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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Contra um mundo infestado de auto-nomeados peritos

Ante-Scriptum: devo um pedido de desculpas por esta longa ausência sem uma palavra de explicação. O problema é que não há explicação, e, portanto, não pode haver desculpa. Hoje, senti que devia voltar. Veremos se para continuar. Em qualquer caso, um muito obrigado aos leitores do Espectador Interessado.

Eduardo Freitas
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Há dias, um colunista de esquerda protestava o seu total apoio à globalização deste que se assegurasse que todos ganhassem nesse processo, o que não estaria entretanto a suceder. Ora, que entidade existe que "assegura" o que quer que seja? Aquela salvaguarda mais não era que um novo apelo a um ainda maior intervencionismo estatal, seja no plano nacional através de compensações aos "deserdados" da globalização, seja no plano supranacional onde "peritos" desenhariam acordos de "livre" comércio onde prevalecesse a "equidade" na distribuição dos seus benefícios.

Uma monstruosidade deste calibre, uns bons furos acima dos tratados multilaterais de "livre" comércio que a elite globalista tem tentado fazer avançar, à semelhança da sua "gestão" da cada vez mais suspeita vaga migratória que vivemos, é obviamente inaceitável para qualquer espírito livre.

Por favor não me entendam mal. Eu sou inteiramente favorável à globalização entendida como o resultado natural da divisão e especialização do trabalho internacionais. Por exemplo, fui e sou, um defensor das sweatshops porque não me incomoda a alegada "exploração" dos seus trabalhadores por pérfidas multinacionais quanto é ela que permite retirar milhões da pobreza mais abjecta em que antes viviam. Isto enquanto a canalha progressista vociferava contra a concorrência "desleal", a "escravização" dos operários com soldos "miseráveis" e, pasme-se, a utilização de trabalho infantil (como se antes as crianças adolescentes não trabalhassem em condições muito piores e a ganhar muito menos ou, simplesmente, morressem à fome ou de doença).

quarta-feira, 4 de março de 2015

Ucrânia, um debate por fazer (III - conclusão)

Com este post terminamos a tradução (iniciada aqui e aqui continuada) da declaração política que o Instituto Václav Klau publicou em 15 de Abril do ano transacto a propósito dos acontecimentos na Ucrânia. Àquela data, Yakunovitch, o presidente eleito em funções, tinha fugido do país e já se consumara a secessão (anexação, segundo outros) da Crimeia. Nesta última parte, é visível que os seus autores estão a escrever tendo em especial atenção os reflexos que o desenrolar da crise ucraniana possam provocar na República Checa que, como se refere no texto, se situa na "fronteira simbólica entre o Leste e o Oeste". Não obstante, a nosso ver, essa circunstância em nada afecta a relevância do texto. Há agora oportunidade para questionar os argumentos dos "legalistas" de ocasião que oportunisticamente se esquecem que a actual situação ucraniana resultou ela própria de um putsch (inconstitucional, por força das coisas). Depois, e mais importante, para os checos como para os portugueses, como para todos os europeus que prezam a Liberdade, alerta-se para as tentativas da elite globalista de Bruxelas, em consonância com os interesses estratégicos americanos, para acelerar o processo de unificação, centralização e burocratização fazendo jus àqueles que pensam "que nunca se deve desperdiçar uma crise séria".

Uma continuação de uma boa semana.

(Continuado daqui)
Parte IV: Fundamentalismo legalista e "vida real"

Referindo-se à contínua desintegração da Ucrânia - a separação da Crimeia e a sua incorporação na Rússia, as constantes declarações de todos os tipos de "repúblicas" russas separatistas e as novas exigências de referendos visando a separação de outras partes do leste da Ucrânia -, os comentadores ocidentais apresentam vários argumentos jurídicos asseverando que tais passos estão em contradição com o quadro legal e constitucional da Ucrânia de hoje, e, portanto, são ilegais e inaceitáveis. Também isto tem que ser colocado no contexto adequado, sem tentarmos passar por especialistas em direito ucraniano. Porque a questão não é essa.

Estes argumentos, em grande medida académicos, até podem estar correctos quando se analisa a ilegalidade de alguns dos passos dados pelos separatistas, mas isso é apenas metade da verdade. A vida real está sempre à frente da lei e esta só se ajusta àquela retroactivamente. A realidade alterada induz novas leis e estas, por definição, são igualmente apenas temporárias. A vida real e as necessidades reais costumam encontrar os seus caminhos, e muito raramente as alterações legislativas conseguem acompanhá-los.

