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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Há lutas e lutas



Esta publicação por parte de uma estrutura ligada à OTAN é uma pérola.
Será que algum leitor quer avançar com uma descrição do seu brilho?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sobredeterminação das Narrativas oficiais

"Sistema de alianças e propaganda"

Partilhamos com os nossos leitores uma entrevista a Oana Lungescu (conselheira da NATO para as políticas de comunicação e presença nas plataformas sociais, sim a guerra também já passa por elas) levada a cabo por Jonathan Eyal (Royal United Services Institute - RUSI).
Não deverá espantar-nos que uma conselheira para a área da comunicação social seja entrevistada para dar conta da natureza e condição do sistema de alianças da NATO. É precisamente no plano da mensagem e da sua divulgação que a guerra para já se desenvolve.

Todo o desenvolvimento e desfecho da eleição de Trump (mas também do Brexit, não esqueçamos) deve ser considerado um caso exemplar para compreender a dimensão e a natureza das tensões e dos conflitos que se desenvolvem por estes tempos. A guerra, por agora, está focada na mensagem, na iniciativa de orientar a narrativa acerca dos eventos mais relevantes da história e da política internacional.

A luta pela interpretação destes eventos não é nova, é certo. Mas os meios para disputar a narrativa determinada unilateralmente multiplicaram-se. Seja pelo reforço das posições de alguns gigantes - China e Rússia -, seja pela renovada importância de que alguns (pequenos) actores se vêem investidos. A tensão entre os diferentes interesses das grandes potências atingiu uma intensidade tal que estes pequenos actores podem ser decisivos na determinação da próxima peça de dominó que há-de cair.

Não podemos sublinhar mais a importância de perceber a que ponto chega o desespero em controlar a interpretação dos eventos (vejam-se as mudanças legislativas para punir a "dissidência" em Inglaterra). Esta entrevista é, julgamos, paradigmática desse receio. A decadência que se tornou evidente nos meios de comunicação convencionais, especialmente a propósito de Trump, elevou a constatação do senso comum a verdadeira função que esses meios ocupavam nas respetivas máquinas de propaganda.

E o que Lungescu faz nesta entrevista? Dar orientações para quem as quer ouvir de como "falar verdade". Assim como afirmar a frescura e a vitalidade do sistema de alianças e informações da NATO, cujo modo se pode aferir pelas recentes demonstrações de prontidão por essa Europa fora (veja-se na Lituânia, há dias). Chega a ser deliciosa a candura do lema "responder à agressão russa" presente nestas manobras. Mas como muitas coisas deliciosas, mostram-se deliciosamente perigosas.




É suposto estarmos descansados, não é?

sábado, 21 de março de 2015

A mão dura ou a suavidade arrepiante do aço

Realismo intervencionista

Há muito que nem os apaixonados pela "mão macia" da diplomacia se opõem a nada disto. Talvez tenham acompanhado sempre a intenção, mesmo que não a acção propriamente dita destes "falcões".
Veja-se como se justificam, com a simplicidade de uma martelada, as intervenções, os discursos, as sanções que os EUA impõem por esse mundo fora. Até a NATO - como artifício institucional - se desmascara aqui.
Sinto arrepios. E os leitores?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Pat Buchanan: A Ucrânia Precisa de Paz, Não de Bombas

Com especial incidência desde o 11 de Setembro de 2001, que oficialmente iniciou uma aparentemente perpétua "guerra contra o terrorismo", que assistimos à eclosão de guerras sobre guerras marcadas pelo protagonismo da superpotência vencedora da Guerra Fria. De uma forma unilateral, de forma mais aberta ou velada, é como se os EUA se tivessem outorgado a si próprios o papel de um global Robocop (na expressão de Pepe Escobar) que, na esteira do messianismo wilsoniano, tem por missão "resolver" qualquer situação em qualquer parte do mundo que necessite ser "resolvida". Para o efeito, um dos instrumentos preferenciais tem sido o recurso aos bombardeamentos "humanitários" (que, se não estou em erro, foram inaugurados por Bill Clinton nos Balcãs) sendo notórios os "sucessos" que têm sido conseguidos: do Afeganistão ao Iraque, da Síria ao Sudão e à Somália, da Líbia ao Iémen, etc. E tudo parece conjugar-se para mais um envolvimento noutra aventura militar, agora na Ucrânia, muito embora isso não esconda a relutância da "Europa". Mas não foi Victoria Nuland quem, famosamente, exclamou "fuck the EU!" há um ano atrás nas vésperas de Maidan? Pat Buchanan, um paleoconservador antigo candidato à presidência dos EUA, tem sido uma das figuras da intelectualidade americana que tem ousado colocar perguntas pertinentes na tentativa de apelar à razão. Em mais um excelente artigo, apela ao bom senso. E à paz.

