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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Prosperidade numa linha (3)





Apesar das múltiplas iniciativas de promoção do sucesso do projecto europeu, da insistência renovada dos meios de comunicação tradicionais na "modernidade civilizacional" do mesmo projecto, bem como da voracidade dos nossos curadores em apresentar obra nova (quando serviços tão básicos mostram a sua insuficiência) a realidade é teimosa. E impõe-se.

segunda-feira, 12 de março de 2018

No reino maravilhoso



Os deuses europeus falaram na semana passada. O discurso de Draghi foi, para dizer o mínimo, intrincado. Com sentidos apenas aparentes. Parece-me que se começa a pressentir mudanças necessárias nas políticas monetárias e financeiras, mas não parece haver espaço para as concretizar.

Acerca disto nada de substancial se diz ou analisa nos meios convencionais. Só o óbvio da catástrofe que prevê o centrão político europeu acerca dos resultados das eleições italianas.
Comprende-se. Falta espaço.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Para lá do contraplacado



Depois das "boas notícias" aos bons alunos e da soberba dos políticos nacionais, a realidade mostra-se bem mais difícil de domesticar. Por maior que seja a carga de napalm-liquidez que se largue do computador do BCE.
"Adoramos o cheiro da intervenção pela manhã."

Saberemos o que está para lá do contraplacado?

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Momento pseudo-Magritte


Mario Draghi no seu mais recente número de artes performativas está a tentar condicionar expectativas. E o incrível é tem resultado. Até quando?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Citação do Dia (200)

"Estes não são tempos normais. As taxas de juro das obrigações alemãs estão tão baixas que até as maturidades a 30 anos, com taxa de 1,14%, traduzem-se em rendimentos reais negativos.

Retornos livres de risco, de facto."



James Grant, "Almost Daily Grant´s", 30 de Agosto de 2017

Tradução e itálicos da nossa responsabilidade.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Consequências lógicas

Com as primeiras chuvas damo-nos conta da realidade necessária. Daquela que, logicamente, tem de seguir-se quando são tomadas determinadas decisões.
A muitos deve espantar a generalizada subida nos custos associados às contas bancárias (a começar pela DECO, pelos vistos), mas apenas a distração que nos embala durante o Verão ou - quem sabe -, o desconhecimento do complexo sistema e políticas monetárias e financeiras nos pode causar espanto. Então, as taxas de juro vão a zero (ou são negativas) por obra e graça das visões de Draghi, o que até aos bancos coloca em situação desconfortável, e não haveriam os clientes de ver reflectido em si esse desconforto?
Este generalizado "acerto de custos" não é política comercial (de um mercado onde a concorrência deve ser compreendida no seu sentido mais ténue), mas uma resposta à actual conjuntura do sistema bancário e das políticas monetárias e financeiras do BCE.
Foi precisamente disso que me lembrei ao ler os títulos de hoje. E que associei ao seguinte artigo.
Trago à consideração dos leitores parte de um artigo de Charles Gave (Evergreen Gavekal), que traduzi (negritos e adaptações são da minha responsabilidade).
Naturalmente a leitura integral é vivamente recomendada.

"O estrangulamento do dinamismo económico

No mundo actual, aqueles que podem aceder ao crédito para comprar os activos existentes são as grandes corporações com fluxo de caixa positivo (ainda que com um crescimento débil) e os seus accionistas – os ricos. Estas corporações endividam-se para recomprar as suas próprias acções ou outros activos disponíveis, como imobiliário. Isto aumenta o endividamento não produtivo no sistema através destas grandes companhias, ou através de clientes dos bancos de investimento (...), que não poderia existir e prosperar se as taxas estivessem nos 4% ou 5%.

Em contraste, os empresários, aqueles em quem a economia pode contar para construir os activos de amanhã, não conseguem obter capital, pois o sistema bancário considera menos arriscado destinar esse capital a uma General Electric para que esta possa recomprar as suas próprias acções do que emprestar a um lunático com o projecto bizarro de contruir uma nova armadilha para ratos ou um computador quântico, ou qualquer outra coisa de útil. Escusado será dizer que esta combinação de aumento do endividamento financeiro e declínio do investimento produtivo, aumenta muito a vulnerabilidade do trabalhador comum, bem como dos mais pobres quando um abrandamento económico ocorrer.

Em conclusão:
- Baixas taxas de juro não são mais do que uma forma de capitalismo para os amigos (crony capitalism). Quanto mais próximo se estiver do banco central ou do governo, mais lucro é possível concretizar, como bem mostrou Richard Cantillon no séc. XVIII.
- Baixas taxas de juro beneficiam os ricos que são proprietários de activos.
- Baixas taxas de juro conduzem a um declínio na taxa de crescimento estrutural da economia.
- Baixas taxas de juro aumentam muito a fragilidade do sistema através de um aumento generalizado do endividamento nos segmentos da economia que não produzem riqueza.
- Baixas taxas de juro impedem a destruição criativa, em particular a manutenção das companhias que não são saudáveis, encurralando o trabalho e o capital em projectos sem viabilidade económica.
- Tudo isto conduz ao aparecimento dos demagogos.

