por que razões a subida da extrema direita [nas recentes eleições europeias] deve ser, segundo Cavaco Silva, uma causa de "grande preocupação" e a emergência de partidos ou personalidades com substanciais votações como os de Jean-Luc Mélenchon, em França, e do inacreditável Alexis Tsipras (líder do 2º partido (em rigor, coligação) mais votado) na Grécia, não causam preocupação alguma.
Eu em tempos fiz um comentário (creio que no Insurgente) sobre isso que repito aqui:
ResponderEliminarNa minha condição de radical de esquerda, eu tenho uma teoria de porque é que nós somos melhor aceites que os radicais de direita:
Connosco, é uma questão de grau. É que nós defendemos, numa versão hard, ideias, que numa versão soft, são aceites por quase toda a gente: o problema do colectivismo radical dos comunistas ou do basismo radical dos ansocs (quanto à “esquerda alternativa” estilo BE, é basicamente uma mistura dos dois) está no adjectivo (“radical”) – quase toda a gente defende alguma subordinação da propriedade privada ao “bem geral” (até os liberais clássicos aceitam que tem que haver impostos), e também toda a gente reconhece que uma organização em que tudo seja decidido “de cima” não funciona bem (até – ou sobretudo! – os gurus da gestão empresarial). Assim, o mainstream tem connosco uma atitude de “eles até são bons moços, vêm é só um lado da questão”. E a reinserção social dos nossos arrependidos também é fácil – as posições do passado passam facilmente por “exageros de juventude”.
Já é diferente com a extrema-direita, porque esta defende ideias que estão intrinsecamente contra as ideias aceites pela generalidade das pessoas: o problema do anti-semitismo radical dos nazis, p.ex., não é o adjectivo, é mesmo o substantivo (“anti-semitismo”). Na verdade, se alguém aparecesse a propor um “anti-semitismo moderado” (algo que estivesse para o nazismo como os socialistas estão para os comunistas, ou os “verdes” para os ansocs), estilo “os judeus podem viver, mas têm que usar uma estrela amarela”, seria à mesma catalogado na extrema-direita e chamado “nazi”. Quanto o absolutismo monárquico, é a mesma coisa: o que é incompatível com as ideias dominantes não é o rei ter todos os poderes, é mesmo um rei ter poderes efectivos (aliás, é frequente monarquias constitucionais em que o rei tem poderes, como a Jordânia ou o Kuwait, serem referidas na impressa como “monarquias absolutas”)
Já agora, outro ponto que não referi na altura mas lembrei-me agora - a extrema-esquerda está também mais perto do mainstream do que a extrema-direita porque a extrema-esquerda está mais perto do centro-esquerda do que a extrema-direita do centro-direita:
há um continuo ideológico entre comunistas e social-democratas - um social-democrata pode ser visto como um comunista moderado, ou um comunista pode ser visto como um social-democrata radical.
Pelo contrário, não há nenhum continuo entre liberais e fascistas - o fascismo não é um liberalismo levado ao extremo, nem o liberalismo é uma versão leve do fascismo (embora com o conservadorismo e a democracia-cristã já haja alguns pontos específicos em que possam ser postos num continuo com o fascismo)