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domingo, 8 de setembro de 2013

A intervenção militar americana na Síria: Cui bono?

Num esforço continuado, revelador de uma energia aparentemente inesgotável, o Ron Paul Institute for Peace and Prosperity, fundado há uns meses atrás e dedicado à análise das matérias de política externa, tornou-se rapidamente numa referência para a concentração de esforços, numa lógica não partidária, para todos aqueles que acham que é imperioso pôr fim ao aventureirismo bélico americano pelos quatro cantos do mundo e, muito em particular, no Médio Oriente. Foi lá que ontem encontrei uma peça, a que atribuo grande credibilidade pela lista dos subscritores do "Memorando", e que me levou a fazer o esforço de o traduzir numa matéria que não me é suficientemente familiar. Porquê conferir credibilidade a ex-espiões, ou pelo menos a ex-insiders (link), perguntarão. Bem, entre outras razões socorro-me do relato de Daniel Ellsberg, na sua Memória sobre o Vietname e sobre os Papéis do Pentágono (livro ainda na vitrina), onde ele pôde constatar, a começar por si próprio, que os analistas profissionais do seu tempo, que trabalhavam para as sucessivas administrações americanas, convergiam praticamente todos na conclusão pela futilidade da intervenção americana no Vietname e, em particular, da escalada da guerra por Lyndon Johnson e Richard Nixon (como antes por JFK). Os políticos, esses, tinham porém planos próprios, impermeáveis à análise e à informação proveniente dos serviços de intelligence. Vejo muitos paralelos com a situação presente relativamente à Síria.

Os Profissionais de Intelligence Veteranos para a Sanidade [VIPS na sigla em inglês] emitiram um memorando dirigido ao presidente Obama desafiando directamente as alegações da sua administração sobre a utilização pela Síria de armas químicas:

MEMORANDO PARA: O Presidente

DE: Profissionais de Intelligence Veteranos pela Sanidade (VIPS)

ASSUNTO: Será a Síria uma armadilha?

Prioridade: IMEDIATA

Lamentamos informá-lo que alguns dos nossos antigos colegas de trabalho nos estão a dizer, de forma categórica, que contrariamente às afirmações da sua administração, as informações mais credíveis mostram que Bashar al-Assad não foi responsável pelo incidente químico que matou e feriu civis sírios em 21 de Agosto, e que os funcionários dos serviços secretos britânicos também sabem que assim foi. Ao escrever este breve relatório, optámos por assumir que V. não tenha sido plenamente informado porque os seus conselheiros decidiram dar-lhe a oportunidade daquilo que é comummente conhecido como "desmentido plausível".

Nós já enveredámos por este caminho noutra ocasião - com o presidente George W. Bush, a quem dirigimos os nossos primeiros memorandos VIPS, imediatamente após Colin Powell, no discurso que proferiu na ONU, a 5 de Fevereiro de 2003, em que impingiu "intelligence" fraudulenta para sustentar o ataque ao Iraque. Na altura, optámos também por dar ao presidente Bush o benefício da dúvida, pensando que ele estava a ser enganado - ou, no mínimo, muito mal assessorado.

A detecção da natureza fraudulenta do discurso de Powell não exigia particular inteligência. E assim, naquela mesma tarde, instámos veementemente o V. antecessor que "ampliar a discussão para além... do círculo daqueles conselheiros que se inclinam de forma evidente para uma guerra para a qual não vemos nenhuma razão convincente e da qual acreditamos que as consequências não intencionais poderão vir a ser catastróficas". Nós oferecemos-lhe o mesmo conselho hoje.

As nossas fontes confirmam que um incidente químico de algum tipo causou de facto mortos e feridos no dia 21 de Agosto, num subúrbio de Damasco. Elas insistem, no entanto, que o incidente não foi o resultado de um ataque do Exército [regular] Sírio utilizando armas químicas do seu arsenal. Esse é o facto mais saliente, de acordo com agentes da CIA que trabalham no tema da Síria. Dizem-nos que o director da CIA, John Brennan, está a perpetrar uma fraude do tipo pré-guerra-do-Iraque junto dos membros do Congresso, dos media, e do público - e talvez até mesmo junto de si.

sábado, 7 de setembro de 2013

Mas afinal de quem é esta guerra?