3 de Fevereiro de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Entre os presidentes do período da Guerra Fria, de Truman a Bush I, havia uma regra não escrita: não desafiar Moscovo na sua esfera de influência na Europa Central e Oriental.

Patrick J. Buchanan
Nas crises de Berlim de 1948 e 1961, na Revolução Húngara de 1956 e na invasão do Pacto de Varsóvia de Praga em 1968, as forças americanas na Europa permaneceram nos seus quartéis. Víamos o Elba como a linha vermelha de Moscovo, e eles viam-no como a nossa. Apesar de Reagan ter enviado armas para os rebeldes anti-comunistas em Angola, Nicarágua e Afeganistão, para os heróicos polacos de Gdansk só enviou copiógrafos.

Essa cautela e prudência da Guerra Fria poderá ter terminado.

Isto porque o presidente Obama está a ser instigado pelo Congresso e pelos intervencionistas liberais [no contexto norte-americano, “progressistas”, de esquerda – NT] no seu partido para enviar armamento letal para Kiev, em guerra civil com rebeldes pró-russos em Donetsk e Luhansk. Esta guerra já custou 5000 vidas, entre soldados, rebeldes e civis. O cessar-fogo de Setembro em Minsk foi rasgado. Os rebeldes, recentemente, conquistaram cerca de mais 300 quilómetros quadrados, e dirigiram fogo de artilharia contra Mariupol, um porto do Mar Negro entre Donetsk e Luhansk e a Crimeia.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Europa face aos Estados Unidos: independência ou vassalagem?

A NATO foi criada em 1949 no contexto da Guerra Fria superveniente à II Guerra Mundial. Hoje, após a implosão do império soviético e consequente dissolução do Pacto de Varsóvia (fundado em 1955), a sua actuação alargou-se progressivamente a leste chegando hoje a meridianos tão distantes como os do Mar Cáspio e do Afeganistão. Vai bem distante o âmbito do Atlântico Norte... como distante e letra morta ficou o compromisso estabelecido entre a administração Bush I e Gorbatchov em 1990 - o de que a NATO não se expandiria para leste caso Moscovo permitisse a dissolução pacífica da URSS. O texto que segue, da autoria de Eric Margolis, é de há dois meses atrás mas mantém, creio, a sua plena actualidade. A tradução, bem como a introdução de links e a referência a um vídeo muito especial, são da minha responsabilidade.
12 de Julho de 2014
Por Eric Margolis

A Europa continua como em 1945 - na perspectiva de Washington
(It’s still 1945 in Europe – in Washinton's view)

Qual é exactamente o grau de independência da União Europeia? Considerando os acontecimentos recentes envolvendo os Estados Unidos e os seus aliados europeus, não é possível evitar a pergunta.

Eric Margolis
Primeiro, foi o caso das descaradas escutas, por parte da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), ao telemóvel privado da chanceler alemã, Angela Merkel, e, muito provavelmente, a muitos mais VIP na Alemanha, um aliado chave dos EUA e a nação mais importante da Europa.

Washington e a NSA minimizaram este incidente terrivelmente embaraçoso com o habitual "bem, todos fazem o mesmo".

Não é verdade. Imaginem o alvoroço furibundo que teria ocorrido caso tivesse sido a Alemanha a escutar o Blackberry do presidente Barack Obama. A chanceler Merkel sofreu uma humilhação mas fez por minimizar o escândalo, sem disposição ou capacidade para castigar os EUA através de uma qualquer acção punitiva real - como, por exemplo, determinando o encerramento de uma das bases militares norte-americanas estacionadas na Alemanha desde há 69 anos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

As acções de Putin na Ucrânia: "inaceitáveis" ou provocadas e previsíveis?

