sexta-feira, 27 de março de 2015

Em defesa de um padrão monetário livre - Parte VI

Litigâncias e jurisdições




Publica-se aqui a sexta e última parte da série de artigos que Ken Griffith tem vindo a publicar no jornal do Gold Standard Institute.
A tradução e a edição dos artigos é da minha responsabilidade e foi autorizada pelo próprio autor.
A quinta parte pode ser lida aqui.

"Em defesa do padrão-ouro livre” – Ken Griffith, "The Gold Standard Institute Journal #47", Novembro de 2014

Resolução de disputas e jurisdição para o Padrão-Ouro livre

Esta é a última parte da série de artigos que apresentam a via para a criação de um padrão ouro livre à escala global, usando apenas a iniciativa privada e o mercado livre. Neste artigo serão apresentados os requisitos para um sistema de resolução de disputas e algumas jurisdições ideiais para a domiciliação da “Sociedade para o Padrão-Ouro”.
Na primeira parte, indiquei sete elementos necessários para estabelecer um padrão monetário descentralizado e apolítico:
- domicílio em jurisdições receptivas ao ouro monetário
- sistema de pagamentos digitais em ouro e procedimentos contabilísticos
- modelos contratuais e unidade padrão
- rede de Agentes
- plataforma electrónica de transacção
- sistemas de resolução de disputas
- modelo viável de regulação

terça-feira, 24 de março de 2015

Em defesa, também moral, dos combustíveis fósseis

Mesmo quando não se concorda integralmente com Matt Ridley, é sempre um prazer lê-lo. Erudição, fluência narrativa e uma insuperável elegância são traços que o caracterizam. A acrescentar também, evidentemente, o optimismo "racional" que o próprio reivindica num tempo de onde ele me parece arredado e que eu próprio, devo confessar, nem sempre consigo adoptar. No texto que constituí a minha proposta de hoje, Ridley não foge ao seu registo habitual e - que diferença, caros leitores, para os alarmistas de profissão e conveniência! - constrói o caso que justifica o título do post (que mais não é que uma paráfrase do do seu artigo) com sistemático rigor de onde não está ausente um saudável "cepticismo metodológico" ou, pelo menos, a humildade de quem sabe poder não ter razão. Uma referência adicional para sublinhar a importância que também atribuo ao recente livro de Alex Epstein - The Moral Case For Fossil Fuels - que Ridley menciona e que já ocupou durante uns dias a vitrina das leituras aqui no blogue.

Continuação de uma boa semana.

22 de Março de 2015
Por Matt Ridley


Nos anos recentes, o movimento ambientalista avançou três argumentos para justificar o abandono dos combustíveis fósseis: (1) que, em qualquer caso, dentro em breve se esgotarão; (2) que as fontes alternativas de energia irão arredá-los, pelo preço, do mercado; e (3) que não podemos arcar com as consequências da sua queima para o clima.

Matt Ridley
Nos dias que correm, nenhum dos três argumentos parece gozar de boa saúde. Na verdade, uma avaliação mais realista da nossa energia e situação ambiental sugere que, nas próximas décadas, iremos continuar a depender esmagadoramente dos combustíveis fósseis que têm contribuído de forma tão dramática para a prosperidade e progresso do mundo.

Em 2013, cerca de 87% da energia que o mundo consumiu proveio dos combustíveis fósseis, um número que, de forma notável, se manteve inalterado face a 10 anos antes. E que se divide, aproximadamente, em três categorias de combustível e três categorias de utilização: o petróleo, usado principalmente nos transportes, o gás no aquecimento e o carvão na geração de electricidade.

Ao longo deste período, o volume global de consumo de combustíveis fósseis aumentou dramaticamente, mas segundo uma tendência ambientalmente encorajadora: uma quantidade cada vez menor de emissões de dióxido de carbono por unidade de energia produzida. O maior contributo para a descarbonização do sistema energético tem vindo da substituição do carvão, de alto teor de carbono, pelo gás, de baixas emissões de carbono, na produção de electricidade.

