sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Um forte argumento contra a "reindustrialização"

Entre nós, os apelos à "reindustrialização" tiveram em Álvaro Santos Pereira um dos mais estrénuos defensores (foi a sua principal bandeira enquanto ministro). Pelo que por aí se escreve, parece que o (ainda?) líder do PS também é agora um seu grande defensor. Aliás, em bom rigor, será difícil encontrar alguém que, pelo menos publicamente, discorde desse "desígnio" (Telmo Azevedo Fernandes é uma rara excepção). Por mim, confesso, não ser um adepto do credo muito embora por aqui com frequência se combata o que na prática o estado faz para dificultar, quando não impedir, a actividade empresarial. Particularmente a industrial. Bastará recordar, por exemplo, a assassina política energética adoptada, que não mostra sinais de abrandar, pelo bem sucedido combate contra os preços competitivos da energia. Ou os labirínticos e orwellianos processos que os diferentes "licenciamentos" exigem apesar do nevoeiro da propaganda das iterações "simplex" e dos sucessivos programas de "estímulo e incentivo". Tudo isto encimado por uma regulação opressiva e asfixiante. Um combate activo contra o capital produtivo, pois.

No artigo que se segue (tradução e links da minha responsabilidade), Gary North explica, pacientemente, por que o discurso da "reindustrialização", entendida como a tentativa de aumentar a fatia do sector industrial em % do PIB, não apenas não faz sentido como é contrária ao aumento do bem-estar! Há dias, dei conta de uma notícia que destacava que o volume, em toneladas, de conservas exportadas por empresas portuguesas em 2013, tinha igualado um recorde que datava de 1923. Mas o que devia ser destacado é que esse recorde tinha sido igualado com apenas 5,65% do número de fábricas que havia então (400 contra as actuais 23)!

Afinal, não começou na Escócia, mas a conjugação das leis de Moore e de Meltcalf conjugadas uma quiçá surpreendente lei dos rendimentos acelerados e da impressão 3-D vai atingir em cheio o estado-nação porque irá impôr uma descentralização massiva. E esse movimento, na tese de North, é insusceptível de ser impedido. Apesar dos luditas de turno.

Um excelente fim-de-semana!
12 de Setembro de 2014
Por Gary North

Mercados Livres: Bens Mais Baratos, Maior Riqueza, Melhores Empregos

A questão surgiu num dos fóruns sobre o futuro da produção nos Estados Unidos.

Para iniciar a formulação da resposta, atentemos num gráfico da evolução da manufactura em todo o mundo. A sua trajectória não é apenas característica dos Estados Unidos; é também a da Europa Ocidental, do Japão e do mundo como um todo. Como é visível, o contributo da indústria, em termos percentuais, no total da produção económica, diminuiu marcadamente durante os últimos 40 anos. Se o gráfico abrangesse os 40 anos anteriores, observaríamos a persistência de uma inclinação semelhante. Este é um fenómeno mundial e irreversível que tem acompanhado a expansão do crescimento económico mundial ao terceiro mundo e em especial à Ásia.



Há pessoas que se queixam da redução do peso relativo da indústria no produto interno bruto dos Estados Unidos. Isto acontece devido à total falta de familiaridade dessas pessoas com o fenómeno à escala mundial. Elas não compreendem que o crescimento económico acompanha a redução, em termos relativos, do peso da manufactura numa economia nacional.

O CORAÇÃO DE RIQUEZA MODERNA

O coração da riqueza não está na indústria mas sim no conhecimento aplicado para reduzir a importância da manufactura na economia como um todo, e em aumentar a riqueza das massas através dos serviços. Estes serviços podem ser digitais. Como podem ser pessoais. Mas não se baseiam na actividade industrial.

Radar

Parece que grandes investidores em Inglaterra estão a antecipar que algumas coisas podem acontecer. Ou a entender o que pode - objectivamente - ser uma reserva de valor que atravessa, como poucas, os diferentes tempos históricos. A notícia do Telegraph chama a atenção para a procura de barras de "estilo mafioso", mas também para a duplicação de vendas de moedas de ouro, especialmente as Krugerrands.

