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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Nevoeiro do deleite

Fonte

A novela política está a começar. A promoção da ansiedade no presente, que resulta da intriga e jogo políticos, terá como desfecho uma solução apresentada e aceite como necessária. Como fundamental para salvar o país da instabilidade, dando continuidade a uma narrativa que suporta a mais disparatada tentativa alquímica de desatar o nó do presente. Político e económico.

A imagem (ver nota) que dá início a este comentário ilustra bem que direcção seguimos para concretizar a inflação de sucesso a nível europeu. Que teima em não chegar. Nem o sucesso nem a inflação! E Portugal também está à mesa a jogar. Muito exposto às consequências negativas de tais políticas.
Depois de ler e reler os números, alguém aceita que teremos pela frente um futuro de "esperança e sucesso"? A sério?
Há alguém que defenda a loucura desta política monetária e financeira, esperando corrigir os males feitos? A sério?
Que farão os próximos a sentar-se na cadeira do "poder" quando este foguetão queimar todo o seu combustível? Alguém responde?

Do outro lado do Atlântico, pouco falta para que se retome a loucura das políticas monetárias expansionistas. Hipótese que, dado o adiamento relativo às taxas de juro e às "coincidências" a vermelho no gráfico abaixo, parece muito credível.


Os cérebros procuram, avidamente, a velocidade de cruzeiro. No meio do nevoeiro...


Nota: o artigo que enquadra o primeiro gráfico (e está acessível na ligação) é, julgo, de leitura obrigatória para acender um farol contra o nevoeiro.

sábado, 4 de julho de 2015

A tão desejada inflação

O tempo dilui os referenciais da nossa percepção

No cumprimento das tarefas domésticas, deparei-me hoje com a seguinte constatação: aproximadamente há vinte anos, quando fazia as compras do mês, gastava o equivalente a cem euros. Compras essas que enchiam a bagageira (que era gigante, garanto-vos) do veículo que aparece na primeira fotografia. E, por vezes, alguns sacos ainda acabavam por vir nos bancos traseiros.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Agora que a prosperidade está a chegar

(mais cedo ou mais tarde) como Mario "Whatever It Takes" Draghi anunciou hoje, estes 3'30" de entrevista telefónica a Marc Faber parecem-me vir bem a propósito. Note-se, também, a reacção da pivot à alfinetadela sem enfeites que Faber endereça aos media convencionais (no caso, a CNBC) que invariavelmente rejubilam com a infinita sageza e altruísmo dos banqueiros centrais (apesar do SNB suíço...).

sábado, 1 de novembro de 2014

Inflação - estatísticas oficiais e o exemplo do desporto

Por que razão uma decisão de aumentar (ainda mais) a insana impressão de dinheiro digital parece conduzir directamente à acumulação de recordes sobre recordes nos índices bolsistas? Terá o leitor dado conta que, por exemplo, o NASDAQ regressou aos valores que tinha em Março de 2000 quanto rebentou a bolha dotcom? Por que razão assistimos em paralelo ao estabelecimento de novos recordes no mercado da arte? No imobiliário e particularmente na altura dos arranha-céus? E nos mercados desportivos, objecto do artigo de Simon Black que hoje me propus partilhar? Porquê esta inflação direccionada mas galopante dos preços quando, em simultâneo, ouvimos incessantes avisos contra o iminente perigo da deflação?

Por Simon Black
31 de Outubro de 2014

Como as remunerações e passes dos atletas revelam a verdadeira taxa de inflação
(No inflation Friday: How sport salaries reveal the true rate of inflation)

A nova temporada da NBA [principal liga americana de basquetebol profissional - NT] começou esta semana. E com ela uma nova massa salarial para 2014-15. Corresponde a um aumento de 7,5% e atinge agora um nível recorde de 63 milhões de dólares.

Mais um "recorde de todos os tempos" num mundo onde tudo parece estar a chegar à Lua.

A massa salarial na NBA aumentou apenas marginalmente nos sete anos anteriores. Passou de 55,6 milhões de dólares por equipa na temporada 2007-08, para 58,7 milhões em 2013-14, um aumento de 5,6%.

