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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Uma vasta conspiração bem real, desta vez não precedida de nenhuma "teoria"

Tenho, com frequência e não menos veemência, procurado fazer eco da atenção que se exige a todo o amante da liberdade para o progressivo caminhar em direcção a Estados de Vigilância cuja sofisticação e, sobretudo, abrangência indiscriminada fariam uma qualquer STASI ficar roxa de inveja. Tal como já tinha sucedido com o caso Manning, também Edward Snowden mereceu entre nós muito mais acinte que aplauso e, lamento dizê-lo, não apenas nos media do mainstream, o que já se esperaria, mas também na generalidade da blogosfera e, claro está, da esmagadora maioria da intelligentsia doméstica. Parece-me evidente existir uma relação entre a extrema leniência com que a cobertura destes casos foi tratada e tem sido tratada com o facto de o actual ocupante da Casa Branca ser quem é.

Ao nível dos estados europeus a hipocrisia com que têm tratado as revelações de Snowden é imensurável. Depois dos "arroubos" iniciais quanto ao carácter "intolerável" da espionagem levada a cabo pela NSA a residentes - e politicos! - desses países, eis que rapidamente se percebeu que realmente de meros arrufos se tratavam passadas umas semanas. Pois se até se ficou a saber que a NSA espiava por conta de serviços secretos europeus! Como de costume em matérias de "indignação", a França, pela voz do locatário do Eliseu, foi das primeiras e mais contundentes na retórica. Viu-se, agora mesmo, o que ela valia. Uma vergonha. (Ver, a propósito, o contundente e certeiro post de Gabriel Silva).

Perceba-se, de uma vez, que este não é um assunto próprio dos que se interessam pelo exotismo americano. Diz-nos respeito a todos, ou pelo menos àqueles que se opõem à servidão. Que este texto do juiz Andrew Napolitano possa contribuir para melhor esclarecer o que está em causa. Foi com esse intuito que o procurei traduzir.
«Os leitores desta página estão bem cientes das revelações que se foram sucedendo nos últimos seis meses sobre a espionagem levada a cabo pela Agência de Segurança Nacional (NSA). Edward Snowden, um ex-empregado de um fornecedor da NSA, arriscou a vida e a liberdade para nos informar da existência de uma conspiração governamental para violar o nosso direito à privacidade, um direito garantido pela Quarta Emenda.

Andrew P. Napolitano
A conspiração que ele revelou é vasta. Envolve o antigo presidente George W. Bush, o presidente Obama, membros dos seus gabinetes, cerca de uma dúzia de membros do Congresso, juízes federais, gestores e técnicos de empresas americanas de computadores servidores e de telecomunicações, e milhares de empregados da NSA e dos seus fornecedores que manipularam os seus companheiros de conspiração. Todos os conspiradores concordaram entre si que qualquer deles cometeria um crime caso revelasse a conspiração. O sr. Snowden violou esse acordo de modo a respeitar o seu juramento de ordem superior de defender a Constituição.

O objectivo da conspiração é o de emascular todos os americanos e muitos estrangeiros quanto ao seu direito à privacidade a fim de prever o nosso comportamento e tornar mais fácil encontrar aqueles que entre nós estão a planear provocar o mal.

Uma conspiração é um acordo entre duas ou mais pessoas para cometer um crime. Os crimes consistem na captura de mensagens de correio electrónico, SMS e telefonemas de todos os americanos, no seguimento dos movimentos de milhões de americanos e de muitos estrangeiros através do sistema GPS nos seus telemóveis, na apreensão dos registos bancários e das facturas dos serviços das utilities [electricidade, gás, água, etc.] da maioria dos americanos em violação directa da Constituição, e em pretender estar a agir no quadro da lei. O pretexto é que o Congresso de algum modo terá reduzido o padrão para definir espionagem que está estabelecido na Constituição. É, obviamente, inconcebível que o Congresso possa mudar a Constituição (só os estados o podem fazer), mas os conspiradores queriam fazer-nos acreditar que isso tivesse sucedido.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

França: a desenfreada marcha para o abismo

Em texto de ontem, Simon Black acha difícil acreditar no que o governo francês se propõe tributar (é bem possível que não esteja completamente a par do que se vai passando aqui pelo Rectângulo e Adjacentes...). Mas como ainda ontem me referia a outra monstruosidade (para)fiscal, no caso em Espanha, o que abaixo se descreve (numa tradução livre,da minha responsabilidade) é mais outra indicação da propensão pelo abismo que se apossou de boa parte dos governos do Ocidente: apesar da "austeridade", a despesa pública continua descontrolada e por conseguinte, não obstante o contínuo aumento de impostos, vem continuando a acumular uma já monumental dívida pública. Os seus governantes, ao mesmo tempo que fazem alarde de uma retórica mais ou menos tonitruante de "promoção do crescimento" e vão acenando com sucessivas "estratégias", "desígnios" e "planos", teimam em associar a uma fiscalidade de confisco uma regulamentação, em intensidade e extensão, cada vez mais asfixiante. O espaço de liberdade económica, cada vez mais exíguo, vem cobrando o seu preço - a estagnação económica.

