terça-feira, 2 de junho de 2015

A Idade do Cientismo não se recomenda

Voltando a insistir no tema abordado aqui e aqui recentemente (ver também caixa de comentários), via Rob Dreher, um excerto do editorial da edição de Abril último do jornal médico The Lancet, a publicação regular reconhecidamente mais prestigiada da profissão médica na Grã-Bretanha (tradução e itálicos meus):
«O caso contra a ciência está claro: grande parte da literatura científica, quiçá metade, poderá simplesmente não ser verdadeira. Afligida por estudos com pequenas amostras, efeitos minúsculos, análises exploratórias inválidas e flagrantes conflitos de interesses, a que se alia uma obsessão para prosseguir tendências em moda de importância duvidosa, a ciência tomou o rumo da escuridão. Como referiu um participante, "com métodos pobres conseguem-se resultados". A Academia de Ciências Médicas, o Conselho para a Investigação Médica e Biotecnologia e o Conselho para a Investigação das Ciências Biológicas emprestaram agora o seu peso reputacional a uma investigação sobre estas práticas questionáveis de investigação. O aparente carácter endémico de má conduta em investigação é alarmante. Na busca de uma história convincente para contar, os cientistas esculpem com demasiada frequência os dados para os ajustar à sua teoria preferida do mundo; ou ajustam retroactivamente as hipóteses para acomodar os dados de que dispõem. Os editores dos jornais médicos também merecem a sua quota-parte de críticas. Nós ajudamos e incentivamos os piores comportamentos. A nossa aquiescência ao "factor impacto" alimenta uma concorrência pouco saudável para ganhar um lugar num número muito reduzido e selecto de revistas. O nosso amor pela "significância" polui a literatura com muitas estatísticas que são contos de fadas. Rejeitamos confirmações importantes. Os jornais não são os únicos escroques. As universidades vivem numa luta perpétua por dinheiro e talento, objectivos que fomentam métricas redutoras, tais como a publicação de grande impacto. Os procedimentos nacionais de avaliação, tais como o Quadro de Excelência da Investigação, incentivam as más práticas. E os cientistas individuais, incluindo os seus dirigentes mais séniores, pouco fazem para alterar uma cultura de investigação que ocasionalmente bordeja a prática profissional grave.»

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Felizmente que investigação e cientistas é um campo com tanta e varida situação que é um pálida imagem o que diz o editorial.
Ficou na memória a afirmação duma cientista de que em sua opinião o que mais tem prejudicado a ciencia é a arrogancia.
A sua palestra era motivada porque as suas investigações tinham sido ignoradas dezenas de anos porque os "sabetudo" que dominavam a area se recusavam a ler e estudar o que ela afirmava.
Tenho sempre isso presente quando se fala de investigação e ciencia.
A arrogancia é sem duvida um virus muito pernicioso, por vezes para o próprio.