Joseph T. Salerno explica a estreita relação entre a insane doutrina que defende que a destruição gera prosperidade e a "bondade" económica do militarismo.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
E não se esqueçam de agradecer
tamanha prodigalidade. Há quem nos pretenda assegurar que, apesar de tudo, tivemos muita sorte!
Sempre começa assim
Depois, e inevitavelmente, segue-se a destruição, metódica e sistemática da classe média.
Por Lisa Benson
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Esquema Ponzi (2)
A pouco e pouco, uma ou outra figura pública ousa dizer a verdade. Desta vez, também Mira Amaral verbaliza o Esquema Ponzi vigente e não poupa nas palavras equiparando a Segurança Social às actividades próprias da "Dona Branca" ou de Bernie Madoff.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Ron Paul - Discurso de despedida ao Congresso
Lew Rockwell classifica-o de um dos grandes discursos da História americana. Robert Wenzel concorda. Das intervenções que conheço de Ron Paul, esta (talvez a par daquela outra que proferiu este Verão em Tampa) é uma peça extraordinária. A transcrição do discurso está disponível aqui sendo que procurarei, logo que me for possível, disponibilizar uma versão em português. Em honra deste homem, íntegro e impoluto, apresento publicamente a minha homenagem e espero bem que este pré-anúncio se confirme.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Espuma noticiosa e substância
Banco de Portugal estima contracção de 1,6% em 2013 ou Défice externo será anulado neste ano e passará a excedente de 4% em 2013 são dois dos títulos que o Jornal de Negócios escolheu para noticiar(?) a publicação do Boletim Económico do Banco de Portugal (Bdp) relativo ao Outono 2012.
Muito pouco interessa se é mais 1% para a esquerda ou menos 1% para a direita, para cima ou para baixo ou na diagonal (no plano ou no espaço). O que interessa, o que é substancial, pelo menos na óptica do BdP é o seguinte (página 10, parte do penúltimo parágrafo do sumário executivo do Boletim Estatístico (itálicos meus)):
A gestão da dinâmica do processo de ajustamento da economia portuguesa coloca importantes desafios de política. Uma eventual moderação da intensidade do esforço de ajustamento, designadamente ao nível orçamental, está condicionada pela garantia de condições de financiamento para a economia portuguesa e implica uma maior acumulação de dívida, agravando as suas condições de sustentabilidade. Nestas condições, um ajustamento orçamental que contribua para o crescimento potencial da economia é inadiável.
A falácia do esgotamento de recursos (legendado)
Já aqui tinha feito eco deste clip protagonizado por Steve Horowitz. Por se tratar de uma recorrente falácia, parece-me fazer todo o sentido republicá-lo agora que, via Fakeclimate, me apercebi da existência de uma versão legendada em português do Brasil.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
BBC-A vaca sagrada (e desgraçada) do serviço público
ACTUALIZAÇÃO: via WUWT, está disponível a lista dos 28 participantes (obtida por meios lícitos) no encontro abaixo referido, até aqui secreta - e durante seis anos!
Vivemos e crescemos ouvindo e lendo que, ainda que individual ou colectivamente não soubéssemos definir (como ainda não o sabemos ou saberemos por mera impossibilidade lógica) o que era o "serviço público" de televisão e rádio, havia um farol que aspergia luz sobre este formidável tema. Falo, naturalmente, da BBC (a que já aludi em anteriores ocasiões aqui e aqui). O episódio singelo que Christopher Booker conta na sua crónica de 6ª feira passada no Telegraph, é bem mais luminoso que o mítico farol. Assim a modos de como esta "notícia" ser a negação do jornalismo. A responsabilidade da tradução é naturalmente minha.
Vivemos e crescemos ouvindo e lendo que, ainda que individual ou colectivamente não soubéssemos definir (como ainda não o sabemos ou saberemos por mera impossibilidade lógica) o que era o "serviço público" de televisão e rádio, havia um farol que aspergia luz sobre este formidável tema. Falo, naturalmente, da BBC (a que já aludi em anteriores ocasiões aqui e aqui). O episódio singelo que Christopher Booker conta na sua crónica de 6ª feira passada no Telegraph, é bem mais luminoso que o mítico farol. Assim a modos de como esta "notícia" ser a negação do jornalismo. A responsabilidade da tradução é naturalmente minha.
