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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Por cá? Futebolando.



Por cá, as "novelas desportivas" (e são várias!) ocupam a atenção. A manobra de condicionamento que envolve a selecção nacional de futebol também já começou.
Mas a realidade segue imparável.
A Argentina já pediu apoio (outra vez!) ao FMI. Será que a Turquia lhe segue o passo?

E que dizer dos tweets do sr. euro-ministro Centeno? Toda uma postura, um registo de linguagem... imperdível. Mas só para estômagos fortes.
Uma aldeia Potemkine, só pode. Quem virá a seguir?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Inexoráveis falências do planeamento central

Em 1920 (!), Ludwig von Mises publicou um célebre ensaio (invocado na imagem) em que demonstrava, por recurso a um rigoroso processo de dedução lógica, a impossibilidade de se proceder ao “cálculo económico” nos regimes socialistas, entendidos como aqueles em que os meios de produção são de propriedade estatal. A consequência era devastadora: a supressão do mecanismo de formação dos preços dos bens de produção conduziria, mais cedo ou mais tarde, à inexorável inviabilidade da economia socialista [1]. É aqui que reside a chave para o entendimento da implosão (súbita, só na aparência) do império soviético - a falência do planeamento central. E não, não foi por causa da “guerra das estrelas” de Reagan, narrativa que os neoconservadores se apressaram a fazer passar e que persistem em alimentar.

Não obstante a evidência da hecatombe (a China ainda foi a tempo de a evitar rumando a porto diferente), é indiscutível que permanece em grande parte da intelectualidade, economistas incluídos, um fascínio pelo planeamento centralizado, ainda que embrulhado em cambiantes de uma tal “economia social de mercado”, “humanista”, redistributiva, "justa", etc. Através da "adequada" regulação (um sinónimo brando para planeamento central), ela permitiria combinar os benefícios da economia de mercado - a formação dos preços enquanto sinalizadores de preferências e de escassez relativa – evitando os seus “excessos” e ”falhas”.

Uma destas variantes tem sido interpretada pelos sucessivos políticos populistas argentinos apostados em nunca mais permitir que o seu país volte a ocupar o lugar que já foi seu nas primeiras décadas do século XX - o da 10ª economia do mundo! Outra, é a do regime chavista na Venezuela (onde já se ilustra a justeza de uma frase célebre de Milton Friedman – “Se se conferisse ao governo federal a gestão do deserto do Sahara, em cinco anos ocorreria uma escassez de areia”). Axel Kicilfof, o actual ministro das Finanças da tresloucada Kirchner, pensa ser possível gerir a economia a partir de folhas de cálculo (ele é, afinal, o sr. “Excel”). Recorde-se, aliás, que já Salvador Allende tinha sonhado comandar a economia do Chile com supercomputadores a partir de uma sala de comando - o Panóptico - inspirada numa qualquer nave espacial - o “projecto CyberSyn”. Uma e outra vez, continuam a pretender reinventar o “socialismo planeamento científico” (planeamento central). Os resultados são os de sempre – catastróficos. O gráfico seguinte, elaborado aquando da desvalorização do peso argentino em Janeiro último, mais não faz que anunciar o próximo desastre de mais um período hiperinflacionário:


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[1] - Enquanto aquele Grande Sismo se preparava, a edição de Economics, “O” manual da autoria de Paul Samuelson – a “bíblia” da disciplina de Economia que durante 40 anos formou gerações e gerações de estudantes universitários -, ainda previa em 1989 (!!) que, em poucos anos, a dimensão da economia da União Soviética iria ultrapassar a dos Estados Unidos…

