A uma mentira que mil vezes se repete só resta contrapor, com uma frequência equivalente, o seu rebatimento. Assim, face a múltiplas notícias que dão conta do papão deflacionista (por exemplo, Vítor Constâncio terá ainda ontem afirmado que (meu realce) “[e]speramos [no BCE] que o valor baixo de Março seja corrigido para um registo mais elevado em Abril”), volto a insistir no combate ao endeusamento da inflação como fenómeno essencialmente benévolo (se contido num valor "baixo") acompanhado do esconjurar da autêntica peste negra que a deflação representaria. Têm sido múltiplos os meus posts sobre o tema. Mas julgo ser preciso insistir. Primeiro, evocando Mises:
"O mais importante a recordar é que a inflação não é um acto de Deus, que a inflação não é uma catástrofe dos elementos ou uma doença que surge como uma praga. A inflação é uma política."Depois, procurando contribuir para a desmistificação do fenómeno deflacionário pela via de uma tradução, da minha responsabilidade (notas do texto original substituídas por links), de um texto de Chris Casey ontem publicado cujo título roubei para encimar o presente post.
2 de Abril de 2014
Por Chris Casey
Esvaziando o mito da deflação
O temor da deflação funciona como a justificação teórica para todas as acções inflacionistas levadas a cabo pela Reserva Federal e pelos bancos centrais em todo o mundo. É por isso que a Reserva Federal tem por objectivo uma taxa de inflação de preços de 2% e não de 0%. Em larga medida, esta é a razão que levou a Reserva Federal a mais do que quadruplicar a base monetária de Agosto de 2008 até hoje. E é, de forma notável, um enorme mito, pois não há nada de intrinsecamente perigoso ou prejudicial na deflação.
A deflação é temida não apenas pelos seguidores de Milton Friedman (os designados monetaristas ou membros da Escola de Chicago), mas também pelos economistas keynesianos. Um dos mais destacados keynesianos, Paul Krugman, num artigo do New York Times de 2010 intitulado "Por que é a deflação uma coisa má", apontou a deflação como a causa da contracção da procura agregada uma vez que "quando as pessoas têm a expectativa de que os preços vão baixar, elas tornam-se menos propensas a consumir, e, em especial, menos dispostas a contrair empréstimos".
Presumivelmente, ele acredita que este diferimento na despesa durará para todo o sempre. Mas sabemos por experiência própria que, mesmo em presença de uma descida de preços, os indivíduos e as empresas acabarão por, num dado momento, vir a comprar o bem ou serviço em questão. Não é possível renunciar eternamente ao consumo. Vemos isto suceder todos os dias na indústria da informática / electrónica: o valor da utilização de um iPhone ao longo dos próximos seis meses é superior ao da poupança que resultaria do adiar da sua compra.
