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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Contra um mundo infestado de auto-nomeados peritos

Ante-Scriptum: devo um pedido de desculpas por esta longa ausência sem uma palavra de explicação. O problema é que não há explicação, e, portanto, não pode haver desculpa. Hoje, senti que devia voltar. Veremos se para continuar. Em qualquer caso, um muito obrigado aos leitores do Espectador Interessado.

Eduardo Freitas
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Há dias, um colunista de esquerda protestava o seu total apoio à globalização deste que se assegurasse que todos ganhassem nesse processo, o que não estaria entretanto a suceder. Ora, que entidade existe que "assegura" o que quer que seja? Aquela salvaguarda mais não era que um novo apelo a um ainda maior intervencionismo estatal, seja no plano nacional através de compensações aos "deserdados" da globalização, seja no plano supranacional onde "peritos" desenhariam acordos de "livre" comércio onde prevalecesse a "equidade" na distribuição dos seus benefícios.

Uma monstruosidade deste calibre, uns bons furos acima dos tratados multilaterais de "livre" comércio que a elite globalista tem tentado fazer avançar, à semelhança da sua "gestão" da cada vez mais suspeita vaga migratória que vivemos, é obviamente inaceitável para qualquer espírito livre.

Por favor não me entendam mal. Eu sou inteiramente favorável à globalização entendida como o resultado natural da divisão e especialização do trabalho internacionais. Por exemplo, fui e sou, um defensor das sweatshops porque não me incomoda a alegada "exploração" dos seus trabalhadores por pérfidas multinacionais quanto é ela que permite retirar milhões da pobreza mais abjecta em que antes viviam. Isto enquanto a canalha progressista vociferava contra a concorrência "desleal", a "escravização" dos operários com soldos "miseráveis" e, pasme-se, a utilização de trabalho infantil (como se antes as crianças adolescentes não trabalhassem em condições muito piores e a ganhar muito menos ou, simplesmente, morressem à fome ou de doença).

sábado, 10 de outubro de 2015

Regulação desregulada

A regulação financeira é o salvo-conduto para o desastre

Na entrevista que hoje publicamos, Robert Johnson analisa com John Kay a natureza e os resultados dos edifícios regulatórios erguidos nas últimas décadas em torno dos sectores bancário e financeiro.
Para um leigo, estas regras parecem ter produzido um monstro de dimensões ainda desconhecidas. Para Robert e John, a dimensão do problema é mais clara. E, na sua opinião, para que fosse possível uma regulação mais ligeira e mais eficiente, importava assinalar diferenças quanto aos pressupostos de ambos os sectores - bancário e financeiro. Compreender os estímulos impregnados no sistema híbrido de hoje e perspectivar os respectivos axiomas aos olhos do que sabemos hoje é fundamental.
É isso que buscam fazer, Robert Johnson e John Kay ao longo de pouco mais de vinte e seis minutos.

Votos de um excelente fim-de-semana. Não obstante, o recente cinzento deste sábado.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Energia: o que devemos temer é o "pico estatal", não o "pico do petróleo"

Inicio com este post a "penitência" a que me impus aqui. A oportunidade surgiu ao ter-me deparado com o artigo de Robert Murphy que me propus partilhar hoje com os leitores (minha tradução). Trata-se, uma vez mais, de desmistificar o sucessivamente anunciado, e sempre adiado, "esgotamento" dos combustíveis fósseis o que, recorde-se, constitui um dos pilares da argumentação em favor das energias "renováveis" e da urgência da sua adopção. Ora, atravessamos precisamente à escala mundial mais um período em que os recursos petrolíferos, medidos pelas quantidades produzidas e pelas reservas conhecidas, não apenas não diminuem como não cessam de aumentar. E a revolução do shale não saiu ainda sequer dos EUA (nem o Irão a disponibilizar ao mercado todo o seu potencial)! A mente humana é um instrumento extraordinário de criação de riqueza e recursos, esses sim inesgotáveis. Assim os governantes não a cerceiem totalmente pela continuação da espiral  aparentemente insaciável do esbulho fiscal e regulatório. Uma última nota para a informação que o Engº Henrique Gomes disponibilizou recentemente: o défice tarifário, projectado para 5.080 milhões € pela ERSE para 2015, já vai em 5.400 milhões.

