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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Prosperidade numa linha (3)





Apesar das múltiplas iniciativas de promoção do sucesso do projecto europeu, da insistência renovada dos meios de comunicação tradicionais na "modernidade civilizacional" do mesmo projecto, bem como da voracidade dos nossos curadores em apresentar obra nova (quando serviços tão básicos mostram a sua insuficiência) a realidade é teimosa. E impõe-se.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Radar

Ainda se hão-de fazer sentir as verdadeiras consequências de uma economia de papel ao longo dos próximos anos. O caso indiano que por aqui temos acompanhado, é exemplar de algumas delas. Se lhes associarmos a desmaterialização monetária em curso (está a começar na Europa, ver aqui) perceberemos a magnitude das mudanças que vêm ao nosso encontro.
Entretanto, um ex-governador do Banco Central Indiano Venugopal Reddy concluiu em recente discurso que, e cito: "o dólar é um activo seguro, mas o ouro é ainda mais seguro. (...) O ouro é uma forma de poupança ou de reserva de valor que compete com a moeda oficial".
A sinceridade fica-lhes tão bem.
Ver notícia aqui. Se algum leitor encontrar o livro branco onde se faz a exposição mais extensa destas ideias e o queira partilhar connosco, deixo aqui, antecipadamente, o nosso agradecimento.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Coisas Reais (2)

"Turquia - a fronteira dourada da Europa"

Nesta emissão do programa "Get Real", Jan Skoyles entrevista Kerim Sener, Director Executivo da empresa anglo-turca de exploração e produção mineira (Ariana Resources).
Os nossos leitores reconhecerão o interesse em acompanharmos o que se vai fazendo para lá das fronteiras - físicas, ideológicas e empresariais - do continente europeu. Podemos reconhecer, na entrevista que aqui publicamos, as pequenas mudanças que vão marcando a emergência de novas centralidades culturais, económicas e financeiras.

Durante entrevista são analisados os seguintes temas:
- a capacidade produtiva de ouro da Turquia situa-se nas 35 toneladas - as mudanças no investimento, na exploração e na produção por parte das empresas do sector;
- rendas comerciais pagas em ouro;
- têm-se registado importantes desenvolvimentos na oferta de produtos bancários associados ao ouro - empréstimos e garantias;
- as melhorias verificadas no sistema bancário turco desde os anos 90 e a solidez dos seus balanços;
- o papel cultural da joalharia e do ouro a peso na Turquia;
- o passado e a cultura do consumo de ouro por parte das famílias turcas.

São pouco mais de vinte minutos fazendo, com alegria e optimismo, o balanço a coisas reais.

domingo, 1 de março de 2015

Ucrânia, um debate por fazer (I)

Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre Václav Klaus, será difícil não lhe reconhecer a clareza e o desassombro que sempre coloca no expressar dos seus pontos de vista - a defesa liberdade e da economia de mercado, o repúdio dos venenos do multiculturalismo e do globalismo universalista, a recusa do consequencialismo neocon do "fim da história" ou o combate ao ecologismo delirante. Num tempo em que o "politicamente correcto" reina, inclusive em sedes que se reclamam adeptas do conservadorismo (quando não do libertarianismo...), o afrontar o pensamento único vigente impõe com frequência um preço pessoal elevado: o isolamento e, pior, o esquecimento advindo da supressão/ocultação da opinião dissidente. A meu ver, "A Contra-Corrente" seria um título que se ajustaria a umas eventuais memórias que entenda vir a escrever (leia-se, por exemplo, esta entrevista).

Václav Klaus
Klaus - talvez o principal artífice, a seguir à "Revolução de Veludo", do quadro institucional pós-comunista na antiga federação da Checoslováquia, da privatização em massa de uma economia estatizada onde se soube evitar a emergência de clãs oligarcas, e da separação, negociada e pacífica (incluindo a moeda), entre as duas nações que a compunham - é agora ainda mais ostracizado devido à leitura que faz dos acontecimentos na Ucrânia. Tendo terminado o seu segundo mandato presidencial em Março de 2013, Klaus fundou entretanto um Instituto através do qual, acompanhado nomeadamente pelo seu antigo chefe de gabinete, Jiří Weigl, vai mantendo um repositório das suas intervenções. É desse repositório, que escolhi um texto co-assinado por Klaus e Wegl, publicado em 15 de Abril de 2014, cujo título - Let's start a real Ukrainian debate ("Iniciemos um debate a sério sobre a Ucrânia") - não escondia ao que vinha. Passados mais de dez meses sobre a sua publicação, o debate para que apelava o texto não aconteceu. Para a esmagadora maioria da opinião publicada entre nós, como no Ocidente em geral, não só perdura o maniqueísmo dos "bons" contra os "maus" como, de então para cá, ele se acentuou. Como ainda ontem voltou a suceder com uma nova "prova" (mas afinal eram ainda necessárias mais?) da alegada malignidade do Kremlin. Deste modo, cremos que o texto mantém toda a actualidade. O debate sobre a Ucrânia continua por fazer.

