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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Vacas voadoras e deleitosas prisões

Humildade e bom senso

No meio da tempestade de activismos políticos, monetários e financeiros, são cada vez mais refrescantes as escassas hipóteses de pensar a realidade com consciência dos limites humanos, com conhecimento histórico e técnico. O bom senso parece ter desaparecido definitivamente da paisagem e do discurso - social e político. Partilhamos, por isso, uma palestra muito informal de James Grant. A frontalidade e a humildade de Grant parecem de outro tempo.

São tempos de vacas voadoras, de uma presidência sufocante, do excepcionalismo na consideração dos problemas (veja-se CGD), de piadas de mau gosto (as empresas gozarem de uma conta-corrente com o estado é considerado um avanço civilizacional e fruto de uma mente brilhante socialista). São tempos em que acumulamos ataques à liberdade de propriedade e pensamento (quando o estado exige que um hotel não discrimine os clientes que quer servir).
Há quem acredite na bondade desta tolerância forçada? Neste paternalismo sem vergonha?

Nas esferas mais elevadas do poder (na Europa e nos EUA), as discussões para concertar activismos devem estar ao rubro, pois nada está a funcionar como há muito pretendem os curadores. São vários os títulos de dívida a taxas de juro negativas (8 a 10 triliões, consoante as fontes) e as dúvidas crescem quanto à saúde da economia mundial, mas os curadores ainda exercem o seu papel inchados de credibilidade auto-atribuída.

Que contexto para a conversa com Grant!

Resta-nos o humor e o bom senso.
Rindo e pensando.






segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Crescente instabilidade no Sistema

Em tempo de guerra

O desenvolvimento das experiências monetárias prossegue a todo o vapor, pelo que deve esperar-se uma acelerar de resultados - inesperados e contagiantes - como consequência da vontade dos "demiurgos" em tudo controlar.
Na entrevista que hoje se publica, Jim Rickards reitera a tese defendida nos seus dois últimos livros ("Currency Wars" e "The Death of Money") e, se não se acompanha totalmente as soluções que parecem resultar da sua posição, não se pode deixar de reconhecer a precisão com que o autor descreveu os desenvolvimentos do nosso presente económico e político global.
Alguns dos conceitos determinantes para a compreensão desta sua perspectiva são: confiança, poder, sistemas complexos, incerteza, intensidade e extensão dos fenómenos e forças económicas e políticas.
A crueza do nosso presente global apresentada num tom de delicadeza cavalheiresca. Rickards é, não esqueçamos, aquilo a que se pode chamar um "insider", alguém que conhece e participa nos círculos menos visíveis do poder norte-americano.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Radar

O que por aí se vai dizendo para explicar o que se passou na China nos últimos tempos está errado. Essa é a tese do artigo que aqui fazemos referência.
E se aceitarmos que a responsabilidade da volatilidade transversal que grassa pelos mercados globais (índices, paridades monetárias, obrigações et al) é, simplesmente, da China, então somos ingénuos. Veja-se a informação abaixo.
Importa respirar e compreender.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Citação do dia (190)

Hoje em dia, o sistema financeiro global é um complexo sistema de redes electrónicas motivadas pela fé. À medida que progridem as bolhas globais, um grande conjunto de dogmas financeiros será exposto por aquilo que é: uma ilusão. E muitos desses dogmas foram usados como simples truques.
A finança global não passa, na sua maior parte, de um labirinto de ´promessas de pagamento`. E o valor dessas promessas depende da confiança e da fé. (...)
A crise nessa confiança acelerou nesta última semana.
Os últimos sete anos mostram-nos uma expansão da dívida nos mercados emergentes, liderada por aquela que deveria ser muito assustadora bolha no crédito na China.(...)
Esta semana vimos indicações do que tem potencial para despoletar essa crise de confiança no sistema bancário na Ásia e nos restantes mercados emergentes. A fé de que as autoridades chinesas (ou as autoridades desses mesmos mercados emergentes) têm a situação sob controlo está, seriamente, posta em causa. (...)
De acordo com a SNL Financial, os bancos chineses ocupam agora quatro dos cinco lugares de topo na lista dos maiores bancos mundiais. Analisando os balanços no final de 2014, os quatro grandes bancos chineses – Banco de Comércio e Indústria da China, Banco de Construção da China, Banco de Agricultura da China e Banco da China – terminaram 2014 com activos na ordem dos 87,59 triliões de yuan ou 13,7 triliões de dólares. Os activos totais destes bancos cresceu 64% em quatro anos. (...)
Na semana que passou ficou visível o desenvolvimento nas grandes rachas do sistema financeiro global. Fiz as contas às descidas dos títulos bolsistas dos dez maiores bancos mundiais: 1) Banco de Comércio e Indústria da China perdeu 6,1%; 2) Banco de Construção da China perdeu 6,9%; 3) Banco de Agricultura da China perdeu 4,9%; 4) HSBC perdeu 6,6%; 5) Banco da China perdeu 6,1%; 6) JP Morgan Chase perdeu 6,2%; 7) BNP Paribas perdeu 4,4%; 8) Mitsubishi UFJ Financial Group perdeu 7,5%; 9) Banco da América perdeu 9,0% e 10) Barclays perdeu 6,4%.(...)
A visão do abrandamento global foi confirmada esta semana.
É sempre pior do que tu pensas.