A nível global, as fontes de energia renováveis como a eólica e a solar quase nada contribuíram para a redução nas emissões de carbono, e o seu modesto crescimento limitou-se a compensar o declínio da energia nuclear que não produz emissões. (O leitor deve saber que eu tenho interesses indirectos no carvão pelo facto de ser proprietário de terras no norte da Inglaterra em que se faz extracção do minério, mas, não obstante, eu aplaudo a substituição do carvão por gás nos anos recentes.)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Mercado e regulação estatal - lições a tirar da guerra dos browsers

Confirmando vários rumores que há algum tempo circulavam, a Microsoft oficializou esta semana o processo de descontinuação (phasing out) da mítica marca Internet Explorer e a decisão tomada de rumar noutras direcções embarcando num projecto significativamente designado de "Espartano". Foi este o pretexto para revisitar a épica guerra dos browsers (navegadores na Internet); recordar a intervenção estatal e judicial que, como sempre, pretendeu ditar vendedores e vencidos em nome da "sã concorrência"; e, por fim, e mais importante, retirar as riquíssimas lições do sucedido. É este o foco do artigo de Jeffrey Tucker que hoje vos proponho.

Mas primeiro um breve interlúdio para contextualizar a minha leitura do sucedido. Na faculdade, tivera uma cadeira introdutória de Informática - de papel e lápis. Uns bons anos depois, num momento de maior desafogo financeiro, comprei um ZX Spectrum com o qual, para além de jogar (muito), me divertia a fazer umas habilidades com a sua versão de Basic (pouco). O meu primeiro PC doméstico foi adquirido em 1991 (mediante empréstimo bancário). Juntamente com a impressora, a coisa importou em 500 contos, à volta de 5500 euros a preços de hoje! Com ele viria pouco depois o primeiro Windows a sério - o 3.1. Dois anos antes, tivera contacto profissional com o salto gigantesco que representava o passar da estação de trabalho individual para um ambiente colaborativo assente numa rede (com partilha de impressoras!) e tomo contacto com a extraordinária beleza e facilidade de utilização dos (porém caríssimos) Apple Macintosh. Desde então, que o portátil passou a fazer parte da minha bagagem permanente. Depois, creio que foi em 1995, durante as férias de Verão, ao "digerir" um breve manual, que finalmente compreendi o poder da internet - e o sentido de urgência que Bill Gates tentava então incutir em toda a Microsoft - quando me apercebi da extraordinária facilidade em criar páginas web que a linguagem HTML permitia. Foi uma autêntica epifania. "A rede era o computador", proclamava-se na Sun Microsystems. Foi mais ao menos por essa altura que me recordo de ler nos jornais o caso da guerra dos browsers a que alude o artigo de Jeffrey Tucker. Recordo-me de ter achado um absurdo a acusação de monopólio que se imputava à Microsoft. Já tivera até então experiência bastante para perceber, que máquinas e software não só não paravam de melhorar, em qualidade e desempenho, como o seu preço (real e nominal) tinha descido vertiginosamente (e assim tem continuado até hoje). Se algo caracterizava a indústria era a sua duríssima competitividade em benefício dos consumidores, traduzida na extraordinária ascensão e queda de protagonistas (Wang, Digital, IBM, etc.). Só bem mais tarde viria a compreender a lenda criada à volta das leis "antitrust" da época "progressiva" nos EUA e o posterior surgimento do suporte teórico "justificativo" do intervencionismo regulatório estatal cujo orwelliano lema se pode resumir em algo como: "A melhor defesa da concorrência é a sua eliminação". A guerra dos browsers, e o apelo que então foi dirigido ao poder (por competidores directos e prospectivos, auxiliados pela histeria mediática dos media convencionais), é um exemplo eloquente da verdadeira utilidade da regulação estatal: servir compadrios. A inevitável consequência é a destruição, ou pelo menos, o sério prejuízo da criatividade e pujança do mercado. Uma última nota para voltar a sublinhar, aspecto que não é endereçado no artigo, que o sector das TIC há bem mais de 30 anos que demonstra à evidência a falácia do papão deflacionista.

20 de Março de 2015
Por Jeffrey Tucker


Sem muito alarde, a Microsoft anunciou este mês que irá descontinuar progressivamente o seu muito conhecido navegador web - o Internet Explorer (IE). Nas notícias, o foco principal tem incidido nas razões que o levaram a ser suplantado pelo Chrome, Safari e Firefox, entre muitos outros navegadores existentes no mercado. Além disso, as aplicações móveis estão a dar passos gigantescos na navegação web em geral.