sábado, 26 de outubro de 2013

As economias não são destruídas num único dia

O texto abaixo é uma tradução minha do artigo de Nicolás Cachanosky, "Economies are Not Destroyed in a Day" (de onde roubei o título para o post), publicado ontem no Mises Institute. Originalmente escrito em língua espanhola e ainda que direccionado ao público argentino, porque nele se inspeccionam conceitos comummente invocados no linguajar comunicacional de hoje (entre outros, "crescimento económico", "recuperação económica", "capacidade de produção", etc.), creio que a sua leitura também permite lançar luz sobre a leitura da evolução verificada na realidade económica portuguesa. Em particular, indicando razões para o medíocre crescimento económico verificado na década passada apesar dos elevados níveis de investimento.
"No começo deste mês, o principal jornal conservador da Argentina, La Nación, publicou um editorial não assinado comparando a economia da Argentina à da Venezuela. A publicação concluiu que à medida que a liberdade económica na Argentina diminui, e que prossegue a adopção do que Chávez designou por "socialismo do século XXI", a Argentina está cada vez mais parecida com a Venezuela. Será isto verdade? Irá a Argentina sofrer o mesmo destino que a Venezuela, onde a pobreza está a aumentar e o papel higiénico pode ser considerado um luxo?

As semelhanças das regulamentações e problemas económicos que ambos os países enfrentam são realmente impressionantes, apesar das diferenças óbvias entre os dois países. No entanto, quando as pessoas são confrontadas com as semelhanças, é comum ouvir respostas como "mas a Argentina não é a Venezuela, temos mais infra-estruturas e recursos".

São as transformações institucionais, no entanto, que definem o destino a longo prazo de um país, não a sua prosperidade no curto prazo.

Imaginemos que Cuba e a Coreia do Norte se tornavam, de um dia para o outro, nos dois países que em todo o mundo mais defendiam o livre mercado e a intervenção estatal limitada. Os dois países alcançariam de imediato as liberdades civis e a liberdade económica, mas teriam ainda que acumular riqueza e desenvolver as suas economias. A mudança institucional afecta imediatamente a situação política, mas uma nova economia exige tempo para que possa ganhar forma. Por exemplo, quando a China abriu partes da sua economia aos mercados internacionais, o país começou a crescer, e estamos agora a assistir aos efeitos de décadas de relativa liberalização económica. É verdade que em muitas áreas na China continuam em falta liberdades significativas, mas hoje haveria uma China muito diferente caso [o governo chinês] se tivesse recusado a mudar as suas instituições há décadas atrás.

O mesmo ocorreria se um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo adoptasse as instituições cubanas ou norte-coreanas de um dia para o outro. A riqueza e o capital não se desvaneceriam em 24 horas. O país iria passar de um processo de acumulação de capital para um processo de consumo de capital e poderia levar anos ou até mesmo décadas a esgotar os cofres da riqueza anteriormente acumulada. No interim, o governo teria os recursos para jogar o jogo do socialismo populista bolivariano (i.e., venezuelano) e desfrutar da riqueza, das estradas, da infra-estrutura eléctrica e das redes de telecomunicações que foram o resultado das realidades institucionais do passado, mais orientadas à economia de mercado.

De acordo com o Índice de Liberdade Económica no Mundo do Instituto Fraser, a Argentina ocupava o 34º lugar no ano de 2000. Em 2011, no entanto, a Argentina caíra para 137º, ao lado de países como o Equador, o Mali, a China, o Nepal, o Gabão e Moçambique. Não há nenhuma dúvida de que a Argentina desfruta de  maior desenvolvimento e riqueza do que aqueles outros países. Mas poderemos continuar a ter a certeza de que essa será a situação daqui a 20 ou 30 anos? A presidente argentina é conhecida por ter afirmado que gostaria de tornar a Argentina num país parecido com a Alemanha, mas o caminho para se tornar numa Suíça ou numa Alemanha implica a adopção de instituições do tipo das suíças e das alemãs, que não é o que a Argentina está a fazer.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Por que é a crise do Chipre de 2003 pior que a da Argentina em 2001 e do Kreditanstalt (1931)