ACTUALIZAÇÃO: A talhe de foice.
8 de Abril de 2015
Por Robert P. Murphy


Robert P. Murphy
Independentemente da existência de várias versões da teoria do "pico do petróleo", durante décadas esta acumulou hossanas porque se revelou correcta no caso dos EUA. Especificamente, o geofísico M. King Hubbert publicou uma teoria da exploração dos campos petrolíferos em 1956 onde se previa que a produção total de petróleo nos EUA fosse atingir o seu "pico" cerca de 1971 (o mais tardar), declinando a partir daí. Hubbert previu também que o mundo assistiria a um declínio na produção total de petróleo por volta de 2006. Hubbert estava errado relativamente ao mundo. Mas, durante algum tempo, parecia ter acertado em cheio quanto aos EUA. Porém, o desenvolvimento dos recursos em formações xistosas (shale), e a expansão na utilização do "fracking" e da perfuração horizontal nos Estados Unidos nos últimos anos, mostram que o "pico do petróleo" já nem sequer se aplica à que chegou a ser a sua história de sucesso.

O gráfico abaixo é o mais recente da Administração de Informação de Energia (EIA) que mostra a história da produção mensal decrude dos EUA:



segunda-feira, 23 de março de 2015

Mercado e regulação estatal - lições a tirar da guerra dos browsers

Confirmando vários rumores que há algum tempo circulavam, a Microsoft oficializou esta semana o processo de descontinuação (phasing out) da mítica marca Internet Explorer e a decisão tomada de rumar noutras direcções embarcando num projecto significativamente designado de "Espartano". Foi este o pretexto para revisitar a épica guerra dos browsers (navegadores na Internet); recordar a intervenção estatal e judicial que, como sempre, pretendeu ditar vendedores e vencidos em nome da "sã concorrência"; e, por fim, e mais importante, retirar as riquíssimas lições do sucedido. É este o foco do artigo de Jeffrey Tucker que hoje vos proponho.

Mas primeiro um breve interlúdio para contextualizar a minha leitura do sucedido. Na faculdade, tivera uma cadeira introdutória de Informática - de papel e lápis. Uns bons anos depois, num momento de maior desafogo financeiro, comprei um ZX Spectrum com o qual, para além de jogar (muito), me divertia a fazer umas habilidades com a sua versão de Basic (pouco). O meu primeiro PC doméstico foi adquirido em 1991 (mediante empréstimo bancário). Juntamente com a impressora, a coisa importou em 500 contos, à volta de 5500 euros a preços de hoje! Com ele viria pouco depois o primeiro Windows a sério - o 3.1. Dois anos antes, tivera contacto profissional com o salto gigantesco que representava o passar da estação de trabalho individual para um ambiente colaborativo assente numa rede (com partilha de impressoras!) e tomo contacto com a extraordinária beleza e facilidade de utilização dos (porém caríssimos) Apple Macintosh. Desde então, que o portátil passou a fazer parte da minha bagagem permanente. Depois, creio que foi em 1995, durante as férias de Verão, ao "digerir" um breve manual, que finalmente compreendi o poder da internet - e o sentido de urgência que Bill Gates tentava então incutir em toda a Microsoft - quando me apercebi da extraordinária facilidade em criar páginas web que a linguagem HTML permitia. Foi uma autêntica epifania. "A rede era o computador", proclamava-se na Sun Microsystems. Foi mais ao menos por essa altura que me recordo de ler nos jornais o caso da guerra dos browsers a que alude o artigo de Jeffrey Tucker. Recordo-me de ter achado um absurdo a acusação de monopólio que se imputava à Microsoft. Já tivera até então experiência bastante para perceber, que máquinas e software não só não paravam de melhorar, em qualidade e desempenho, como o seu preço (real e nominal) tinha descido vertiginosamente (e assim tem continuado até hoje). Se algo caracterizava a indústria era a sua duríssima competitividade em benefício dos consumidores, traduzida na extraordinária ascensão e queda de protagonistas (Wang, Digital, IBM, etc.). Só bem mais tarde viria a compreender a lenda criada à volta das leis "antitrust" da época "progressiva" nos EUA e o posterior surgimento do suporte teórico "justificativo" do intervencionismo regulatório estatal cujo orwelliano lema se pode resumir em algo como: "A melhor defesa da concorrência é a sua eliminação". A guerra dos browsers, e o apelo que então foi dirigido ao poder (por competidores directos e prospectivos, auxiliados pela histeria mediática dos media convencionais), é um exemplo eloquente da verdadeira utilidade da regulação estatal: servir compadrios. A inevitável consequência é a destruição, ou pelo menos, o sério prejuízo da criatividade e pujança do mercado. Uma última nota para voltar a sublinhar, aspecto que não é endereçado no artigo, que o sector das TIC há bem mais de 30 anos que demonstra à evidência a falácia do papão deflacionista.