Tratando-se de um texto algo longo, iremos publicá-lo por partes. A primeira tem por finalidade dar um enquadramento histórico sumário do espaço geográfico ucraniano e relembrar que as linhas de demarcação conhecidas por fronteiras têm, as mais das vezes, muito de arbitrário e volátil, situação que o checo Klaus, casado com uma eslovaca, conhece aliás particularmente bem.
15 de Abril de 2014
Por Václav Klaus e Jiří Weigl


Parte I: Introdução - A herança difícil do passado

O estado ucraniano de hoje é um triste resultado das tentativas de Estaline para misturar nações e fronteiras, perturbar laços históricos naturais e criar um novo homem soviético transformando nações originais em meros resíduos étnicos e remanescências históricas. Ter isto em consideração é o ponto de partida do nosso pensamento, algo que infelizmente está em falta nos debates políticos de hoje.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Radar

Incapazes de um mínimo de bom senso, os suspeitos do costume iniciam mais uma dose de entorse perceptivo. E vamos assistir ao mesmo por cá. De ambos os lados da barricada eleitoral. Acompanhados, como não podia deixar de ser, pelos expeditos e concordantes comentadores económicos. Reforçando a inevitabilidade de mais intervencionismo.
Só título (tradução minha): "Por que razão o investimento público é mesmo um almoço grátis", demonstra a desfaçatez destes donos da verdade económica.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Europa face aos Estados Unidos: independência ou vassalagem?

A NATO foi criada em 1949 no contexto da Guerra Fria superveniente à II Guerra Mundial. Hoje, após a implosão do império soviético e consequente dissolução do Pacto de Varsóvia (fundado em 1955), a sua actuação alargou-se progressivamente a leste chegando hoje a meridianos tão distantes como os do Mar Cáspio e do Afeganistão. Vai bem distante o âmbito do Atlântico Norte... como distante e letra morta ficou o compromisso estabelecido entre a administração Bush I e Gorbatchov em 1990 - o de que a NATO não se expandiria para leste caso Moscovo permitisse a dissolução pacífica da URSS. O texto que segue, da autoria de Eric Margolis, é de há dois meses atrás mas mantém, creio, a sua plena actualidade. A tradução, bem como a introdução de links e a referência a um vídeo muito especial, são da minha responsabilidade.
12 de Julho de 2014
Por Eric Margolis

A Europa continua como em 1945 - na perspectiva de Washington
(It’s still 1945 in Europe – in Washinton's view)

Qual é exactamente o grau de independência da União Europeia? Considerando os acontecimentos recentes envolvendo os Estados Unidos e os seus aliados europeus, não é possível evitar a pergunta.

Eric Margolis
Primeiro, foi o caso das descaradas escutas, por parte da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), ao telemóvel privado da chanceler alemã, Angela Merkel, e, muito provavelmente, a muitos mais VIP na Alemanha, um aliado chave dos EUA e a nação mais importante da Europa.

Washington e a NSA minimizaram este incidente terrivelmente embaraçoso com o habitual "bem, todos fazem o mesmo".

Não é verdade. Imaginem o alvoroço furibundo que teria ocorrido caso tivesse sido a Alemanha a escutar o Blackberry do presidente Barack Obama. A chanceler Merkel sofreu uma humilhação mas fez por minimizar o escândalo, sem disposição ou capacidade para castigar os EUA através de uma qualquer acção punitiva real - como, por exemplo, determinando o encerramento de uma das bases militares norte-americanas estacionadas na Alemanha desde há 69 anos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Radar

O guião euro-americano das sanções contra a Rússia continua. Mas, do outro lado, age-se de forma muito clara para acomodar necessidades de novos eixos.
Andava o PM inglês a prometer correr com a Rússia do sistema SWIFT. Pois, as mudanças parecem ter começado. Antes mesmo das ameaças ocidentais.
Tanta acção a decorrer. Tanto cavalo furtivo. E nós, o que vemos?