Foto daqui
O aumento agora verificado superou em muito este último. Acréscimos semelhantes têm vindo a verificar-se nos diferentes desportos. Tomemos o desporto mais popular em todo o mundo - o futebol - como um exemplo credível.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Em defesa do euro (na ausência do padrão-ouro)

No artigo que hoje proponho aos leitores, Gary North expõe o seu ponto de vista sobre a zona euro num mundo dominado pela moeda fiat. Num raciocínio próximo do de Jesús Huerta de Soto, na ausência do padrão-ouro internacional integral (isto é, o padrão moeda-ouro), é o euro, ou seja, o BCE, que constitui a única barreira, ainda que débil, ao desregramento orçamental dos estados membros. Nessa medida - e só nessa medida - o arranjo monetário da zona euro (um proxy do padrão-ouro como também lhe chamou JHS) é algo de bom e correcto, diz-nos North. Os que há 15 anos assinalam a "inconsistência" entre um planeamento central monetário supra-nacional e a diversidade fiscal dos diferentes estados da zona euro, e continuam clamando pela necessidade de aliar à união monetária (o euro) uma união fiscal (um orçamento supra-nacional), são os estrénuos defensores do centralismo e, por conseguinte, ferozes opositores à ideia da descentralização. Quem são estas pessoas? Os keynesianos, claro está. A doença é essa. Não há nenhuma inconsistência entre haver num dado espaço político-geográfico uma moeda única e diferentes políticas fiscais como frequentemente por aí se ouve (olhe-se para os Estados Unidos por exemplo). A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Gary North
11 de Outubro de 2014

O que está CORRECTO no Euro
(What's RIGHT With the Euro)

Eu penso como um economista. O economista pensa sempre em termos de alternativas. A mentalidade do economista foi expressa com clareza pelo falecido comediante, Henny Youngman. "Como está a sua mulher?" "Comparada com o quê?"

Gary North
Uma das acusações mais comuns contra o euro é a seguinte: "A zona euro é composta por uma moeda centralizada, mas por políticas fiscais nacionais descentralizadas." Eu nunca vi nenhum dos críticos que invocam este argumento propor a abolição do euro e do Banco Central Europeu. Este argumento é sempre invocado para defender a ideia de união fiscal. Por outras palavras, não há nenhum esforço para descentralizar as moedas na zona euro. Mas há uma forte pressão, ainda que até agora ineficaz, para unificar as políticas fiscais da eurozona.

Pense o leitor nas implicações disto. Consegue ver o que há de errado neste argumento?

sábado, 6 de setembro de 2014

"A paranóia antideflacionista", por Jesús Huerta de Soto

Um antídoto contra a barragem de propaganda da elite manipuladora, amplificada pelo habitual papaguear extasiado dos media convencionais, é a proposta que deixamos para o fim-de-semana. Ele consiste em uma recente alocução do professor Jesús Huerta de Soto em que este desmonta o que muito propriamente designa da "paranóia antideflacionista" que a elite propala a bem de uns beneficiários muito específicos. Uma hora de visionamento que, assim o julgamos, pode proporcionar um elevado retorno e permitir perceber por que razão coisas como esta possam estar a acontecer sem que o céu se abata sobre as cabeças dos (moderadamente) hereges.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Inexoráveis falências do planeamento central

Em 1920 (!), Ludwig von Mises publicou um célebre ensaio (invocado na imagem) em que demonstrava, por recurso a um rigoroso processo de dedução lógica, a impossibilidade de se proceder ao “cálculo económico” nos regimes socialistas, entendidos como aqueles em que os meios de produção são de propriedade estatal. A consequência era devastadora: a supressão do mecanismo de formação dos preços dos bens de produção conduziria, mais cedo ou mais tarde, à inexorável inviabilidade da economia socialista [1]. É aqui que reside a chave para o entendimento da implosão (súbita, só na aparência) do império soviético - a falência do planeamento central. E não, não foi por causa da “guerra das estrelas” de Reagan, narrativa que os neoconservadores se apressaram a fazer passar e que persistem em alimentar.

Não obstante a evidência da hecatombe (a China ainda foi a tempo de a evitar rumando a porto diferente), é indiscutível que permanece em grande parte da intelectualidade, economistas incluídos, um fascínio pelo planeamento centralizado, ainda que embrulhado em cambiantes de uma tal “economia social de mercado”, “humanista”, redistributiva, "justa", etc. Através da "adequada" regulação (um sinónimo brando para planeamento central), ela permitiria combinar os benefícios da economia de mercado - a formação dos preços enquanto sinalizadores de preferências e de escassez relativa – evitando os seus “excessos” e ”falhas”.