Independentemente de isto se vir a confirmar - caso em que, a meu ver, só acelerará a importância do eixo Moscovo-Pequim (tal como a intervenção no Iraque acabaria a reforçar a posição do Irão) -, parece-me pertinente a devida referência à coluna de sábado do insuspeitíssimo Christopher Booker, no Telegraph, relativa à situação na Ucrânia e da qual retirei o título que encima o post.[1] [2] A tradução é da minha responsabilidade bem como os realces de segmentos do texto.
É sempre revelador quando os políticos nos transmitem que algo é "inaceitável". O que eles querem dizer com isso é que, muito embora as pessoas possam ter a expectativa de que eles irão fazer alguma coisa a esse respeito, o facto é que não têm a menor ideia do quê. Foi por isso que os líderes ocidentais, incluindo David Cameron, reunidos para a cimeira da NATO no País de Gales, nos disseram que a intervenção do presidente Putin na Ucrânia era "inaceitável".

O verdadeiro problema aqui não é apenas o de os nossos dirigentes não saberem o que fazer relativamente a Putin e à horrível guerra civil na Ucrânia, que já matou quase 3,000 pessoas e que os russos parecem estar a ganhar sem grande esforço. A questão é que eles e muitos outros no Ocidente têm vindo a fazer uma leitura errada desta crise desde que ela começou no início do ano.

Nunca será demais repetir que o que desencadeou a crise não foi a vontade de Putin em restaurar as fronteiras da União Soviética, mas antes a ambição absurdamente insensata por parte do Ocidente em ver a Ucrânia ser absorvida pela UE e pela NATO. Nunca teria sido possível que Putin ou todos aqueles falantes de russo no leste da Ucrânia e na Crimeia amavelmente assistissem a que o país que foi o berço da identidade russa se tornasse parte de um bloco do poder ocidental. A Rússia ficaria ainda menos contente em ver os únicos portos de águas quentes da sua marinha nas mãos de uma aliança militar que tinha sido formada para, em primeiro lugar, para a conter.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pat Buchanan: Será Putin pior que Estaline?

O trágico derrube do avião civil no leste da Ucrânia no passado dia 17 desencadeou, nesse mesmo dia, o cortejo habitual de acusações indignadas e o brandir de novas ameaças de sanções por parte dos EUA/NATO para com a Rússia de Putin. O que volta a impressiona nos relatos dos media de "referência" é a sua absoluta disponibilidade para veicular o discurso da potência dominante (uma notável excepção aqui) sem que sequer tentem responder à pergunta essencial aquando de qualquer incidente que, sem muita dificuldade, pode desencadear tragédias subsequentes numa escala muitíssimo maior: Cui bono? Quem beneficia com o derrube do avião?

Talvez muitos já se tenham esquecido de umas certas "armas de destruição maciça" cuja existência constituía uma ameaça tão intolerável que "justificava" uma mortífera guerra no Iraque de que não se vê o fim, 11 anos decorridos. Havia provas, diziam, insofismáveis. Era mentira. Como mentira se revelou o cruzamento de uma certa "linha vermelha" pelo regime de Assad - as "provas" voltaram a ser insofismáveis - da utilização de gás sarin por parte do regime sírio. Novamente, cui bono?

É preciso parar de brincar com o fogo, actividade a que o transversal Partido da Guerra se dedica com afinco desmedido. E volta a ser da denúncia do Partido da Guerra, cuja sede principal se situa nos EUA, que trata este novo artigo de Pat Buchanan que pensei ser interessante partilhar com os leitores. A tradução é da minha responsabilidade bem como a adição de fotos, links e notas.
25 de Julho de 2014
Por Patrick J. Buchanan
Será Putin pior que Estaline?

Patrick J. Buchanan
Em 1933, o Holodomor decorria na Ucrânia.

Após os "kulaks", os agricultores independentes, terem sido liquidados na colectivização forçada da agricultura soviética, foi imposta à Ucrânia uma fome genocida através do confisco da sua produção de alimentos.

As estimativas dos mortos situam-se entre dois a nove milhões de almas.

Walter Duranty, do New York Times, que apelidou os relatos da fome de "propaganda maligna", ganhou um Pulitzer pela sua mendacidade.

Em Novembro de 1933, durante o Holodomor, o maior liberal [1] de sempre, FDR [o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) - NT], convidou o ministro dos Negócios Estrangeiros Maxim Litvinov para receber o reconhecimento oficial dos EUA do regime assassino do seu senhor Estaline [2].

