quarta-feira, 27 de maio de 2015

Citação do dia (187)

Quais são as principais lições que os legisladores devem retirar da análise do ano de 1944, quando se preparam para discutir a reforma do sistema financeiro internacional?

Na essência, Bretton Woods foi um acordo entre duas nações cujas políticas eram cruciais para o sistema financeiro internacional daquela época: os Estados Unidos, a dominante nação credora, e a Grã-Bretanha, o seu maior devedor. Aquele concordou em dar assistência às nações que lutavam com défices nas contas correntes, e o último negando insistentemente desvalorizações competitivas.
Actualmente, um roteiro para a cooperação nas reformas necessárias ao sistema monetário parece estar fora da agenda política. O maior credor mundial (a China) e o seu maior devedor (os EUA) não parecem disponíveis para sublimar as suas prerrogativas na esfera monetária – a China em controlar a sua taxa de câmbio e os EUA em controlar as taxas de juro em dólares - numa qualquer concepção abstracta de bem comum. Isto significa que as mudanças ao sistema serão, muito provavelmente, desordenadas e confrontacionais.
Por exemplo, as moedas dos mercados emergentes e a venda apressada das suas obrigações, logo após o planeado abrandamento das políticas de injecção de liquidez da Reserva Federal em Maio do ano passado, irão incentivar as nações emergentes a evitar a apreciação das suas moedas quando os tempos estão bons, a programar um superavit permanente nas suas contas correntes e a aumentar fortemente as suas reservas em dólares. Os responsáveis americanos referem-se a estes pacotes de medidas como “manipulação monetária” e estão já a exigir provisões que tornem ilegais estas práticas em todos os futuros acordos comerciais.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Por detrás da cortina: a Autoridade de Repressão Financeira

"Os programas de injecção de liquidez (QE) são um modo de anular a dívida"

Tentando descortinar todos os recantos do palco em que nos encontramos, o seguinte vídeo é surpreendente na sua simplicidade. Richard Duncan procura explicar (e mostrar com dados de intervalos temporais consideráveis) que o "Truman Show" já dura, pelo menos desde a IIª Grande Guerra. Os pilares deste espectáculo - crédito, valorizações de activos financeiros e crescimento da dívida -, a sua origem e o seu propósito tornam-se claros e podemos projectar o futuro próximo do ponto de vista económico e político.

As dinâmicas de globalização, sendo deflacionárias, despertam o interesse das Autoridades em levar a cabo uma Repressão Financeira de proporções nunca vistas. Que por sua vez conduzirá a reacções políticas que aprofundarão a distância para a concretização de um mercado mais livre e próspero. São estas as linhas por onde segue a entrevista.

Dias após Vítor Gaspar ter escrito acerca da desigualdade e o que se pode fazer para a diminuir aumentar, este vídeo acaba por ser premonitório.


sábado, 16 de maio de 2015

Abordagem complexa versus abordagem "Mick Jagger"

"You can´t always get what You want"

O teatro grego continua. E, por muito que me esforce, não consigo evitar lembrar-me das múltiplas declarações de Jean-Claude Juncker nos últimos anos. Muito se diz e escreve acerca do momento-quase-perfeito de resolução dos problemas em torno da Grécia nos meios de comunicação convencionais. É o problema da Europa, não esqueçamos.

Seguindo a multiplicação de referências dos responsáveis europeus acerca "do governo grego"e "do seu comportamento inadmissível", é impossível não ficar inquieto. Inquietude que resulta do esforço de tentar compreender, em toda a sua extensão, as subtilezas e os riscos da nossa situação comum e detectar o mais vil entorse perceptivo.

A tentativa de demarcar-nos (a Portugal, mas também à Espanha como casos de sucesso, entre outros) destes riscos tem de compreender-se como a distracção induzida ao animal que, assim, corre mais alegre e lesto para o matadouro. Isso tem, claro, vantagens imediatas - o preço da nossa dívida é renegociado, as exigências dos credores são aliviadas como incentivo aos ímpetos reformadores -, e por aí fora. Mas a condição geral permanece. Inexorável.

Alguém com um pouco de bom senso pode ficar aliviado quando, após anos de liquidez forçada nos mercados (EUA, Japão, Zona Euro e agora China), não se vislumbram sinais sólidos de dinamismo económico?
O cenário onde as yields das obrigações soberanas (das nações que contam, claro está!) descem e os preços dos índices bolsistas ultrapassam máximos históricos de modo recorrente é promissor? Mas para quem?

Na imagem, que peça está ali em quarto lugar?



Tentando enquadrar os problemas europeus numa escala maior, propomos o visionamento de uma palestra de James Rickards. O autor procurou contrastar os modelos de interpretação dos fenómenos económicos, vigentes nas grandes instituições internacionais, com os modelos complexos que ele desenvolve para o mesmo fim.
Nela chamamos a atenção para o período de perguntas e respostas que é, apesar de tudo, mais rico de detalhes e significado (a partir dos 30 minutos aproximadamente).

