quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Citação do dia (175)

"Os novos valores que vão surgindo parecem justificar o abandono dos antigos valores e regras. A confiança em si mesmo, o auto-controlo e a independência, por exemplo, são substituídos pela equidade, segurança e cuidados de saúde universais. No entanto, são fáceis de identificar as clivagens entre os velhos valores e os novos.
Os novos valores reflectem uma profunda mudança nas atitudes. De assumir riscos a passar evitá-los de todo. Da produção de riqueza à preocupação exclusiva na sua preservação. Da ausência de interferências do estado (laissez-faire) ao controlo centralizado por parte do estado.
Mas estas diferenças são também expressas num conjunto diferenciado de direitos. Os antigos eram direitos a que cada um pudesse fazer algo por si mesmo. Os últimos são direitos a forçar alguém a fazer algo para mim. Os primeiros exigiam cooperação, estes últimos exigem apenas o medo e, de seguida, a violência."

Bill Bonner, "O refluxo da modernidade" - 22 de Outubro de 2014

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Economistas que nos envergonham embaraçam

A lei da procura é a mais fundamental das leis de todo o corpo da teoria económica: se tudo o resto se mantiver constante (a necessária condição ceteris paribus), um aumento que se verifique no preço de um bem ou serviço terá como consequência uma diminuição da sua quantidade procurada pelas pessoas. Recordo-me, ainda de joelhos esfolados, ouvir o meu avô materno, pequeno agricultor de sequeiro e desconhecedor do alfabeto, referir-se-lhe frequentemente, saber de experiência feito. Mas há quem teime, entre os que ominosamente se reclamam de economistas, que há um caso específico em que esta lei não se observa e, por conseguinte, a invalida, tese que o governo, pela voz do ministro Mota Soares, subscreve (apesar da troika). Walter Williams, no artigo que hoje seleccionei (minha tradução), volta a explicar por que razão essa alegada excepção é um rematado disparate gerador de desemprego entre os menos qualificados. Uma pergunta: já repararam no recente "mobiliário" com que muitas lojas da McDonald's foram recentemente dotadas? (Via LRC)
Por Walter Williams
20 de Outubro de 2014

Economistas que nos embaraçam
(Embarrassing Economists)

Com o objectivo de transmitir uma certa perspectiva, vou pedir ao leitor que faça algumas conjecturas quanto ao comportamento humano antes de explicar o meu embaraço perante alguns dos meus colegas economistas.

Walter E. Williams
Suponha o leitor que os preços das jóias de senhoras aumentaram 100%. O que preveria que iria acontecer às vendas? E se o aumento de preços fosse de 25% ou 50%? A minha suposição é que uma pessoa comum iria prever que as vendas cairiam.

Emitiria a mesma previsão acerca das vendas de automóveis se os seus preços aumentassem 100% ou 25% ou 50%? Suponha o leitor que é o presidente executivo da General Motors e o seu director de vendas lhe diz que a empresa poderia aumentar as vendas de automóveis através do anúncio de um aumento de preços de 100% ou 50%. Eu imagino que despediria o director de vendas invocando quer insanidade como incompetência.

Tentemos mais um exemplo. Qual seria a sua previsão, caro leitor, quanto às vendas de habitações se os seus preços subissem 50%? Supondo que iria prever uma queda nas vendas. Nesta altura, dirá: "Ok, Williams, já me está fazer perder a paciência com essas questões óbvias. Onde é que pretende chegar?"

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

O lado mau

Bytes

A leitura deste último artigo de Doug Noland, de que aqui se publicam algumas passagens, é muito recomendada. Pleno de realismo não deixa, porém, de causar inquietação. Isto porque ao discurso e à discussão pública falta considerar as consequências do que já se fez e se continua a fazer - política e economicamente. E esse raciocinar pela metade está a ter sucesso. O entorpecimento é generalizado. Mas, não tenhamos dúvidas, as "soluções mágicas" estão traçadas e serão apresentadas num brilhante (e trágico) encadeamento. O guião está escrito, aguarda apenas o momento da sua encenação.
O lado mau de “fazer tudo o que for preciso” - Doug Noland - 17 de Outubro de 2014

"Alguém que não esteja realmente preocupado não percebe o que se está a passar.

