segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O regresso anunciado da célula de hidrogénio

Há já quase 2 anos anos perguntava aqui, em jeito sardónico, qual seria a razão pela qual os governos, tão entretidos a estimular subsidiar os veículos automóveis de tracção eléctrica em nome da economia "verde"  se mostravam aparentemente desinteressados pela alternativa, tecnologicamente viável, da célula de combustível a partir do hidrogéneo. Ao que parece, a tecnologia "convencional" das baterias ofereceria melhores expectativas no curto/médio prazo. Sabemos o caminho que as coisas tomaram: um fracasso monumental apesar do dinheiro torrado pelos governos na sua promoção (com os EUA de Obama em lugar de destaque e Portugal com a fantástica inutilidade da socratina rede Mobi.e) e inúmeros fumos, quando não fogos, de ocorrupção na disputa pelos "estímulos". O entusiasmo foi, pouco a pouco, esmorecendo e até a BBC já publica textos como Electric cars 'pose environmental threat (!)

Ora é hoje notícia, via Bloomberg, que a Daimler, a Nissan e a Ford celebraram entre si um acordo tendo em vista o desenvolvimento de veículos movidos a células de combustível, à semelhança do que a Toyota e a BMW anunciaram no passado dia 24 (para além da Hyundai). Como se refere na notícia, "[a]s células de combustível produzem electricidade através da combinação de hidrogénio e oxigénio, libertando vapor de água no processo. Comparado com os veículos eléctricos alimentados por baterias, os automóveis alimentados a células de combustível têm uma autonomia mais próxima da dos veículos com motor de combustão e o tempo de reabastecimento é comparável ao de encher um depósito de gasolina". Ou seja, parecem ser capazes de contrariar a razão pela qual os carros eléctricos foram postos de pousio durante bem mais de um século (pela sua pequena autonomia) em desfavor dos movidos pelo motor de explosão.

Uma boa notícia, entretanto: pelo menos por enquanto, não se ouve falar de estímulos subsídios governamentais. Um bom sinal de sanidade económica assim tenhamos a (improvável) sorte de os políticos não se intrometerem... 

Ricardo Arroja - politicamente (in)correcto

Tinha dado conta da genericamente favorável recensão de Filipe Faria ao recente livro de Ricardo Arroja (RA), "As Contas Politicamente Incorrectas da Economia Portuguesa", pelo que ontem, deambulando numa livraria, não sem que antes tenha lido integralmente o prefácio da autoria de Vítor Bento, resolvi comprá-lo.

Vítor Bento põe o dedo bem dentro de uma das mais fé feridas de que sofremos. Julgo valer a pena transcrever um excerto onde ela é bem caracterizada:

«Sobre um alicerce frágil não é possível edificar uma casa sólida. Da mesma forma, apoiado em factos errados, não é possível construir uma argumentação certa» ... «Este é o mal de que padece grande parte do comentário público em Portugal e, frequentemente, do próprio reporte noticioso, e que muito contribui para a pobreza do debate político-social. Uma tremenda falta de rigor no tratamento factual daquilo sobre que se pretende argumentar e que não pode deixar de levar a conclusões erradas».

E é aqui que se torna incompreensível - esta é, aliás, a única razão pela qual escrevo estas linhas -, as referências "definitivas", as que não "parecem"(*) pois, serão, supostamente, incontestáveis. Uma é a persistência na falácia que a "Educação" é um dos factores da nossa baixa produtividade (p. 65) e impeditivo de uma "modernidade sustentável". A outra, pedindo emprestada a expressão ao Prof. Pinto de Sá, deixa-me completamente desaustinado. Afirmando - correctamente - que "[o] problema da electricidade cara é, aliás, um problema sério, com efeitos transversais a toda a indústria", e que a electricidade em Portugal é caríssima, escreve mais à frente (meu realce):
"[É] provável  que a melhoria da balança comercial [de combustíveis minerais] tenha passado pela substituição das importações, nomeadamente pela substituição das importações de petróleo por via da produção de energias renováveis. Afinal, a aposta nas renováveis sempre serviu para alguma coisa."
Ora, como o Prof. Pinto de Sá demonstra à evidência no seu post Electricidade a petróleo em Portugal, tal é rotundamente falso. Das duas centrais térmicas a fuel-óleo que foram construídas no continente, a do Carregado já há anos que foi reconvertida para gás natural (de "ciclo combinado") e a de Setúbal que só muito raramente é utilizada. Há quem persista em não ver o que entra pelos olhos dentro: o desastre, a vigarice, das novas renováveis, em particular da eólica (hídrica com bombagem reversível incluída) pelo peso relativo que atingiu entre nós. Pelo menos neste tema, Ricardo Arroja também sucumbiu, afinal, ao politicamente correcto, à propaganda "verde".

