sexta-feira, 4 de maio de 2018

Quantas cobras e quantos degraus?

"O futuro está repleto de degraus e de cobras"

Finalmente tivemos acesso à apresentação que Grant Williams fez na conferência que John Mauldin organiza todos os anos. Mais uma vez, Williams não desapontou. Seja a qualidade dos materiais que suportam a apresentação e as ideias partilhadas, seja o humor e a ironia que as acompanha. Esta apresentação mostra um pouco da qualidade do trabalho que Williams tem realizado no canal Real Vision.
Notem-se as inúmeras referências a anteriores oradores da mesma conferência a suportar cenários mais realistas (e sombrios) acerca da condição (e saúde) das economias à escala global, sejam desenvolvidas ou emergentes.

Alguns dos pontos fortes da apresentação são os seguintes:
- a relação entre as taxas de juro e os índices bolsistas;
- o impacto do corte de impostos de Trump na manobra de recompra de títulos e acções (potencia a ausência de um chão real para a economia);
- digressão histórica da acção da FED e dos seus responsáveis mais recentes (consequências para a saúde da economia);
- o actual dirigente da FED - Jerome Powell - parece ter intuído o beco em que a FED se encontra, bem como o atraso para uma possível antecipação da próxima recessão;
- a dimensão das dívidas soberanas - o fenómeno de "Japanização" das economias (perspectiva histórica);
- que saídas podem estar disponíveis para os investidores.


Boas reflexões e bom fim de semana.

sábado, 28 de abril de 2018

Vislumbre do Mal

"Então para si, só conta o lado moral da questão?"

Esta pequena pérola mostra em segundos o que, durante décadas, muitos evitam ver e outros tentam esconder. Evitar reconhecer as ramificações, as derivações e as esferas por onde se projectam o poder dos estados e de interesses especiais no seio dele (neste caso, claro, através dos meios de comunicação convencional) torna-se mais difícil. Deveria ser suficiente para promover uma "reacção popular" (notem-se as aspas) semelhante às que vamos assistindo globalmente acerca de questões de natureza e origem mais duvidosa.
Este vídeo é uma revelação da natureza de todo o sistema de poder. Em particular nos países que asseguram para si o estatuto de excepção no exercício do poder global, exibindo-se como paradigma de sociedades livres e justas.
Não reconhecer a extensão deste Mal é, só por si, participar dele.

Sem mais demoras, convidamos os leitores a ver o vídeo.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

E a Primavera a começar


As narrativas multiplicam-se e os curadores europeus começam a mostrar as suas dúvidas acerca da saúde disto tudo.
Uma tese que li (de Alex Gurevitch e através de subscrição) aponta para um cenário diferente do que as imagens sugerem. Mas a diferença é relativa ao tempo em que se desenrolam os principais episódios. Logo atrás da prosperidade vendida pelos meios convencionais, há razões para suspeitar que a recessão está já aí. Aliás, Gurevitch afirma que dar conta dela é já estar nela.
E o seu raciocínio parece simples: nos EUA, as taxas subirão um pouco mais face à volatilidade que os índices bolsistas vão revelando e aos medos inflacionistas. O que agravará a situação e, de seguida com o mesmo desplante, os magos decidirão baixar as taxas novamente.
Segundo o mesmo autor, a Zona Euro mostra sinais ainda mais preocupantes. E o ponto de partida é ainda mais crítico (o BCE ainda está no modo fácil, digamos).

Há algum tempo que vamos assinalando a "orientação das percepções" e os seus mecanismos, como aqui.

E a Primavera a começar.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um expresso. De instantâneos.



Começar a semana com uma visita ao catálogo de instantâneos. A realidade segue imparável nas mãos dos curadores.