Martin Sibileau, em Why Cyprus 2013 is worse than the KreditAnstalt (1931) and Argentina 2001 crises, publicado em 24-03-2013, oferece-nos uma leitura histórica comparada entre o "evento" Chipre 2013 e dois outros clássicos homólogos - o da Argentina em 2001 e um outro, mais recuado no tempo - a bancarrota do banco austríaco Kreditanstalt -, que muitos historiadores identificam como extremamente relevante para a hecatombe que se abateria sobre o mundo poucos anos depois. Como pertenço ao grupo daqueles que subscreve, em termos vigorosos, estas asserções de Maria do Carmo Tavares - particularmente, a necessidade de o economista saber História (para que possa ligar os acontecimentos) -, achei interessante partilhar mais um texto não ortodoxo sobre o "evento" Chipre 2013.  A tradução, rápida, é da minha responsabilidade.
O Chipre de 2013, como qualquer outro acontecimento, pode ser analisado em termos políticos e económicos.

Análise política: duas dimensões

Politicamente, consigo distinguir duas dimensões. A primeira dimensão pertence à história geopolítica da região, a que se juntaram as recém-descobertas reservas de gás natural. A relevância histórica vem desde 1853, o ano em que se iniciou a Guerra da Crimeia. A Guerra da Crimeia ocorreu no adjacente mar Negro, mas o propósito político era o mesmo: evitar a expansão da Rússia para o Mediterrâneo. A relevância desse episódio residiu no rompimento do equilíbrio de poder estabelecido após as Guerras Napoleónicas, fixado no Congresso de Viena, em 1815. A partir daí, toda uma nova série de acontecimentos inesperados levaria a uma França mais fraca, a uma Prússia mais forte, a novas alianças e a uma solução final 60 anos depois: a I Guerra Mundial. É neste mesmo quadro que eu vejo o Chipre de 2013 como um acontecimento político muito relevante: caso a Rússia, eventualmente, proporcione um resgate a Chipre (à hora que escrevo, tal não parece provável) contra o penhor das reservas de gás natural ou de uma base naval, um novo equilíbrio de poder terá sido alcançado na região, em que Israel será o maior perdedor.

A segunda dimensão política refere-se a um observação que fiz, há exactamente um ano atrás, precisamente inspirada no evento Kreditanstalt [link] de 1931. Num artigo intitulado: "Acerca do ouro, de acções, da repressão financeira e do Kreditanstalt de 1931", escrevi:
"(O evento Kreditanstalt) foi accionado porque a França, uma credora do sector público, introduziu uma condição política à Áustria, em troca de um resgate ao Kreditanstalt. Hoje, como em 1931, na zona euro, o sector público é, cada vez mais, o credor do sector público. Em 1931, a Inglaterra e a França eram credoras da Áustria e exigiram condições que nenhum investidor privado teria exigido.

Os investidores privados vivem e morrem pelos lucros e prejuízos que obtiverem. Os políticos vivem e morrem pelos votos que consigam alcançar. Os investidores privados preocupam-se com a sustentabilidade e estrutura de capital daquele que pede emprestado, com a exigência de garantias e com o perfil de financiamento dos seus créditos. Os políticos preocupam-se com a sustentabilidade do seu poder. É um facto e temos de aprender a viver com ele.

Em 2012, a Grécia e cada vez mais outros países periféricos da União Europeia são devedores de outros estados, do FMI e do Banco Central Europeu. Os investidores privados foram devastados e não regressarão tão cedo. Tememos que, tal como em 1931, quando o próximo resgate ocorrer, quer novamente à Grécia quer a Portugal ou a Espanha, serão exigidas condições políticas que um investidor privado, no seu pleno juízo, jamais teria exigido.