Decididamente, isto não vai acabar bem.
22 de Outubro de 2013
Sovereign Valley Farm, Chile

No workshop que promovemos no Chile há alguns meses atrás, o membro do parlamento europeu, Nigel Farage, criticou o presidente francês, François Hollande, enquanto líder do bloco "do moderno Panteão dos idiotas que estão a administrar países pelo mundo fora..."

As mordazes observações de Nigel podem ser apreciadas a partir dos 35s do seguinte clip:


É certo que o presidente francês tinha introduzido recentemente um "imposto de ódio" sobre as pessoas com maior sucesso profissional, expulsando algumas das pessoas produtivas que [ainda] permanecem em França.

Este imposto de ódio era apenas a ponta do icebergue.

Senão, atente-se no que fizeram ou anunciaram apenas no último mês:
  1. Dobraram a sobretaxa sobre as empresas
  2. Não é suficiente que a França tenha uma das maiores taxas de imposto sobre as sociedades [equivalente ao nosso IRC] do mundo desenvolvido. Incidindo sobre esta, existe também uma sobretaxa, ou seja, um imposto sobre o imposto [algo de semelhante à nossa "derrama" estatal].
    E no início deste mês anunciaram planos para a DUPLICAR.
  3. Aumento das obrigações de reporte ao fisco
  4. Qualquer pessoa que alguma vez tenha criado uma empresa sabe que a nova empresa é como um bebé recém-nascido. É crítico que o foco se dirija ao seu crescimento, não ao preenchimento de um monte de papelada.
    O governo francês não quer saber disso para nada. De facto, recentemente, baixou o limiar para as obrigações de reporte, exigindo às empresas com vendas superiores a apenas 80 mil euros o envio  às autoridades fiscais de morosos e onerosos relatórios relativos ao IVA.
  5. Aumento das contribuições para a segurança social
  6. A França tem um dos mais falidos... e insustentavelmente generosos... sistema de pensões em todo o mundo.
    Mas ao invés de reformar completamente o sistema e esperar que as pessoas... de facto trabalhem após os 55 anos de idade, o governo decidiu elevar as contribuições para a segurança social. Mais uma vez.
  7. Imposto sobre bebidas energéticas
  8. Para não ficar atrás do imposto de Michael Bloomberg sobre as bebidas doces, em Nova Iorque, a Assembleia Nacional francesa propôs recentemente tributar as bebidas energéticas... em UM EURO (1,37 dólares) por lata.
  9. Impostos mais altos sobre a propriedade imobiliária
  10. No mês passado, o governo francês anunciou planos para rever os valores de avaliação dos imóveis em todo o país, o que serve de base a vários impostos sobre os prédios.
  11. Imposto sobre dados (o meu favorito)
  12. Esta é quase inimaginável.
    Naquilo que é uma das propostas de imposto mais absurdas na história, o governo francês defende agora a ideia de que se devem tributar as transferências de dados para fora da União Europeia. Na realidade, planeiam fazer esta proposta na Cimeira Europeia desta semana.
    Estranhamente, porém, não parecem sequer entender o que isso significa. Eles estão simplesmente desesperados para lançar impostos sobre alguma coisa... qualquer coisa. Como se fossem agora meros macacos a lançar dardos contra a parede [link inserido].
E estão a preparar-se para mais.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Hollande, candidato ao confessionário?


Nathalie, desempregada de longa duração, foi recebida, durante meia hora, pelo presidente francês, no Eliseu. O Público, emocionado, curva-se perante o gesto de Sua Resplandecência. Após a audiência, Nathalie sentiu-se "ouvida, entendida, compreendida". "E isso é importante."