O genocida José Estaline
No dia 1 de Agosto de 1991, apenas quatro meses antes da própria Ucrânia ter declarado a sua independência, George H. W. Bush advertiu o poder legislativo em Kiev:
"Os americanos não apoiarão aqueles que buscam a independência com o propósito de substituir uma tirania distante por um despotismo local. Eles não irão ajudar aqueles que promovem um nacionalismo suicida baseado num ódio étnico."
Em suma, a independência da Ucrânia nunca fez parte da agenda da América. De 1933 a 1991, nunca constituiu um interesse vital dos EUA. Bush I opunha-se a essa independência.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pat Buchanan: Quem é e o que é Vladimir Putin?

Encaro a secessão como um direito conexo ao direito natural (*) quer no plano das nações quer no plano individual que se poderá traduzir no direito a ser deixado em paz. Tenho assim por essencialmente benévola a leitura dos acontecimentos na Crimeia como de resto sucede quanto a outros processos secessionistas hoje em curso, até agora conduzidos por meios essencialmente pacíficos, como é o caso da Escócia, da Catalunha, de Veneza ou mesmo... de Vigo.

Se por momentos nos lembrarmos que: a própria América nasceu de um processo secessionista a cuja justeza se alude veementemente na Declaração de Independência; que Woodrow Wilson, nomeadamente no seu famoso discurso dos "quatorze pontos", impôs promoveu o estilhaçar dos impérios dos Hohenzollern e Habsburgos e redesenhou fronteiras e criou países em nome da "libertação dos povos" da Europa (pulverizando extensas populações germânicas pelo caminho...) e que o que aconteceu no Kosovo, em 1999, não caiu totalmente no esquecimento, parece-me difícil sustentar um outro ponto de vista. Tanto mais que a única alternativa enunciada, de forma ínvia ou desabrida, é o acentuar do cerco geopolítico (via NATO) à Rússia. E bem sabemos a que conduziu a política do cerco às potências centrais na Europa nos anos que antecederam a I Guerra Mundial.

Pat Buchanan, com a sua habitual frieza analítica e excelente memória histórica, é uma leitura particularmente aconselhável nos domínios da política externa quando as emoções (e a propaganda) se pretendem sobrepôr à razão. Daí o convite ao leitor que adiante se segue, resultado da tradução, da minha responsabilidade, deste texto de Buchanan.
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(*) Para uma incursão de índole filosófica neste tema, atente-se neste artigo de David Gordon ou nesta entrada da Wikipedia.
17 de Março de 2014
Por Patrick J. Buchanan

Quem é e o que é Vladimir Putin? (Who and What is Vladimir Putin?)

Vladimir Putin parece ter perdido o sentido da realidade, terá dito Angela Merkel a Barack Obama após ter falado com o presidente russo. Ele está "num outro mundo". "Concordo com o que Angela Merkel disse... que ele vive num outro mundo", declarou Madeleine Albright, "Isso não faz nenhum sentido". John Kerry deu o seu contributo para esta tonta teoria insinuando que Putin estava a seguir os passos de Napoleão: "Muito simplesmente, não é possível, no século XXI, comportar-se à moda do século XIX ao invadir um outro país sob um pretexto completamente forjado."

Patrick J. Buchanan
Agora que Putin assumiu o controlo da Crimeia sem disparar um tiro, e que 95% do eleitorado da Crimeia votou no Domingo pela reintegração na Rússia, será que as suas decisões continuam a parecer irracionais? Não seria previsível que a Rússia, uma grande potência que tinha acabado de ver o seu vizinho ser puxado para fora da órbita da Rússia por um golpe apoiado pelos EUA em Kiev, iria reagir para proteger uma posição estratégica no Mar Negro que mantém há dois séculos? Zbigniew Brzezinski sugere que Putin tem por objectivo recriar o império czarista. Outros dizem que Putin pretende recriar a União Soviética e o Império Soviético.

Mas por que razão a Rússia, hoje envolvida em sangrentas guerras secessionistas com terroristas muçulmanos nas províncias do norte do Cáucaso da Chechénia, do Daguestão e da Ingúchia, quereria invadir e reanexar o gigante Cazaquistão, ou qualquer outra república muçulmana da antiga URSS, o que garantiria a intervenção jihadista e uma guerra interminável? Se nós, americanos, queremos sair do Afeganistão, por que quereria Putin voltar ao Uzbequistão? Por que quereria ele anexar a Ucrânia Ocidental onde o ódio à Rússia remonta à fome organizada da era stalinista? A invasão e ocupação de toda a Ucrânia implicaria para Moscovo incorrer em custos infindáveis em sangue e dinheiro, a inimizade da Europa, e a hostilidade dos Estados Unidos. Qual seria o objectivo da Rússia, cuja população está a diminuir à razão de meio milhão por ano, de pretender voltar a ter soldados russos em Varsóvia?