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Citação do dia (171)

Os Verões de 2012 e 2014

"Nesta era de inflação monetarista, os Alemães mostram-se como um bastião de discernimento. No seu melhor, as políticas monetárias podem apenas poupar tempo. No seu pior – a realidade, no fundo – permitem bolhas problemáticas que ficam fora de controlo.
Porque haveriam os bancos europeus de tomar parte no risco (alto) de conceder crédito à economia, quando podem fazer lucros seguros e sem risco comprando dívida soberana?
Do mesmo modo, porque haveria um empresário americano de investir em ampliar as suas instalações ou adquirir novo equipamento, quando tanta “riqueza” é criada a comprar as acções da sua própria empresa?
Entretanto, após dois anos de estímulos monetários globais maciços prolongaram-se históricos investimentos na China e por toda a Ásia. O que exacerbou as bolhas, enquanto piorou todo o panorama global na atribuição de preços e investimentos.
Os desequilíbrios globais estão mais acentuados.”

Reflectindo acerca dos Verões de 2012 e 2014" - Doug Noland - 29 de Agosto de 2014

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Delícias para as noites de Verão

Buscando articular a realidade - revisitação

Correspondendo à tentativa de tentar juntar as peças que gravitam dispersas, publica-se uma outra entrevista de Ambrose Evans-Pritchard (curioso este interesse que aqui decidi acompanhar). Desta vez a entrevista é levada a cabo por um jornalista que tem larga experiência na investigação em torno dos metais monetários (ouro e prata), Lars Schall em nome da empresa suíça Mattherhorn Asset Management.
Note-se a mudança de tom do entrevistado quando, mudando da descrição da situação actual para os fundamentos últimos da mesma, a voz se vai entrecortando. Em particular quando a situação do repatriamento do ouro alemão e as implicações da importância estratégica do metal na relação de forças global são abordadas.
A análise da situação demográfica e económica chinesa é, no mínimo, preocupante. E quando coloca a variável da dívida na equação, então compreendemos a magnitude dos problemas que teremos pela frente globalmente. E a situação europeia? Moeda, energia, relações com a Rússia e a China. Bem, atendendo aos recentes desenvolvimentos no governo francês e as movimentações de Merkel, algo se desenvolve por detrás das cortinas.
Será que conseguimos ver o que será?

Votos de uma tranquila e proveitosa noite de Verão.

domingo, 25 de maio de 2014

Citação do dia (165)

“Vai ser uma fim-de-semana interessante na Europa. Na União decorrem as eleições para o parlamento europeu. Para salvar o euro, um pequeno grupo de indivíduos teve de pôr de lado as regras e os princípios democráticos. Os banqueiros centrais apostaram que a experiência de imprimir dinheiro e intervir nos mercados dariam lugar a uma economia a crescer de modo sustentado. Há custos elevados associados a estes actos, nomeadamente uma Europa e um Mundo progressivamente mais polarizados.(...) Para salvar o euro, um pequeno grupo de oficiais e burocratas – incluindo, não esqueçamos, o presidente Obama – tiveram de impor uma Europa mais uniforme. Mais regras, mais restrições e mais operações ditadas de Bruxelas e Francoforte, o que parece traduzir-se numa diminuição da individualidade e soberania para cidadãos, políticos e governos por esse diverso e instável continente. No entanto, forças seculares – na Europa e no Mundo – estão a puxar na direcção oposta: menos cooperação e menos integração, ou seja, mais animosidades e tendências separatistas mais profundas. A percepção de uma “tarte” económica mais pequena – e de um injusto “jogo de soma zero” mundial – acaba por determinar uma luta mais determinada para alcançar a fatia que cabe a cada um. O júri ainda está reunido acerca da integração europeia e do sucesso da experiência da moeda única e aguarda o resultado da experiência monetária global."

Doug Nolan, "Como o euro foi (mesmo) salvo"

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Fronteiras (também a propósito da Ucrânia)

Uma confissão prévia: não só não me dei conta da passagem do "dia da Europa" (o que poderia passar por mera distracção) como - e mais "grave" - desconhecia mesmo a sua existência. De resto, não fora um outro cartaz na rua, dificilmente evitável ao olhar, e umas quantas fotografias sorridentemente indigentes no facebook (e também capa de um jornal) onde descortinei o que julgo ter sido um candidato a candidato a presidente da Comissão Europeia, e corria o risco de não me dar conta de a campanha eleitoral para as eleições "europeias" se ter iniciado. Bem, exagero um pouco pois não apenas sou um visitante frequente do Euro Referendum como procuro seguir o caminho que o UKIP e o seu líder, Nigel Farage, vão trilhando (e as sondagens prometem-lhe uns saborosos 20%!).