E não é só cá, é por todo o mundo que o recurso à queima de petróleo (fuel) para produzir electricidade quase desapareceu, como bem resume este gráfico que roubei a Antón Uriarte:


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(*) E com efeito, embora o livro se caracterize por um registo para-jornalístico, é certo que RA se preocupa, através do recurso a sucessivas notas de rodapé em referir as fontes que vai convocando para justificar as afirmações que produz ( 282, se contei bem, ainda que em geral ultra-telegráficas e muitas delas refiram "cálculos do autor"). Uma nota curiosa para referir que o livro não contém um único gráfico ou tabela o que porém não o impede de recorrer a uma prosa, digamos, profusamente estatística.

Muitas das suas afirmações são pelo menos contestáveis o que só constituirá surpresa para quem, por exemplo, desconheça a fé de RA nas virtudes do "bom" Estado tutelar, "impulsionador", "protector" e "regulador" que o leva a fazer uma incursão pelas virtudes da boa governação (mercantilista) dos consulados de Pombal e Salazar. (A título de mero exemplo, "[o] Estado deveria fazer do fomento da concorrência interna uma das suas principais missões"  - p. 71). Outras, também numerosas e algumas mesmo muito incomodativas para o regime democrático português, são realmente congruentes com o título do livro e Filipe Faria já as identificou.

Mensagem aos (jovens) economistas

Via Facebook, dois excelentes e fundamentais conselhos de Maria da Conceição Tavares: 1) aprendam História para que consigam ligar os acontecimentos; 2) esqueçam os modelos matemáticos que de nada servem.


Escusado será dizer - mas nunca se sabe... - que não subscrevo os últimos 25 segundos da sua intervenção.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O orwelliano Obama e a falsificação da História

Imagem retirada daqui
No seu segundo Inauguration Address (transcrição aqui  em inglês e num bom português aqui) Obama revela-se, agora sem rebuço. Aí expôs a sua verdadeira agenda, incluindo temas que estiveram praticamente ausentes na campanha eleitoral (como a da "luta" contra as "alterações climáticas", coisa que irritou muito os seus apoiantes verdejantes). É o progressivismo, isto é, a doutrina do estatismo benevolente e suposto corrector das "imperfeições de mercado", estruturado e posto em prática com Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson (tema do recente livro do juiz Andrew Napolitano) que agora regressa, às claras, em todo o seu "esplendor".

Para o efeito, Obama não hesita em recorrer à máxima imortalizada por George Orwell: "Aquele que controla o presente, controla o passado. Aquele que controla o passado controla o futuro".O seu discurso, não sendo mais que a tentativa de conferir legitimação histórica (a famosa "excepcionalidade" americana) à sua agenda, é uma fraude desavergonhada. É isto que demonstra a crónica de Patrick J. Buchanan - Obama’s Egalitarian Revolution - cuja tradução, da minha responsabilidade, se segue:
"O Segundo Mandato Começa Com uma Arrebatadora Agenda para a Igualdade", era o título do artigo principal, a oito colunas, com que o Washington Post captou a essência do segundo discurso de posse de Obama. Nele ele declarou:

"O que une esta nação... o que nos torna excepcionais - o que nos faz americanos - é a nossa fidelidade a uma ideia, articulada numa declaração feita há mais de dois séculos atrás."