Je suis vraiment ému!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Hollande, le Ridicule

Esta notícia - França quer intervir na Síria mas só se for acompanhada - é reveladora do estado do estado francês e, em particular, do seu actual presidente. Manietado pelo secular intervencionismo, os dirigentes do estado francês buscam desesperadamente oportunidades de se colocar em bicos de pés para recordar que a França não desapareceu e que continua a perseguir a sua grandeur. (Escrevi umas linhas sobre isto aqui, há um par de meses, a propósito de declínio económico do país afogado num estatismo crescente.)

Entretanto, mão amiga fez-me chegar à mão a crónica de Vasco Pulido Valente (VPV) no Público, intitulada "O ridículo mata", publicada no passado dia 24 de Agosto que, já exangue após meros 15 meses de mandato com níveis de impopularidade recorde, não encontra melhor antídoto para lidar com a gravíssima crise económica interna que intentar mais uma aventura numa ex-colónia (no caso chamaram-lhe "mandato", mas como VPV assinala, era um mero eufemismo). Transcrevo-o agora (à falta de um digitalizador) pela sua oportunidade. Uma chapelada de cartola!
«Disse ontem [Sexta-feira, 24 de Agosto] que o Ocidente se tinha mostrado cauteloso e, até certo ponto, desinteressado da guerra civil na Síria. Não me lembrei da França, que se julga desde o princípio do século XIX a entidade redentora da humanidade. Não só, segundo a ortodoxia, ensinou a liberdade aos povos, como a grande revolução de 1789-1794 (que, por acaso suprimiu qualquer vestígio de liberdade), mas serviu de modelo a Lenine e aos bolcheviques no glorioso golpe de Estado de 1917. Esta fé continua a ser essencial à cultura política do Estado e da "inteligência". Infelizmente, depois de 1815 e da derrota definitiva de Napoleão, a França nunca foi mais do que uma potência de terceira ordem; e desde o fim da II Grande Guerra perdeu mesmo a "supremacia" cultural, que sempre lhe dava algum consolo e importância.

Hoje quase desapareceu. Apesar de uma literatura incomparável, pouca gente lê a sua língua. Pátria da "haute" e da "baixa" cuisine, é agora, a seguir à América, a maior consumidora per capita da fast food do McDonalds. E o resto nem merece discussão. O que aparentemente deixa a França sem meios para afirmar a sua "grandeza". Neste compreensível desespero, o socialista François Hollande, a quem falta a pose e a oratória do general de Gaulle (e também o talento político), resolveu ressuscitar o velho belicismo do país: uma escolha tradicional, mas sem dúvida um pouco estranha, porque a França não ganha uma guerra de 1918 para cá. De qualquer maneira, o terrível Hollande, no meio de uma economia em estagnação, já se meteu na insurreição contra Kadhafi e nos conflitos do Mali. Com certeza que lhe soube bem esta espécie de "glória".

E a Síria não lhe podia ficar indiferente. Primeiro, porque foi um mandato francês (de facto, uma colónia com outro nome). Segundo, porque as barbaridades de Assad manifestamente chamavam "a grande redentora da humanidade". Enquanto as verdadeiras potências (a América, a Rússia, a China e a Inglaterra) tentavam não se imiscuir numa guerra que não compreendiam e que envolve uma apreciável parte do Médio Oriente muçulmano (o Irão, o Iraque, o Qatar e a Arábia Saudita) - Hollande proclamou o dever de punir Assad e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, pregava na televisão a necessidade de usar a "força". Como os franceses dizem, o ridículo mata.»

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Os extraordinários e inestimáveis benefícios da regulação

Em contraponto aos Tenebrosos malefícios da concorrência e da desregulação, desaparecida (para sempre?) que foi "la grandeur", é tempo de Hollande accionar o "excepcionalismo cultural". Para isso, não encontra nada melhor que fixar descontos máximos para os livros, justificando o injustificável, alegando o que no plano histórico se verificou ser comprovadamente falso desde o início das teorias intervencionistas estatais - de que o "excesso" de concorrência é uma prática predatória tendente a afastar os outros competidores do mercado, momento a partir do qual os preços, agora de monopólio, voltariam a subir para patamares superiores aos iniciais. Há pois que impedir que semelhante malfeitoria se concretize. Os únicos monopólios que existiram com carácter duradouro foram os constituídos, legalmente, pelo próprio estado. É certo que haverá grupos beneficiados com isto: os livreiros tradicionais, Mas não é menos certo que totalmente à custa de todos os consumidores de livros.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

França: num beco sem saída?