Agora que começam a chegar os primeiros resultados dos referendos de ontem em várias zonas da Ucrânia do Leste, parece-me oportuno sublinhar duas coisas relevantes para os europeus:
1) Que o "desafogo" a que agora assistimos no financiamento da dívida pública, que determinou ao governo português uma "saída limpa", é totalmente artificial (os "mercados" estão a exigir à república portuguesa um prémio menor do que fazem, por exemplo, à Austrália, um país de rating AAA);

quarta-feira, 26 de março de 2014

Pat Buchanan e o movimento secessionista na Europa

E, "de repente", o movimento secessionista na Europa vê-se significativamente reforçado com o resultado iniludível do referendo em Veneza, ainda que não vinculativo. Se a ele juntarmos o mais que provável "sim" por parte da Escócia no próximo Outono, conjugado no tempo (Novembro) com um outro relativo à Catalunha marcado por fortes tensões com o governo central, não me espantaria que a chama secessionista se alastrasse rapidamente no continente europeu (com a Bélgica e outras regiões da Itália, como a Sardenha,como sérios  candidatos.

Pat Buchanan, em artigo que achei oportuno traduzir, procura explicar as razões desta irrupção que, na sua leitura, são sinais de um problema mais vasto que o autor abordou em Suicide of a SuperPower referindo-se naturalmente aos EUA: a "centrifugação" dos EUA decorrente da não miscigenação das últimas gerações de imigrantes no que até então tinha sido o grande e bem-sucedido melting pot.

Não partilho inteiramente das teses de Buchanan embora tenda a concordar que os modernos estados de bem-estar - que alguém, em última análise, terá sempre que pagar - forneçam incentivos à imigração em massa e, com isso, se abram caminhos a verdadeiros combates demográficos e consequentes tensões culturais e religiosas. Só não os verá quem não quiser ver.

Num próximo post, e relativamente ao movimento secessionista, irei reproduzir um ponto de vista bem mais optimista que o de Buchanan que o encara, tal como eu tendo a concordar, como algo de bem positivo como já tive oportunidade de o escrever.
25 de Março de 2014
Por Patrick J. Buchanan

Os laços europeus começam a desvanecer-se
(Europe’s Bonds Begin to Fade)

Patrick J. Buchanan
Há uma semana atrás, no Salão de São Jorge no Kremlin, a elite russa aplaudiu e chorou quando Vladimir Putin anunciou a reanexação da Crimeia. Sete em cada 10 russos aprovam a governação de Putin. Na Crimeia, a maioria russa ainda não parou de celebrar. A reconquista aproxima-se da conclusão. No leste da Ucrânia, os russos começaram agora a promover a agitação pela anexação por Moscovo. O nacionalismo ucraniano, manifesto no golpe anti-Rússia verificado em Kiev, provocou a inevitável reacção entre os russos. Apesar de elogiar os ucranianos que foram até à Maidan protestar pacificamente, Putin disse que aqueles por trás dos acontecimentos decisivos "recorreram ao terror, assassinato e tumultos. Nacionalistas, neonazis, russófobos e anti-semitas levaram a cabo este golpe". O Kremlin irrompeu em aplausos.

Mas não é apenas na Ucrânia que o nacionalismo étnico está a crescer.

"A votação na Frente Nacional atordoa Hollande" [registo prévio necessário] foi a manchete do Financial Times relativa às eleições municipais francesas no Domingo. Embora a FN de Marine Le Pen, filha do fundador do partido Jean Marie Le Pen, não se tenha candidatado em muitas cidades, ela ganhou em definitivo a corrida à presidência da câmara em Henin-Beaumont e ficou em primeiro ou segundo lugar numa dúzia de cidades de média dimensão, pelo que disputará a segunda volta nas eleições de 30 de Março. "A Frente Nacional alcançou o estatuto de grande força independente - uma força política nos planos nacional e local", declarou Le Pen.

sábado, 1 de março de 2014

Fim à austeridade?

Os leitores habituais do Espectador Interessado ter-se-ão dado conta do progressivo afastamento do ruído do dia-a-dia, próprio do "combate de blogues", para privilegiar um olhar mais sereno embora nem por isso menos incisivo e, quiçá, até mesmo mais "radical" sobre os temas que são alvo da atenção dos seus autores.