Um notável drama legal desenrolou-se recentemente em Camden Town, em Londres, opondo um solitário reformado do País de Gales à poderosa BBC, representada por uma bateria de advogados altamente bem pagos. Foi travada uma batalha para determinar o direito da BBC, sob a Lei de Liberdade de Informação [Freedom of Information Act-FOIA], de manter em segredo a forma pela qual chegou à tomada de uma decisão política importante, a qual, desde há seis anos, lhe tem permitido operar em violação das suas obrigações legais impostas pelos seus Estatutos [Charter].
O BBC Trust não esconde o facto de que um seminário de "alto nível", em 2006, no qual participaram "cientistas peritos", conduziu à decisão de que a BBC deveria assumir uma posição vincadamente proactiva na promoção do alarme relativo ao aquecimento global, ignorando ou ridicularizando qualquer um que ouse questioná-lo. Isso foi feito com pleno conhecimento de que assim se contrariavam os Estatutos da BBC os quais prevêem que a sua cobertura de temas polémicos deva ser imparcial.
Tudo neste seminário, realizado em segredo no Centro de TV e que contou com a participação da cúpula da BBC, foi estranho. Foi organizado por um pequeno grupo de pressão criado pelo jornalista da BBC, Roger Harrabin, para promover o alarme do aquecimento global nos media, financiado por dinheiro público e por outros grupos de pressão sobre o clima.
A loucura monetária (6)
Continuado daqui (Partes I, II, III e IV), termino agora a publicação da tradução do artigo de Detlev Schlichter (numa tradução da minha responsabilidade) elaborado com o propósito de refutar (por KO técnico, acrescento eu) a argumentação dos autores do "Documento de Trabalho" (do FMI, recorde-se) no sentido da defesa da integral estatização da moeda, etapa essencial à construção de um estado totalitário. Numa reedição da mais absoluta "exuberância irracional" dos protagonistas da manipulação/criação da moeda (vide no actual "Super Mário" ou no anterior "Maestro"), supostamente a bem da promoção da "riqueza" e da salvação do desastre (para onde, aliás, nos conduziram), os autores do "Documento de Trabalho" propõem um verdadeiro passo de prestidigitação conseguido por decreto estatal: contabilisticamente, o Estado passaria a "fabricar" os seus próprios "activos" e portanto a "riqueza" colectiva. Loucura maior, seria difícil.
Activos místicos
Lembram-se do que eu disse acima quanto a pôr em circulação os nossos próprios cheques como meios fiduciários? Essa é uma descrição bastante boa relativamente à emissão de papel-moeda. O novo papel-moeda posto a circular é contabilizado como uma responsabilidade no balanço do seu criador, e as coisas que ele adquire através da emissão / despesa deste novo dinheiro de papel tornam-se nos correspondentes activos. Através da emissão de papel-moeda, o criador da moeda aumenta o seu balanço, enquanto que aqueles que transaccionam com o criador da moeda não aumentam nem diminuem os seus balanços mas observam uma troca de posições no lado do activo dos seus balanços, substituindo outros activos anteriormente detidos pela nova moeda.
Isto pode igualmente ser observado na criação da base monetária (reservas bancárias extra) pelos bancos centrais de hoje. Quando a Reserva Federal cria um 1 trillion de dólares extra como parte do "quantitative easing" e decide comprar títulos suportados em hipotecas aos seus bancos membros, o balanço da Fed expande-se de 1 trillion de dólares. As novas reservas bancárias estão do lado das responsabilidade no seu balanço, enquanto os títulos apoiados em hipotecas ficam no lado do activo. Os balanços dos bancos não se expandem como resultado da operação da Fed. Os bancos simplesmente substituem as hipotecas pelas novas reservas. Ambas estão no lado do activo dos seus balanços. O seu mix [a sua composição] de activos mudou. Eles têm agora mais reservas.
