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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Pensamento mágico - uma viagem contada

"Os nossos tempos não são diferentes dos antigos"

A mais recente reflexão de Ben Hunt foi publicada (aqui) e ela dá o título para esta entrada. Publicamos abaixo a entrevista que o autor também publica quinzenalmente e que, desta vez, dedicou precisamente ao seu último relatório. Estas gravações, incorporando outros exemplos e argumentos, facilitam o alargamento do público para as suas reflexões.
Não posso deixar de recomendar ambas, ainda que prefira as notas escritas.

Assim, esta entrevista visa mostrar que o tempo presente não é, do ponto de vista antropológico, diferente de épocas passadas. No que diz respeito a mecanismos estruturais da relação entre o homem e o real, das relações de poder entre pessoas e instituições e do modo como estas instituições legitimam e exercem o poder, as semelhanças, segundo Hunt, são inegáveis. E quanto mais depressa admitirmos isso, mais facilmente podemos provocar ou acelerar a mudança para uma nova etapa.

De Claude Levi-Strauss, a Piaget e aos espectáculos televisivos que resultam de cada reunião de governadores dos bancos centrais em pouco mais de quarenta minutos. Não esquecendo Woody Allen (através do seu filme "Annie Hall"), Orwell, as entrevistas dos colossos jornalísticos do presente, bem como o funcionamento da "canalização" sagrada das nossas omnipotentes instituições financeiras e monetárias.
Compreender o propósito dos mercados de financiamento de curto prazo? O propósito dos mecanismos da taxa LIBOR? Com inteligência, ironia e bom-humor?

A ouvir e apreciar criticamente.

Votos de um excelente fim-de-semana.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Variável de controlo

Selecciono e traduzo uma parte de uma excelente reflexão levada a cabo por Ben Hunt. Não posso recomendar mais a leitura integral, não só deste texto, mas de toda a obra reflexiva de Hunt. O conjunto das "Notas" já publicadas constituem material mais que suficiente, na quantidade e na qualidade, para um grande livro de análise do nosso presente global. A riqueza das suas abordagens ao mundo da economia e do investimento financeiro é enorme. Para não falar da elegância e do humor com que integra Filosofia, Psicologia, Literatura, Cinema e História no contexto das suas análises económicas e financeiras. Imperdível.

Os negritos e pontuais edições são da minha responsabilidade.
Os principais instrumentos de política monetária em 2016 – as palavras usadas para construir o “Conhecimento Comum” [em que consiste a Narrativa partilhada] e moldar o nosso comportamento, as palavras escolhidas para produzir certos efeitos mais do que para expressar a verdade, as palavras relativas à “orientação futura” e à “política de comunicação” dos [bancos centrais] – são placebos.

Como uma falsa terapia para as enxaquecas, os placebos da política monetária são muito eficazes porque eles agem sobre os fenómenos fisiológicos da dor que são regulados pelo cérebro. Os placebos são inúteis nos fenómenos que o cérebro não regula, como a instabilidade de um ligamento depois de uma entorse ou o caos celular que resulta de um cancro.

Nos mercados que se regem por princípios fundamentais, há um equilíbrio saudável entre a minimização da dor e a maximização das recompensas. E nos mercados conduzidos pelas políticas [como é, actualmente, o nosso]?
Os três melhores princípios de investimento, nestes casos, são: evitar a dor, evitar a dor e evitar a dor.
Estamos - todos - apenas a tentar sobreviver, não no sentido literal, mas num sentido emocional regulado cerebralmente. E isso deixa-nos totalmente vulneráveis ao poder suavizante dos placebos.

Ben Hunt,"O efeito placebo", 20 de Abril de 2016.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Cavalos Furtivos

Moldar percepções e expectativas

Gaston Phoebus, "Livre de Chasse" (1387)


O artigo que a seguir se publica foi traduzido e editado por mim a partir do original (mais longo e rico), cuja leitura se recomenda vivamente.
O Cavalo Furtivo”, Ben Hunt - 21 de Julho de 2014

Na guerra, a verdade é a primeira vítima” – Ésquilo

O cavalo furtivo é uma técnica de caça muito antiga onde o caçador consegue uma vantagem importante ao esconder-se atrás de um cavalo (ou da sua representação), levando a presa a considerar familiar ou natural o que está a ver. E a presa não sabe quantos pés tem o cavalo.
Os mercados de hoje estão atafulhados com cavalos furtivos, não para proceder a triviais aquisições hostis, mas para estabelecer objectivos macroeconómicos que são motivados politicamente. Seja o uso das palavras para criar representações furtivas ou o investimento num determinado activo para montar o mesmo cavalo furtivo, os governos são, hoje em dia, muito mais manipuladores do que em qualquer outra altura desde os anos 30. Muito pouco é o que parece nos mercados de hoje.
E sim, nós somos as presas. Somos nós os veados.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Citação do dia (168)