Já por aqui se falou de construções em contraplacado, não já?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A desvalorização do cão que ladra


A China e o seu perpétuo presidente têm produzido eficazes respostas às iniciativas de Trump acerca da guerra comercial em curso. O que é irónico.
À superfície, pelo menos, podemos ver um país comunista a dar "lições de economia" ao país que o senso comum associa a ideais capitalistas. Curioso.
Será por isso que se têm multiplicado outros episódios de "projecção de força"?
Será?
E que dizer do cão que ladra?

quarta-feira, 4 de abril de 2018

São círculos, senhor.


O novo truque, ou jogo de palavras, que o ministro das finanças sacou da manga é eficaz. Eficaz, pois o escrutínio dos argumentos que suportam o "racional" (notem-se as aspas) da justificação de que a carga fiscal dos portugueses não subiu está ausente. Grande excepção o artigo de Ricardo Arroja.
Só discordaria do título. Não é um cisma aquilo que, julgo, Arroja quer evidenciar. Aquilo que o artigo bem mostra é a natureza da acção e discurso políticos, no que toca a estas ou quaisquer outras matérias. E a dissimulação, o entorse e a manipulação têm lugar central naqueles domínios.
Para mim basta a simples simples constatação do seguinte:

Ainda que a argumentação de Centeno fosse consistente, o que espanta é a ausência da consciência (de muitos, pelos vistos) de que a massa salarial dos portugueses podendo aumentar, também pode, pelo contrário, diminuir. Efectivamente, essa é uma variável sensível e exposta a conjunturas, desempenhos e articulações muito complexas que ninguém está em condições de garantir.
De natureza diversa, a carga fiscal (uma constante), que por decreto se determina e pela força se impõe, tende a ser estrutural, duradoura e inflexível na sua aplicação.

Apenas este detalhe deveria ser suficiente para rejeitar mais este truque dos curadores de serviço. Muito aquém do conhecimento e acutilância que Arroja expõe no artigo que escreve, esta simples estupefacção que aqui se indicou, julgo, seria suficiente para mostrar o abuso na acção e no discurso políticos.

Não há muito se assinalou a circularidade destes truques. Mas essa é a natureza do jogo a que somos obrigados a assistir.
No lado de dentro do círculo. De fogo.

segunda-feira, 12 de março de 2018

No reino maravilhoso



Os deuses europeus falaram na semana passada. O discurso de Draghi foi, para dizer o mínimo, intrincado. Com sentidos apenas aparentes. Parece-me que se começa a pressentir mudanças necessárias nas políticas monetárias e financeiras, mas não parece haver espaço para as concretizar.

Acerca disto nada de substancial se diz ou analisa nos meios convencionais. Só o óbvio da catástrofe que prevê o centrão político europeu acerca dos resultados das eleições italianas.
Comprende-se. Falta espaço.

A passear


quinta-feira, 8 de março de 2018

Citação do dia (203)

"Ao autorizar que o governo interfira, desumana e implacavelmente, com todas as opiniões que possam existir, estamos a ceder o direito de interpretar o pensamento e a permitir a extracção de conclusões. Para dizê-lo mais directamente, significa abdicar da razão e do raciocínio, que seriam aquilo mesmo que deveria ser a base da oposição ao governo.
Isto é equivalente ao rápido estabelecimento do despotismo."

Benjamin Constant, "On freedom of thought"

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Aquiles e a tartaruga



Diferentes velocidades. Diferentes riscos. Diferentes filosofias.
Fonte e contexto (com ligação para relatório de fundo de investimento) - aqui.

Acrescente-se este dado: a libra inglesa tem desvalorizado 11,5% por ano face ao ouro desde 2003.

Cada um julga por si.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Para lá do contraplacado



Depois das "boas notícias" aos bons alunos e da soberba dos políticos nacionais, a realidade mostra-se bem mais difícil de domesticar. Por maior que seja a carga de napalm-liquidez que se largue do computador do BCE.
"Adoramos o cheiro da intervenção pela manhã."

Saberemos o que está para lá do contraplacado?