Mas se Putin não é um imperialista russo que visa restabelecer o domínio russo sobre os povos não-russos, quem é e o que é ele?

quarta-feira, 5 de março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra

Tal como sucedeu aqui, a vertigem dos acontecimentos (reais ou veículos de mera desinformação) é de tal ordem que o risco da incorrecção (parcial) do relato é significativo. É o que tornou a acontecer agora com o artigo de Pat Buchanan, ontem publicado, que escolhi divulgar, em versão por mim traduzida.

Mas o meu interesse nesta matéria não é o da crónica de uma eventual guerra a propósito da Ucrânia. É, antes, o de convidar a reflectir sobre uma realidade que é bem mais complexa do que o maniqueísmo habitual propalado pelos políticos e media ocidentais - aqueles a que estamos directamente sujeitos - pretendem fazer passar ao grande público. A esta luz, o artigo de Buchanan, como é de resto habitual no seu autor, convida à análise serena e lúcida e, recorda algumas referências históricas e geográficas que, ainda que elementares, são fundamentais para a interpretação do que se vem passando. Sobretudo, que haja muito cuidado na aceitação acrítica das acusações de violação do "direito internacional" quando elas são esgrimidas por parte de quem age com o estatuto de império incontestado: "We're an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you're studying that reality—judiciously, as you will—we'll act again, creating other new realities, which you can study too, and that's how things will sort out. We're history's actors ... and you, all of you, will be left to just study what we do". Ainda anteontem morreram mais 97 pessoas no Iraque.

Ainda que naturalmente dirigido ao público norte-americano, é aos cidadãos dos países europeus que ele mais interessará. Afinal de contas, o epicentro das duas guerras mundiais aconteceu aqui no Velho Continente.

ACTUALIZAÇÃO: mais uma "pequena surpresa" (transcrição parcial aqui) a juntar a esta outra.
Por Patrick J. Buchanan
4 de Março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra! (Tune Out the War Party!)

A decisão de Vladimir Putin de enviar tropas russas para a Crimeia, pôs os nossos belicosos falcões a respirar fogo. A russofobia está desvairada e os artigos de opinião fervem de indignação.

Barack Obama deveria abstrair-se de tudo isto e reflectir sobre o modo como os presidentes ao longo da Guerra Fria lidaram com Moscovo a propósito de confrontos muito mais graves.

Patrick J. Buchanan
Quando as divisões de tanques do Exército Vermelho esmagaram os combatentes húngaros da liberdade em 1956, matando 50 mil deles, Eisenhower não levantou um dedo. Quando Khrushchev construiu o Muro de Berlim, JFK foi a Berlim e proferiu um discurso.

Quando as tropas do Pacto de Varsóvia esmagaram a Primavera de Praga em 1968, LBJ não fez nada. Quando Moscovo ordenou ao general Wojciech Jaruzelski que esmagasse o Solidariedade, Ronald Reagan recusou-se a colocar Varsóvia numa situação de isolamento.

Estes presidentes não viram nenhum interesse vital dos EUA ameaçado nessas acções soviéticas, por brutais que tivessem sido. Sentiram que o tempo estava do nosso lado durante a Guerra Fria. E a história veio a dar-lhes razão.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ucrânia: o prosseguimento do maniqueísmo imperial

Capa da The Economist da semana
Tenho feito eco por aqui, com alguma regularidade nos últimos meses, das análises geo-politicas de Eric Margolis, um dos meus analistas preferidos em matéria de política externa sempre que os Estados Unidos estejam envolvidos (uma "inevitabilidade", hoje em dia). No seu artigo de ontem, Back from the Brink in Ukraine, Margolis analisa a situação na Ucrânia à luz da persistente manobra de envolvimento da União Soviética Rússia por parte dos EUA, em mais uma instanciação da política do "cordon sanitaire", atribuída a Georges Clemenceau (ou a Woodrow Wilson?), desenvolvida na sequência do primeiro (e imediatamente evidente) desastre estratégico resultante da I Guerra Mundial - a revolução bolchevique. A Ucrânia era, já então, como nação "fronteira", peça integrante do dito "cordão". Para além disso, como Daniel McAdams também observava há dias (artigo de leitura vivamente recomendada), há demasiadas similitudes entre o desenrolar dos acontecimentos na Ucrânia com o drama que (ainda) está em curso na Síria.