Pense-se nisto ... Que diabo tinha a união aduaneira entre a Áustria e a Alemanha, em 1931, a ver com o rácio de capitalização do Kreditanstalt??? Nada! E no entanto, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro foram condenadas à miséria em apenas uma questão de dias enquanto as suas poupanças se evaporavam! Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das moedas fiat [fiduciárias]! Você foi avisado! Se o leitor, uns meses a partir de agora, ler nos jornais que Conselho da União Europeia irresponsavelmente vier a exigir  coisas estranhas a um país periférico necessitado de um resgate, lembre-se do Kreditanstalt. Lembre-se de 1931 ...

Por favor, compreenda que este não é um risco extremo [tail risk]. O risco extremo é precisamente o oposto [ou seja, é muito significativo]. O real risco extremo aqui [ou seja, o altamente improvável] é que, quando o próximo resgate ocorrer, os políticos pensem como investidores privados pensariam e dêem prioridade à economia e não a considerações políticas. Esse é o risco extremo! Se uma tal crise vier a ocorrer, os media irão falar de correlações crescentes e dir-lhe-ão que tudo está realmente bem neste lado do Atlântico. Mas se nos ler a nós, irá saber que tudo o que levou a tal situação era perfeitamente previsível e nada está realmente bem, também deste lado do Atlântico. Ter-se-á lembrado de 1931..."

Chegado aqui, eu acho que tudo está dito e não tenho mais nada a acrescentar. As minhas preocupações de há um ano estão-se mostrando demasiado correctas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Porquê o ouro? Um exemplo prático

Sempre que ocorre uma subida generalizada (e continuada) dos preços num dado país, um dos grupos que muito beneficia dessa situação é o dos grandes devedores (em prejuízo de todos os outros, nomeadamente os aforradores). O Estado está, naturalmente, nesse grupo. Não admira pois que recorra, uma e outra vez, ao truque de promover doses "adequadas" de inflação para "resolver" os problemas da sua tesouraria (chamar-lhe-ão "liquidez") recorrendo à impressora do banco central de que detém o monopólio legal. Esta é também a história da Argentina, mais coisa menos coisa, desde há cerca de 80 anos com um inimigo exterior sempre presente para servir de espantalho para os néscios.

Se nós viermos a sair do euro não acredito que consigamos sucumbir à mesma tentação.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Descobrir as diferenças

António José Seguro, em entrevista ao Diário Económico, em 03-07-2012:
"A banca tem feito um grande esforço no sentido de cumprir os objectivos que estão fixados. Mas uma parte do cumprimento desses objectivos, nomeadamente no rácio entre depósitos e dinheiro na economia tem sido à custa de retirar dinheiro à economia. (...) [D]everiam ser identificados sectores e empresas onde, de uma forma muito criteriosa, se deveria ter emprestado e não deveria ter faltado crédito. Conheço empresas que tinham encomendas para exportar e que sentiram enormes dificuldades em aceder ao crédito. Ora, isto é um crime."
Argentina, 05-07-2012, via Reuters: banco central dá 6 meses aos bancos para concederem crédito às empresas. As taxas de juro a praticar devem estar abaixo da inflação e os empréstimos, no ontante equivalente a 5% dos depósitos bancários, têm de ser concedidos até 31 de Dezembro.
Argentine banks must offer to lend companies 15 billion pesos ($3.3 billion) by the end of the year at rates well below private inflation estimates, a central bank statement said on Thursday.

The statement came after President Cristina Fernandez announced on Wednesday that banks would have to lend cheaply to businesses to help bolster a flagging economy.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Fiat money explained


Após o visionamento do vídeo poderá ficar mais clara a razão que motivou a presidente argentina a substituir, no passado mês de Fevereiro, o governador do banco central e, em simultâneo, a alterar o seu mandato. Onde anteriormente apenas figurava a missão de perseguir a estabilidade dos preços, passou agora também a constar a promoção do crescimento económico com justiça social e, qual cereja no bolo, estabilidade financeira. Para começar, Cristina Kirchner, vai "pedir emprestado" o "excesso" de reservas em divisas detidas pelo banco central. A hiperinflação aí vem, uma vez mais. Pobres argentinos!