Doug Noland, "É sempre pior do que tu pensas", 22 de Agosto de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Citação do dia (183)

“Para ser honesto, não estou seguro que [o programa de facilitamento monetário - QE - do BCE] faça alguma coisa - de bom, entenda-se. O problema fundamental, tal como eu o vejo, é que o sistema bancário europeu está falido. Como é sabido, a economia europeia é fortemente dependente das pequenas e médias empresas e estas estão dependentes do financiamento bancário. Infelizmente, estas empresas não estão a receber o financiamento de que precisam. Enquanto isso for assim, continuaremos a ter graves problemas na Europa. (...)
Num sentido mais abrangente, o programa de QE não era necessário e duvido que resulte a tentar estimular a procura agregada, como é o seu intento. (...) E isso, julgo, será muito desagradável, pois arrasta os bancos centrais para o fundo de onde emana a doença da excessiva extensão dos bancos centrais. (...)
É a loucura por todo o lado. É mais do mesmo que nos levou aos problemas numa primeira instância.”
William White, entrevista a 25 de Março de 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Da Repressão Financeira

"O que se está a tentar, deixa-nos mais longe dos objectivos defendidos publicamente", Lacy Hunt

No final de uma semana temperada por dramas gregos, importa dar continuidade à análise dos problemas tal como eles são. E não como eles nos parecem ser, quando acompanhamos de perto as dinâmicas da narrativa oficial.
Perante a magnitude dos erros acumulados, julgo que a Europa terá ganho - apenas - algum tempo. O desfecho “desta crise grega” não terá resolvido nada de substancial e estes desenvolvimentos são, essencialmente, expressões das disputas no xadrez político de cada nação. O que assistimos nas últimas semanas foi uma disputa pela salvaguarda de alguns espaços de acção política, e respectiva legitimidade, face aos desafios que cada nação enfrenta no futuro próximo. Só depois as diferentes partes/nações olham para o todo da Zona Euro e para uma janela de tempo mais distante.
Face à necessidade de olhar mais para a frente e de comprender a natureza dos desafios que vamos encontrar, propomos a entrevista a Lacy Hunt. Ela faz parte de uma colecção de entrevistas e reflexões em torno da “Idade Dourada dos Bancos Centrais” e da sua política de repressão financeira que não posso recomendar demais. Assim haja tempo para isso.
Poupando as apresentações que serão feitas no início da entrevista, avanço apenas alguns dos tópicos nela abordados. E eles são:
- as consequências das baixas taxas de juro e os ciclos económicos;
- o que o passado ensina acerca da guerra monetária em curso;
- (alguns d)os erros macroeconómicos de Keynes;
- as distorções impostas na leitura da realidade económica;
- os erros das políticas monetárias mundiais – os riscos no Ocidente e Oriente;
- as monumentais taxas de dívida (total face ao PIB) dos EUA ao Japão, passando pela Zona Euro (de um mínimo de 350% a um máximo de 650% do PIB!!!);
- o que fazem os bancos e as instituições financeiras para alimentar a ilusão do crescimento actual;
- os erros e os maus investimentos, nas actuais circunstâncias, ainda ajudam os governos;
- a situação americana no curto-prazo e o sofirmento que há-de vir do abrandamento (não crescimento, note-se!) económico.

São quarenta minutos de lucidez e franqueza, fundamentais antídotos ao nevoeiro a que nos tentam conduzir os personagens do costume. Sejam eles de dramas vagamente clássicos, ou de reverberações históricas de motivação perigosa.
Votos de um excelente fim-de-semana.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A necessidade de um novo sistema de crenças

Políticas Monetárias e Sociedade
por William White (Banco de Pagamentos Internacionais - BIS)

Um dia depois de o BCE ter conferido mais velocidade, mais ritmo à queda das fichas com o seu "aliviar" quantitativo, propõe-se uma apresentação recente de White. Esta sua digressão é, simultaneamente, um balanço e uma visão prospectiva. Tenha-se em consideração que White faz parte dos altos quadros do BIS (OCDE também), logo, a sua visão é uma visão de dentro do sistema. Julgo, inclusive, que tem feito aconselhamento estratégico à chanceler Merkel.