Este processo pode ser prolongado até que praticamente todos os activos no banco sejam transferidos para o banco central e os [depósitos nos] bancos estejam completamente cobertos por reservas e, assim, deixam de funcionar como bancos de reservas fraccionárias. Este foi precisamente o processo que Irving Fisher tinha em mente quando escreveu "100% Money" em 1935 (ver página 57), e Milton Friedman, quando escreveu "A Program For Monetary Stability", em 1960.
Em nenhum momento qualquer destes economistas sugeriu, nem nenhum banco central sugere hoje, que a criação de novo papel-moeda aumenta a riqueza geral da sociedade, que há agora mais activos na sociedade. É igualmente claro deste processo que o "perdão de dívida" pelo banco central é difícil. O banco central pode emitir suficiente moeda-reserva para adquirir todos os activos dos banco mas sempre que abata o valor contabilístico de qualquer um desses activos também tem de diminuir o passivo do seu balanço, tem que destruir moeda-reserva.
domingo, 11 de novembro de 2012
A loucura monetária (5)
Continuado daqui (Parte I, Parte II e Parte III), publico agora a penúltima parte do artigo de Detlev Schlichter, uma tradução da minha responsabilidade onde se demole sistemática e definitivamente a argumentação pseudo-histórica / antropológica a que os autores do "Documento de Trabalho" recorrem para defender a integral estatização da moeda. Como era de esperar, invocam sucessivos casos de recurso a moeda de papel, que classificam de "crucialmente vantajosos" [!]. As "vantagens" que já se antecipariam: as do financiamento das guerras [civis e imperiais]. De Esparta e Atenas, à Guerra da Independência, à Guerra Civil na América, à República de Weimar.
Sem teoria, mas recorrendo a uma história revisionista
Que a distinção entre moeda "produzida privadamente" e a moeda "produzida pelo estado" tem significado e é importante é o que Benes e Kumhof tentam argumentar numa secção separada do seu ensaio. Aqui, eles afastam-se completamente de qualquer análise tradicional da moeda ou até mesmo do que ainda se poderia designar por "económico". Uma análise económica da moeda entende a moeda como uma instituição social útil e como tal tem de se iniciar por uma investigação sobre como se processa a utilização da moeda em geral, incluindo a que acontece hoje pelos utilizadores de hoje (incluindo o leitor e eu), e tenta explicar, através do raciocínio lógico, o que deveria ser por conseguinte uma boa moeda num contexto geral, incluindo o presente. Benes e Kumhof, no entanto, não argumentam conceptualmente como teóricos económicos mas como re-intérpretes da história. A história pode-nos dizer o que é uma boa moeda e como ela surge. Os antropólogos e historiadores monetários que Benes e Kumhof citam alegam que porque a moeda se originou - supostamente - com o Estado, a sua emissão é melhor controlada pelo Estado. Novamente, nenhuma explicação económica - conceptual, lógica ou teórica - é dada para o por quê de dever ser esse o caso e por que tal pode ser acolhido como uma regra geral. Alegadamente, a história diz-nos que o Estado é um emissor responsável de moeda e que o sector privado é um emissor irresponsável. E tudo se resume a isto.
A interpretação do registo histórico que é fornecida como suporte desta alegação varia entre o registo aventureiro e o bizarro a título definitivo. Exemplos em que a convertibilidade do dinheiro-depósito, em ouro e prata, foi abandonada por decreto oficial e vastas quantidades de moeda fiduciária foram criadas para financiar guerras, revoluções ou outras despesas do Estado, como durante a Guerra Revolucionária na América, a Guerra Civil nos Estados Unidos, ou a Alemanha de Weimar dos anos 1920, são reinterpretados para mostrar que as inflações que se seguiram e os desastres definitivos das respectivas moedas não podem ser atribuídos ao estado, mas são inteiramente resultado do envolvimento de emitentes "privados" de moeda.