De seguida, Obama citou a nossa Declaração de Independência:

Consideramos estas verdades por si mesmo evidentes, que todos os homens são criados iguais, sendo-lhes conferidos pelo seu Criador certos Direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade [excerto transcrito daqui].

A nossa "união", continuou, "foi fundada nos princípios da liberdade e da igualdade."

Prosa agradável - e um disparate transparente.

Como poderia a União Americana ter sido fundada no princípio da igualdade, quando a "igualdade" não é mencionada na Constituição, na Declaração dos Direitos dos Cidadãos ou nos textos d' O Federalista? Como poderia ser a igualdade um princípio fundador de uma nação em que seis dos 13 estados originais tinham legalizado a escravidão e cinco dos primeiros sete presidentes possuíram escravos durante todas as suas vidas?

O que Obama pregou no seu discurso de posse não foi a verdade histórica, mas a propaganda "progressiva" [progressive], numa reescrita orwelliana da história da América.

Gesu Bambino - Kathleen Battle and Frederica von Staade

Citação do dia (99)

"The majority of the students espouse without any inhibitions the interventionist panaceas recommended by their professors."

Ludwig von Mises, Human Action

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Citação do dia (98)

‎"If the practice persists of covering government deficits with the issue of notes, then the day will come without fail, sooner or later, when the monetary systems of those nations pursuing this course will break down completely. The purchasing power of the monetary unit will decline more and more, until finally it disappears completely."

Ludwig von Mises, "On the Manipulation of Money and Credit", página 8

O regresso aos mercados

Vai por aí uma grande excitação porque "voltámos aos mercados" com uma emissão de dívida pública a 5 anos, no montante de 2,5 mil milhões de euros, à taxa de juro implícita de 4,891%.

"Demos um passo extraordinariamente positivo", afirma Eduardo Catroga. Ricardo Salgado, esse, ribomba com a "vitória sobre as agências de rating"! Para os lados do CDS, Ribeiro e Castro, num assomo pouco usual no seu partido, classifica de "movimento de mestre" a decisão de Vítor Gaspar de "antecipar a ida aos mercados"; já João Almeida prossegue o registo de cuidado extremo com que a direcção de Portas tem conduzido o CDS, preferindo sublinhar que o "[regresso aos mercados] tem que ter consequências" na "economia real" (crédito bancário disponível, crescimento e emprego).

Sendo inegável que o sucedido permite alimentar a ideia de que se tenha verificado uma inversão sustentada de expectativas (que os mercados secundários da dívida pública já vinham antecipando nos últimos meses), não vejo razões para grandes celebrações. A despesa pública estatal reduziu-se estruturalmente nos últimos 18 meses? Não! Pouco mais houve, à excepção notável do sector dos transportes públicos, que cortes temporários na mesma (alguns dos quais aliás já revertidos, vide 13º e 14º meses na FP e pensionistas). O défice orçamental desapareceu? Não, apenas diminuiu a sua magnitude (e não esqueçamos as receitas extraordinárias). E o que aconteceu com os impostos? Aumentaram desmesuradamente!

Daí que, sem mais, o "regresso aos mercados" pode até vir a transformar-se num mero paliativo, induzindo melhoras aparentes num corpo que continua extremamente doente (a propósito, veja-se como António José Seguro já se relembrou da linha de mercadorias entre Sines e Madrid para "estimular" a economia e o emprego). Não haja ilusões: o reequilíbrio das contas externas, se bem que em parte ajudado pelo bom comportamento das exportações (tal como em Espanha, por exemplo), só foi possível pela fortíssima redução induzida na procura interna (aumento de impostos, redução de salários, despedimentos, etc.) e, por essa via, na redução brutal das importações. Não é único, o caso luso. Pouco, muito pouco, foi feito por cada um dos países da zona euro, como o insuspeito Roubini assinala.