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Independentemente do resultado, o referendo na Escócia é uma vitória da Liberdade

Não escondo a simpatia que nutro pelos genuínos movimentos secessionistas, nomeadamente no espaço europeu, que contestam e lutam contra o centralismo sufocante, uniformizador e tendencialmente totalitário do por muitos idolatrado estado-nação. Criação historicamente recente, cujos prelúdios remontam apenas aos séculos XVII e XVIII com as grandes revoluções ocorridas na Holanda, Inglaterra e nos Estados Unidos, tornar-se-ia a forma política “normal” após 1815 (Congresso de Viena, após a derrota definitiva de Napoleão). Sujeito a um primeiro grande “teste” – o da Guerra Civil americana – o resultado pôde ser aferido pelos mais de 700 mil mortos que nela pereceram em nome da manutenção de uma “União” tornada sacrossanta a que todos tinham que se subjugar. Os dirigentes do século XX não se impressionaram com aquele primeiro "ensaio" e, assim, a escala do Horror atingiu o que antes fora inimaginável (e materialmente impossível pela mão humana) exactamente em nome de uma nova e letal religião secular.

Foto linkada daqui

Hoje, 18 de Outubro, os escoceses irão votar pelo “Sim” ou pelo “Não” à sua secessão do Reino Unido. Seria para mim uma grande alegria que a Escócia – sim, esmagadoramente socialista, eu sei - escolhesse a via do "Sim". Mas apesar de as últimas sondagens não excluírem essa possibilidade, no meu íntimo não creio que venha a ser esse o resultado final não obstante o pânico que tomou conta das elites britânicas e da correspondente escalada do suborno sempre indissociável da actividade política. Oxalá venha a reconhecer o meu erro de previsão!

Mas, em qualquer caso, estou inteiramente de acordo com Simon Black: qualquer que venha ser o resultado final, o “simples” facto desta votação ir acontecer é, em si, uma grande vitória para a causa da Liberdade! Ficou demonstrado ser possível afrontar o que alguns pretendiam que estivesse gravado para a eternidade. Definitivamente, The Times They Are A-Changin'.

Refúgio(s)

E se começa na Escócia?

No dia da votação que bem pode ser uma representação da luta - longa e sofrida - pela Liberdade, porque não associar-lhe, através deste artigo, a estreia recente (apenas EUA) da terceira parte do filme "Atlas Shrugged". Esta última parte concentra-se em explorar o dilema vivido por uma personagem (Dagny Taggart) face à desistência, à entrada em greve daqueles que são os elementos mais criativos e produtivos da sociedade (fossem médicos, músicos, engenheiros ou simples investidores, entre outros). O dilema é mantido na trama do livro (e do filme) como exemplo de tensão entre a força das capacidades humanas com tudo aquilo que as anula.

Pergunta-se Dagny: como podem as mentes mais brilhantes do mundo entrar em greve? Como podem desistir do mundo e buscar refúgio numa qualquer reentrância geográfica remota? Como podem aceitar essa prisão?
De certo modo, é nessa condição que entendo estarem as pessoas a quem lhes causa a maior estranheza que alguém (ou comunidade) possa optar pela sua autodeterminação. Que alguém possa querer construir, sem mediação, o rumo das suas vidas é, a seus olhos, algo de inaceitável.

Dagny aprendeu da maneira mais difícil que aquela escolha não correspondia a uma prisão. Percebeu que, quando o Mal atinge certas proporções, ele perpetua-se pela exploração dos indivíduos, em particular das suas mentes mais brilhantes e criativas. Pelo que o mais libertador é, precisamente, dizer: "basta!" Entrar em greve e não contribuir para a manutenção do Mal. Dessa forma, este cairá por si.
Honestamente, por que razão se estranha a vontade tão natural de Liberdade?

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Radar

A guerra na sua dimensão financeira está ao rubro: Moscovo procura impedir o pânico relativamente à sua moeda.
Naquilo que parece ser um universo à parte, a China antecipa a inauguração da plataforma de transacção física de ouro para a próxima quinta-feira. Confirme-se na peça outras bolsas de transacção que estão programadas para iniciar funções nos próximos tempos. Notável.

Este neoliberalismo que nos governa

Imperdíveis n' Oinsurgente:
O recurso ao humor corrosivo (mas inteiramente justo):
Os heróis do governo (reloaded)
Gremlins e prostitutas
Governação Disney
A aplicação, ao caso prático da infame proposta de "lei da cópia privada", do que Bastiat identificou em "O que se vê e o que não se vê":
Os custos escondidos da nova lei da cópia privada

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

A Europa face aos Estados Unidos: independência ou vassalagem?

