopção desfigura a forma escrita do português europeu (e africano) quando a evolução das variantes se vem realmente afirmando mas por uma cada vez maior dissemelhança vocabular e sobretudo sintáctica, é, também aqui, andarmos preocupados com o totalmente irrelevante e teimar em não querer ver a realidade. A tradução, de há muito, é uma das actividade em que a emergência das marcadas diferenças entre as variantes de português do Brasil e de Portugal é mais evidente. Trata-se de algo com que tenho lidado desde o tempo da faculdade e atravessou todo o meu percurso profissional. Hoje em dia, basta usar o Google (ou o Bing) para tentar traduzir um texto de uma qualquer língua que nos seja mais próxima. E retirar as devidas conclusões.

Paul Halley - Winter

sábado, 27 de outubro de 2012

Citação do dia (88)

Sempre achei fascinante a forma como muitos intelectuais, particularmente os de "direita", não se aventurando nos detalhes da coisa económica, por mero pudor ou simples desdém da disciplina (afinal uma dismal science, nas palavras de Thomas Carlyle), condensem o seu pensamento num único postulado actuante: o da (suposta) necessidade de subordinar a Economia à Política. E ponto. José Pacheco Pereira é um deles. Ao ler o artigo que hoje escreveu no Público (link ainda não disponível), recordei-me desta passagem de um texto que li muito recentemente  e que tentei traduzir da seguinte forma1:
"Os críticos da disciplina da Economia dizem que os economistas sabem o preço de tudo mas o valor de nada. Nada, talvez, seja tão intelectualmente perigoso no domínio das ciências políticas que um economista que apenas saiba de economia, excepto, acrescentaria eu, um filósofo moral que nada saiba de Economia."

Peter J. Boettke, Introdução à nova edição de Socialismo,
de Ludwig von Mises
1Procurarei regressar em breve a este (inesgotável) tema.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O multiplicador das castanhas

Ano de menos castanha, mas mais proveitos para produtores transmontanos.

Nota: durante este fim-de-semana, eventualmente num momento de pausa para provar umas castanhas, talvez valha a pena dar uma olhadela ao original da 5ª avaliação do FMI a Portugal (na página 13, há um parágrafo sobre "multiplicadores", matéria que tanto tem entretido os comentadores profissionais e contribuído para encher páginas dos jornais).

O longo prazo chegou e tão cedo não se irá embora

Vasco Pulido Valente (VPV), na sua crónica no Público de hoje, pergunta: "É a democracia compatível com o Estado providência?" Por outras palavras: será que precisamos de "suspender" a democracia para salvar o Estado social? VPV, fazendo referência aos apelos que se vão ouvindo para que um qualquer Monti lusitano ocupe o lugar de Passos Coelho, terminava a crónica com um sério aviso a Cavaco Silva "[Q]ue tome cuidado. Muito cuidado."

A mim, o que me parece totalmente incompatível é a persistência de um Estado social da dimensão do nosso quando a economia não gera recursos para o manter. E esse é que é o problema que em Portugal, praticamente, só Medina Carreira fala e os restantes, olimpicamente, ignoram (talvez por ignorância dos princípios elementares da aritmética). Não obstante, chega um momento em que já não será possível continuar a empurrar o problema com a barriga e, nestes últimos dois anos, já vimos sentindo a violência que o contacto com a realidade pode significar. Aliás, em minha opinião, boa parte do longo prazo de que falava Keynes, já chegou. E tão cedo não se irá embora.

O problema não me parece que resida na potencial oposição entre Estado social e democracia. A verdadeira questão está na (in)capacidade em ultrapassar a irresponsabilidade financeira do estado português democrático de que os últimos 38 anos constituíram exemplo exuberante. Mas um qualquer "Monti à moda do Minho" ou até mesmo um general, não poderá deixar de escapar ao inevitável recuo do Estado social1. Fá-lo-emos, como de costume, e por razões essencialmente ideológicas, demasiado tarde. Iremos pagar com língua de palmo por isso.
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1Por exemplo, nas pensões de reforma, através da introdução de plafonamento (veja-se o caso da Suíça onde a pensão máxima de reforma por velhice não excede os 1900 euros para um indivíduo e 2840 para um casal (dados de 2011)).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Esquizofrenia sem cura

Temos vindo a assistir a crescentes manifestações de protesto de muitos perante a falta de vontade incapacidade do governo em reduzir a despesa do Estado situação que, à superfície, seria de saudar não se desse o caso, quando a ameaça do "corte" recai sobre quem quer que seja, logo alguém vir "demonstrar" a sua "inviabilidade". Razões do domínio da "sensibilidade social" e do veemente repúdio do "economicismo" são invocadas para evitar o "recuo civilizacional" que significariam os temidos "cortes". E ficamos arrumados quanto à redução das despesas do Estado (Camilo Lourenço está mais confiante, mas francamente não percebo por quê). Os portugueses preferem, afinal, mais e mais impostos (ao que o governo, convenhamos, tem correspondido exemplarmente).

Há também os "crescimentistas" que contrapõem que o que é necessário é promover o "crescimento" e não reduzir a despesa pública porque tal induzirá e acentuará a "recessão". O instrumento essencial desta política, na míngua financeira em que nos encontramos, é essencialmente de ordem retórica. Mas quando o governo, por uma vez, anuncia quer[er] IRC de 10% para novas empresas já em 2013 (acima de um limiar de investimento de 3 a 5 milhões de euros) aqui-d'el-rei, grita João Proença, que afirma que IRC a 10% será uma "vigarice",

Ou seja, num país com uma taxa de desemprego elevadíssima, onde o investimento privado não ocorre, em boa medida pela descapitalização generalizada das empresas nacionais, Proença acha que as novas empresas, as que não existem, deviam também ajudar a pagar a crise pelo que oferecer-lhes a possibilidade de uma taxa de IRC competitiva (atrás da da Irlanda), seria ma "vigarice social". Vamos longe, vamos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Culpado até prova em contrário redux

Já me tinha pronunciado acerca do caso de Lance Armstrong tendo na altura concluído que estávamos provavelmente em presença de um caso típico de "culpado até prova em contrário". Nestes últimos dias em que o assunto voltou às primeiras páginas, nada li que me levasse a alterar a ideia que tinha formado.

Mas agora que, por intermédio de Gabriel Silva, dei conta da "prova" que "justifica" a retirada dos títulos de Armstrong, não posso calar a minha veemente indignação. Com a devida vénia ao blasfemo Gabriel Silva, reproduzo os dois excertos relevantes (meus realces):
«Armstrong’s refusal to testify and his refusal to confront the evidence against him leads to a strong inference that Armstrong doped exactly as charged by USADA [United States Anti-Doping Agency]» [página 88].

«Each of the six (6) witnesses who were still active cyclists at the outset of their cooperation with USADA has voluntarily accepted a sanction of six (6) months ineligibility and loss of competitive results as a consequence of his own rule violations.»[página 129]
Uma condenação pois sem qualquer prova e onde as testemunhas de acusação tinham interesse próprio em a sustentar pois eles sim foram "apanhados" em controlo anti-doping e deste modo se livraram de maiores penalizações. Uma vergonha sem nome.

George Carlin - On Global Warming

George Carlin já abandonou o mundo dos vivos há mais de 4 anos. Mas as suas palavras não estão menos actuais por isso. A linguagem é, como sempre, vernacularmente colorida.