Por outro lado, é bem provável que o Tribunal Constitucional volte a pronunciar-se pela inconstitucionalidade quanto a medidas de redução da despesa pública constantes no OE/2013. Se tal ocorrer, qual é a alternativa para este ano? E para o ano? E para os seguintes? Continuar a redefinir o conceito de "rico" até ao desaparecimento por completo da classe média?

Ou será que a alternativa, à parte a ocorrência de um improvável milagre, é a adopção da política (?!) do despacho? Nos finais de Agosto de 2011, quando foi publicada a 1ª versão do designado Documento de Estratégia Orçamental, classifiquei de "cobarde" este Governo (António Barreto, retomava o adjectivo no fim-de-semana passado) ao não vislumbrar no documento o reflexo da existência de qualquer estratégia de longo prazo. Se outras razões não houvesse, teria bastado toda a longa e triste novela do relatório do FMI para o "repensar do Estado", do palácio Foz (que falta de tino!) e da regra de Chatham House, etc., para justificar o epíteto.

Estais optimistas? Muito boa sorte!

A sério?

Nouriel Roubini: “Os problemas fundamentais da Zona Euro não foram resolvidos”

Quem havia de dizer! E ainda por cima vindo de um keynesiano de boa cepa...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O despacho

Segundo se pode ler e ouvir aqui, meu realce, "[o] ministério da Economia e do Emprego assinou um despacho na semana passada que possibilita a uma empresa um investimento de 18 milhões de euros na reactivação dos estaleiros navais do Mondego".

Hossana! Salve! Extraordinário e providencial despacho! O que seria de nós sem estes instrumentos "facilitadores" que se mostram essenciais (são os governantes que o afirmam) para tornear o que a burocracia dificulta quando não impede. Repare-se que é o "despacho" que possibilita e não a vontade do empreendedor. Desconheço o conteúdo do dito pelo que só posso especular as possibilidades que ele (despacho) abriu. Ter-se-á tratado de um subsidiozito? De uma derrogação, a título "excepcional", de uma qualquer norma? O que quer que tenha sido é que este anúncio, comunicado pelo próprio ministro da Economia, é em tudo igual às de outros ministros da pasta (ocorre-me de imediato o extraordinário dr. Pinho) que, invocando inúmeras siglas e programas, supostamente, são "essenciais" à revitalização da economia.

Em resumo, e invocando Frédéric Bastiat, o que "vemos" é um despacho que, assim nos assegura Álvaro dos Santos Pereira, possibilita a criação de 134 (cento-e-trinta-e-quatro) empregos directos. O que "não vemos", e tal acontece todos os dias, são os empregos que não são criados em consequência dos quadros legais existentes, de resto em permanente alteração, que amplificam o clima de enorme incerteza existente e, portanto, desincentivam o investimento. O que não vemos são todos aqueles empregos de que o próprio estado se encarrega de sentenciar a respectiva morte directa (aumento brutal do IVA na restauração, por exemplo) ou indirectamente (como a "regulação"). Para estes últimos nunca haverá "despachos" personalizados.

Charlatões e charlatonas

"Muito simplesmente [dentro de uns quantos anos] as crianças não irão saber o que é a neve", afirmava, entrevistado pelo jornal The Independent, em 20 de Março de 2000, o Dr. David Viner, cientista sénior da universidade de East Anglia (sede do "Climategate 1.0" em 2009), no Reino Unido, embalado pelos tremores e fervores da eco-teocracia do aquecimento global.


Foto daqui
Mas, dirão, o que importa o que pensava (ainda pensará?) o dr. Viner? Bem, se consultarem esta lista de profecias catastróficas, agrupadas nos clássicos temas do "esgotamento de recursos naturais", "da população e da pobreza" e das "alterações climáticas", haverá que concluir que este não é um caso isolado, perdido num qualquer anedotário da asneira. Não! Há uma série bem numerosa de "eminentes" personalidades, provenientes do meio académico e mediático, que, há décadas, proferem dislates gigantescos sem que, estranhamente, sofram as consequências, académicas e mediáticas dos seus estrondosos e repetidos fracassos na previsão do Apocalipse.