Num célebre discurso pronunciado em Londres durante o exílio, a 1 de Março de 1941, Charles De Gaulle, aquele que viria a ser presidente da França durante 10 anos, depois de ter liderado o processo que conduziria à formação da V República, diria: "Il y a un pacte vingt fois séculaire entre la grandeur de la France et la liberté du monde." Esta auto-atribuída missão, assumida pelos sucessivos dirigentes máximos franceses, de "distribuir" a liberdade pelo mundo ao mesmo tempo que perseguiam "la grandeur", remonta a Napoleão e, portanto, à revolução de 1789. Sucede que, desde Waterloo, "la grandeur" se vem progressivamente reduzindo a uma recordação do passado ainda que, de quando em vez disfarçada pela inauguração de um "Beaubourg", de uma pirâmide, de um museu ou de um novo "Arco" na capital do Hexágono. A já secular hipertrofia estatista francesa exacerbou-se durante os 14 anos de François Miterrand e os incapazes Chirac e Sarkozy que lhe sucederam pouco mais fizeram que gerir o legado. Deste modo, a herança que François Hollande recebeu era bem pesada, mas o ano que passou em nada a aliviou. Pelo contrário. 

Foto retirada daqui

David Howden and Jacques Briam, em France’s Cul-De-Sac, percorrem as medidas económicas tomadas por Hollande no primeiro ano do seu mandato e explicam por que razão elas não apenas não são adequadas como, pelo contrário, agravam a já difícil situação do paciente. Em particular, notam a ironia de o país mais entusiasta da criação do euro ser agora "vítima" da moeda única, ao não querer ajustar-se às restrições que decorreriam do passo tomado. Terminam o artigo enunciando as linhas de política necessárias ao retorno do crescimento económico saudável. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Há aproximadamente um ano atrás, em plena crise económica, François Hollande comemorou a sua vitória sobre Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas. Hollande tornou-se no líder de um país sob forte turbulência económica. Durante o ano que passou, ele teve rédea relativamente livre para levar a cabo a sua agenda económica, uma vez que o Partido Socialista que lidera tem a maioria no parlamento francês.

A França tem uma história de despesa estatal grandiosa, mesmo se avaliada pelos padrões europeus. A despesa pública ascende a 57% do produto nacional enquanto a dívida pública representa mais de 90% do PIB. Embora a austeridade tenha sido a palavra da ordem na Europa desde 2009, daí resultando um modesto declínio da despesa pública em percentagem do PIB, a França não faz parte dessa tendência.

O sector público representa hoje quase dois terços toda a actividade económica directa (e até mais, se se incluir a actividade indirecta). Esta grande e crescente dependência do estado é desastrosa porque é financiada por impostos cada vez mais elevados. Estes altos impostos drenam o sector privado (e em simultâneo conferem ao sector público uma aura de impotência) e a despesa sob défice [financiada através de empréstimos] obriga as futuras gerações de cidadãos franceses a pagar a generosidade do governo de hoje.

Profundamente embrenhada na psique francesa está a ideia de que cortes no gigantesco sector público causariam sérios danos a todos. Esta incapacidade de imaginar uma economia francesa onde o sector privado preenchesse o espaço deixado livre por uma menor prestação de serviços públicos, reforçou a relutância dos políticos e, em particular, de François Hollande, para recorrer a medidas de austeridade para ultrapassar a crise. Em vez disso, a solução actual consiste em aumentar a despesa do estado e em criar mais postos de trabalho no sector público. Dessa forma, a administração de Hollande prometeu aumentar o salário mínimo para todos os trabalhadores, públicos e privados, e criar 60 mil novos empregos para professores.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O logro do estímulo ao consumo

Segundo relata o Jornal de Negócios, François Hollande, fazendo juz ao cognome justamente conquistado, aceita, notem bem, aceita, levar a cabo no seu país as reformas que a Alemanha lhe sugere se, notem bem, se em contrapartida (!), a sra. Merkel fizer subir os salários alemães, para "apoiar a procura interna" para assim, nisto depositando a sua fé, conseguir reactivar a economia francesa "poupando" os franceses dos excessos de austeridade do rigor.

Para os crédulos de que acreditam que Robinson Crusoe e Sexta-Feira, para conseguirem prosperar na sua ilha deserta, desataram a consumir o que a natureza lhes pôs à disposição (afinal de contas, parafraseando Keynes, a longo prazo estarão ambos mortos...), talvez este pequeno vídeo possa ajudar a explicar que a prosperidade - isto é, o crescimento económico - só pode assentar na precedência da produção sobre o consumo e não no inverso (para uma explicação mais elaborada e completa, ver aqui).

segunda-feira, 6 de maio de 2013

François Hollande: o aniversário do vazio da retórica crescimentista

Há cerca de um ano atrás, o Expresso achava por bem noticiar o que suporia vir a constituir um dos primeiros marcos na nova era que François Hollande, o Crescimentista, vinha inaugurar: Hollande já escolheu o carro presidencial. É um híbrido a diesel ("uma opção verde e modesta")!