Uma destas variantes tem sido interpretada pelos sucessivos políticos populistas argentinos apostados em nunca mais permitir que o seu país volte a ocupar o lugar que já foi seu nas primeiras décadas do século XX - o da 10ª economia do mundo! Outra, é a do regime chavista na Venezuela (onde já se ilustra a justeza de uma frase célebre de Milton Friedman – “Se se conferisse ao governo federal a gestão do deserto do Sahara, em cinco anos ocorreria uma escassez de areia”). Axel Kicilfof, o actual ministro das Finanças da tresloucada Kirchner, pensa ser possível gerir a economia a partir de folhas de cálculo (ele é, afinal, o sr. “Excel”). Recorde-se, aliás, que já Salvador Allende tinha sonhado comandar a economia do Chile com supercomputadores a partir de uma sala de comando - o Panóptico - inspirada numa qualquer nave espacial - o “projecto CyberSyn”. Uma e outra vez, continuam a pretender reinventar o “socialismo planeamento científico” (planeamento central). Os resultados são os de sempre – catastróficos. O gráfico seguinte, elaborado aquando da desvalorização do peso argentino em Janeiro último, mais não faz que anunciar o próximo desastre de mais um período hiperinflacionário:


_______________________
[1] - Enquanto aquele Grande Sismo se preparava, a edição de Economics, “O” manual da autoria de Paul Samuelson – a “bíblia” da disciplina de Economia que durante 40 anos formou gerações e gerações de estudantes universitários -, ainda previa em 1989 (!!) que, em poucos anos, a dimensão da economia da União Soviética iria ultrapassar a dos Estados Unidos…

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Citação do dia (171)

Os Verões de 2012 e 2014

"Nesta era de inflação monetarista, os Alemães mostram-se como um bastião de discernimento. No seu melhor, as políticas monetárias podem apenas poupar tempo. No seu pior – a realidade, no fundo – permitem bolhas problemáticas que ficam fora de controlo.
Porque haveriam os bancos europeus de tomar parte no risco (alto) de conceder crédito à economia, quando podem fazer lucros seguros e sem risco comprando dívida soberana?
Do mesmo modo, porque haveria um empresário americano de investir em ampliar as suas instalações ou adquirir novo equipamento, quando tanta “riqueza” é criada a comprar as acções da sua própria empresa?
Entretanto, após dois anos de estímulos monetários globais maciços prolongaram-se históricos investimentos na China e por toda a Ásia. O que exacerbou as bolhas, enquanto piorou todo o panorama global na atribuição de preços e investimentos.
Os desequilíbrios globais estão mais acentuados.”

Reflectindo acerca dos Verões de 2012 e 2014" - Doug Noland - 29 de Agosto de 2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

As bruxas de Macbeth na versão Draghi et al

Vimos procurando ajudar a decifrar "o guião" que norteia as sucessivas operações de manipulação do sistema monetário e financeiro por parte dos bancos centrais à escala mundial (com particular e natural atenção ao ECB), operações essas pomposamente conhecidas por "política monetária". E embora na divisão do trabalho no Espectador Interessado, esta matéria esteja naturalmente (e muito bem) entregue ao LV, não resisto a uma intervenção, num registo menos habitual, depois de um amigo me ter chamado à atenção do Kaiser Report 611 (de 7 do corrente, vídeo abaixo). Assim, e na sequência de referências recentes, e agradecendo ainda à veia da Mónica Colaço [1], aqui fica um comentário à situação, estrutural, que atravessamos:
Um, dó, li, tá. A dívida veio e ficou por cá.
Trabalho, trabalho, trabalho e já está!
As obrigações queimam e dinheiro não há,
O que ele comprava, jamais comprará.
Olho de salamandra e dedo de rã
Pelo de morcego, casca de romã
Não comprará mais,
Nem hoje nem amanhã.