De facto, usando para aferição o número de posts (não) publicados, temos estado muito alheados dos "debates" (?) sobre uma suposta "espiral recessiva" e uma não menos suposta "recuperação redentora" (que, num momento de arrebatamento,  chegou mesmo a ser apelidada de "milagre") decorrente da acção patriótica do governo de turno. Do mesmo modo, o interesse que manifestámos em exercícios de exegese económica ao ritmo da divulgação das mais variadas estatísticas, tem sido bastante diminuto. E não apenas porque, parafraseando Ronald Coase, os dados estatísticos, se sujeitos a suficiente tortura, acabarão por confessar tudo (e um par de botas). Por aqui, preferimos cingirmo-nos à aritmética elementar aliada ao bom senso. E, aqui chegados, é fácil concluir, à semelhança aliás do verificado nas situações de pré-bancarrota de 1978-1979 e de 1983-1985, que o "ajustamento" da economia portuguesa foi conseguido quase integralmente à custa do sector privado da economia, continuando o Estado estruturalmente tão rotundo quanto o era em Abril de 2011. Sem receitas extraordinárias, o défice do orçamento continuaria acima dos 5% do PIB e isto depois de uma punção fiscal de que não há memória, nem plano (ou vontade) para a aliviar.

É então a austeridade inevitável? A resposta a esta pergunta depende do que entendamos por "austeridade". Constituirá "austeridade" ter um défice orçamental superior a 5% do PIB? Constituirá austeridade a situação de "risco" de inclusão nas contas públicas de outras rubricas que sempre lá deveriam ter estado? Há uns meses atrás, João Cortez proporcionou-nos uma boa tradução de um excelente texto de Franz Hollenbeck intitulado "As três formas de austeridade" que aconselharia agora a (re)ler. Na 5ª feira, dia 27 de Fevereiro, Mark Thornton, a propósito da nova proposta de orçamento de Obama onde este proclama a necessidade de pôr "fim à austeridade", volta ao tema que continua a ser alvo de basta mistificação. A "actualidade estrutural" do texto de Thornton compeliu-me a traduzi-lo. (Todos os erros que possam decorrer da tradução são da minha responsabilidade, bem assim como das notas introduzidas.)
O presidente Barack Obama divulgou recentemente a sua proposta de orçamento na qual apela ao "fim da austeridade". Esta é uma declaração surpreendente por parte de um presidente sob cuja administração a despesa pública federal atingiu a maior percentagem de sempre no PIB e em que a dívida pública aumentou mais do que no conjunto de todos os presidentes que o precederam. O que entenderá ele por austeridade?

Mark Thornton
Há manifestações pelo mundo fora contra a austeridade quase todos os dias. Ela é condenada por constituir um veneno em tempos económicos difíceis, enquanto outros a tomam pelo elixir contra as depressões económicas.

A rejeição da austeridade pelo presidente representa a visão keynesiana, que rejeita completamente a austeridade em favor da abordagem às recessões conhecida por "pedir emprestado e gastar" - a de fazer crescer a procura agregada. O que ele na realidade está a rejeitar são as reduções infinitesimais na taxa de crescimento da despesa e os obstáculos políticos a novos programas de despesa.

Embora os níveis de despesa nos orçamentos entre 2009 e 2012 tenham permanecido relativamente constantes, eles foram ainda assim 15% superiores ao de 2008 e 75% mais elevados que os verificados na década anterior. Este salto na despesa nestes quatro anos foi financiado com um aumento de 5 milhões de milhões de dólares da dívida pública. Austeridade, aqui? Nenhuma!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (V)

A questão da responsabilidade pela eclosão do conflito


Abaixo se transcreve a que ficou conhecida pela "Cláusula da Culpa da Guerra" inscrita no Tratado de Versalhes (figurado na imagem, na versão inglesa) através da qual se "estabelecia" a questão da atribuição da responsabilidade moral pelo início da guerra e, em consequência, a imposição de obrigações de indemnização da Alemanha aos Aliados.
Artigo 231º