Se pensarmos nos muitos billions já gastos com as "novas renováveis" e com as sucessivas e cada vez mais onerosas restrições "verdes" ao funcionamento das economias, isto é, com impacto nas empresas, nos contribuintes e nos consumidores e, portanto, no bem-estar geral; e se pensarmos nos trillions que os mesmíssimos profetas continuam a tentar convencer os governos (e a opinião pública) a despender para "salvar" a Terra de supostos horrores inomináveis que teimam em não acontecer, perceberemos o quão importante é desmontar a arrogância infinita destes profetas da desgraça, afinal, meros charlatões e charlatonas, como a realidade empírica vem demonstrando.

O quinteto que se segue , de "O Charlatão", de José Mário Branco, parece-me bem ilustrar o que precede fazendo ainda lembrar-me de um certo ex-candidato a presidente dos Estados Unidos que sempre tem conseguido, na perfeição, conduzir os seus (bem) proveitosos negócios enquanto anuncia o Armagedeão ambiental:

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s'em quatro zonas
instalados em poltronas

Em memória de Martin Luther King

Barack Obama prestou juramento ontem, dia em que celebra o nascimento de Martin Luther King, feriado federal nos EUA, chegando ao ponto de usar o exemplar da Bíblia que pertenceu ao dr. King na tomada de posse relativa ao seu segundo mandato.


Acompanhando Anthony Gregory, creio que deveríamos meditar nas palavras de Martin Luther King, nomeadamente as proferidas em Nova Iorque, em 4 de Abril de 1967, quando denuncia a iniquidade da guerra do Vietname e o papel, terrível, que ele acha que o seu próprio governo nela prosseguia (transcrição integral discurso e video). Traduzo o excerto que A. Gregory entendeu destacar - e bem - num momento em que os EUA estão, hoje, envolvidos em múltiplas guerras pelos quatro cantos do mundo. Anoto, uma vez mais, a complacência hipócrita e imoral da esquerda relativamente às "boas" guerras de Obama (ver, a propósito a página do fb, referente a George W. Obama, o presidente que, à semelhança de Franklin Delano Roosevelt, também irá cumprir quatro mandatos...). 
«Eu sabia que nunca mais poderia elevar a minha voz contra a violência dos oprimidos nos guetos sem antes ter falado claramente do maior veículo de violência no mundo de hoje - o meu próprio governo. Para o bem daqueles rapazes, para o bem deste governo, para o bem das centenas de milhar que tremem sob a nossa violência, eu não posso ficar em silêncio.

Para aqueles que perguntam, "Você não é um líder dos direitos civis?", desse modo pretendendo excluir-me do movimento pela paz, eu tenho mais uma resposta adicional. Em 1957, quando um grupo de nós formou a Conferência parar a Liderança Cristã do Sul [Southern Christian Leadership Conference], escolhemos como nosso lema: "Para salvar a alma da América". Estávamos convencidos de que não podíamos limitar a nossa visão  a certos direitos para os negros, pelo que em vez disso afirmámos a convicção de que a América nunca seria livre ou salva de si própria até que os descendentes dos seus escravos fossem completamente libertados das grilhetas que continuam a usar. De certa forma estávamos concordando com Langston Hughes, aquele bardo negro de Harlem, que antes tinha escrito:

Oh, sim,
Digo-o de modo bem claro,
A América nunca foi a América para mim,
E todavia faço este juramento -
A América sê-lo-á!


Agora, deve ser incandescentemente claro que ninguém que tenha qualquer preocupação com a integridade e a vida da América pode hoje ignorar a actual guerra. Se a alma da América se vier a tornar totalmente envenenada, em parte da autópsia deverá ler-se: Vietname.»

Martin Luther King

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Da legitimidade

A presença esparsa na blogosfera, cada vez mais condicionada pela minha errância no facebook, não impediu que lesse com atenção este post do rui a. e o subsequente troca de comentários, em especial na sequência das intervenções de Carlos Novais a contestar a tese de rui a., em mais um episódio no cerrado debate filosófico entre minarquistas e a anarco-libertários. Por outras palavras, da necessidade ou não da existência do Estado, ainda que sob uma forma mínima (a estritamente necessária, na senda do liberalismo clássico dos séculos XVIII e XIX e dos actos fundadores, de funções enumeradas, do estado federal da União dos Estados da América do Norte).