É a pergunta que Patrick J. Buchanan formula em mais um artigo em que defende vigorosamente a auto-exclusão dos EUA de um envolvimento na guerra civil Síria que grassa há mais de dois anos - "Just Whose War Is This?". Neste artigo, Buchanan foca importante aspectos internos dos EUA que raramente são focados. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"Na Quarta-feira [dia 4 de Setembro], John Kerry disse ao Senado para não se preocupar com o custo de uma guerra americana na Síria.

Os sauditas e os árabes do Golfo, confortados com um rotundo barril de petróleo, vendido aos consumidores americanos a 110 dólares, irão pagar a conta dos mísseis Tomahawk.

Será que chegámos a isto - soldados, marinheiros, fuzileiros e aviadores norte-americanos, agindo como mercenários de sheiks, sultões e emires, quais Hessianos [mercenários de Hessen, Alemanha] da Nova Ordem Mundial, contratados para levar a cabo a matança pelos sauditas e pela realeza sunita?

Ontem [5ª feira], também, surgiu um relatório espantoso no Washington Post.

A Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas [link] juntou-se com o lobby israelita AIPAC [link] numa campanha pública a todo o gás em favor de uma guerra dos EUA contra a Síria.

Marvin Hier do Centro Simon Wiesenthal e Abe Foxman da Liga Anti-Difamação invocaram o Holocausto, tendo Hier acusado os EUA e a Grã-Bretanha de não terem conseguido salvar os judeus em 1942.

No entanto, se a memória for útil, em 1942 os britânicos estavam a combater Rommel no deserto e os americanos recolhiam ainda os seus mortos em Pearl Harbor e morriam em Bataan e Corregidor.

A Coligação Judaica-Republicana, também financiada por Sheldon Adelson, o magnata do casino de Macau, cuja preocupação pelas crianças que sofrem na Síria é uma espécie de lenda, está também a apoiar a guerra de Obama.

Adelson, que desembolsou 70 milhões de dólares para derrubar Barack, quer a sua recompensa - a guerra à Síria. E ele está a consegui-la. O Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, e o líder da maioria, Eric Cantor, já a saudaram e nela se alistaram. Sheldon, o mais rico de todos os ricos financiadores políticos, está a comprar uma guerra para si próprio.

E todavia, será realmente inteligente que organizações judaicas coloquem um selo judeu numa campanha para arrastar a América para uma guerra que a maioria de seus compatriotas não quer travar?

sábado, 31 de agosto de 2013

A mentira, a plasticidade da "prova" e a política do bombardeamento

Ontem, a Casa Branca fez divulgar um documento de 4 páginas onde foram apresentadas "provas" de que foi o regime de Assad quem levou a cabo a autoria do ataque químico no passado dia 21 de Agosto na Síria,nos arredores de Damasco. Este é o excerto relevante (tradução minha):
"Identificámos cem vídeos relativos ao ataque, muitos dos quais mostram um grande número de corpos que apresentam sinais físicos consistentes, ainda que não exclusivamente, com a exposição a agente de gás de nervos. Segundo o relato de vítimas, os sintomas incluíam perda de consciência, emissão de espuma pelo nariz e pela boca, pupilas contraídas, taquicardia e dificuldade em respirar. Vários dos vídeos mostram o que parecem ser numerosas vítimas mortais sem ferimentos visíveis, o que é consistente com a morte provocada por armas químicas, e inconsistente com a morte provocada por armas ligeiras, por munições de alto poder explosivo ou por agentes vesicantes. Há pelo menos 12 localizações distintas nos vídeos publicamente disponíveis, e uma amostragem desses vídeos confirmou que alguns deles foram filmados nas horas e locais descritos nas imagens. Consideramos que a oposição síria não tem a capacidade para forjar todos estes vídeos, bem como os sintomas físicos verificados por pessoal médico, ONGs e outras informações associadas a este ataque químico."
Temos assim que, nas palavras da própria administração americana, os EUA e a França (antiga potência colonial na zona, uma coincidência curiosa com o Vietname) do petit homme, outorgando-se a si próprios o direito de representação de uma "comunidade internacional" ainda mais exígua com a saída forçada de Cameron do elenco, estão prestes a bombardear a Síria e, com isso, a escalar um conflito para dimensões impossíveis de prever. Para isso, julgam suficientes 100 vídeos do YouTube ("publicamente disponíveis") pois, segundo a administração americana, os rebeldes (quais deles?) não teriam condições (técnicas? logísticas) para os forjar!! Nestas circunstâncias, não é de admirar que Vladimir Putin esteja a surgir como um improvável paladino da promoção da liberdade!!