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Citação do dia (186)

“Na análise de casos históricos e presentes de excessivo endividamento, notamos algumas tendências transversais que importa sublinhar:

- em primeiro lugar, quando todas as grandes economias enfrentam um elevado crescimento da sua dívida, nenhuma delas pode ser um motor para o crescimento económico mundial; esta condição está tão presente agora como estava nos anos de 1920-1930;

- em segundo lugar, as desvalorizações monetárias resultam enquanto os países tentam estimular o crescimento à custa uns dos outros; os países são forçados a fazer isso, porque a política monetária é, na verdade, ineficaz;

- em terceiro lugar, estas desvalorizações providenciam um estímulo à actividade económica, mas os benefícios são transitórios, porque os outros países estão do lado que perde e vão retaliar; no fim, cada uma das partes acaba por ficar numa pior condição e este processo é perturbador para os mercados;

- em quarto lugar, as economias historicamente mais avançadas só puderam curar o seu endividamento através de um período de significativo aumento da poupança e da austeridade; e historicamente a austeridade começa por uma das seguintes causas: quando é auto-imposta, por exigências externas ou por circunstâncias imprevistas. ”

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A "Guerra ao Terror" como instrumento de erosão da Liberdade

Ficámos hoje a saber, através de provas concludentes fornecidas pela inevitável Wikileaks (pois quem mais?), que também os serviços secretos alemães (à semelhança, entre outros, de britânicos, franceses ou espanhóis) colabor(ar)am activamente com a NSA no processo de recolha maciça de informações relativas a comunicações telefónicas e do tráfego de Internet. Ficamos assim com novos dados para melhor avaliar o alegado estado de choque com que a Sra. Merkel recebeu a notícia de estar a ser escutada pela NSA...

Público, edição de de 6 de Maio de 2015
Os estados agem hoje sob o pressuposto de que todos os seus cidadãos são potencialmente suspeitos - no presente, como no futuro. É do combate ao "pré-crime" que se trata, pois. Por isso, deixaram de considerar necessário o aborrecido procedimento do passado que consistia em obter um mandado judicial dirigido a indivíduos sobre os quais houvesse prévias e fundadas razões de suspeita de actividades ilícitas. Espantosa a facilidade com que a constitucionalidade da coisa foi remetida às urtigas por todo o lado. Se a isto aliarmos a intensificação da "guerra ao cash" que, recorde-se, já dura há décadas - o derradeiro reduto da privacidade do indivíduo - que os ocidentais, e em particular os franceses, vêm conduzindo, não é uma chalaça afirmar que, afinal, Orwell seria mesmo um optimista.

Inteiramente expectável, entretanto, o excepcional cuidado com que os media convencionais, para sua eterna vergonha, têm desvalorizado, quando não acarinhado - vide recorte lateral do Público - o avassalador assalto à Liberdade pela via da eliminação da privacidade.

E é aqui que a perversidade da "Guerra ao Terror" se insere ao impor um alegadamente inevitável trade-off entre liberdade e segurança que, com complacência, se foi instalando sem atender ao sábio conselho de Benjamin Franklin: «Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança

A complacência, para usar um termo suave, com que os países europeus, e em particular a Alemanha, têm demonstrado para com o Tio Sam, sem mostrarem a capacidade de formular políticas autónomas ao serviço dos seus próprios interesses, tornam perfeitamente justificável as palavras certeiras, incisivas mas sempre educadas de Sahra Wagenknecht, líder do partido Die Linke e membro do parlamento (Bundestag), dirigidas a Frau Merkel. Está disponível a legendagem em inglês bastando activá-la. Vídeo de muito recomendável visionamento.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

40 anos após o termo da Guerra do Vietname - testemunho e análise de Eric Margolis

A dia 30 de Abril último passaram 40 anos sobre a queda de Saigão (hoje cidade de Ho Chi Minh) às mãos do exército regular norte-vietnamita (imagens). Terminava assim a 2ª guerra da Indochina (uma outra designação para a guerra do Vietname), que se iniciara de forma larvar logo após o termo da 1ª (1946-1954) - quando os franceses foram forçados a abandonar as suas pretensões coloniais no sudeste asiático - para grande consternação americana - na sequência da estrondosa derrota militar sofrida em Dien Bien Phu. Era o tempo da "teoria do dominó", adoptada pela administração Eisenhower, doutrina segundo a qual era imperioso conter a "contaminação" de um país numa dada região pelo vírus comunista pois, caso contrário, a infecção espalhar-se-ia inexoravelmente aos seus vizinhos. As sucessivas administrações decidiram aumentar a sua intervenção no Vietname até que, com Lyndon Johnson, se iniciou o horror em grande escala. A derrota americana deixou marcas profundas e fez regredir, embora momentaneamente como se veria, a pulsão intervencionista no país. Não por acaso, o então (e ainda) influente Zbigniew Brezhinski gabava-se de ter conseguido atrair a então União Soviética para o seu próprio "Vietname" (quando a URSS invadiu o Afeganistão em 1979. Uns anos mais tarde (1983) será Reagan, pela via da invasão da minúscula Granada, que faria reacender o activismo militar intervencionista americano.