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Optimismos

73 implicações estonteantes

"As empresas de tecnologia e programação dominarão, cada vez mais, a economia mundial à medida que empresas como a Uber, a Google ou a Amazon alterem o sector dos transportes como o conhecemos para um serviço pago enquanto use.
O software vai devorar este mundo (sic), de facto.
Ao longo do tempo, aquelas empresas terão tantos dados acerca das pessoas, dos seus padrões de consumo e de eventuais obstáculos que será muito difícil a entrada de novos agentes nesses mercados.

Sem intervenção estatal (ou de qualquer iniciativa concertada), haverá uma tremenda transferência de riqueza para um pequeno número de pessoas que sejam proprietárias de programas específicos, de soluções de produção de energia, dos veículos de serviço ou da infraestrutura de manutenção.
Haverá uma grande consolidação das empresas que sirvam estes mercados à medida que a eficiência e a escala se tornem mais interessantes."


Geoff Nesnow, "73 implicações estonteantes dos carros e camiões autónomos", 9 de Fevereiro de 2018.

Anexo aqui algumas observações críticas relativamente ao artigo (versão completa na ligação colocada acima). Traduziu-se uma pequena, mas relevante julgamos, parte do artigo para destacar dois aspectos:

Por um lado, o optimismo evangélico destes promotores das tecnologias digitais. Optimismo que rapidamente esmorece quando contempla objecto tão complexo como o mercado ou a economia real (muito mais complexo do que as novíssimas tecnologias que pregam!). E esse esmorecimento conduz sempre à sacra visão de que o estado tem de intervir para regular, para salvar, para melhorar (acrescentar o que se quiser) ou para afinar os detalhes éticos de certos negócios.
Esta ingenuidade (evito outra expressão, note-se) é historicamente conhecida e não é produto deste tempo novo. E o que destaco aqui é a incapacidade de compreender que as actuais configurações dos mercados (neste caso das tecnologias digitais) dependem, justamente, das directrizes que os estados terão dado aos respectivos sectores anteriormente. Quantas vezes essas directrizes não são, precisamente, resultado do conluio entre agentes políticos e agentes económicos? Naturalmente, estes inocentes-pseudo-criativos não têm capacidade para reconhecer este facto. Ou têm?

Por outro lado, note-se a confusão que estes inocentes-pseudo-criativos (adorei e agora abuso, que me desculpem os leitores) fazem entre dados e informação.
Por aqui partilhamos a preocupação com a recolha e utilização de dados pessoais por parte de empresas e estados, mas não confundimos dados com informação significativa, que possa ter uma aplicação económica (ou outra) que seja viável e sustentada. E é, julgamos, esta confusão que tem sustentado grande parte do entusiasmo e do crescimento do sector das tecnologias digitais. Que depois não sobrevive ao teste do tempo.

O futuro pode ser promissor, mas exige-nos menos a disposição de acreditar do que a capacidade de questionar a qualidade dos desafios e soluções que cada um enfrenta para responder às suas necessidades. Favorecer o desenvolvimento de uma visão verdadeiramente criativa do futuro é assumir aquela responsabilidade crítica, é aprender com o passado e ancorar o caminho em fundamentos menos circulares e mais esclarecidos. Dispensando, por exemplo, a ideia do estado paternalista. Isso sim seria original.

Serão capazes, os inocentes?

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Citação do dia (202)

"Como a Goldman Sachs indicou recentemente, tem havido catorze ciclos de baixa volatilidade desde 1928 e todos esses ciclos necessitaram de um poderoso choque - seja uma guerra ou uma recessão - para terminar.
No entanto, o facilitamento-quantitativo (QE) e a explosão de estratégias passivas de investimento impedem que a História nos ensine alguma coisa acerca do que está para vir. E, quanto mais longa for a supressão da volatilidade, maior será a bolha. Esta, por sua vez, exigirá uma correcção mais dura e custosa para a mentalidade dominante.
Como Hyman Minsky disse uma vez:´Quanto mais estáveis as coisas se tornam e mantêm, mais instáveis elas estarão quando a crise chegar.`"

Kiril Sokolov, 13DResearch, "Why a toxic mix of low volatility..."