Na história recente, houve apenas um caso de uma divisão verdadeiramente constitucional de um estado e que foi legalmente posta em prática - o da federação da Checoslováquia. A desintegração da Jugoslávia, e posteriormente da Sérvia como da União Soviética, foi por natureza caótica. Foi frequente o confronto e a violência, com numerosos faits accomplis. É inútil analisar isso. A maioria dos países modernos, na Europa e no resto do mundo, obteve a sua independência em resultado de uma luta violenta, ignorando a lei da altura. Negar às pessoas esse direito, invocando a ilegalidade do separatismo, é algo de impossível. Se não o reconhecêssemos, teríamos que negar a legalidade dos Estados Unidos ou, por sinal, o nosso próprio estado, que também nasceu contrariando a Constituição do Império Austro-Húngaro em 1918.

A Europa antes da I Guerra Mundial

terça-feira, 3 de março de 2015

Ucrânia, um debate por fazer (II)

Prosseguimos hoje com a publicação da tradução do texto, co-assinado por Václav Klaus e Jiří Weigl, cuja primeira parte foi publicada aqui. Depois de terem proporcionado um enquadramento histórico do espaço geográfico a que corresponde hoje a Ucrânia e dos povos que a habitam - A herança difícil do passado -, os autores dissecam agora as razões que, no seu entender, explicam o insofismável fracasso do estado ucraniano pós-comunista, antes e depois da "Revolução Laranja", à luz das quais devem ser interpretados os acontecimentos recentes. Irão esquissar dois modelos que, no essencial, suportam as duas principais "narrativas" em confronto e acabam por concluir pela imperatividade de evitar que se dêem passos que tornem efectivo o que já muitos designam de Guerra Fria 2.0. (Os realces no texto são os que constam da versão em língua inglesa do artigo.)

(Continuado daqui)
Parte II: a transformação falhada da Ucrânia

Como se explicou acima, a Ucrânia nasceu após a queda do comunismo enquanto estado essencialmente não-histórico, amaldiçoado com um problema de identidade fundamental desde o primeiro dia. Isto foi sempre um impedimento sério ao desenvolvimento do país, situação que permanece até hoje.

A Europa Ocidental e os Estados Unidos, ou melhor, os político dessa parte do mundo, não vêm problemas nesse condicionamento e pensam que tudo o que é preciso é "introduzir a democracia e o estado de direito". Nada aprenderam até agora com o facto de as repetidas tentativas de "exportação da democracia" terem fracassado e que mesmo as duas décadas de apoio ocidental maciço à Bósnia-Herzegovina, artificialmente criada após a desintegração da Jugoslávia, não frutificaram. E isto para já não falar da Primavera Árabe.

Foto daqui

domingo, 1 de março de 2015

Ucrânia, um debate por fazer (I)

Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre Václav Klaus, será difícil não lhe reconhecer a clareza e o desassombro que sempre coloca no expressar dos seus pontos de vista - a defesa liberdade e da economia de mercado, o repúdio dos venenos do multiculturalismo e do globalismo universalista, a recusa do consequencialismo neocon do "fim da história" ou o combate ao ecologismo delirante. Num tempo em que o "politicamente correcto" reina, inclusive em sedes que se reclamam adeptas do conservadorismo (quando não do libertarianismo...), o afrontar o pensamento único vigente impõe com frequência um preço pessoal elevado: o isolamento e, pior, o esquecimento advindo da supressão/ocultação da opinião dissidente. A meu ver, "A Contra-Corrente" seria um título que se ajustaria a umas eventuais memórias que entenda vir a escrever (leia-se, por exemplo, esta entrevista).

Václav Klaus
Klaus - talvez o principal artífice, a seguir à "Revolução de Veludo", do quadro institucional pós-comunista na antiga federação da Checoslováquia, da privatização em massa de uma economia estatizada onde se soube evitar a emergência de clãs oligarcas, e da separação, negociada e pacífica (incluindo a moeda), entre as duas nações que a compunham - é agora ainda mais ostracizado devido à leitura que faz dos acontecimentos na Ucrânia. Tendo terminado o seu segundo mandato presidencial em Março de 2013, Klaus fundou entretanto um Instituto através do qual, acompanhado nomeadamente pelo seu antigo chefe de gabinete, Jiří Weigl, vai mantendo um repositório das suas intervenções. É desse repositório, que escolhi um texto co-assinado por Klaus e Wegl, publicado em 15 de Abril de 2014, cujo título - Let's start a real Ukrainian debate ("Iniciemos um debate a sério sobre a Ucrânia") - não escondia ao que vinha. Passados mais de dez meses sobre a sua publicação, o debate para que apelava o texto não aconteceu. Para a esmagadora maioria da opinião publicada entre nós, como no Ocidente em geral, não só perdura o maniqueísmo dos "bons" contra os "maus" como, de então para cá, ele se acentuou. Como ainda ontem voltou a suceder com uma nova "prova" (mas afinal eram ainda necessárias mais?) da alegada malignidade do Kremlin. Deste modo, cremos que o texto mantém toda a actualidade. O debate sobre a Ucrânia continua por fazer.