Considero todo o cenário surreal. E, quanto mais as pessoas agem como se nada se passasse, mais preocupado fico. Por estranho que pareça, estes dias lembram-me a minha perplexidade quando estudava o período que conduziu à crise bolsista de 1929. Como é que foi possível não ver o que estava para vir? Como pôde toda a gente permanecer optimista – “num topo contínuo” – face àquilo que, posteriormente, era tão óbvio e perturbador: uma deterioração do mercado e das perspectivas da economia global.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Notícias do governo mais liberal de sempre

Não sei se arranjarei paciência para ir ler a proposta de orçamento de estado para 2015, mas é indubitável o que já "ganhámos" (notem o uso da 1ª pessoa do plural): Carga fiscal atingirá novo máximo histórico (37% do PIB em 2015). Conseguirá fazer melhor um governo nominal e assumidamente socialista? Sim, com certeza que sim. Podeis ficar descansados.

Foi também ontem conhecida a proposta da ERSE de evolução das tarifas de electricidade para 2015. No Jornal de Negócios a notícia surge: Tarifas de electricidade deverão subir 3,3% em Janeiro. Deo gratias! Só 3,3%! Reparem que poderia ser muito pior! Até porque "temos" que lutar contra a deflação que ameaça abater-se sobre as nossas cabeças. Como aliás acontece com o stock de défice tarifário: na senda do conseguimento prospectivo, ele só aumenta cerca de 400 milhões de euros, perspectivando-se que consiga alcançar a elegante soma de 5080 milhões de euros. Deo gratias!

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Em defesa do euro (na ausência do padrão-ouro)

No artigo que hoje proponho aos leitores, Gary North expõe o seu ponto de vista sobre a zona euro num mundo dominado pela moeda fiat. Num raciocínio próximo do de Jesús Huerta de Soto, na ausência do padrão-ouro internacional integral (isto é, o padrão moeda-ouro), é o euro, ou seja, o BCE, que constitui a única barreira, ainda que débil, ao desregramento orçamental dos estados membros. Nessa medida - e só nessa medida - o arranjo monetário da zona euro (um proxy do padrão-ouro como também lhe chamou JHS) é algo de bom e correcto, diz-nos North. Os que há 15 anos assinalam a "inconsistência" entre um planeamento central monetário supra-nacional e a diversidade fiscal dos diferentes estados da zona euro, e continuam clamando pela necessidade de aliar à união monetária (o euro) uma união fiscal (um orçamento supra-nacional), são os estrénuos defensores do centralismo e, por conseguinte, ferozes opositores à ideia da descentralização. Quem são estas pessoas? Os keynesianos, claro está. A doença é essa. Não há nenhuma inconsistência entre haver num dado espaço político-geográfico uma moeda única e diferentes políticas fiscais como frequentemente por aí se ouve (olhe-se para os Estados Unidos por exemplo). A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Gary North
11 de Outubro de 2014

O que está CORRECTO no Euro
(What's RIGHT With the Euro)

Eu penso como um economista. O economista pensa sempre em termos de alternativas. A mentalidade do economista foi expressa com clareza pelo falecido comediante, Henny Youngman. "Como está a sua mulher?" "Comparada com o quê?"

Gary North
Uma das acusações mais comuns contra o euro é a seguinte: "A zona euro é composta por uma moeda centralizada, mas por políticas fiscais nacionais descentralizadas." Eu nunca vi nenhum dos críticos que invocam este argumento propor a abolição do euro e do Banco Central Europeu. Este argumento é sempre invocado para defender a ideia de união fiscal. Por outras palavras, não há nenhum esforço para descentralizar as moedas na zona euro. Mas há uma forte pressão, ainda que até agora ineficaz, para unificar as políticas fiscais da eurozona.

Pense o leitor nas implicações disto. Consegue ver o que há de errado neste argumento?