[1]  - Uma tradução/adaptação de uma brincadeira de Max Keiser, logo no início do vídeo, ela própria adaptada da cena das três bruxas na peça Macbeth, de Shakespeare, e que "corre" assim:

Bubble, bubble, toil and trouble.
Bonds burn and prices double.
And eye of newt, and toe of frog,
Wool of bat, and tongue of dog,
Cost more than you can afford

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ascensão e (muito) provável queda do dólar americano

Julgo ter encontrado neste artigo de Robert P. Murphy - editor de um muito frequentado blogue para economistas, e autor de vários livros entre os quais o excelente Lessons for the Young Economist (dirigido à população juvenil do ensino secundário nas versões para aluno e professor) -, uma sucinta mas rica súmula da ascensão do dólar bem como da sua previsível queda. Murphy descreve o fim do padrão barra-ouro decretado por Franklin Roosevelt em 1933/34 (incluindo o episódio do roubo que perpetrou aos americanos quando lhes confiscou o ouro que detinham) e o novo arranjo monetário que lhe sucedeu, o dólar-ouro, saído da conferência de Bretton Woods e da "nova ordem internacional", dominada pelos EUA, que resultou da II Guerra Mundial. A meu ver, consegue proporcionar um relato inteligível a um qualquer leitor interessado sem todavia lhe escapar o essencial do porquê do papel privilegiado que o dólar tem proporcionado aos EUA durante todo este tempo. Termina o artigo a  explicar as razões para a sua (muito) provável queda, que, a concretizar-se, antecipa fragorosa. Em suma, razões bastantes para que achasse útil traduzi-lo (eventuais erros da minha inteira responsabilidade).
16 de Maio de 2014
Por Robert P. Murphy

Ainda Não Aconteceu o Crash: Estavam os Economistas da Escola Austríaca
Errados relativamente ao Dólar?

Robert P. Murphy
Os críticos do governo dos EUA, com frequência, chamam a atenção para os perigos da moeda fiduciária. Com efeito, desde que Richard Nixon acabou com a ligação do dólar ao ouro (em 1971), muitos proponentes do "dinheiro sólido" alertaram para um crash do dólar. Isto levou os críticos destes "gold bugs" a ridicularizar as previsões aparentemente erradas destes últimos e dos seus excêntricos pontos de vista. Neste artigo irei percorrer algumas das principais questões nesta matéria. Como veremos, os gold bugs poderão vir a acabar por ser os últimos a rir.

Sob o padrão-ouro clássico, o dólar americano era convertível em ouro à paridade de 20,67 dólares por onça. Quando FDR [Franklin Delano Roosevelt N.T.] tomou posse em 1933, ele terminou com esta estrita ligação do dólar e confiscou o ouro da nação. (O famoso depósito de ouro em Fort Knox foi na realidade construído com a finalidade de armazenar o ouro roubado dos americanos).

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Mentir, mentir sempre

JS, um comentador habitual no Espectador Interessado, convida-nos aqui a analisar este artigo onde se expõe, de forma irrefutável, (mais) uma mentira de um banqueiro central. No caso, Mario Draghi. Bem, mas que tem isso de extraordinário? Façamos, por exemplo, o exercício de ouvir, vendo, um outro mago - um outro Maestro - pertencente àquela iluminada elite, exclusiva dos Grandes, infinitamente imbuída de um altruísmo incomparável:


De resto, não foi Jean-Claude Juncker, enquanto presidente do Eurogrupo, e que é hoje um outro candidato a candidato à presidência da Comissão Europeia, quem afirmou que "quando as coisas se tornam sérias, uma pessoa tem de mentir"? "Mentir, mentir sempre" é o mote dos maestros do planeamento central. Em particular, do monetário, sempre tão querido aos estatistas de todos os matizes e, muito em especial, aos que ribombam contra a crescente desigualdade da distribuição de rendimentos sem se aperceber que é aí mesmo que reside a causa daquilo que repudiam. O que tem tudo a ver com isto.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Esvaziando o mito da deflação

A uma mentira que mil vezes se repete só resta contrapor, com uma frequência equivalente, o seu rebatimento. Assim, face a múltiplas notícias que dão conta do papão deflacionista (por exemplo, Vítor Constâncio terá ainda ontem afirmado que (meu realce) “[e]speramos [no BCE] que o valor baixo de Março seja corrigido para um registo mais elevado em Abril”), volto a insistir no combate ao endeusamento da inflação como fenómeno essencialmente benévolo (se contido num valor "baixo") acompanhado do esconjurar da autêntica peste negra que a deflação representaria. Têm sido múltiplos os meus posts sobre o tema. Mas julgo ser preciso insistir. Primeiro, evocando Mises:
"O mais importante a recordar é que a inflação não é um acto de Deus, que a inflação não é uma catástrofe dos elementos ou uma doença que surge como uma praga. A inflação é uma política."
Depois, procurando contribuir para a desmistificação do fenómeno deflacionário pela via de uma tradução, da minha responsabilidade (notas do texto original substituídas por links), de um texto de Chris Casey ontem publicado cujo título roubei para encimar o presente post.
2 de Abril de 2014
Por Chris Casey
Esvaziando o mito da deflação