Os Governos aliados e associados declaram e a Alemanha reconhece que a Alemanha e os seus aliados são responsáveis, por deles ter sido a causa, por todas as perdas e por todos os prejuízos sofridos pelos Governos aliados e associados e pelos seus nacionais em consequência da guerra, que lhes foi imposta pela agressão da Alemanha e dos seus aliados.
Não foi preciso esperar muito tempo para que esta "história escrita pelos vencedores" fosse contestada. Por exemplo, em 1922, Albert Jay Nock fez publicar, sob pseudónimo, The Myth of a Guilty Nation, onde desafiava abertamente a narrativa oficial, ou seja, a suposta isenção de responsabilidades por parte dos Aliados. Mais tarde, em 1952, Charles Tansill, um eminente historiador revisionista que se dedicou em particular ao estudo das I e II Guerras Mundiais, observava em retrospectiva (minha tradução): 
"O armistício de 11 de Novembro de 1918, pôs fim à I Guerra Mundial, mas marcou o início de uma batalha travada com livros que continua até os dias de hoje. A responsabilidade pela eclosão do conflito foi levianamente colocada pelos historiadores aliados sobre os ombros dos estadistas das potências centrais. Os historiadores alemães responderam com uma enxurrada de livros e panfletos que encheram as prateleiras de muitas bibliotecas, e os chamados "revisionistas" de muitas origens alimentaram esta maré crescente ao acrescentarem monografias que desafiavam a tese aliada da culpa da guerra. Este debate decorria ainda de forma veemente quando a II Guerra Mundial eclodiu em 1939 e a atenção académica se deslocou para a questão da responsabilidade por esta mais recente expressão de loucura marcial." (Excerto inicial do prefácio à primeira edição, de 1952, de Back Door to War: The Roosevelt Foreign Policy 1933-1941)
Ralph Raico, uma referência contemporânea de que me venho socorrendo neste tema, refere aqui que a biblioteca de Yale possuía, em 2004, cerca de 30 mil livros sobre a I Guerra Mundial publicados até 1977 e outros 5 mil de então em diante. Na aproximação aos cem anos sobre o início da Grande Tragédia, não é de admirar o surgimento de uma nova "enxurrada" de livros nos escaparates (físicos e digitais) onde se continua a disputar o tema da "culpa". É assim com justeza que, como Raico observava, esta seja "a outra guerra que nunca acaba".

Levado pelo meu parceiro de blogue a investir no produto aqui proposto, do qual obtive um muito satisfatório retorno, é agora a minha vez de propor ao leitor a leitura de um texto recente, também de Paul Gottfried, onde precisamente se aborda este tema, aprofundando alguns dos aspectos contidos na entrevista que deu a Tom Woods, e se conclui, com evidência bastante, pelo errado teor do supra referido artigo 231º e dos consequentes horrores que se lhe seguiram. Como o título de um dos livros recentes sobre a matéria - que não li  - bem sumariza, a I Grande Guerra foi The War that Ended Peace.

Um texto que julgo também de interesse como contributo para a compreensão da vulgata da intrínseca "perversidade alemã", que por aí corre nos nossos dias, como "explicação conveniente" de pecados próprios. Assinalo também como muito relevante mais um exemplo de um intelectual - Konrad Canis - cuja obra, por decisiva que seja, permanece quase desconhecida fora da Alemanha por não ter sido (ainda?) traduzida para a língua inglesa. O mesmo sucedeu com Ludwig von Mises. Enquanto o texto de Keynes, Economic Consequences of the Peace (1919), conheceu, aliás justamente, larga divulgação,  um texto contemporâneo de Mises, escrito uns meses antes no mesmo ano - Nation, History and Economy -, teve que esperar até 1983 para conhecer a sua primeira edição em inglês!

A tradução que se segue é de minha inteira responsabilidade bem como dos links e notas nele introduzidos.
Por Paul Gottfried
21 de Janeiro de 2014

Sonambulismo suicida (Sleepwak to Suicide)

Talvez nenhuma outra guerra tenha sido abordada de forma mais tendenciosa e, nas últimas décadas, mais inadequada, que a Primeira Guerra Mundial. Desde os anos 60 que se fixou uma visão deste conflito nos círculos académicos e jornalísticos que coloca a culpa de modo quase exclusivo num dos lados. O governo alemão, liderado por um perverso e autoritário imperador e seu belicoso estado-maior, desencadeou um combate que custou mais de 30 milhões de vidas e uma destruição incalculável no continente europeu.

Segundo o académico Fritz Fischer - que se tornou o favorito da esquerda alemã, apesar do seu passado de leal Nazi - a guerra foi planeada e iniciada por uma Alemanha empenhada em dominar o mundo. A contribuição dos outros beligerantes para o iniciar das hostilidades em 1914, sugere Fischer no seu livro de 1961, Germany’s Bid for World Power[1], foi inconsequente. O resto da Europa foi arrastado para uma luta que a Alemanha havia planeado durante décadas, uma conflagração iniciada pela sua classe dirigente antidemocrática e por um povo alegremente ultra-nacionalista.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (III)

Dando prosseguimento aos propósitos aqui enunciados, com o post de hoje pretende-se ilustrar alguns dos aspectos que concorrem para o que nos sugere ser a justeza da caracterização da I Guerra Mundial como um verdadeiro "ponto de viragem" (o Turning Point que Ralph Raico escolheu como título do primeiro ensaio do seu excelente Great Wars & Great Leaders).