"O papel-moeda colonial emitido pelos estados individualmente [os estados que deram origem à América por secessão da Grã-Bretanha] foram da maior vantagem económica para o país ... A Moeda Continental emitida durante a guerra revolucionária foi crucial para permitir que o Congresso Continental financiasse o esforço de guerra. Não houve emissão excessiva pelas colónias, ... Os Greenbacks emitidos por Lincoln durante a Guerra Civil foram novamente uma ferramenta crucial para financiar o esforço de guerra, (Hurra! Outra cortesia da guerra do papel moeda!) ... A única mácula no registo estatal relativamente à emissão monetária pelo estado foi deflacionária e não de natureza inflacionária."A sério? Os "colonials" que foram emitidos para financiar a guerra com a Grã-Bretanha acabaram sem qualquer valor, e até hoje permanece no idioma a expressão "sem valor tal como um continental". O período da Guerra Civil foi igualmente um período de inflação anormalmente elevada, e em 1879 os EUA decidiram voltar ao padrão-ouro, altura a partir da qual se instalou um período de crescimento considerável e crescente prosperidade.
A tragédia dos comuns da democracia portuguesa
Um extracto da crónica de Alberto Gonçalves, intitulada "A Oeste nada de novo" onde se evidencia a dissonância cognitiva vigente:
É preciso notar que o eleitorado, ou pelo menos a parte do eleitorado que pesa, não está descontente com os senhores da coligação do poder por estes terem demorado ano e meio a iniciar, segundo consta, um esboço de reforma estatal. O eleitorado anda irritado porque o Governo vem aumentando os impostos para evitar bulir no Estado. Quando, e se, bulir, o eleitorado andará irritadíssimo. Poucos são os que desejam reformas, "refundações" ou mudanças: milhões de criaturas sonham com a imobilidade absoluta, mesmo após constatarem que essa imobilidade possui um custo que, a pronto ou habitualmente a crédito, não poderemos continuar a pagar.
Paradoxal? Os paradoxos não nos atrapalham. É por isso que enquanto nos queixamos da crise estamos dispostos a legitimar nas urnas o exacto partido que apressou a crise e as exactas alucinações que tornaram a crise obrigatória. Como o maluquinho que volta a enfiar o dedo na tomada depois de cada choque, uma impressionante quantidade de portugueses não aprende. E é duvidoso que venha a aprender.
A loucura monetária (4)
Continuado daqui (Parte I e Parte II). Nesta secção, Schlichter aborda o funcionamento actual do sistema bancário totalmente assente em moeda fiduciária e explica como ele decorre essencialmente do modus operandi do banco central, ou seja, da vontade dos estados. É por essa razão que defende ser impróprio categorizar a banca de "privada" no arranjo institucional hoje existente. A criação de moeda-depósito a partir do nada é um facto mas tal só acontece porque os bancos centrais o permitem e o estimulam. Só o regresso ao padrão-ouro - a perspectiva dos Austriacos - permitirá fazer regressar a sanidade monetária e o fim dos ciclos de expansão e recessão associados à expansão do crédito (e necessária correcção posterior).
Benes e Kumhof criam um problema artificial(Continua)
Para qualquer análise do actual sistema financeiro, uma distinção entre moeda criada pelo Estado e moeda criada por privados é completamente artificial e não proporciona qualquer utilidade porque, no nosso sistema monetário, a moeda é criada por um processo no qual os bancos "privados" estão intimamente ligados ao banco central estatal. Qualquer distinção entre "privado" e "estatal" é, portanto, arbitrária, e, para uma análise das consequências económicas de tal sistema, desprovida de sentido. Sim, a maior parte da moeda em circulação é hoje moeda-depósito e faz parte dos balanços dos nominalmente bancos "privados", mas as reservas estão constituídas na forma de moeda fiduciária estatal, sendo apenas criadas pelo banco central estatal, no qual os bancos nominalmente privados têm que ter uma conta para que possam obter uma licença bancária. Os bancos que operam sob um regime de reservas fraccionárias dependem fundamentalmente dos bancos centrais, patrocinados e controlados pelo Estado, que têm uma função de emprestador de último recurso e que podem - num sistema de moeda fiduciária - criar reservas bancárias segundo o seu livre arbítrio, sem custos e sem limite, e estão, em circunstâncias normais, dispostos a fazê-lo para apoiar [no limite, salvar] os bancos. Sem esse apoio fundamental, o sistema bancário de reservas fraccionárias, à escala que tem sido praticada nos anos e décadas recentes, seria inconcebível. Na sua descrição do sistema actual, Benes e Kumhof não têm em conta nada disto. Com toda a franqueza, não parecem entendê-lo.