Portanto, o futuro do Médio Oriente e, não é de excluir, mesmo o de todo o mundo, joga-se no YouTube e na (in)capacidade de produção e realização de vídeos. Extraordinário! Mas, se assim é, e já sem falar daquele onde se pode observar o esquartejamento de cadáveres dos oponentes para lhes comer as vísceras, por que não considerar estes outros que sugerem exactamente o envolvimento dos rebeldes e aliados dos EUA nesta história das armas químicas (para além dos democratíssimos sauditas e qataris)? Aliás, não seria a primeira vez que tal aconteceria este ano...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A escalada da tragédia síria

Obama Escalates Syria’s Civil War é o título de mais um dos lúcidos artigos de Patrick J. Buchanan contra a tentação (e a prática) imperial dos EUA que resultou da instalação dos neocons nos corredores do poder. Não há - e de há muito que sabe ser assim - qualquer diferença na política externa (e interna) de Obama face à de George W. Bush. Só palas partidárias e uma cegueira e surdez incuráveis podem impedir esse reconhecimento (veja-se, por exemplo, esta notícia de ontem, esta outra de há uns dias ou ainda esta, em versão "animal feroz" na ausência de teleponto).

A "guerra ao terror" de Bush (na realidade, começada ainda por Clinton no Afeganistão) deu nisto: US drops demand Taliban renounce al-Qaeda to allow talks to progress e Afeganistão rompe negociações com os Estados Unidos. Não admira que Obama não se preocupe com a presença em força de terroristas entre os rebeldes que decidiu agora (como antes na Líbia) ajudar directamente com armas. Em nome de quê? Em nome de quê? Ou será que alguém acredita nisto? Se há, que reflicta nesta asserção famposa de Benjamin Franklin: "Those who would give up essential liberty to purchase a little temporary safety deserve neither liberty nor safety."

A tradução, algo livre, do artigo de Pat Buchanan é da minha responsabilidade.
Barack Obama acaba de dar os seus primeiros passos numa guerra na Síria que podem definir e destruir a sua presidência.

Na quinta-feira, enquanto festejava com os foliões LGBT o Mês do Orgulho Gay, um funcionário, Ben Rhodes, informou a imprensa na Casa Branca que irão ser fornecidas aos rebeldes sírios armas americanas.

Durante dois anos, Obama manteve-se fora desta guerra sectária/civil que já consumiu 90 mil vidas. Por que está entrando nela agora?

A Casa Branca alega ter agora provas que Bashar Assad usou gás sarin para matar 100-150 pessoas, desta forma ultrapassando uma "linha vermelha" que Obama tinha estabelecido como factor de "mudança de jogo". Desafiado, com a credibilidade contestada, ele tinha que fazer alguma.

No entanto, a alegada utilização por Assad de gás sarin para justificar a intervenção dos EUA, mais parece constituir um pretexto para entrar na guerra que uma racionalização para nela participar.

Porque a Casa Branca decidira intervir semanas atrás, antes da utilização do gás sarin ter sido confirmada. E por que razão teria Assad usado apenas minúsculos vestígios? Onde está a evidência fotográfica dos mortos desfigurados?

Que provas temos de que não foram os rebeldes que forjaram a utilização de gás sarin ou que o usaram eles próprios para conseguir que os crédulos americanos entrassem na sua guerra?

E todavia, por que razão o Presidente Obama, cuja orgulhosa jactância assenta na promessa de que ele nos irá desemaranhar das guerras do Afeganistão e do Iraque, tal como Dwight Eisenhower com a Guerra da Coreia, iria mergulhar-nos numa nova guerra?

Ele tem estado sob severa pressão política e internacional para fazer algo depois de Assad e o Hezbollah terem recapturado a cidade estratégica de Qusair e começado a preparar-se para recapturar Aleppo, a maior cidade.

Caso Assad tenha sucesso, isso significaria uma derrota decisiva para os rebeldes e seus apoiantes: os turcos, os sauditas e qataris. E isso significaria uma vitória geoestratégica para o Irão, o Hezbollah e a Rússia, que provaram constituir aliados confiáveis.

Para evitar essa derrota e humilhação, vamos agora enviar armas e munições para manter o controlo dos rebeldes sobre território suficiente para negociar uma paz que venha a remover Assad.