Tratando-se de um texto algo longo, iremos publicá-lo por partes. A primeira tem por finalidade dar um enquadramento histórico sumário do espaço geográfico ucraniano e relembrar que as linhas de demarcação conhecidas por fronteiras têm, as mais das vezes, muito de arbitrário e volátil, situação que o checo Klaus, casado com uma eslovaca, conhece aliás particularmente bem.
15 de Abril de 2014
Por Václav Klaus e Jiří Weigl


Parte I: Introdução - A herança difícil do passado

O estado ucraniano de hoje é um triste resultado das tentativas de Estaline para misturar nações e fronteiras, perturbar laços históricos naturais e criar um novo homem soviético transformando nações originais em meros resíduos étnicos e remanescências históricas. Ter isto em consideração é o ponto de partida do nosso pensamento, algo que infelizmente está em falta nos debates políticos de hoje.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Presidente-Sol e ambientalmente correcto

Para além desta via, o juiz Napolitano explica no video como se vem processando nos EUA o esvaziamento do Legislativo em favor do crescente protagonismo proto-absolutista do presidente. De especial realce o papel das agências regulatórias neste processo e, dentro destas, o da omnipresente e omnipotente agência de protecção do ambiente (EPA) cuja última liderança terminou envolta em densa nebulosa ainda por deslindar. Como já Václav Klaus assinalava aqui, a propósito do declínio económico europeu e de como inverter: "[w]e should stop the creeping but constantly expanding green legislation. The greens must be stopped from taking over much of our economy under the banner of such flawed ideas as the global warming doctrine"

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Presidente politicamente incorrecto

Intervenção de Václav Klaus na sétima International Conference on Climate Change, que decorreu este ano entre 21 e 23 de Maio, em Chicago (restantes vídeos dos diferentes conferencistas disponíveis aqui). Acima de tudo, sempre um defensor da liberdade e, como tal, da verdade.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Václav Klaus: só mudanças fundamentais poderão retirar a Europa da crise em que está mergulhada

Só agora tive oportunidade de ouvir na íntegra a intervenção de Václav Klaus, em Londres, no passado dia 3 de Maio, em evento organizado pelo Grupo Brugges, a que o insurgente Filipe Faria aludiu aqui e aqui. Klaus, economista de profissão, sucessivamente ministro das Finanças (na sequência imediata da Revolução de Veludo), primeiro-ministro, presidente do parlamento e, desde Março de 2003, presidente da República Checa, voltou a não desiludir: defensor de posições que reconhece como minoritárias - seja quanto ao federalismo europeu, seja quanto à ideologia "verde" e, em particular, a doutrina do "aquecimento global", seja quanto à defesa de uma economia de mercado de onde o Estado se deve o mais possível afastar (ou ser afastado). Enumerou oito linhas de actuação para que a Europa possa retomar, de forma duradoura, a prosperidade e o crescimento económico:
  1. Get rid of the unproductive and paternalistic Soziale Marktwirtschaft [Economia Social de Mercado] augmented, which means, farther undermined by the growing role of the green ideology;
  2. We should accept, our politicians should accept, that economic adjustment processes take time and that the impatient politicians and governments usually make things worse. The politicians shouldn’t try to mastermind the markets, to micromanage the economy, to “produce” growth by government stimuli and incentives. Let the market function;
  3. We should start making comprehensive reductions of government expenditures and forget flirting with solutions based on tax increases. These reductions, these budgetary reductions, must dominantly deal with mandatory expenditures because discretionary spending cuts are as a long term solution, quantitatively, more or less insignificant;
  4. We should stop the creeping but constantly expanding green legislation. The greens must be stopped from taking over much of our economy under the banner of such flawed ideas as the global warming doctrine;
  5. We should get rid of the centralization, harmonization, standardization of the European continent and after half a century of such measures start decentralizing, deregulating and de-subsidizing the economy;
  6. We should make it possible for countries which are the victims of the European monetary union to leave it and to return to their own monetary arrangements…;
  7. We should forget such plans or projects as a European fiscal union not to speak about ostentatively anti-democratic ambitions to politically unify Europe;
  8. We should return to democracy which can exist only at the level of nation-states not at the level of the whole continent. It requires returning from supranationalism to intergovernmentalism…

O vídeo contém a palestra inicial de Klaus, cerca de 21 minutos, seguindo-se depois um período de perguntas e respostas. Eu viu-o até ao fim dei por bem empregue o meu tempo.