Eis duas afirmações do ensaio do FMI que podem parecer à primeira vista razoáveis, mas que, sob inspecção mais minuciosa, revelam o grave mal entendido do nosso sistema actual revelado por Benes e Kumhof:
"Num sistema financeiro com pouco ou nenhum suporte dos depósitos através de reservas, e com o dinheiro [notas] emitido pelo governo a desempenhar um papel muito pequeno relativamente aos depósitos bancários, a criação dos agregados monetários de uma nação depende quase inteiramente da disposição dos bancos em fornecer depósitos." (página 5)Mas o que determina a disposição dos bancos em oferecer depósitos? Um sistema bancário de reservas fraccionárias (que oferece depósitos) é lucrativo, mas é também arriscado para os bancos caso o público possa exigir o reembolso dos depósitos em dinheiro ou via transferência para outros bancos, e os bancos não podem criar dinheiro [notas] ou moeda sob a forma de reservas, o que é necessário para facilitar as transferências. Estas formas de moeda permanecem uma prerrogativa do banco central do Estado. É a certeza, ou a alta probabilidade, sob os presentes arranjos institucionais, que o banco central irá apoiar os bancos e continuar a fornecer qualquer quantidade de moeda e reservas ["liquidez"] que seja necessário, que permite aos bancos oferecer - de forma muito rentável, claro - grandes quantidades de moeda-depósito a partir de uma pequena quantidade de moeda-reserva. Caso o público exija o pagamento em dinheiro [notas], há a expectativa, razoável, de que o banco central apoie os bancos e forneça o dinheiro [notas] necessário.
Nas últimas décadas, o sistema bancário mundial encontrou-se em numerosas ocasiões numa posição em que sentiu que tinha assumido um risco financeiro demasiado elevado e que uma desalavancagem e uma diminuição do seu balanço era aconselhável. Eu sugeriria que foi este o caso em 1987, 1992/3, 1998, 2001/2, e, certamente, 2007/8. No entanto, em cada uma dessas ocasiões, o impacto económico mais amplo de uma tal estratégia de diminuição do risco foi considerada indesejável ou mesmo inaceitável por razões políticas, e os bancos centrais ofereceram amplas novas reservas bancárias a um custo muito baixo com a finalidade de desencorajar a contracção monetária e incentivar uma adicional expansão monetária, ou seja, a criação adicional de reservas fraccionárias. É assim de admirar que os bancos tenham continuado a produzir grandes quantidades de dinheiro-depósito - de forma rentável, claro? Poderá o resultado ser realmente atribuído à iniciativa "privada"?
Um sistema bancário de reservas fraccionárias à dimensão que hoje existe exige duas coisas: 1) um banco central patrocinado pelo Estado que tem o monopólio da criação de reservas e a função de emprestador de último recurso do sector bancário; 2) o banco central tem de ter o controle completo sobre as reservas bancárias e ser capaz de as criar, sem custos e sem limites. Em suma, a condição prévia para a existência em grande escala de um sistema bancário de reservas fraccionárias é um sistema completa e irrestritamente fiduciário [fiat]. Em contraste, a capacidade do banco central para criar reservas está fundamentalmente restrita sob um regime de padrão-ouro.
O padrão-ouro foi abolido e substituído por um sistema inteiramente irrestrito de moeda estatal fiduciária mediante um acto político. O Estado estabeleceu bancos centrais monopolistas que têm uma função de emprestador de último recurso ao sector bancário. O estado criou assim a infra-estrutura que permite aos bancos fornecer grandes quantidades de depósitos e, ao longo de décadas, tem repetidamente subsidiado esta actividade e socializado os seus riscos.