Um ano volvido, o mesmo Expresso noticia hoje: Hollande sem razões para festejar. Daniel Ribeiro, o correspondente em Paris, a propósito da austeridade do rigor que se instalou no palácio do Eliseu novamente a marcar a diferença, escreve a certa altura (realce meu): "Para tentar cativar a perda de confiança do seu eleitorado (...) todos os símbolos servem. Até a venda de vinhos de luxo da cave do Eliseu. No fim do mês vão ser leiloadas em Paris 1200 garrafas, entre as quais estão diversas "Petrus 1990", avaliadas em 2200 euros cada uma. A ideia é comprar vinhos mais baratos para o Palácio e incluir o excedente no orçamento." A fé depositada nas acções simbólicas -e "modestas"! -, inteiramente partilhada pelo jornalista, é realmente extraordinária!

Num registo um pouco mais sério, o i interroga-se: A crise do socialismo é mais grave do que parecia? Enumerando o rol de insucessos de Hollande, a articulista acha por bem contrapor a importância  do cumprimento da promessa eleitoral de fazer aprovar a lei do casamento homossexual sublinhando que o presidente francês foi ainda "mais além" consagrando agora a lei a possibilidade de adopção de crianças por parte de duas pessoas do mesmo sexo. Neste tema, confesso não conseguir discernir onde estará o impulso na actividade económica mas não me custa conceder que "haja mais vida para além do crescimento económico".

Em ambiente de verdadeira implosão económica Hollande está hoje acossado por todos os lados, inclusivamente dentro do seu próprio partido. Tal como aconteceu com a "Hope" de Obama também rapidamente se esfumou o mote "Le-changement-c'est-maintenant".

Conclusão: o pensamento mágico está longe de ser um exclusivo lusitano.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

França: a implosão económica

"O maior problema neste momento na zona euro já não é a Grécia, a Espanha ou a Itália, mas sim a França, porque não tem levado a cabo nada para reestabelecer verdadeiramente a sua competitividade, estando mesmo a dirigir-se em direcção oposta". Foram estas as palavras proferidas por um dos wise men, Lars Feld,que aconselham o governo alemão em matéria económica, em 9 de Novembro último (segundo a Reuters). 

Peugeot Citroën anuncia prejuízo histórico de 5000 milhões de euros

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A diferença de Hollande

Via Blasfémias, França sobe IVA para descer TSU às empresas.

Dizem que é uma espécie de diferença. De uma espécie igualmente diferente. De uma espécie que, ainda que igual, é abissalmente diferente. Pois.

sábado, 3 de novembro de 2012

Vai de vento em poupa

o crescimentismo de Hollande: France's Fiasco In One Fine Chart, no Zero Hedge (ver também no Telegraph). Perante tão vincado sucesso, inexplicavelmente, há outras variantes que começam a ser consideradas que apontam para a consideração - calcule-se! - da necessidade de reforçar a competitividade das empresas francesas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

... e cada vez percebo menos

Expresso: François Hollande enfrenta revolta na maioria
"Para conseguir a ratificação, o Governo necessita do apoio da direita sarkozysta. Este sector político ironiza com a situação: "Claro que vamos votar a favor do tratado porque ele é exa[c]tamente o mesmo que o ex-Presidente, Nicolas Sarkozy, elaborou e assinou", explicou o ex-primeiro-ministro, François Fillon."
na sequência disto, cada vez percebo menos. E pelos vistos o próprio Seguro também não.

domingo, 30 de setembro de 2012

Já não percebo nada

Então o crescimento não estava já ali, ao virar da esquina? Não bastava a firme enunciação da vontade? De baixar uns cêntimos em cada litro de gasolina? De agravar os impostos sobre os ricos e sobre as empresas? De possibilitar a reforma aos 61 anos? De anunciar a contratação de 60 mil novos professores? De combater o desemprego agravando os custos com os despedimentos? De que se queixarão, afinal?