A NATO foi criada em 1949 no contexto da Guerra Fria superveniente à II Guerra Mundial. Hoje, após a implosão do império soviético e consequente dissolução do Pacto de Varsóvia (fundado em 1955), a sua actuação alargou-se progressivamente a leste chegando hoje a meridianos tão distantes como os do Mar Cáspio e do Afeganistão. Vai bem distante o âmbito do Atlântico Norte... como distante e letra morta ficou o compromisso estabelecido entre a administração Bush I e Gorbatchov em 1990 - o de que a NATO não se expandiria para leste caso Moscovo permitisse a dissolução pacífica da URSS. O texto que segue, da autoria de Eric Margolis, é de há dois meses atrás mas mantém, creio, a sua plena actualidade. A tradução, bem como a introdução de links e a referência a um vídeo muito especial, são da minha responsabilidade.
12 de Julho de 2014
Por Eric Margolis

A Europa continua como em 1945 - na perspectiva de Washington
(It’s still 1945 in Europe – in Washinton's view)

Qual é exactamente o grau de independência da União Europeia? Considerando os acontecimentos recentes envolvendo os Estados Unidos e os seus aliados europeus, não é possível evitar a pergunta.

Eric Margolis
Primeiro, foi o caso das descaradas escutas, por parte da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), ao telemóvel privado da chanceler alemã, Angela Merkel, e, muito provavelmente, a muitos mais VIP na Alemanha, um aliado chave dos EUA e a nação mais importante da Europa.

Washington e a NSA minimizaram este incidente terrivelmente embaraçoso com o habitual "bem, todos fazem o mesmo".

Não é verdade. Imaginem o alvoroço furibundo que teria ocorrido caso tivesse sido a Alemanha a escutar o Blackberry do presidente Barack Obama. A chanceler Merkel sofreu uma humilhação mas fez por minimizar o escândalo, sem disposição ou capacidade para castigar os EUA através de uma qualquer acção punitiva real - como, por exemplo, determinando o encerramento de uma das bases militares norte-americanas estacionadas na Alemanha desde há 69 anos.

domingo, 14 de Setembro de 2014

25 anos depois, um novo muro na Europa agora subsidiado por Bruxelas

Em mais um episódio da cerrada floresta de decepções em que a Ucrânia se vem mostrando pródiga[1], a acusação que Kiev fazia a Moscovo, em Abril, de pretender construir um novo "muro de Berlim", transformou-se na intenção de efectivamente o materializar só que agora por parte de Kiev e com co-financiamento da União Europeia! É para este perigoso absurdo que Christopher Booker nos chama a atenção na sua coluna de ontem no Telegraph (minha tradução e anotação):
Quem poderia prever há uns meses atrás que o 25º aniversário da queda do Muro de Berlim seria marcado pela construção na Europa de um outro "muro", de quase 1600 km de comprimento, para impedir as pessoas de atravessar uma fronteira internacional?

Com o nome de código oficial de "Muro", é este o plano do periclitante regime de Kiev para construir valas, trincheiras e uma "vedação resistente a explosões" ao longo da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, que o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko [2], tem esperança que a UE venha a co-financiar. Sem dúvida que Bruxelas ficará feliz em canalizar o nosso dinheiro para um projecto insano como este, até porque toda esta confusão foi desencadeada pelas suas movimentações imprudentes e provocatórias com a finalidade de absorver a Ucrânia na UE e na NATO.

Foi também por isto que aviões da NATO transportaram na semana passada duas rampas de lançamento de mísseis para Kharkov, para ajudar o exército ucraniano a chacinar ainda mais civis no leste da Ucrânia do que aqueles que já matou. Mas por que razão o nosso secretário da Defesa Michael Fallon – ao se encontrar com os seus colegas da UE em Milão na passada quarta-feira - se apressou a aplaudir este perigoso absurdo?
[1] Ontem, sábado, houve mais um segundo "comboio humanitário" que entrou na Ucrânia vindo da Rússia mas que passou, significativamente, despercebido ao contrário do furor ocorrido com o primeiro.

[2] Há poucos dias a Wikileaks divulgou este telegrama "diplomático", assinado pelo embaixador americano em Kiev em 2006, onde o agora presidente ucraniano era então designado de "nosso insider", isto é, um informador dos EUA.