terça-feira, 21 de Outubro de 2014

O lado mau

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A leitura deste último artigo de Doug Noland, de que aqui se publicam algumas passagens, é muito recomendada. Pleno de realismo não deixa, porém, de causar inquietação. Isto porque ao discurso e à discussão pública falta considerar as consequências do que já se fez e se continua a fazer - política e economicamente. E esse raciocinar pela metade está a ter sucesso. O entorpecimento é generalizado. Mas, não tenhamos dúvidas, as "soluções mágicas" estão traçadas e serão apresentadas num brilhante (e trágico) encadeamento. O guião está escrito, aguarda apenas o momento da sua encenação.
O lado mau de “fazer tudo o que for preciso” - Doug Noland - 17 de Outubro de 2014

"Alguém que não esteja realmente preocupado não percebe o que se está a passar.

Considero todo o cenário surreal. E, quanto mais as pessoas agem como se nada se passasse, mais preocupado fico. Por estranho que pareça, estes dias lembram-me a minha perplexidade quando estudava o período que conduziu à crise bolsista de 1929. Como é que foi possível não ver o que estava para vir? Como pôde toda a gente permanecer optimista – “num topo contínuo” – face àquilo que, posteriormente, era tão óbvio e perturbador: uma deterioração do mercado e das perspectivas da economia global.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Notícias do governo mais liberal de sempre

Não sei se arranjarei paciência para ir ler a proposta de orçamento de estado para 2015, mas é indubitável o que já "ganhámos" (notem o uso da 1ª pessoa do plural): Carga fiscal atingirá novo máximo histórico (37% do PIB em 2015). Conseguirá fazer melhor um governo nominal e assumidamente socialista? Sim, com certeza que sim. Podeis ficar descansados.

Foi também ontem conhecida a proposta da ERSE de evolução das tarifas de electricidade para 2015. No Jornal de Negócios a notícia surge: Tarifas de electricidade deverão subir 3,3% em Janeiro. Deo gratias! Só 3,3%! Reparem que poderia ser muito pior! Até porque "temos" que lutar contra a deflação que ameaça abater-se sobre as nossas cabeças. Como aliás acontece com o stock de défice tarifário: na senda do conseguimento prospectivo, ele só aumenta cerca de 400 milhões de euros, perspectivando-se que consiga alcançar a elegante soma de 5080 milhões de euros. Deo gratias!

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Em defesa do euro (na ausência do padrão-ouro)

No artigo que hoje proponho aos leitores, Gary North expõe o seu ponto de vista sobre a zona euro num mundo dominado pela moeda fiat. Num raciocínio próximo do de Jesús Huerta de Soto, na ausência do padrão-ouro internacional integral (isto é, o padrão moeda-ouro), é o euro, ou seja, o BCE, que constitui a única barreira, ainda que débil, ao desregramento orçamental dos estados membros. Nessa medida - e só nessa medida - o arranjo monetário da zona euro (um proxy do padrão-ouro como também lhe chamou JHS) é algo de bom e correcto, diz-nos North. Os que há 15 anos assinalam a "inconsistência" entre um planeamento central monetário supra-nacional e a diversidade fiscal dos diferentes estados da zona euro, e continuam clamando pela necessidade de aliar à união monetária (o euro) uma união fiscal (um orçamento supra-nacional), são os estrénuos defensores do centralismo e, por conseguinte, ferozes opositores à ideia da descentralização. Quem são estas pessoas? Os keynesianos, claro está. A doença é essa. Não há nenhuma inconsistência entre haver num dado espaço político-geográfico uma moeda única e diferentes políticas fiscais como frequentemente por aí se ouve (olhe-se para os Estados Unidos por exemplo). A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Gary North
11 de Outubro de 2014

O que está CORRECTO no Euro
(What's RIGHT With the Euro)

Eu penso como um economista. O economista pensa sempre em termos de alternativas. A mentalidade do economista foi expressa com clareza pelo falecido comediante, Henny Youngman. "Como está a sua mulher?" "Comparada com o quê?"