É difícil imaginar uma política mais desastrosa."


Charles Gave, "Strangulation of enterprise", 25 de Agosto de 2017.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Dança das cadeiras




Por agora é Draghi e o BCE a dançar.
Até quando é que ninguém sabe. Para já a política de entorse perceptivo de orientação comunicativa para a manutenção das expectativas goza de aceitação pelos agentes interessados. Até quando...?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cogitações (3)

Esta semana Draghi fez das suas. Mais uma vez.
Estamos em plena Idade Dourada dos Bancos Centrais, mas esta última decisão política da equipa de burocratas do BCE teve efeitos contrários ao que era desejado.
O (ir)racional costumeiro é o seguinte: o BCE continua a comprar dívida mensalmente, conferindo liquidez ao sistema; junta-se-lhe uma taxa de juro interbancária um nadinha mais negativa para provocar uma resposta automática no crédito concedido pelos bancos à economia; pelo caminho, desvalorizava-se a moeda e isso traduzia-se numa melhoria nas exportações. E, pronto, a modos que era isto.
Mas o euro subiu mais de três por cento! E os índices bolsistas estão, no mínimo, anémicos!
Para quem está Draghi a trabalhar, afinal? Terá dado uma ajudinha a Yellen? Porquê?

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O próximo passo


Há intensas discussões (indícios aqui) por detrás das cortinas quanto ao calendário do que o BCE vai fazer. Não quanto à substância do que vai fazer. Quanto a isso não há novidade. É apenas uma continuação.
Os aforradores que se cuidem, pois as taxas podem baixar mais. É que o homem na imagem parece ter fósforos que nunca mais acabam.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Em dia de aparente bonomia de Draghi

A dimensão dos desafios

No comunicado de hoje, Draghi repetiu o mote "estamos prontos para fazer o que for preciso". Seguem-se os passes da magia habitual por parte dos sábios. O "padrão PhD" no seu melhor.
Abaixo apresentamos uma infografia elaborada pela Universidade de Boston e Pearson Education para ilustrar a presente situação que os magos procuram inverter. A todo o custo. Custe o que custar. Mesmo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Radar

O período final do ano de 2014 e início de 2015 foi especialmente rico em acontecimentos relevantes. Relevantes à escala global. E se nos esforçarmos por manter presentes os acontecimentos semelhantes (só em 2014), então é impossível não especular acerca do que está a laborar por detrás da cortina. Por um lado, Jean-Claude Trichet considera que é chegada a oportunidade de as maiores economias estabelecerem um acordo monetário global para impedir a "corrida para o fundo" que as moedas manifestam (excepção para o dólar). Recomeço? Reset?
Por outro lado, Draghi simula mais um gesto para "agir contra a deflação".
Com o importante deslize do euro registado hoje, a simulação já não deve chegar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Radar

Para um verdadeiro teste à realidade que temos e continuaremos a ter, a entrevista a Bernard Connolly é fundamental. Connolly, ainda que crítico do projecto da moeda única, fez parte da Comissão Europeia na dimensão de política monetária e do Conselho de Governadores dos Bancos Centrais Europeus. E é esta dimensão de participante das altas esferas da burocracia europeia que confere à sua entrevista o estatuto de imperdível.
O que acontece à Espanha, a Portugal, à Alemanha ou à França? Que cenários temos pela frente? Quem abandona a Zona Euro em 2017?
A ouvir a partir do minuto 13.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O lado mau

Bytes

A leitura deste último artigo de Doug Noland, de que aqui se publicam algumas passagens, é muito recomendada. Pleno de realismo não deixa, porém, de causar inquietação. Isto porque ao discurso e à discussão pública falta considerar as consequências do que já se fez e se continua a fazer - política e economicamente. E esse raciocinar pela metade está a ter sucesso. O entorpecimento é generalizado. Mas, não tenhamos dúvidas, as "soluções mágicas" estão traçadas e serão apresentadas num brilhante (e trágico) encadeamento. O guião está escrito, aguarda apenas o momento da sua encenação.
O lado mau de “fazer tudo o que for preciso” - Doug Noland - 17 de Outubro de 2014

"Alguém que não esteja realmente preocupado não percebe o que se está a passar.