O temor da deflação funciona como a justificação teórica para todas as acções inflacionistas levadas a cabo pela Reserva Federal e pelos bancos centrais em todo o mundo. É por isso que a Reserva Federal tem por objectivo uma taxa de inflação de preços de 2% e não de 0%. Em larga medida, esta é a razão que levou a Reserva Federal a mais do que quadruplicar a base monetária de Agosto de 2008 até hoje. E é, de forma notável, um enorme mito, pois não há nada de intrinsecamente perigoso ou prejudicial na deflação.

A deflação é temida não apenas pelos seguidores de Milton Friedman (os designados monetaristas ou membros da Escola de Chicago), mas também pelos economistas keynesianos. Um dos mais destacados keynesianos, Paul Krugman, num artigo do New York Times de 2010 intitulado "Por que é a deflação uma coisa má", apontou a deflação como a causa da contracção da procura agregada uma vez que "quando as pessoas têm a expectativa de que os preços vão baixar, elas tornam-se menos propensas a consumir, e, em especial, menos dispostas a contrair empréstimos".

Presumivelmente, ele acredita que este diferimento na despesa durará para todo o sempre. Mas sabemos por experiência própria que, mesmo em presença de uma descida de preços, os indivíduos e as empresas acabarão por, num dado momento, vir a comprar o bem ou serviço em questão. Não é possível renunciar eternamente ao consumo. Vemos isto suceder todos os dias na indústria da informática / electrónica: o valor da utilização de um iPhone ao longo dos próximos seis meses é superior ao da poupança que resultaria do adiar da sua compra.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Citação do dia (158)

Agradecendo a CN pela chamada de atenção.
"Os ricos do topo da pirâmide são keynesianos. São devotos do templo de Keynes. (...) O keynesianismo tem as características de uma religião. Tem uma confissão: "A moeda fiat supera as recessões". Tem uma agenda: a salvação através do crescimento económico. Tem uma doutrina da omnisciência: o planeamento central monetário. Tem um clero: os economistas doutorados. Tem um movimento evangélico: o levado a cabo pelo Congresso, pelas universidades e pelos media do mainstream."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Citação do dia (154)

[O] padrão-ouro não entrou em colapso. Os governos aboliram-no de modo a preparar o caminho para a inflação. Todo o sombrio aparelho de opressão e coerção - polícias, guardas alfandegários, tribunais criminais, prisões, em alguns países até mesmo carrascos - teve que ser accionado para destruir o padrão-ouro. Promessas solenes foram quebradas, leis retroactivas foram promulgadas, disposições constitucionais e declarações de direitos foram desafiadas abertamente. E as hostes de autores servis louvaram o que os governos haviam feito, saudando o alvorecer do milénio da moeda fiduciária.

Ludwig von Mises, in The Theory of Money and Credit
(Edição em língua inglesa de 1952, minha tradução)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Conheça o caminho das saídas para que, chegado seja o momento, ainda as consiga franquear

Douglas E. French, ex-presidente do Mises Institute e actual editor sénior da Laissez-Faire Books é, para além de um profundo conhecedor do funcionamento do sistema bancário, um estudioso do fenómeno das bolhas especulativas, tema que aliás abordou na sua tese de mestrado (sob orientação de Murray Rothbard) e que daria origem ao seu livro Early Speculative Bubbles and Increases in the Supply of Money (de borla, aqui, nos formatos pdf e ebook/.epub). Neste livro, Doug French aborda três episódios de especulação desenfreada que a história viria a registar, a saber: a "Tulipomania" ou "febre das tulipas", ocorrida na Holanda no século XVII (1634?-1637) e as temporalmente coincidentes bolhas da "Mississippi Company" (em França) e da "South Sea Company" (do lado de lá do Canal da Mancha), em 1719-1720, de resto interligadas entre si. Nos três casos, estabelece uma ligação de causa-efeito, espelhada no título do livro, entre uma aceleração continuada da expansão da oferta monetária, sem correspondência real a mais bens e serviços produzidos, e a consequente emergência e posterior estouro das respectivas bolhas especulativas que essa expansão provocou.