Para o efeito, pareceu-nos oportuno convocar (parte de) um texto de Murray Rothbard onde se aborda o conceito de "guerra justa". Na sua opinião, e pelo menos do ponto de vista dos americanos, a Grande Guerra (ou a II Guerra Mundial, para o efeito) não cabe entre o que eram agora "nações em armas" e onde passou a ser um dever absoluto servir o estado. Ainda que se contemple a e(in)volução verificada no direito internacional que irá dar cobertura ao conceito da "guerra total" (eufemismo para designar a inclusão dos civis no catálogo dos alvos de guerra "legítimos"), é difícil deixar de inferir pela elevação desse dever de servir o estado como um supremo sacrifício. Ao invés, na "velha ordem", Voltaire observava: "Os povos são indiferentes às guerras dos seus senhores", fossem estes num dia da casa dos Bourbons quando noutro eram súbditos dos Habsburgos (ou vice-versa, em resultado do sucessivo pelejar). De seguida, Rothbard passa em revista as doutrinas wilsonianas da "segurança colectiva", da "emancipação dos povos" e da auto-atribuída missão messiânica de transportar a "democracia" às quatro partidas do mundo. Pela força das armas, se necessário fosse (como já se tinha entrevisto na guerra hispano-americana de 1898 e nas "sequelas" da guerra de guerrilha nas Filipinas). Este é um corpo doutrinário que permanece nos dias de hoje tal como sucedeu nas intervenções, então contemporâneas, a que Rothbard alude (Bósnia e Somália). No seu conjunto, estas são razões bastantes para asseverar que a GG terá sido o maior desastre da humanidade.

A tradução que se segue, da minha responsabilidade, corresponde sensivelmente ao primeiro terço do ensaio de Rothbard (a partir das notas que preparou para uma palestra que proferiu (em audio, aqui) numa conferência que decorreu entre 20 e 22 de Maio de 1994, que viria a ser incluída neste livro). Todas as imagens e ligações inseridas são igualmente da minha única responsabilidade. O mesmo se diga quanto às anotações introduzidas.
Por Murray N. Rothbard (1926-1995)

Grande parte da teoria do "Direito Internacional clássico", desenvolvida pela escolástica católica, nomeadamente pelos escolásticos espanhóis do século XVI como Vitoria e Suarez, seguidos depois pelo escolástico protestante holandês Grócio e por juristas dos séculos XVIII e XIX, consistiu numa explanação dos critérios definidores do que seria uma guerra justa. Porque a guerra, ao implicar a prática do grave acto de matar, tem de ser justificada.

A minha própria perspectiva sobre a guerra pode ser enunciada de uma forma simples: existe uma guerra justa quando um povo tenta repelir a ameaça de dominação pela força por parte de um outro povo ou derrubar uma dominação já existente. A guerra é injusta, por outro lado, quando um povo tenta impor a sua dominação sobre outro povo, ou tenta manter uma pré-existente dominação coerciva sobre outrem.

Murray Rothbard
Durante a minha vida, o meu activismo político e ideológico concentrou-se na oposição às guerras da América. Em primeiro lugar, porque acreditei ter sido injusto o seu fomento, e, em segundo lugar, porque a guerra, nas penetrantes palavras do libertário Randolph Bourne, redigidas durante a I Guerra Mundial, sempre foi "a saúde do Estado", um instrumento para o engrandecimento do poder do Estado sobre a saúde, as vidas, e a prosperidade dos seus cidadãos-súbditos e instituições sociais. A participação numa guerra, ainda que justa, é uma decisão que não pode ser tomada de forma leviana; uma participação numa guerra injusta deve, por consequência, ser considerada um anátema.

Houve apenas duas guerras na história americana que foram, na minha opinião, segura e inquestionavelmente correctas e justas; e não apenas isso já que o lado oposto travou uma guerra que foi clara e particularmente injusta. Porquê? Porque não tivemos que nos questionar se uma ameaça à nossa liberdade e à nossa propriedade era clara ou estava presente; em ambas as guerras, os americanos tentavam livrar-se da dominação indesejada de outro povo. E em ambos os casos, o outro lado tentou, de uma forma feroz, manter o domínio sobre os americanos através da força. Em ambos os casos, um lado - o "nosso lado", se quiserem - era particularmente justo, enquanto o outro lado - o "lado deles" - era injusto.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (I)

No ano que decorre "comemoram-se" 100 anos sobre o início da "guerra para acabar com a guerra”. Uma guerra que iria "libertar os povos" do jugo dos impérios aristocráticos que negavam o direito daqueles à "autodeterminação". Uma guerra “justa” tanto mais que havia que “tornar o mundo seguro para a democracia”. Em definitivo, a decisão de participar no teatro de guerra europeu constituía um dever “humanitário” para os detentores do poder na “Terra dos Livres e Lar dos Bravos”. E é indisputável que a entrada na guerra da América foi absolutamente determinante para decidir quem seriam os imediatos vencedores e vencidos, 20 milhões de mortos depois. Poucos anos volvidos, todavia, ver-se-iam quais as suas ainda mais terríveis consequências mediatas. Como um militar britânico profeticamente observou na altura, "After the ‘war to end war’ they seem to have been pretty successful in Paris at making a ‘Peace to end Peace." (tradução: “Depois da ‘guerra para acabar com a guerra’ tudo indica que em Paris [Conferência de Paris, de 1919] foram coroados de êxito os esforços para alcançar uma ‘Paz para acabar com a Paz’”).