Aqui está a segunda afirmação de Benes e Kumhof:
"O controlo do crescimento do crédito seria muito mais directo porque os bancos já não seriam capazes, como são hoje, de gerar o seu próprio financiamento, depósitos, no acto de emprestar, um privilégio extraordinário que não é usufruído por nenhum outro tipo de negócio."(página 5)Mas o que, exactamente, constitui o privilégio? - Numa sociedade livre, somos naturalmente livres de emitir os nossos próprios meios fiduciários - basta que passemos cheques sobre nós mesmos e, de seguida, os ponhamos a circular como substitutos de dinheiro. Provavelmente teremos de convencer o público que iremos converter esses cheques em dinheiro próprio a pedido, de modo a persuadir o público a usar os cheques como equivalentes a dinheiro, e mesmo assim é possível que não tenhamos sucesso. Mas se o público acreditar em nós e o nosso esforço for bem sucedido, tornámo-nos de facto em produtores de moeda e podemos financiar os nossos próprios empréstimos com os nossos cheques. Na verdade, foi basicamente assim que se originou o sistema bancário de reservas fraccionárias. Até agora, pois, nenhum privilégio. O negócio só se torna privilegiado, e possível na escala a que assistimos hoje, uma vez que o Estado o suporta. A solução "Austríaca" é simples: remova-se o privilégio! Sem moeda fiduciária, sem os bancos centrais e sem o seguro dos depósitos patrocinado pelo Estado, vejamos quanta criação de moeda "privada" haverá realmente!
sábado, 10 de novembro de 2012
A loucura monetária (3)
Continuado daqui (e daqui), publico agora a tradução da Parte III da contra-resposta de Detlev Schlichter ao "Documento de Trabalho", publicado por dois funcionários do FMI, que advoga a total estatização do controle da moeda por parte do Estado. Neste trecho, Schlichter demonstra que a abordagem dos seus autores não se enquadra em nenhuma teoria monetária - "Austríaca" ou "Monetarista" - o que acaba por se compreender já que a tese principal do ensaio se estriba em argumentos não-económicos.
O que este ensaio não é: não é nem "Austríaco" nem Monetarista
Benes e e Kumhof, cedo no seu artigo, afirmam que o sistema de reservas fraccionárias aumenta o risco de corridas aos bancos, provoca ciclos económicos de prosperidade exuberante [boom] e de recessão e que um sistema de reservas a 100 por cento iria assegurar uma maior estabilidade. Estas observações são, em princípio, correctas. Mas, infelizmente, por aqui se ficam. Benes e Kumhof não desenvolvem estas ideias. Na verdade, para a sua própria argumentação, estas ideias são completamente irrelevantes. No seu artigo não se dão ao trabalho de investigar toda a gama de efeitos da expansão do crédito bancário questionando, por exemplo, se a expansão da base monetária levada a cabo pelo banco central sob um sistema de reservas a 100% não poderia ter efeitos semelhantes ou até os mesmos efeitos adversos que a expansão da moeda-depósito tem num sistema de reservas fraccionárias.
A Escola Austríaca tem fornecido a análise mais abrangente dos efeitos da expansão do crédito bancário e tem mostrado de forma conclusiva por que os sistemas monetários mais inelásticos ("mais fortes") ["harder"] proporcionam uma maior estabilidade. A expansão da oferta monetária tem sempre efeitos perturbadores pois o influxo de dinheiro novo tem necessariamente de distorcer as taxas de juro, e as taxas de juro são cruciais para a coordenação das actividades de investimento com poupança voluntária. A pergunta que os "Austríacos" perseguem não é quem é que deve controlar a criação de moeda, mas se alguém deve controlar a criação de moeda. Deveria mesmo alguém poder criar moeda numa base contínua? Uma vez que um bem de oferta razoavelmente inelástica, como é o caso do ouro, seja amplamente aceite como moeda, qualquer quantidade desse activo monetário - dentro de limites razoáveis - é suficiente, e de facto ideal, para satisfazer qualquer procura de moeda. A procura de moeda é a procura de poder de compra na forma de dinheiro, e pode sempre ser satisfeita permitindo que o mercado ajuste o preço do activo monetário relativamente aos bens não-monetários. Não é necessária nenhuma criação de moeda e qualquer processo permanente de criação de moeda é na verdade perturbador.