No artigo que achei interessante procurar ampliar a divulgação, através de tradução de minha responsabilidade, e cujo significativo título é Signs That It’s Time to Head for the Exits ["Sinais de Que Chegou a Altura de Nos Dirigirmos para As Saídas"], French descreve um desses episódios onde o escocês John Law [link], que aquele baptiza de "o primeiro keynesiano antes de Keynes", ensaia o recurso em grande escala da destruição do "dinheiro verdadeiro" com a intenção de "resolver" em definitivo as dificuldades do tesouro real francês (decorrentes de décadas contínuas de guerras) e acabar de vez com quaisquer restrições orçamentais à actividade governamental (se isto lhe parece familiar, tem o leitor toda a razão). Percorre de seguida o ainda recente episódio da hiperinflação no Zimbabwe (que culminou na destruição da moeda local), aborda em seguida a espiral que continua a decorrer numa Venezuela a caminho da implosão e também o pouco conhecido caso da África do Sul, todos eles exemplos do sério perigo que a instituição de sistemas de controlos de capitais sempre sinaliza, com os governos a tentar impedir a fuga às suas moedas fiat por parte dos cidadãos. Termina o artigo assinalando que os próprios americanos não estão isentos de perigos semelhantes até porque os primeiros sinais (e já são muitos) aí estão pelo que deixa um (avisado) conselho aos seus leitores. É minha convicção que, pese embora a sua extensão, a leitura integral do texto poderá proporcionar um retorno adequado ao esforço despendido. Só posso desejar que tal venha a suceder (como sempre, de preferência, no original). Os comentários e reflexões, também como sempre, serão bem-vindos.
17 de Janeiro de 2014
Por Doug French

O dinheiro verdadeiro, como o ouro e a prata, é adoptado pelo mercado e trocado por bens e serviços de modo voluntário. A moeda fiduciária governamental é algo de diferente. A maioria das pessoas esquece-se que vivemos sob leis de curso legal [link] que nos forçam a utilizar os pedaços de papel que a Reserva Federal e o Tesouro criam a partir do nada.

Fabricar notas, a um custo de cêntimos, para as trocar, em alguns casos, por uma centena de dólares, constitui um bom negócio. Criar lançamentos contabilísticos electrónicos tem um custo ainda menor. Os governos não desistirão deste negócio sem luta.

No final do processo, o governo irá fazer com que o valor do seu papel atinja o valor de, bem, do papel. Na sua essência, a impressão de dinheiro é uma forma silenciosa e sorrateira de tributar as pessoas. Eventualmente, elas aperceber-se-ão disso. Charles Mackay escreveu no seu livro, o clássico "Extraordinárias Ilusões Populares e a Loucura das Multidões" ["Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds"], "Como foi observado com sabedoria, os homens pensam em rebanho; viremos um dia a perceber que eles enlouquecem em rebanho enquanto só são capazes de recuperar a sanidade lentamente, e um de cada vez".

Estamos num processo composto de passos sucessivos e o governo sabe disso. Começaram a surgir [nos EUA] os primeiros sinais de imposição de controlos de capitais. Fazer sair do país activos financeiros no valor de 10.000 dólares é agora verboten [proibido]. O governo dos EUA estabeleceu acordos com países e bancos em todo o mundo para manter o dinheiro dentro dos EUA.

Mas o que é que acontece quando os cidadãos pretendem abandonar o dinheiro governamental? Se a História é boa indicação, o governo irá tornar-se pérfido.

John Law: o primeiro keynesiano no mundo

A França entrou em bancarrota em resultado das sucessivas guerras que travou, de 1689 a 1713, durante o reinado de Luís XIV. Como se isso não fosse punição suficiente, o povo francês teve que sofrer também as fomes de 1693 e 1694, e o extremamente frio Inverno de 1708-1709. As desvalorizações da moeda tornaram-se norma, e os franceses desenvolveram uma desconfiança para com o papel-moeda.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Depois de 100 anos de fracasso, é hora de acabar com o Fed!"