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"

Recordo-me com razoável nitidez dos tempos em que a RTP, anos a fio, "informava" diligentemente os seus telespectadores das sucessivas "vitórias" dos "exércitos" do Vietname do Sul e do Cambodja de Lon Nol e das impressionantes baixas consistentemente infligidas aos vietcongs. Com o desaparecimento da Indochina francesa - Vietname, Cambodja e Laos -, os EUA tentaram instalar em seu lugar uma pax americana. O resultado é conhecido e dele ressalta, pela dimensão do horror indizível, o regime genocida de Pol Pot (que, por uma das ironias da História, só viria a ser derrubado pelo Vietname comunista).

Hoje já não vejo televisão. Também talvez por isso creio ajustados os paralelos que o veterano jornalista John Pilge estabelece entre a "criação" de Pol Pot e a do que hoje conhecemos por Estado Islâmico, ISIS/ISIL, e do "exército" iraquiano sem concluir pela paternidade comum. As acções têm consequências e muitas das vezes - as mais das vezes? - produzem efeitos inesperados, indesejáveis e até mesmo contraproducentes para com os objectivos de quem as iniciou. No texto que procurei traduzir (onde inseri imagens e links da minha responsabilidade) são invocados vários testemunhos a que é impossível ficar indiferente. Como esquecer estas palavras de Madeleine Albright ao programa 60 Minutos quando tacitamente aceita atribuir ao bloqueio iraquiano a causa da morte de meio milhão de crianças e ter a temeridade de afirmar que "foi um custo que valeu a pena incorrer"? Como ignorar estas declarações de Roland Dumas (antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros sob François Mitterand), proferidas no ano passado na TV francesa, para entender a guerra terrível que dura há 3 anos e meio na Síria? Ou não merece isto, literalmente visível da janela da Turquia, a urgente retirada de conclusões?
Por John Pilge
8 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"
(From Pol Pot to ISIS: “Anything that flies on everything that moves”)

Quando transmitiu as ordens do presidente Richard Nixon para o bombardeamento "maciço" do Cambodja em 1969, Henry Kissinger disse: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova".

Agora que Barack Obama desencadeou a sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir uma nostalgia da honestidade assassina de Kissinger.

Enquanto testemunha das consequências humanas da selvajaria aérea - incluindo a decapitação das vítimas, cujos pedaços ornamentavam as árvores e os campos - não estou surpreendido pela desconsideração, uma vez mais, pela memória e pela história. Um exemplo revelador é o da ascensão ao poder de Pol Pot e dos seus Khmers Vermelhos, que tinham muito em comum com Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) dos dias de hoje. Também eles foram implacáveis ​​medievalistas que começaram por ser uma pequena seita. Também eles foram o produto de um apocalipse de fabrico americano, no caso na Ásia.

Foto do The Guardian
De acordo com Pol Pot, o seu movimento consistia em "menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto à estratégia, táctica, lealdade e líderes a seguir". Iniciados os bombardeamentos pelos B-52 de Nixon e Kissinger como parte integrante da "Operação Menu", o demónio supremo do Ocidente mal podia acreditar na sua sorte.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Valor

O teste do tempo


As últimas semanas foram ricas em acontecimentos relevantes do ponto de vista financeiro. Muito relevantes, acrescentaria. Por esse mundo fora, registou-se um aumento na volatilidade dos índices bolsistas - com tendência claramente negativa, mas pouco pronunciada. Ainda.

sábado, 11 de Outubro de 2014

Por que é importante a privacidade

Glenn Greenwald estilhaça a usurpação do dito "quem não tem nada a esconder, não teme" para tentar justificar a tolerância, complacência e submissão perante o Estado de Vigilância e, em consequência, a aceitar o fim da privacidade de cada um de nós, o mesmo é dizer, da Liberdade. De caminho não poupa, como Julian Assange, estrelas do firmamento cibernético como Eric Schmidt (ex-CEO e actual Chairman da Google) ou Mark Zuckerberg (CEO da Facebook) de facto coniventes com a ilegal e maciça recolha cega de dados sem que para tal exista mandado judicial ou, sequer, "causa provável".


Um excelente fim-de-semana!