O grande historiador libertário Ralph Raico ensaia aqui, em jeito de prólogo, um telegráfico exercício "contrafactual" com o objectivo de ilustrar o real "ponto de viragem" que a I Guerra Mundial constituiu (minha tradução):
A Primeira Guerra Mundial é o ponto de viragem do século XX. Não tivesse a guerra ocorrido, os prussianos Hohenzollerns teriam muito provavelmente permanecido à frente dos destinos da Alemanha, com a sua subordinada panóplia de reis e nobreza a governar os mais pequenos estados alemães. Quaisquer que tivessem sido as vitórias de Hitler nas eleições para o Reichstag, teria ele conseguido erguer a sua ditadura totalitária e exterminacionista no meio desta poderosa superestrutura aristocrática? Teria sido altamente improvável. Na Rússia, os poucos milhares de revolucionários comunistas de Lenine confrontavam-se com o imenso exército imperial russo, o maior do mundo. Para que Lenine tivesse uma qualquer oportunidade de sucesso, aquele grande exército tinha primeiro que ser pulverizado, que foi o que os alemães fizeram. Assim, um século XX em que não tivesse ocorrido a Grande Guerra poderia muito bem ter significado um século sem nazis ou comunistas. Imagine-se um tal cenário! Foi também um ponto de viragem na história da nossa nação americana que, sob a liderança de Woodrow Wilson, se tornou em algo de radicalmente diferente daquilo que tinha sido anteriormente. Daí, a importância das origens daquela guerra, do seu desenrolar, e das suas consequências.
Com o devido respeito e ressalvadas as devidas distâncias, parece-nos que a Grande Guerra constituiu também um “ponto de viragem” em direcção a um horror inominável com contornos que o direito internacional prevalecente à sua eclosão considerava ilegais. Referimo-nos, nomeadamente, ao facto de com ela se ter tornado “legítimo” tomar as populações como alvos directos de guerra nomeadamente através da indução da fome severa e generalizada (mais tarde, com o desenvolvimento da aviação, viria o extermínio em massa das populações através dos bombardeamentos "estratégicos" de cidades desprovidas de objectivos militares).

Propomo-nos vir a fazer aqui no Espectador Interessado, ao longo das próximas semanas, um conjunto de incursões nessa época, e nas suas circunstâncias, tentando proporcionar aos leitores ângulos de abordagem desse "ponto de viragem" que, provavelmente, não serão dos mais comuns, antes se filiando assim numa visão inevitavelmente revisionista.

(Continua)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Por que é o gás natural 3 vezes mais caro na Europa que nos EUA?

Para além da vantagem estratégica que a geografia lhe confere, e de que a Rússia, através da Gazprom, pretende continuar a tirar partido (praticando preços "altos"), parte importante da explicação reside no facto de a shale revolution que vem ocorrendo nos EUA (de que Matt Ridley aqui falava) não ter ainda chegado à Europa (por mera agenda política dos governos europeus, ainda inebriados no delírio das renováveis). Ao que precede, acrescem as decisões idiotas das administrações americanas de tudo fazerem para dificultar a exportação de gás natural no modo liquefeito (LNG na sigla inglesa), invocando razões "estratégicas" de "segurança nacional de abastecimentos".



Preços mundiais do Gás Natural Liquefeito, Outubro de 2013

Gráficos retirados do blogue do Prof. Mark Perry.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O mapa europeu do desemprego

O mapa abaixo, da autoria do editor do blogue Flute Thoughts, proporciona uma visão do desemprego que vai bem para além da confinada à geografia dos estados-nação. Também aqui se pode - e deve - olhar à Europa das Regiões. Observe-se, por exemplo, a continuidade da mancha entre o norte da Itália e o centro e o sul da Alemanha (com a Suíça e a Áustria de permeio); em contraste, a reunificação alemã, nesta variável, está por "concluir"; a dualidade italiana é de há muito conhecida mas, até ver este mapa, não tinha dado conta de como a generalidade da França é, a esta luz, tão semelhante estatisticamente à do mezzogiorno.

Mapa retirado daqui