Minha tradução do texto de um homem, Ron Paul, que pôs milhões na América a gritar "End the Fed" e cujas sementes continuam a germinar.

Por cá, volto a fazer notar que aqueles que mais têm os pobres na boca e na pena são exactamente os mesmos que eregem os banqueiros centrais aos novos deuses do Olimpo. A bem da redistribuição da riqueza dos pobres para os ricos.
Ron Paul
De hoje a oito dias, o Sistema da Reserva Federal irá celebrar o 100º aniversário da sua fundação. Resultado das negociações secretas entre os banqueiros e os políticos em Jekyll Island, a criação do Fed estabeleceu um cartel bancário e um conselho de supervisores de nomeação governamental cujo poder não tem parado de crescer ao longo dos anos. Poder-se-ia pensar que este aniversário pudesse vir a desencadear alguma espécie de tomada de consciência pública do crescimento do Fed de um quase-agente do Departamento do Tesouro com a missão de proporcionar uma moeda elástica, a uma instituição independente de facto que assumiu o controlo total da economia por via do seu planeamento central monetário. Mas tal como sucedeu com a criação do Fed, o seu 100º aniversário corre o risco de passar quase despercebido.

Tal como sucedeu com muitas outras peças legislativas terríveis e inconstitucionais, o projecto de lei que criou o Fed, o Federal Reserve Act, foi aprovado sob uma grande pressão, em 23 de Dezembro de 1913, nos momentos que antecederam a suspensão das actividades do Congresso pelo Natal, quando muitos dos seus membros já não estavam presentes aquando das votações finais. Este método dissimulado de pressionar o Congresso para aprovar o Federal Reserve Act num tal prazo forneceria um prenúncio dos efeitos insidiosos do Fed sobre a economia dos EUA - com acções levadas a cabo sem transparência.

Formado ostensivamente com o objectivo de prevenir a eclosão de crises financeiras como o Pânico de 1907 [link], o Fed veio a tornar-se cada vez mais poderoso ao longo dos anos. Em vez de prevenir crises financeiras, porém, o Fed tem constantemente provocado novas crises. Poucos anos depois da sua criação, a política monetária inflacionária do Fed para ajudar a financiar a I Guerra Mundial levou à Depressão de 1920 [link]. Depois da economia ter recuperado daquele episódio, uma nova injecção de dinheiro fácil e de crédito por parte do Fed levou aos Loucos Anos 20 [link] e à Grande Depressão, a pior crise económica da história americana.

Mas muito embora o Fed tenha continuado a cometer os mesmos erros repetidamente, nunca ninguém em Washington questionou a sabedoria da existência de um banco central. Pelo contrário, na sequência de cada episódio, mais e mais poder sobre a economia foi concedido ao Fed. Apesar do Fed ter provocado a estagflação [link] da década de 1970, o Congresso decidiu atribuir formalmente à Reserva Federal, em 1978, o mandato de manutenção do pleno emprego e de preços estáveis combinando-o com o constante adicionar de regulamentações horrendamente prejudiciais. Caso para falar dos loucos a tomar conta do asilo!

Estamos agora a colher os efeitos nocivos de um século de política monetária acomodatícia, quando a nossa economia continua atolada na mediocridade e está totalmente dependente de um fluxo de dinheiro fácil proveniente do banco central. Há um século atrás, os políticos não conseguiram compreender que os pânicos financeiros do século XIX foram causados pelo conúbio entre o governo e o sector bancário. O monopólio crescente do estado sobre a criação da moeda, as elevadas barreiras à entrada no sector bancário para proteger os incumbentes politicamente favorecidos, e o tratamento preferencial para a dívida pública combinaram-se para criar um sistema bancário frágil e propenso a pânicos. Soubessem então os legisladores o que sabemos agora, poderíamos esperar que nunca teriam criado o Sistema da Reserva Federal.