Imagem daqui

Isto é de facto verdade. Nas plataformas com que lidei, assisti à forma como o IE passou de uma quota de utilização dos 95 para os 20%, um crash espectacular e bem merecido, do pináculo em que se tinha instalado, que demorou uns bons 20 anos. A Microsoft nunca foi capaz de corrigir os seus infindáveis problemas de segurança. Cada nova versão, da 1 à 10, parecia corrigir alguns problemas da versão anterior ao mesmo tempo que introduzia outros mais.

Não foi inteiramente culpa da Microsoft: a condição de navegador dominante do IE tornou-o num alvo incessantemente submetido aos ataques de todos os criadores de malware no mundo. Mesmo uma equipa de mil programadores da Microsoft foi incapaz de ultrapassar esse problema. Não ajudou que a própria Microsoft estivesse tolhida pela sua gigantesca dimensão e estrutura de gestão burocrática.

sábado, 21 de março de 2015

A mão dura ou a suavidade arrepiante do aço

Realismo intervencionista

Há muito que nem os apaixonados pela "mão macia" da diplomacia se opõem a nada disto. Talvez tenham acompanhado sempre a intenção, mesmo que não a acção propriamente dita destes "falcões".
Veja-se como se justificam, com a simplicidade de uma martelada, as intervenções, os discursos, as sanções que os EUA impõem por esse mundo fora. Até a NATO - como artifício institucional - se desmascara aqui.
Sinto arrepios. E os leitores?

sexta-feira, 20 de março de 2015

A realidade da desdolarização da economia mundial

Mais tarde ou mais cedo, as consequências das acções tomadas tornam-se visíveis mesmo para os mais cépticos. O exorbitante privilégio de que falava De Gaulle está a ceder de forma provavelmente irreversível. Apesar das pressões dos EUA, cresce o número de países europeus que querem ser ser membros fundadores do novel Banco Asiático de Investimento em Infra-estruturas, um concorrente directo de instituições controladas pelos norte-americanos como é o caso do Banco Mundial. Não é coisa de somenos como o artigo que hoje proponho aos leitores sublinha.
18 de Março de 2015
Por Simon Black

O governo dos Estados Unidos acaba de passar da fase "por favor amorzinho, não me deixes" para a das ameaças frustradas e choramingas.

Depois do Reino Unido ter anunciado na semana passada que irá participar na criação, liderada pela China, do novo Banco Asiático de Investimento em Infra-estruturas (AIIB), enquanto membro fundador, Alemanha, França e Itália decidiram ontem [dia 17] seguir-lhe o exemplo.

Bem-vindos ao começo do fim do domínio do dólar norte-americano pois é isso que está a acontecer.

Nas últimas décadas, a América foi a incontestável superpotência global e económica.

Imagem daqui
O mundo inteiro utilizou alegremente o dólar norte-americano, e, consequentemente, o sistema bancário dos Estados Unidos. E, mais importante, o mundo depositou alegremente a sua confiança no governo dos EUA.

Mas há um limite para o grau de irresponsabilidade, imprudência e ameaça que alguém pode representar. Chegará um dia em que um comportamento desses terá consequências para quem o prosseguiu.

Esse tempo chegou agora.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Quando havia Deus - Citação do dia (183)

«Quando havia Deus, a força do destino só era aplacável por preces, procissões e arrependimento, tudo conduzindo à resignação. Quando Deus está ausente, usa-se o FMI para identificar a força perversa que produz as vítimas e todos os pretextos são bons para demonizar os que aparecem como a nova força do destino.»

Joaquim Aguiar, A Ilusão do Juro

Relacionado: Governo ignora estudos e lança linha mais cara entre Aveiro e Vilar Formoso

quarta-feira, 18 de março de 2015

Do dever/direito a ser vigiado

Parte cada vez mais significativa do "contrato social" como percebido nos dias que correm. Ou, noutros termos, a decorrência inevitável da aceitação generalizada do propalado princípio segundo o qual "quem não deve não teme".