20 de Março de 2015
Por Jeffrey Tucker


Sem muito alarde, a Microsoft anunciou este mês que irá descontinuar progressivamente o seu muito conhecido navegador web - o Internet Explorer (IE). Nas notícias, o foco principal tem incidido nas razões que o levaram a ser suplantado pelo Chrome, Safari e Firefox, entre muitos outros navegadores existentes no mercado. Além disso, as aplicações móveis estão a dar passos gigantescos na navegação web em geral.

Imagem daqui

Isto é de facto verdade. Nas plataformas com que lidei, assisti à forma como o IE passou de uma quota de utilização dos 95 para os 20%, um crash espectacular e bem merecido, do pináculo em que se tinha instalado, que demorou uns bons 20 anos. A Microsoft nunca foi capaz de corrigir os seus infindáveis problemas de segurança. Cada nova versão, da 1 à 10, parecia corrigir alguns problemas da versão anterior ao mesmo tempo que introduzia outros mais.

Não foi inteiramente culpa da Microsoft: a condição de navegador dominante do IE tornou-o num alvo incessantemente submetido aos ataques de todos os criadores de malware no mundo. Mesmo uma equipa de mil programadores da Microsoft foi incapaz de ultrapassar esse problema. Não ajudou que a própria Microsoft estivesse tolhida pela sua gigantesca dimensão e estrutura de gestão burocrática.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mises, a queda do Muro, e a persistência da falácia socialista sob novas vestes

Num discurso proferido na Conferência do ELDD - Grupo Europa da Liberdade e da Democracia Directa do Parlamento Europeu (cuja principal formação é o UKIP) -, em 12 de Novembro último, para assinalar o 25º aniversário do fim da Cortina de Ferro, Philipp Bagus - o autor de A Tragédia do Euro - produziu um breve discurso que reputo de simultaneamente didáctico, incisivo e desassombrado perante a realidade que defrontamos. Didáctico, pela forma como esquissa a prova da impossibilidade de cálculo económico que Ludwig von Mises elaborou em 1920, antecipando em 70 anos o colapso do sistema comunista. Incisivo e desassombrado, porque não receia apontar os males profundos e estruturais que nos assolam: por um lado, a cada vez mais sufocante teia regulatória (a nacional e a de Bruxelas); por outro, pela espiral intervencionista do "socialismo monetário" constituído pela moeda fiat e pelo banco central. Alerta por fim para as tentativas que vêm ocorrendo com o intuito de suprimir a utilização de numerário (cash) que, a terem sucesso, nos colocariam em pleno totalitarismo monetário (já pouco falta, aliás). Por este motivo, entendi que poderia ser útil traduzir a sua intervenção, o que se faz abaixo. Para quem preferir ver e ouvir a intervenção de Bagus ao vivo, pode fazê-lo aqui.
Muito obrigado pela simpática introdução.

Gostaria de agradecer ao grupo ELDD o amável convite. É uma grande honra e um prazer estar aqui no 25º aniversário da queda do Muro.

Philipp Bagus
Quando o Muro foi derrubado em 1989, a maioria das pessoas foi apanhada de surpresa, incluindo os economistas da Escola de Chicago. Sherwin Rosen afirmou em 1997 que "o colapso do planeamento central na última década foi uma surpresa para a maior parte de nós". E Ronald Coase observou igualmente: "Nada do que tinha lido ou conhecido sugeria que o colapso iria ocorrer."

Bem, mas houve um grupo de economistas que não ficou nada surpreendido: os da Escola Austríaca de economia. Isto porque o grande economista austríaco Ludwig von Mises havia anunciado, logo em 1920, a impossibilidade do planeamento económico racional sob o socialismo num ensaio intitulado "Die Wirtschaftsrechnung im zocialistischen Gemeinwesen" [Cálculo Económico Sob o Socialismo - NT]. É assim que Murray Rothbard, já em 1971, se referia a Mises como sendo "o profeta do colapso do planeamento central".

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Os tremendos custos não visíveis da regulação estatal

Ontem, referia-me aqui às consequências directas e mensuráveis - e por isso percepcionáveis - de recentes "medidas" governamentais. Foi o "perigo" dessa percepção que explica que o ministro "artesão", "batalhador" e "persistente" sentisse a necessidade de rapidamente vir a terreiro para tentar baralhar os incautos ao afirmar "[não haver] razões para assustar as pessoas com aumentos que não estão previstos, a partir da fiscalidade verde".