Foto AP, via Telegraph
Dei uma olhadela pelos jornais online portugueses. A ideia com que se fica é que esta manifestação, ao contrário das de ontem em Lisboa e Madrid, nunca aconteceu.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

França: continua o combate pelo desemprego

Há uma dúzia de anos atrás, por terras gaulesas, o governo socialista da altura (de Lionel Jospin) defendia que a redução do horário semanal de trabalho para as 35 horas seria uma excelente medida legislativa para  combater os altos níveis de desemprego que então persistiam (e que ainda hoje permanecem). A "lógica" do raciocínio parecia irrefutável: baixando-se o horário semanal de trabalho, mais trabalhadores seriam necessários contratar para que a mesma "produção" pudesse ocorrer!

Este tipo de raciocínio(?), muito comum entre os partidos socialistas latinos, volta agora a presidir à mais recente iniciativa do extraordinário François Hollande em mais um exercício de tapar o sol com uma peneira: França vai encarecer despedimentos para combater o desemprego de 10%.

Ora vejamos: como será possível acreditar que acções que de imediato aumentam o custo do factor trabalho, podem vir a ajudar a combater o desemprego? Eis algo que, humildemente confesso, vai para além da minha, admito que limitada, capacidade racional.

Não! Como devia ser evidente para qualquer pessoa que não se recuse a pensar, se o preço de um bem sobe (no caso, o do factor trabalho) o resultado, inevitável em 99.99% dos casos, será que a procura desse bem diminua (ou seja, as empresas estarão interessadas em ter menos trabalhadores do que sucedia quando o custo do trabalho era menor). Prosseguir nesta insanidade é contribuir para o crescente declínio relativo da França, nomeadamente face à Alemanha.

Mas, não. Hollande, ao mesmo tempo que enche a boca de discursos inflamados em prol do "crescimento" e do "emprego", não cessa de prosseguir exactamente o contrário do que afirma transformando-se, isso, sim, num acérrimo defensor do combate pelo desemprego. E vai ser bem sucedido. Que diabo! Não conviria que as acções fossem congruentes com os fins pretendidos?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O vazio extremo (2)

François Hollande, que começou por prometer congelar os preços dos combustíveis (por três meses), viu-se obrigado a adiar a oportunidade de uma tão estrutural medida, quando os preços começaram a cair nos mercados internacionais. Apontei, em devida a altura, o seu azar. Evidenciando um apurado jogo de cintura, logo então aproveitou a oportunidade para falar da introdução de um imposto uma taxa sobre a gasolina para proteger as famílias de aumentos conjunturais!!

Eis senão quando os preços do crude retomam a trajectória ascendente (ver widget na coluna à direita, no final da página), assim se materializando a oportunidade para retomar a opção inicial de "congelamento", que tinha aliás sido prometida em campanha eleitoral. Mas não. O governo francês convenceu as petrolíferas a baixar, durante três meses, as suas margens em três cêntimos; e, num passo de magia distributiva trapaceira, decidiu subsidiar os consumidores de combustíveis com os impostos dos contribuintes, em outros três cêntimos. A coisa vai custar 300 milhões de euros que irão, direitinhos, acrescer ao défice do orçamento. Para quê? Para absolutamente nada (como Guterres terá acabado finalmente por perceber quando fez, ou deixou que se fizesse, uma patetice semelhante).

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Oh!

Suspiram os adeptos lusos do crescimentismo perante a realidade, cumpridos que são 100 dias da presidência de Hollande. Nem o admirável Público consegue esconder uma (contida) frustação:
"Os primeiros 100 dias de Hollande mostram um mandato marcado pela deterioração da economia francesa, ameaçada de recessão [crescimento zero no 2º trimestre do ano face ao trimestre anterior, 0,3% em termos homólogos]. Hollande cortou os salários do seu Governo, propôs um novo imposto sobre os altos rendimentos, mas hoje, por força da situação complicada na indústria e no emprego, é um Presidente prudente, cuja acção, segundo uma sondagem do Figaro, não agrada a 54% dos franceses."
Absolutamente extraordinário! O paraíso crescimentista, que estava ali mesmo ao virar da esquina, revela-se afinal mais difícil de atingir porque (de repente, só pode) se veio a verificar uma "situação complicada" na indústria e no emprego. Veremos se a  França, daqui a algum tempo (6/9 meses?), não está a fazer declarações do género "A França não é a Espanha, nem a Itália". Mas, para os mais optimistas que continuam a crer que para que a mesma receita funcione (a que prescreve a injecção de "estímulos" na economia) apenas basta aumentar a dose dos ingredientes e manter a retórica "anti-austeridade excessiva", o Público deixa-lhes uma mensagem de esperanças: "Mas 100 dias não definem um mandato". Haja  Deus!