terça-feira, 17 de março de 2015

Quem de facto combate o Estado Islâmico no terreno

Foram as constantes interferências de ordem externa que transformaram grande parte do Médio Oriente no atoleiro letal que hoje conhecemos. Primeiro, pelo retalhar da história e geografia milenar através da criação de fronteiras totalmente arbitrárias após o fim do império Otomano. Depois, porque o controlo da incrível riqueza em petróleo da zona tudo justificava. Um dos marcos desse intervencionismo foi o golpe que em 1953 depôs o democraticamente eleito Mohammed Mossadegh no Irão e instalou no trono Reza Pahlavi (uma "teoria da conspiração" finalmente reconhecida pela CIA, 60 anos depois). Em 1979, com a fuga do Xá e a instalação de um regime para-teocrático, o Irão passou a ser demonizado, guerreado, ostracizado, e sujeito a pesadas sanções económicas. Com o apoio explícito dos EUA - logístico, militar e de informações - Saddam Hussein atacou o Irão (também com armas químicas que, como a CIA igualmente confirmaria, eram do perfeito conhecimento americano), daí resultando uma guerra que durou oito anos (1980-1988) e causou 400 mil mortos. Com George W. Bush, o Irão foi catalogado como pertencente a um "eixo do mal" que tem persistido até hoje, reforçado com novos membros. Como os neocons nunca esconderam, o Irão é o "grande prémio".

Não deixa portanto de ser irónico que da 2ª guerra do Iraque tenha resultado um fortalecimento de facto da posição estratégica do Irão, ou, talvez melhor, do Islão xiita. Como não deixa de ser do domínio do factual que são os xiitas, e em particular Assad (aqui, numa entrevista recente à RTP), quem de facto tem combatido no terreno essa entidade difusa que dá pelo nome de Estado Islâmico bem como as diversas declinações da Al-Qaeda na região como é o caso da Frente al Nusra. É esta a leitura, lúcida e serena como é habitual, que Pat Buchanan faz da situação actual ao deflectir a retórica tonitruante dos neocons e de Netanyahu, também preocupado com a sua própria sobrevivência no poder em Israel, que tudo estão a fazer para torpedear as negociações em curso com o Irão relativas ao seu programa nuclear.

10 de Março de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Patrick J. Buchanan
América, temos um problema.

No sangrento e caótico Médio Oriente, salvo raras excepções como a dos curdos, os nossos amigos ou não conseguem ou não querem combater.

O Exército Livre da Síria claudicou. As forças do movimento Hazm na Síria, armadas pelos Estados Unidos, desmoronaram-se depois de serem alvo da perseguição pela Frente al Nusra. O exército iraquiano, treinado e equipado por nós, fugiu de Mosul em grande debandada até Bagdad. Os turcos poderiam aniquilar o ISIS na Síria, mas não irão combater. A Arábia Saudita e os países árabes do Golfo enviaram zero militares para combater o ISIS. Ficaram-se por um punhado de ataques aéreos.

Consideremos agora o que os nossos velhos inimigos já fizeram e estão a fazer.

Quando já não se acredita nas suas próprias mentiras

Por razões que o comum dos americanos não merece conhecer, Barack Obama decidiu há dias anunciar (mais) uma situação de "emergência nacional". Trata-se agora do "extraordinário risco" que a situação política na Venezuela colocaria à segurança dos EUA. Como seria de esperar, Nicolás Maduro não enjeitou a ocasião para tornar a imputar aos inimigos externos a culpa pelas enormes dificuldades por que passa o país que desgraçadamente (des)governa - Maduro, com o petróleo venezuelano, fez jus a Friedman quanto este afirmava que caso se entregasse a gestão do deserto do Sahara ao governo federal, em cinco anos sobreviria uma escassez de areia...

Perante um pedido de comentário à reacção de Maduro às novas sanções impostas por Obama no decorrer de uma conferência de imprensa no passado dia 11, a porta-voz da secretaria de Estado, Jen Psaki, lendo uma declaração pré-preparada sobre o tema, refere a certa altura sem se rir:
«No que constitui uma política de longa data, os Estados Unidos não apoiam transições políticas concretizadas por meios não constitucionais. As transições políticas devem ser constitucionais, democráticas, pacíficas e legais.»

O leitor que faça a sua própria avaliação e, nomeadamente, que atente na linguagem corporal da porta-voz perante a incredibilidade que tais declarações suscitaram na assistência:


Mike Krieger, que conta a história, assinala o curioso facto de a ele lhe parecer que, ao longo da sua vida, a política externa dos Estados Unidos não tem visado outra coisa que não seja a iniciação de transições políticas concretizadas por meios não constitucionais. Não vejo como não o acompanhar nessa observação, especialmente válida para a América Latina.

sábado, 7 de março de 2015

Reversos de ilusões






Como remate, partilho aqui uma música de uma banda que conheci muito recentemente. E que banda.

"Toda a gente fala, mas só vejo sombras nos seus olhos".

Votos de um excelente fim-de-semana.