Publicou-se hoje o relatório do inquérito (Chilcot de seu nome) à participação do Reino Unido na guerra do Iraque. Ver aqui.
O primeiro ministro inglês demissionário fará uma declaração esta tarde.
E Blair já afirmou que assume toda a responsabilidade. Sobre o quê?
A imprensa pede ajuda à leitura crítica do enorme relatório:


Ouvi (TV Sky News) grande parte da intervenção de Cameron resumindo a sua interpretação do Relatório.
ResponderEliminarE ouvi (TV Sky News) uma boa parte da intervenção de Blair a esplanar a sua visão do Relatório. Bem assim como alguns outros comentários sobre este, ainda marcante, assunto.
Havia e foram utilizadas ADM. S. Hussein tinha todas as razões e possibilidades para incrementar e usar, loucamente, tal arsenal.
Pensar que foram um Presidente Americano e um PM Inglês que iniciam o secular conflito Shiita-Sunita é supinamente ridículo.
Curioso. Não é só cá que as obsessões partidárias cegam a razão.
Ou compram a dignidade/dependência profissional.
PS. A propósito:
Sir Thomas More: "... it profits a man nothing to give his soul for the whole world ... but for Wales, Richard?".
Cumprimentos cordiais.
Caro JS,
ResponderEliminarO dia de ontem, creio, foi rico em eventos de alcance histórico ainda não totalmente compreendido.
Simplificando muito podemos vê-lo de dois prismas:
- do ponto de vista institucional - é sinal de que a tradição política e institucional britânica é mais resiliente e estruturada do que o presente (e as suas interpretações momentâneas nos revelam, veja-se o Brexit);
- do ponto de vista da acção e responsabilidade políticas dos eleitos - aqui há muitas nuances, mas espanta-me o consenso em torno da visão intervencionista dos poderes políticos; há, julgo, uma não caucionada acção de interferir em assuntos alheios; consideremos a seguinte hipótese, se houvesse um referendo para legitimar estas intervenções qual seria o resultado? Estou em crer que os impulsos intervencionistas seriam severamente escrutinados e, quem sabe, limitados na sua concretização.
Do meu ponto de vista, é esta última dimensão que importa analisar. Quando ultrapassarmos a vaga dos populismos (e pagarmos a sua dura factura), essa atitude crítica terá expressão mais alargada e a dimensão de acções ilegítimas (sejam elas ao abrigo da defesa de valores nobres ou de interesses inconfessáveis) será mais facilmente contida. Talvez por aí - pela crise de representação, de participação e legitimidade políticas que resultariam de tal mudança - pudéssemos assistir à inversão do movimento expansionista dos projectos políticos. Talvez no sentido mais individual e comunitário, se quiser.
Quanto aos dados que indicou e não tendo lido o gigantesco relatório para além do seu resumo, repare que:
- as declarações de Blair são difíceis de aceitar; foi a sua retórica (e a acção nela respaldada) que impede agora aceitar-se uma reescrita da história;
- Blair tenta desviar a atenção para o que o relatório não indica que deveria ter sido feito nas circunstâncias políticas e históricas que analisou - mas esse não era o propósito do inquérito;
- tanto Blair, como Cameron, buscam sacrificar o alcance da sua palavra (e responsabilidade políticas) através de um discurso de congratulação pela acção das forças armadas britânicas no teatro de operações (e dadas as operações e constrangimentos que tiveram de vencer) - será o reconhecimento implícito de uma culpa? Dados os erros que o relatório aponta (falta de meios, deficientes informações e enquadramento superficial da acção militar) parecer suportar esta interpretação. E os discursos de ambos, reforçam-na.
- sim, Sadam usou armas químicas e, pela dissimulação, deu a entender que ainda dispunha desses meios muito depois do seu reconhecido uso; o que fazem as informações neste cenário? O que pressionava a acção militar, face à mais demorada acção da inteligência militar? É aqui que entra hipótese do aproveitamento político (e também económico) da intervenção.
- a origem dos conflitos na região (alargando da Líbia, Egipto até ao Irão, se quiser) é remota; mas não podemos deixar de contemplar a influência que tiveram as diferentes forças ocidentais no último século e meio (pelo menos) no agudizar desses conflitos e tensões; estas ganharam uma dimensão que não tinham e, hoje, extravasam fronteiras políticas e religiosas.