Considero todo o cenário surreal. E, quanto mais as pessoas agem como se nada se passasse, mais preocupado fico. Por estranho que pareça, estes dias lembram-me a minha perplexidade quando estudava o período que conduziu à crise bolsista de 1929. Como é que foi possível não ver o que estava para vir? Como pôde toda a gente permanecer optimista – “num topo contínuo” – face àquilo que, posteriormente, era tão óbvio e perturbador: uma deterioração do mercado e das perspectivas da economia global.

sábado, 23 de agosto de 2014

Estilhaços e realidade


Aceder à realidade

Os nossos leitores já devem conhecer Ambrose Evans-Pritchard e os seus artigos. Seja pelas citações que dele se fazem no blog ZeroHedge ou, directamente, porque conhecem a sua coluna no The Daily Telegraph. O editor de Negócios deu uma entrevista muito esclarecedora acerca das encruzilhadas em que nos encontramos – todos, países desenvolvidos e emergentes, norte e sul – nos planos político e económico. De seguida apresentam-se algumas passagens dessa entrevista. Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura integral da mesma.
A tradução e a edição destes parágrafos são da minha responsabilidade. Espero que possam ser uma ajuda para podermos reconstruir adequadamente os pedaços estilhaçados da nossa pobre realidade. Aquela que está para lá do nevoeiro pestilento a que nos conduzem políticos, comentadores e selectos especialistas.

"(…)
Ambrose: Todo o sistema económico e financeiro está mais alavancado do que estava em 2008, quando as instituições como o FMI ou BIS disseram que era realmente perigoso. E nós estamos a ver os sinais dessa efervescência quando as taxas dos maus (junk) créditos baixam a níveis históricos, ou seja, os investidores estão a assumir risco sem fazerem perguntas.
Nós já vimos esta volatilidade antes, por isso aquelas instituições começam a defender que estamos, basicamente, a caminhar para uma crise de proporções gigantescas. (...) A Europa precisa de um programa QE [injecção de liquidez por parte do BCE - nt] semelhante ao americano e numa larga escala. Apesar das objecções alemãs – o BCE tem de assumir isso rapidamente. (...)
Draghi quer, desesperadamente, iniciar um programa QE. Ele deseja um euro muito mais fraco só que, sendo presidente do BCE, ele não o controla. São os alemães, em última instância que o controlam. Eventualmente, o euro irá baixar de valor, mas é necessário explicar a situação com mais detalhe. Os rácios de dívida dos países do sul da Europa estão a aumentar muito, mesmo com toda a austeridade – veja-se a Itália [ incluo aqui o caso português que, como sabemos, viu a dívida pública aumentar de 132,4% do PIB para 134% no final do primeiro semestre deste ano - nt]. Isto é um círculo vicioso.
Por outras palavras, esse rácio está a subir, em larga medida, por causa das políticas de austeridade. É uma mistura explosiva: inflação nula e recessão.

David: A razão pela qual não se fala em reestruturação ou reescalonamento da dívida nesses casos é que os países perderam autonomia quando passaram a fazer parte da União Monetária?

Ambrose: De facto, os países perderam o controlo e a soberania. Já não têm banco central, não têm uma moeda e não controlam a política macroeconómica. A dificuldade está agora no facto de que, não tendo soberania monetária, os países podem mesmo falir, pois não podem imprimir moeda para evitar essa falência. (...) É apenas quando se entra para a União Monetária que os assuntos da falência, da reestruturação da dívida passam a fazer parte da discussão com os parceiros dessa União. É aí que a Itália se encontra agora.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Radar (actualização)


Mesmo depois da "acção de orientação" de ontem, por parte de Draghi e do BCE, as nuvens negras (aqui e aqui) em torno do sistema bancário europeu não desapareceram.
Não obstante os sofismas, o mal persiste.

(Actualização: afinal também a Alemanha, a França - e companhia - demonstram fragilidades).

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Cavalos Furtivos

Moldar percepções e expectativas

Gaston Phoebus, "Livre de Chasse" (1387)


O artigo que a seguir se publica foi traduzido e editado por mim a partir do original (mais longo e rico), cuja leitura se recomenda vivamente.
O Cavalo Furtivo”, Ben Hunt - 21 de Julho de 2014

Na guerra, a verdade é a primeira vítima” – Ésquilo

O cavalo furtivo é uma técnica de caça muito antiga onde o caçador consegue uma vantagem importante ao esconder-se atrás de um cavalo (ou da sua representação), levando a presa a considerar familiar ou natural o que está a ver. E a presa não sabe quantos pés tem o cavalo.
Os mercados de hoje estão atafulhados com cavalos furtivos, não para proceder a triviais aquisições hostis, mas para estabelecer objectivos macroeconómicos que são motivados politicamente. Seja o uso das palavras para criar representações furtivas ou o investimento num determinado activo para montar o mesmo cavalo furtivo, os governos são, hoje em dia, muito mais manipuladores do que em qualquer outra altura desde os anos 30. Muito pouco é o que parece nos mercados de hoje.
E sim, nós somos as presas. Somos nós os veados.