Para os leitores que se interrogarem do porquê de um pronunciamento algo tardio sobre a situação da Ucrânia, a imagem acima espelha, com um "esplendor"  inaudito em tempo de paz (?) por parte de uma "respeitável e venerável instituição" com mais de 170 anos de história, a razão de ser do timing (e a justeza da decisão que tomei há três anos atrás):

A tradução que se segue é da minha responsabilidade bem como pela introdução dos links e imagens no texto.

ACTUALIZAÇÃO (ainda no "prelo") - Como sempre sucede em períodos à beira da revolução do golpe de estado (versão de rua ou palaciana), os acontecimentos sucedem-se a um rimo vertiginoso. Um dia depois da crónica de Margolis, Iakunovitch já não é presidente e Iulia Timoschenko foi libertada. Mas o essencial do artigo, a meu ver, mantém toda a actualidade.
22 de Fevereiro de 2014

Por Eric Margolis

Nos inícios deste mês, a diplomacia americana na crise da Ucrânia foi sintetizada, pela alta funcionária do Departamento de Estado, Victoria Neuland, uma destacada neoconservadora: "Que se f*** a Europa!"

Na sexta-feira [21 de Fevereiro - NT], a Europa respondeu intermediando um compromisso sensato na cada vez mais perigosa crise ucraniana, quando o exército se aprestava a intervir. Se o pacto for respeitado, o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, irá renunciar a alguns dos seus poderes, será formado um governo de unidade, serão realizadas eleições, e os manifestantes presos serão libertados. O destino da líder nacionalista presa, Yulia Timoshenko, permanece incerto.

Aqui estava uma solução diplomática inteligente para uma crise que poderia ter levado a um choque frontal entre a NATO e a Rússia, ambas potências nucleares.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pat Buchanan: Não nos metamos nas guerras dos outros

Pat Buchanan, em Staying Out of Other People’s Wars, percorrre alguns dos principais focos de tensão que, pelo mundo fora, arriscam vir a desencadear novos e perigosos conflitos armados. O messianismo wilsoniano, que arrastou os EUA para a I Guerra Mundial e lançou os fundamentos para o intervencionismo americano pelas quatro partidas do mundo, permanece hoje bem vivo no seio do que Buchanan, muito justamente, designa pelo "Partido da Guerra". No Verão passado, assistiu-se a um muito improvável recuo por parte dos "falcões" em resultado directo da surpreendente derrota de Cameron no Parlamento britânico e subsequente revolta cívica que impediu que o Partido da Guerra voltasse a vencer na "Terra dos Livres e Lar dos Bravos". Evitou-se assim que a terrível guerra na Síria aumentasse ainda mais a sua intensidade e internacionalização. Falhando Cameron, entretanto, sobrou Hollande, outro membro do Partido da Guerra "de um país que se acostumou a humilhar outros durante 400 anos de guerras e agressões" (palavras de Hunt Tooley) e que reclama a grandeur de outrora. Buchanan termina o artigo exortando os republicanos (enfim, parte deles) a regressar às práticas que já foram as do Grand Old Party. Que o oiçam.

A tradução do texto é da minha responsabilidade assim como da inserção dos links e imagens.
Por Patrick J. Buchanan
7 de Fevereiro de 2014

Não nos metamos nas guerras dos outros (Staying Out of Other People’s Wars)

"Se estas negociações [com o Irão] falharem, há duas alternativas sombrias​​", afirmou o senador Richard Durbin, "um Irão nuclear, ou a guerra, ou talvez ambos".

Patrick J. Buchanan
Os senadores John McCain e Lindsey Graham regressaram da conferência de segurança de Munique declarando que até mesmo John Kerry concorda que a política do presidente Obama relativamente à Síria falhou. Eles exortam à reconsideração do recurso a ataques aéreos.

A Coreia do Norte vem avisando que, caso os exercícios militares anuais entre os EUA e a Coreia do Sul se venham a concretizar no próximo mês de Março, isso poderia significar a guerra, possivelmente uma guerra nuclear.

O presidente das Filipinas, Benigno Aquino III, comparou esta semana a situação do seu país com aquela que, em 1938, enfrentava a Checoslováquia, e as ilhotas sob disputa ao largo da sua costa no Mar do Sul da China, à região dos Sudetas. Tal como Hitler na Europa, Aquino está a dizer que a China está em marcha na Ásia.