Os "Austríacos" tendem a ser crítico do sistema bancário de reservas fraccionárias mas eles são igualmente críticos - na realidade, ainda mais críticos - da moeda fiduciária e do banco central. Os problemas que eles estudaram também ocorreriam - e são até mais prováveis de ocorrer - se o sistema bancário de reservas fraccionárias fosse substituído por um gigantesco banco central do Estado.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
A loucura monetária (2)
Continuado daqui, publico agora a Parte II do artigo de Detlev Schlichter que, como expliquei anteriormente, me propus divulgar aqui traduzindo-o para português. Schlichter começa por apresentar uma sinopse da tese nuclear do ensaio, publicado por dois técnicos do FMI (Jaromir Benes e Michael Kumhof), e faz desde logo notar que a "âncora" invocada no título do ensaio - The Chicago Plan Revisited é totalmente mistificadora pois a argumentação expendida nada tem a ver com os expoentes teóricos daquela Escola (Irving Fisher, Henry Simons ou Milton Friedman). Schlichter termina esta parte do seu contra-artigo explicitando o caminho que se propõe trilhar na refutação das teses presentes no ensaio. Fica de qualquer modo já claro que a tese dos seus autores não é mais que uma "justificação" para uma ainda maior estatização da economia ao reclamar um integral monopólio estatal no domínio da moeda.
Harry Potter encontra Irving Fisher
A proposta em discussão é o Documento de Trabalho [Working Paper] do FMI 12/202 por Jaromir Benes e Kumhof Michael [link]... Intitula-se "O Plano de Chicago Revisitado" e apresenta-se como uma reafirmação das ideias de Irving Fisher e Henry Simons, da Universidade de Chicago, nas décadas de 1930 e 1940, e uma aplicação destas ideias à presente crise. Nele se sugere o seguinte:
A criação de "moeda privada" é a raiz de todos os males da economia. A maior parte da moeda, hoje, é criada por bancos "privados" através do sistema de reservas fraccionárias. Isso significa que a criação de moeda está ligada à concessão de empréstimos e à acumulação de dívida. Um sistema de reservas a cem por cento deve ser estabelecido pelo estado e o estado irá imediatamente reprimir qualquer tentativa por parte do sector privado para emitir instrumentos financeiros líquidos - quase moeda - que poderiam ser aceites pelo público como equivalentes a moeda. A criação de moeda é colocada sob o controle total do Estado. O novo sistema deve ser implementado imediatamente num único grande movimento: os bancos são obrigados a pedir emprestadas as reservas necessárias ao Governo (ao Tesouro) para atingir instantaneamente os novos rácios de reservas a 100 por cento . O governo cria essas reservas - como é habitual num sistema de moeda fiduciária - a partir do nada. Nos EUA, este plano ascenderia a um montante de novas reservas na ordem dos 184 por cento do PIB, de acordo com Benes / Kumhof, o que significa 27,6 milhões de milhões de dólares ou 15 vezes a dimensão combinado dos QE1 e QE2 [acrónimos das duas primeiras rondas de "Quantitative Easing"]. Com a nova exigência de reservas de 100%, essa moeda não irá circular não permitindo a criação de mais crédito bancário, o que - esperam os autores - tornará esta intervenção não inflacionária. (Uma parte das novas reservas também será cancelada na próxima etapa.) As novas reservas permitirão ao governo / banco central, por fim, transferir a propriedade dos activos bancários para si próprio.
É importante realçar que essas novas reservas são constituídas por um processo muito diferente do que sucede com os bancos de hoje, por exemplo, através do "alívio quantitativo", e do que foi sugerido por Irving Fisher em 1935 ("100% Money" [link]), ou por Milton Friedman em 1960 ("A Program for Monetary Stability" [link]). Estes processos mais "convencionais" não permitem qualquer eliminação de dívida em grande escala. Os bancos centrais adquirem activos bancários trocando-os pela nova moeda-reserva, que constituem como um crédito sobre si mesmos (uma responsabilidade) e, sob os princípios contabilísticos normais, qualquer redução dos novos activos ("perdão" de dívida) causaria necessariamente também a extinção das reservas bancárias. O abate da dívida reduz o balanço do banco central e, assim, reduz o passivo do banco central, ou seja, reduz as reservas do sistema bancário.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