Robert Higgs (em excelente entrevista, aqui), presença frequente no EI, e que ultimamente também se "virou" para o fb onde mantém uma página muito activa, publicou ontem um pequeno mas muito interessante texto que me parece ser um bom contributo para (res)suscitar um debate que, em boa medida, não se inicia sequer porque se as coisas "sempre foram assim" para quê discuti-las?

Membro de organizações profissionais, enquanto trabalhador por conta de outrem, sempre lutei contra aquelas paredes, tidas por inexpugnáveis, do "sempre foi assim". Mais novo, as dificuldades do desafio de as ultrapassar serviam apenas para me alimentar de uma ainda maior vontade de o conseguir. Ao longo dos anos, à medida que o tempo foi passando e alguma sabedoria ia sendo adquirida, as tácticas de que me socorria diversificaram-se, mas o objectivo estratégico, esse - "tear down this wall", nas famosas palavras de Reagan -, creio nunca o ter perdido. Foi física e mentalmente esgotante esse percurso. Deixou sequelas. Permanentes.

Convido-vos, assim, a conhecerem mais um belo texto de Robert Higgs - Legitimacy -, numa tradução de minha responsabilidade, lamentavelmente muito pálida perante a qualidade do original:

Qual é a diferença entre um estado, uma quadrilha criminosa ou um prestador de serviços de protecção como a máfia? Numa palavra, a legitimidade [política]. Na prática, esta vaga noção sugere que as pessoas vêem o estado - a sua composição institucional, os seus funcionários e a sua conduta - como moralmente aceitável ou apropriado, enquanto vêem a máfia - pelo menos a sua conduta -, como moralmente inaceitável ou imprópria.

Muitos estados alegam que a sua legitimidade assenta no fundamento lockeano do consentimento dos governados mas, na prática, esse consentimento revela-se altamente problemático pois a população governada raramente é confrontada, se é que o é alguma vez, com a opção de ser ou não ser governada no quadro das instituições estatais estabelecidas. Os regimes utilizam a educação pública, a propaganda, as decisões judiciais (proferida por juízes do próprio estado), as eleições políticas, as audiências públicas e outros artifícios para imbuir as pessoas da ideia de que os seus governantes são autoridades legítimas que levam a cabo acções legítimas. Muitos desses esforços justificativos, talvez mesmo todos, são altamente questionáveis, se é que não são inteiramente falsos, e nenhum deles representa prova decisiva do consentimento do povo para ser governado tal como o é pelos governantes que os dominam.

Na realidade, o assim chamado consentimento dos governados consiste no essencial da mera aquiescência - uma resignação generalizada que significa apenas que a maioria das pessoas prefere suportar o roubo e a intimidação do estado do que abertamente lhe resistir pelos riscos de dano, de prisão e de morte. A aquiescência do povo, em muitos casos, uma espécie de rendição implícita, mal-humorada e ressentida, dificilmente confere aos governantes uma qualquer aprovação moral. Na verdade, mesmo nos países com os maiores graus de participação política popular, a maior parte das pessoas olhará para os políticos governantes e burocratas com um mal disfarçado desprezo e, por vezes abertamente, com um ódio expresso.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Por que será, por que será?

O banco central alemão, o Bundesbank, irá iniciar o processo de repatriamento do seu ouro armazenado em Nova Iorque, Paris e Londres para Frankfurt (de 700 toneladas até 2020, cerca do dobro do stock detido pelo Banco de Portugal), como se pode ler aqui ou aqui, confirmando os rumores que há meses corriam.

Muitos interpretam esta acção como o prenúncio de um eventual reestabelecimento de uma qualquer espécie de ligação entre a moeda emitida (o novo marco alemão) e o ouro.