Todo este caso que os britânicos nos oferecem, é um excelente caso de estudo da natureza dos regimes democráticos, da legitimação da acção dos representantes e das diferentes hierarquias valorativas presentes no mundo de hoje.
É naturalmente muito fácil a imprensa (e os diferentes agentes políticos) tirarem proveito destes casos. Olhar o passado e expressar contrafactuais é fácil. É isto a que assistimos desde a primeira intervenção no Iraque, pelo menos.
Considerar a natureza do poder nas sociedades de hoje, buscar, através de uma reflexão livre, uma expressão legítima e equilibrada desse poder (até considerando a sua dissolução, porque não?) é que importa fazer.
Calorosas saudações,
LV
ResponderEliminarLV. Li e reli.
"... Estou em crer que os impulsos intervencionistas seriam severamente escrutinados e, quem sabe, limitados na sua concretização.
Do meu ponto de vista, é esta última dimensão que importa analisar....".
Permita-me. Sim, colocando de lado os detalhes discutíveis, essa é a questão.
-No Iraque 15% de Sunitas investidos de todo o poder. Shiitas dos pântanos, e não só, desimados. Cristãos também. Comunidade internacional pede "intervenção". Intervenção houve. Sobretrudo dos EUA.
-Na Síria 15% de Shiitas investidos de todo o poder. Sunitas, Cristão, outras denominações e tribos, desimadas. Refugiados. A comunidade internacional pede "intervenção". Intervenção houve ... mas só passados 4 anos e porque Putin resolveu intervir. Gato escaldado ...
Blair, e outros, perguntam: morreram mais civis no Iraque com a intervenção?.
Ou, antes da intervenção, morreram mais civis na Síria?. Contabilizam-se os refugiados sobreviventes?.
Aonde é que estão os jovens activistas que, na altura, pediam furiosamente uma intervenção no Iraque?.
Saudações cordiais, JS
Caro JS,
ResponderEliminarAo procurarmos uma resposta para a última questão que apresenta, ganhamos, julgo, melhor visão quanto ao problema: os activistas que identifica (na questão do Iraque são de um espectro político e de uma ou duas cores políticas) deram expressão à sua visão intervencionista, ancorada numa visão "liberal" (atenção às aspas) e idealista.
E esta visão tem defensores tanto do lado de lá como no de cá do Atlântico. Por lá é a paixão pela determinação do que é justo e da sua aplicação que alimentou (alimenta ainda?) as últimas décadas de "construção de estados-nação". Por cá, a inspiração é a implementação da paz a motivar o apoio aqueles ímpetos americanos ou a forçar convergências num projecto político comum - União Europeia.
O que me parece certo é que esta atitude intervencionista se manterá. Ou será interrompida por um conflito bélico latente (seja directamente no continente europeu - com a Rússia, por exemplo - ou na Ásia (China e vizinhos). Mas em ambos os casos lá teremos os mesmos agentes.
Não lhe parece?
Calorosas saudações,
LV
No conforto do sofá é tudo tão fácil. A verdade é que o mundo ocidental está demasiadamente bem instalado para fazer qualquer sacrifício. Após a II Guerra Mundial o que manteve a paz na Europa até hoje, foram as tropas americanas ( até hoje) e os princípios democráticos que foram instalados ( e não a CEE / UE).No Iraque ao fim de 7 anos, graças ao Bobama, tudo para casa que o perigo para os EUA vem da policia e dos extremistas brancos.
ResponderEliminarLeitor Anónimo,
ResponderEliminarTem razão quanto à facilidade de fazer juízos à distância, temporal ou física. Mas isso não deve impedir ninguém de manifestar a sua opinião e julgamento acerca de eventos que acabam por ter repercussões tão vastas quanto as que o artigo identifica. O teste do tempo também é o repositório das análises mais profundas e sustentadas. Especialmente as críticas.
A paz na Europa depende da acção (e dissuasão) das forças americanas, mas isso tem um preço. Os EUA não o fariam se não pudessem colocar essa estratégia a seu favor, seja pelo palco de contenção que o continente europeu representa face à "ameaça" russa (veja-se a Ucrânia e o seu governo). Ou a orientação das políticas económicas europeias face à emergência de novas forças e energias a Oriente (veja-se a iniciativa AIIB ou a nova Rota da Seda que os chineses estão a dinamizar).
Como vê, a História tem muitas camadas tectónicas.
Saudações,
LV