"A ameaça externa à estabilidade política chinesa vem do propósito explícito das recentes políticas monetárias: disfarçar o crescimento real anémico através da inflação dos activos financeiros. É uma solução brilhante para o problema político do baixo crescimento aqui no Ocidente, porque a nossa estabilidade política não depende de um crescimento económico robusto. Enquanto pudermos evitar um claro crescimento negativo (e isso até se aceita enquanto puder ser explicado pela metereologia) e pudermos inflacionar os preços dos activos financeiros que suportam o nosso desequilibrado sistema, talvez possamos crescer alguma coisa ou pagar a dívida pela via da inflação. Ou não.
A dívida pode estacionar por aí... essencialmente para sempre... desde que não haja um choque exógeno. Um sistema financeiro moribundo, onde o crédito é tratado como um bem que o governo deve assegurar, é um desfecho aceitável no Ocidente porque as nossas eleições e poderes políticos não estão comprometidos com um forte crescimento económico. Estes poderes centram-se em questões sociais e noções de identidade. Focam-se na preservação da riqueza, dos benefícios e dos direitos. São tudo coisas importantes no contexto político do Ocidente.
Para a China? Nem por isso."

O tipo que aceita” – Ben Hunt

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O fim desta narrativa

A responsabilidade dos bancos centrais na situação económica e financeira mundial tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais central nos meios de comunicação convencional. Lentamente, é certo. Um detalhe, um personagem, um acto de cada vez (o próximo a revelar-se). Há tentativas levadas a cabo para compreender a dinâmica e o possível fim da narrativa vigente (esta última identificada, pelo menos, aqui e aqui).
O artigo (parcial) que a seguir se apresenta foi traduzido e editado por mim
Quando quebra esta história?”, Ben Hunt - 25 de Maio de 2014

“Acredito que os mercados, hoje, são essencialmente vazios, já que o que passa por volume e liquidez corresponde, essencialmente, a máquinas a falar umas com as outras, estabelecendo posicionamentos em carteiras de investimento ou arbitragens efémeras. Ao invés da expressão do desejo dos humanos em serem proprietários de acções de empresas reais.
Acredito que hoje o nível de preços no mercado reflectem a maior política de acomodação monetária na história humana, em vez de resultados de empresas reais.
Acredito que os riscos políticos para a estrutura do mercado de capitais, bem como para o comércio internacional não eram assim tão graves desde os anos trinta. Em conclusão e face a estes riscos, acredito que alguém está a dar-nos música de violinos.
No entanto, isto não significa que pense que as coisas vão mudar para a semana, ou para o mês que vem. (...) Mas todos sabemos que toda a gente sabe que são as políticas dos bancos centrais a determinar os resultados do mercado. Também não estou a dizer que é impossível existir uma grande mudança nas crenças e comportamentos dos agentes no mercado.
Convenientemente, a Teoria dos Jogos providencia a ferramenta certa para desmontar estes processos sociais. Para iniciarmos esta explanação, considerem uma experiência mental clássica do Jogo do Conhecimento Comum – a ilha da tribo dos olhos-verdes. Segue assim:

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Narrativa Omnipotente

Muito se tem especulado acerca dos acontecimentos na Ucrânia e das suas potenciais consequências para a economia mundial. Muitas são as análises sobre os riscos face à satisfação da procura energética da Europa e até ao papel do dólar como moeda de referência do sistema financeiro e comercial global. Na passagem que a seguir se apresenta experimenta-se mais uma hipótese face às políticas monetárias europeias e ao ouro. Considero importante assinalar que até meados de Junho, e após reuniões importantes no Banco Central Europeu, alguma coisa haveremos de poder relacionar com o que a seguir se apresenta. A tradução e os sublinhados são da minha responsabilidade.

"“De facto, no que diz respeito aos mercados, quanto mais ventos e tempestades sobre a Ucrânia houver, melhor. Draghi precisa de uma desculpa para lançar um programa semelhante ao Quantitative Easing (QE – injecção de liquidez na economia - nt) americano. As projecções negativas dos técnicos do Banco Central Europeu relativamente à possibilidade de a Gazprom fechar os canais de transporte do gás natural são apenas o que o médico pediu para aplicar o remédio. Alguns dias de queixas e lamentos nos meios de comunicação convencionais face às intenções de Putin, talvez acompanhados por um declínio de 1% nos mercados, e até Janet Yellen pode entrar em cena prometendo fazer “o que for preciso” para ajudar os irmãos europeus a ultrapassar essa terrível ameaça ao crescimento global.
Em última instância, tudo isto fortalece a Narrativa da Omnipotência dos Bancos Centrais, ou seja, o entendimento, que acaba por controlar efectivamente os mercados, de que os resultados económicos estão mais dependentes das acções dos bancos centrais do que da própria economia real.
Como é que se pode saber se esta Narrativa começa a tornar-se instável e a mudar? Se o ouro começar a ter peso. É isso que o ouro significa nos tempos de hoje... não uma reserva de valor ou uma qualquer protecção contra a instabilidade geopolítica. É antes uma apólice de seguro contra o erro desmesurado e o descontrolo dos bancos centrais. Por enquanto, a Narrativa Dominante de que os bancos centrais são grandes e tudo controlam permanece intacta. Pelo menos enquanto os investidores internacionais forem aceitando as afirmações gratuitas que Draghi ofereça publicamente e assim o ouro não tem a menor chance de sucesso."

Ben Hunt, "Tudo o que brilha"