Sucede que, as mais das vezes, as "medidas" governamentais produzem impactos que não são nem imediatamente visíveis, nem facilmente mensuráveis e, por conseguinte, com efeitos dificilmente percepcionados pelo comum das pessoas. É este o caso de TODA a actividade regulatória estatal, provenha ela da administração pública ou de "autoridades" supostamente independentes, altruístas e omniscientes. Entre nós, a secular arrogância do estado centralista e a ausência de uma pressão da opinião pública efectiva vai permitindo que aquele não sinta necessidade de quantificar e divulgar publicamente os impactos financeiros das "medidas" que vai coleccionando a uma velocidade cada vez mais vertiginosa. Noutras longitudes não é assim, ilustrando a imagem abaixo a enorme relevância dos custos da regulação estatal (no caso, referentes à actividade industrial nos EUA em 2012). Entretanto, por cá há quem recorra - julgo que com sucesso - ao colorido do vernáculo para tentar tornar visível aquilo que se esconde propositadamente do escrutínio público.



Actualização: ver aqui.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Uma mentira sustentada mas insustentável

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Consumada a "reforma da fiscalidade verde", já se conhecem quais serão os seus impactos: mais 350 milhões de euros de impostos e regulamentações várias que irão onerar o custo da gasolina e do gasóleo em +6,5 e +5,1 cêntimos por litro, respectivamente. Enquanto ajuda à competitividade das empresas, não está nada mal, não senhor! De resto, Jorge de Vasconcelos, o mesmo que se demitiu de presidente da ERSE quando não obteve do governo de então o acréscimo nas tarifas eléctricas que defendia ser devido pelos consumidores, agora na pele de presidente da Comissão que reviu a "fiscalidade verde" acha que a coisa, na parcela "Fundo de Carbono", "é quase imperceptível" face às oscilações dos preços do petróleo nos mercados internacionais. Moreira da Silva - o "ministro do CO2" na feliz expressão de Mira Amaral - o verdadeiro mentor de tudo isto, nunca escondeu aliás ao que vinha e qual era o objectivo que tinha em mente: "alterar comportamentos" de modo a "conferir padrões de consumo e produção "mais sustentáveis". No fundo, no fundo - como à superfície... - apenas uma variante na busca de um "homem novo" que erige como valor absoluto o "respeito" pela Mãe Natureza e o combate ao aquecimento global às "alterações climáticas".

O estimável Público rejubila, como de resto a generalidade dos nossos media convencionais, tanto mais que o estadista "artesão" acaba de arrancar uma "vitória" em Bruxelas (cf. imagem de notícia do jornal de ontem) que resultou da sua indomável persistência: uma intenção declarada, não vinculativa, de aumentar as interligações da rede eléctrica pan-europeia (com a qual o estadista sonha para "escoar" o excesso de produção eólica de que padecemos e cujos efeitos - défice tarifário combinado com contínuos aumentos nas tarifas de electricidade-, ao contrário do propagandeado, continuam a aumentar).

Portanto, caros leitores, é fácil prever o que ocorrerá no próximo mês de Janeiro: 1) caso os preços do petróleo se mantenham nos níveis actuais por mais uns meses, os preços dos combustíveis irão, grosso modo, regressar aos valores que se observavam antes da recente e acentuada descida da cotação do crude ou, 2) logo que o preço do crude recupere para os nos patamares anteriores, podemos antever as manchetes da nossa imprensa: "os preços da gasolina e do gasóleo atingem valore recorde entre nós!". A culpa, está bem de ver, será do mercado e dos tenebrosos especuladores.

Adenda 1: o descaramento não tem mesmo limites.

Adenda 2: é verdade que cerca de 1/3 do aumento projectado nos combustíveis decorre de novo acréscimo na designada "Contribuição Rodoviária" cuja receita é consignada à Estradas de Portugal. Mas não o é menos, na "filosofia" do ministro do CO2, que seja um imposto "verde" já que naturalmente desencoraja a utilização de veículos nas estradas ao torná-la mais dispendiosa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Delícias para as noites de Verão

Ou o antídoto para a silly season

No vídeo são exploradas as ideias (são mitos, tão somente) que têm moldado o discurso público acerca do mercado. Em sentido mais alargado, pode considerar-se a extensão desses mitos à presente situação do sistema bancário nacional (mas também europeu e mundial). E compreender que as suas consequências (os problemas, entenda-se) estão já montados no seio da própria visão comum (colectivista) acerca do mercado.
Como podem os mal-entendidos manter-se por tanto tempo? Poderem moldar a opinião mais educada (e todas as outras) sem serem submetidos ao exame do simples bom senso?
Convido os leitores, no visionamento do vídeo, a terem presente o conceito de "cavalos furtivos".

Votos de uma tranquila e proveitosa noite de Verão.