A apresentação segue, de um modo alargado, os seguintes tópicos:
- Principais orientações do pensamento económico
- O sistema de crenças e valores de muitos dos agentes do sistema (relações endogâmicas entre a banca, o poder político, os reguladores e os bancos centrais)
- As consequências das políticas monetárias
- As insuficiências palpáveis das políticas fiscais e dinâmicas do jogo político
- Os agentes estruturais não mediram bem o que implicavam certas ideias de origem académica – necessidade de mudança do sistema de crenças e interacções
- As relações entre o poder, a criação de moeda e a dívida (armadilha da dívida)
- Os ciclos económicos e políticos – a democracia e as eleições (diferimento de soluções difíceis)
- Os sistemas complexos, as interacções e as necessidades de reforma institucional – acomodando uma nova ética e novos valores
- moedas alternativas, bitcoins e reserva de valor
- a concluir William White confessa: “durante a crise, que ainda atravessamos, não aprendemos nada”.

Votos de um excelente fim-de-semana.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Citação do dia (178)

"O alcance da Bolha Global do financiamento soberano de hoje projecta uma enorme sombra sobre a Bolha do financiamento hipotecário de 2007. Há muito mais a perder nesta Bolha internacional e muito mais com que nos devemos preocupar. Em vez de crédito de má qualidade (subprime), hoje a Periferia inclui dezenas de milhões de milhões de crédito vulnerável que atravessa vários países e envolve muitos milhões de pessoas. Em vez de hipotecas e dívida corporativa americanas, hoje o Centro inclui crédito de vários Bancos Centrais e a maior Bolha nos activos financeiros que alguma vez vimos.
No Centro do Centro, a histórica euforia nos mercados tem puxado os activos financeiros e a dívida das empresas a extremos que são precários – deteriorando os fundamentos económicos e financeiros globais. Não tenhamos dúvidas, os estímulos concertados dos Bancos Centrais exacerbaram a diferença entre activos financeiros inflacionados e os débeis sinais de crescimento global. Pior, a redistribuição da riqueza, implícita nas políticas que aumentam o tamanho do domínio financeiro global, está a degradar-se e a gerar tensões geopolíticas alarmantes. A Banca Central Global e a ideia da dívida soberana de “risco zero” estão a ficar descredibilizados."

Doug Noland - "Memórias"

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Regra de Ouro

Alan Greenspan, "A Regra de Ouro - a razão pela qual a China está a comprar" - Foreign Affairs - 29 de Setembro de 2014

"A questão de fundo - o regresso a um qualquer padrão-ouro - não está no horizonte de ninguém. Essa ideia tem poucos apoiantes num mundo em que, virtualmente, todos aceitam papel-moeda e taxas de câmbio livres. No entanto, o ouro tem propriedades especiais que nenhuma moeda, com a excepção da prata, pode reivindicar. Durante mais de dois mil anos, o ouro gozava do estatuto de meio de pagamento inquestionável e não exigia garantias de crédito a terceiros. Não se levantavam questões quando, o ouro ou títulos directos sobre ouro, eram oferecidos em pagamento de uma obrigação.

Nos dias de hoje a aceitação de papel-moeda - moeda sem ligação a qualquer activo com valor intrínseco -, fundamenta-se na garantia de crédito das nações soberanas com poder efectivo de taxar. Mas essa garantia não consegue igualar o estatuto, que o ouro possui, de ter aceitação universal."
Surpreendente este artigo. Seja pelo momento em que é publicado, mas também por ser escrito por Alan Greenspan. Assistimos, neste momento, a uma correcção mais acentuada do que muitos previam nos metais preciosos, em especial depois de ocorrerem mudanças relevantes na estrutura e organização do próprio mercado.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Bolhas e oportunidades

A verdade de muitas mentiras

A entrevista que a seguir se propõe é-me muito querida. Em primeiro lugar, pela sabedoria que dela se pode tirar. Há uma naturalidade, uma disponibilidade em traduzir, de modo simples e elegante, os desafios e obstáculos que enfrentamos na economia global, poluída por governos, bancos centrais e demais interesses especiais a eles associados.
Em segundo lugar, pela coragem (terá alcance moral) de defender, não só aquilo em que se acredita, mas aquilo que é racionalmente justificado, numa adequação entre princípios, meios e fins. Assistir a este exercício de desmontagem dos mitos e da dissimulação que povoam o discurso político (económico e financeiro, igualmente) com tamanha elegância e humor é invulgar. Exemplos? Que tal a frase: "Macroeconomia é política mascarada de álgebra". Ou ainda: "Ser bom investidor é ter toda a gente a concordar comigo. No futuro".
O entrevistado é Jim Grant que, para além da inteligência e do laço que exibe, se faz também acompanhar de uma pequena porção de "trabalho condensado".
A entrevista contempla vários temas, dos quais se destacam:

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Acção na periferia da periferia

No início de uma semana importante - e seguramente intensa nos bastidores - traduz-se o último artigo de Doug Noland. Nele se articulam alguns dos mais recentes episódios em Portugal relativamente ao sistema bancário e potenciais relações com problemas de carácter mais sistémico, de âmbito nacional ou europeu. Naquilo que parece ser uma revisitação da Grande Crise Financeira de 2007 (para usar a terminologia do BIS). A tradução e a edição do artigo que aqui se apresenta deve ser vista como um convite à leitura integral do mesmo (assim como o artigo de Ben Stein).
Parece tornar-se claro que, a manter-se a actual conjuntura, bastarão incidentes (aparentemente) mais pequenos e insignificantes para a deflagração de uma nova Crise. Que faria, segundo muitos, a de 2007 parecer apenas uma pequena réplica que antecipa fenómenos tectónicos mais abrangentes e intensos.
Doug Noland, "2014 vs. 2007" - 11 de Julho de 2014

"Não pude deixar de relembrar o artigo de Ben Stein no Verão de 2007, enquanto os especialistas estiveram, na última semana, a desvalorizar o facto de Portugal poder ter algum impacto na gigantesca economia dos EUA e nos inflacionados mercados financeiros.(...) Na periferia, as coisas pareciam estar boas.

sábado, 12 de julho de 2014

(In)Tranquilidade


As nuvens já vêm de longe, mas estão a avolumar-se rapidamente. Por cá, para além das manobras de tranquilização (sedação) a que se prestam os meios de comunicação social convencional, nada mais do que a apresentação da composição accionista do grupo Espírito Santo parece interessar. Pergunto-me que utilidade isso terá para o cidadão comum.
Não sei se não será apenas uma forma de desviar as atenções, concentrando-as apenas no BES (ou GES), evitando assim que se analise o contexto em que o problema ocorre.

São satisfatórias as declarações do regulador? O que fez o Banco de Portugal para antecipar a tempestade que parece formar-se?
São satisfatórias as declarações dos responsáveis políticos?
Como está - na substância, na qualidade e não na aparência - o sector bancário nacional ou europeu?

Tomando as palavras de Maximilian Zimmerer (CIO Allianz) acerca da zona euro e do seu sistema bancário e financeiro, "os problemas fundamentais não estão resolvidos e toda a gente sabe disso".
Recentemente tornaram-se visíveis casos problemáticos na banca búlgara (neste caso há um banco que vai mesmo cair), austríaca e holandesa.

À luz destes acontecimentos, repito, são satisfatórias as escassas (e ambíguas) declarações do responsável do Banco de Portugal? Se não há, em sua opinião, razões para alarme e considera tudo ter feito para que não houvesse turbulência no sistema, a missão parece ter falhado. Certo?
É que até as "vozes de dentro" parecem assobiar algo de diferente.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Todo um novo compasso

Renovar o esforço da orientação económica ou a necessidade de novos princípios

O Bank of International Setlements (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, publicou o seu relatório anual (cf. ligação abaixo) no final do mês passado. Alguns dos reflexos desse relatório podem ser lidos aqui e aqui e, em ambos os casos, sublinham-se os riscos que subjazem ao verniz da verdade oficializada. O BIS não é uma entidade qualquer. É uma peça-chave da arquitectura institucional financeira, monetária e política mundial e os seus avisos são um apropriado antídoto face à intenção sedante do discurso público acerca da situação da economia, mundial ou portuguesa.
Do primeiro capítulo traduziram-se e editaram-se as passagens que a seguir se apresentam, pela clareza e distinção com que apresentam a situação que temos, incontornavelmente, pela frente.
BIS ,"In search of a new compass", 29 de Junho de 2014

"A economia global mostrou sinais encorajadores no último ano, mas o desconforto persiste. O legado da Grande Crise Financeira (em maiúsculas no original – nt) e as forças que a criaram permanecem por resolver. (...) Restaurar o crescimento sustentável vai requerer políticas específicas em todas as maiores economias, tenham ou não sido atingidas pela crise. Os países que foram mais afectados precisam de completar o processo de reparar os seus balanços e implementar reformas estruturais.