Hoje, todavia, já não nos deixamos levar. Sabemos que a Reserva Federal continua a reforçar o conluio entre os bancos e os políticos. Sabemos que a política monetária inflacionária do Fed continua a proporcionar lucros a Wall Street enquanto empobrece a Main Street. E sabemos que o actual regime monetário está à beira de um precipício. Cem anos é tempo suficiente. End the Fed.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

David Stockman: "voltámos à situação de 2007/2008"

Por cortesia do Fed. O entrevistador, Neil Cavuto, céptico do prognóstico de Stockman (tanto mais que, como afirma, "os tempos estão bons"), pergunta-lhe quanto vai o estouro ocorrer. A resposta de Stockman é a habitual nos "austríacos": reconhecer a impossibilidade de se saber quando algo irá ocorrer não é de todo incompatível com a validade do prognóstico do que irá suceder quando se está a aplicar uma framework teórica que se mostra válida desde os tempos que Hayek e Mises anteciparam o crash bolsista de 1929. Isto, quanto um dos grandes "monstros" do monetarismo, Irving Fisher, três (!) dias antes da Quinta-feira Negra, afirmava: "Os preços das acções alcançaram o que parece ser um patamar permanentemente alto".


(Via Circle Bastiat)

O Fed é o Robin Hood às avessas

De modo algum fico espantado pelo facto de não conseguir encontrar, em páginas portuguesas na internet, uma referência a esta confissão pública no Wall Street Journal (Andrew Huszar: Confessions of a Quantitative Easer), publicada no passado dia 11 de Novembro do corrente. Isto porque creio ser bem provável que tal "esquecimento" não seja alheio à visão hagiográfica dos nossos media relativamente aos banqueiros centrais, partilhada por todos aqueles (por exemplo, "Mario Draghi, uma vez mais, esteve à altura da situação") que acham têm fé em que uns adequados passes de alquimia possam substituir as dores próprias de enfrentar a realidade. Não surpreende pois que se procure evitar o que quer que seja que ponha em causa a imensa e inestimável sabedoria e compaixão dos pontífices em exercício (aqui bem patentes).

Ron Paul há décadas que vem dedicando boa parte da sua vida pública a desmontar esta tão idílica quanto falsa perspectiva da prestidigitação monetária dos supostos illuminati. Volta a fazê-lo em Federal Reserve Steals From the Poor and Gives to the Rich, texto de que achei útil proporcionar uma tradução.
18 de Novembro de 2013

Na quinta-feira passada, o Comité de Assuntos Bancários do Senado iniciou a audição de Janet Yellen no seguimento da sua indigitação para presidente da Reserva Federal. Como se esperaria, a Sra. Yellen referiu que iria continuar a política de "flexibilização quantitativa" do Fed (QE [Quantitative Easing]), apesar do fracasso da QE na melhoria da economia. Por coincidência, dois dias antes das audições a Yellen, Andrew Huszar, um ex-funcionário do Fed, pediu publicamente desculpas [link acrescentado] ao povo americano pelo seu papel na QE. O Sr. Huszar chamou à QE "o mais secreto resgate a Wall Street de todos os tempos".

Há não mais de cinco anos atrás [alusão à primeira candidatura de Ron Paul à presidência dos EUA, em 2008], teria sido inédito ouvir um conhecedor [do funcionamento por dentro] de Wall Street e ex-funcionário do Fed a falar tão abertamente do modo como o Fed age como um Robin Hood às avessas. Mas um rápido olhar para os números mais recentes do desemprego mostra que a QE não está a beneficiar o americano médio. É cada vez mais óbvio que a política de resgates do Fed pós-2008, a "impressão" de dinheiro [a partir do nada] e a compra de obrigações beneficiou os grandes bancos e as sociedades de investimento com [fortes] ligações políticas. A QE é um exemplo tão flagrante de capitalismo de compadrio [crony capitalism] que faz com que o caso Solyndra [link] pareça um luminoso exemplo de funcionamento de um puro e livre mercado!

Seria um erro pensar que com a QE seria a primeira vez que as políticas do Fed beneficiaram aqueles que vivem com desafogo à custa do americano médio. As políticas do Fed beneficiaram sempre os capitalistas de compadrio e os políticos defensores da grande despesa pública em prejuízo [e às expensas] do americano médio.

Através da manipulação da oferta monetária e da taxa de juro, as políticas da Reserva Federal criam inflação e desse modo corroem o valor da moeda. Desde que a Reserva Federal abriu as suas portas, há cem anos atrás, o dólar perdeu mais de 95% do seu poder aquisitivo - sim, é isso mesmo, hoje são necessários 23,70 dólares para comprar o que um dólar comprava em 1913!