No texto que hoje proponho aos leitores, Eric Margolis refere a sua condição de participante directo no conflito e como a sua própria adesão inicial se desvaneceu. Passa em revista alguns dos marcos daquela guerra, das doutrinas e da geopolítica, não lhe custando encontrar paralelismos com os tempos que correm. E com os erros que se repetem. Não está optimista - «Infelizmente, parecemos ter esquecido tudo sobre a guerra do Vietname sem que tenhamos aprendido nada.»
2 de Maio de 2015
Por Eric Margolis


Eric Margolis
Corria o ano de 1967. A guerra do Vietname estava no auge.

Eu tinha 24 anos e acabara de sair da escola de pós-graduação de New York City. Tinha sido aceite na Universidade de Cambridge para fazer um doutoramento em história.

Mas não. Num acesso de patriotismo de juventude, concluí que era dever de todo o cidadão alistar-se nas forças armadas em tempo de guerra. Foi assim que me ofereci como candidato a oficial de infantaria do Exército dos EUA e enviado para a instrução básica.

A vida só pode ser compreendida em retrospectiva e é com a sabedoria que ela proporciona que a maioria das pessoas considera que os longos 20 anos da Guerra do Vietname foram um erro terrível, um crime mesmo. Mas, à época, o envolvimento militar dos EUA na Indochina parecia fazer sentido. Para mim não havia dúvidas. Eu estava orgulhoso por vestir o uniforme do meu país.

O general Douglas MacArthur advertira os americanos para "nunca travarem uma guerra terrestre na Ásia". Ele havia presidido, uma década antes, ao impasse sangrento na Coreia e conhecia a capacidade combativa e a tenacidade dos soldados asiáticos.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Citação do dia (185)

“O Estado não é um bando de homens, com as suas armas, prisões e recursos. O Estado é a atitude de cada súbdito para com aqueles homens e as suas maquinações, bem como os mitos que moldam aquela atitude. O Estado é uma “grande ficção”, como disse Frederic Bastiat. Ou uma “perigosa superstição” como considera Larken Rose.
O Estado é a ameaça e a mentira do rufia que a vítima interioriza. O síndrome de Estocolmo institucionalizado. O Estado é a doença que vive na mente das suas vítimas. É aí, na batalha das ideias, que o Estado tem de ser verdadeira e totalmente vencido.
Um Estado sem legitimidade é uma contradição nos próprios termos. Destruir a legitimidade na mente dos seus súbditos, expondo as mentiras que suportam aquela legitimidade é já ter vencido e aniquilado o próprio Estado. Assim deixando um minúsculo bando criminoso no seu lugar.”

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Realismo e Ironia

"Se alguém pensa que a história terá um desfecho feliz, anda distraído."

No "Truman Show" em que vivemos, a luta pela manutenção de uma narrativa controlada está ao rubro. Seja pelo impressionante esforço injector das autoridades monetárias europeias, seja pelas sedentas máquinas partidárias.
No primeiro caso, o esforço de liquidez do BCE parece estar a produzir os seus efeitos na descida dos preços da dívida, o que faz folgar a corda que - não esqueçamos - trazemos ao pescoço. Mas os resultados substanciais esperados tardam em aparecer.
No que diz respeito às encenações políticas, o esforço está centrado na tentativa de manutenção das entorses perceptivas e, consequentemente, da redução dos cenários alternativos que ponham - verdadeiramente - em causa o que importa. Talvez exemplo maior desse esforço possam ser o ruído em torno das candidaturas presidenciais. Ou, numa tão curiosa mistura das duas dimensões económica e política, o caso da TAP.
Esse ruído é, não esqueçamos, a banda sonora da narrativa oficial.
Aqueles que têm a ousadia de ser independentes de uma encenação desta natureza têm a tarefa dificultada. Com o intuito de mostrar como se pode exercer essa independência, trago à consideração dos leitores uma pequena entrevista a Rick Rule (Sprott Global). Esta entrevista está direccionada a obter a reacção de um investidor às mais recentes manobras na economia de comando e controlo em que vivemos. Se o mote da entrevista é a mais recente reunião da Reserva Federal (FOMC) face à situação interna nos EUA, facilmente podemos extrapolar a análise nela levada a cabo para a "realidade" global.
Uma análise feita de realismo. De quem investe e cria valor e não tem ilusões acerca do que está em jogo.
É isto a que chamam os "génios indígenas" chamam de empreendedor? Será?
Mesmo?