Gary North
Uma das acusações mais comuns contra o euro é a seguinte: "A zona euro é composta por uma moeda centralizada, mas por políticas fiscais nacionais descentralizadas." Eu nunca vi nenhum dos críticos que invocam este argumento propor a abolição do euro e do Banco Central Europeu. Este argumento é sempre invocado para defender a ideia de união fiscal. Por outras palavras, não há nenhum esforço para descentralizar as moedas na zona euro. Mas há uma forte pressão, ainda que até agora ineficaz, para unificar as políticas fiscais da eurozona.

Pense o leitor nas implicações disto. Consegue ver o que há de errado neste argumento?

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"

Recordo-me com razoável nitidez dos tempos em que a RTP, anos a fio, "informava" diligentemente os seus telespectadores das sucessivas "vitórias" dos "exércitos" do Vietname do Sul e do Cambodja de Lon Nol e das impressionantes baixas consistentemente infligidas aos vietcongs. Com o desaparecimento da Indochina francesa - Vietname, Cambodja e Laos -, os EUA tentaram instalar em seu lugar uma pax americana. O resultado é conhecido e dele ressalta, pela dimensão do horror indizível, o regime genocida de Pol Pot (que, por uma das ironias da História, só viria a ser derrubado pelo Vietname comunista).

Hoje já não vejo televisão. Também talvez por isso creio ajustados os paralelos que o veterano jornalista John Pilge estabelece entre a "criação" de Pol Pot e a do que hoje conhecemos por Estado Islâmico, ISIS/ISIL, e do "exército" iraquiano sem concluir pela paternidade comum. As acções têm consequências e muitas das vezes - as mais das vezes? - produzem efeitos inesperados, indesejáveis e até mesmo contraproducentes para com os objectivos de quem as iniciou. No texto que procurei traduzir (onde inseri imagens e links da minha responsabilidade) são invocados vários testemunhos a que é impossível ficar indiferente. Como esquecer estas palavras de Madeleine Albright ao programa 60 Minutos quando tacitamente aceita atribuir ao bloqueio iraquiano a causa da morte de meio milhão de crianças e ter a temeridade de afirmar que "foi um custo que valeu a pena incorrer"? Como ignorar estas declarações de Roland Dumas (antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros sob François Mitterand), proferidas no ano passado na TV francesa, para entender a guerra terrível que dura há 3 anos e meio na Síria? Ou não merece isto, literalmente visível da janela da Turquia, a urgente retirada de conclusões?
Por John Pilge
8 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"
(From Pol Pot to ISIS: “Anything that flies on everything that moves”)

Quando transmitiu as ordens do presidente Richard Nixon para o bombardeamento "maciço" do Cambodja em 1969, Henry Kissinger disse: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova".

Agora que Barack Obama desencadeou a sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir uma nostalgia da honestidade assassina de Kissinger.

Enquanto testemunha das consequências humanas da selvajaria aérea - incluindo a decapitação das vítimas, cujos pedaços ornamentavam as árvores e os campos - não estou surpreendido pela desconsideração, uma vez mais, pela memória e pela história. Um exemplo revelador é o da ascensão ao poder de Pol Pot e dos seus Khmers Vermelhos, que tinham muito em comum com Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) dos dias de hoje. Também eles foram implacáveis ​​medievalistas que começaram por ser uma pequena seita. Também eles foram o produto de um apocalipse de fabrico americano, no caso na Ásia.

Foto do The Guardian
De acordo com Pol Pot, o seu movimento consistia em "menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto à estratégia, táctica, lealdade e líderes a seguir". Iniciados os bombardeamentos pelos B-52 de Nixon e Kissinger como parte integrante da "Operação Menu", o demónio supremo do Ocidente mal podia acreditar na sua sorte.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Valor

O teste do tempo


As últimas semanas foram ricas em acontecimentos relevantes do ponto de vista financeiro. Muito relevantes, acrescentaria. Por esse mundo fora, registou-se um aumento na volatilidade dos índices bolsistas - com tendência claramente negativa, mas pouco pronunciada. Ainda.

sábado, 11 de Outubro de 2014

Por que é importante a privacidade

Glenn Greenwald estilhaça a usurpação do dito "quem não tem nada a esconder, não teme" para tentar justificar a tolerância, complacência e submissão perante o Estado de Vigilância e, em consequência, a aceitar o fim da privacidade de cada um de nós, o mesmo é dizer, da Liberdade. De caminho não poupa, como Julian Assange, estrelas do firmamento cibernético como Eric Schmidt (ex-CEO e actual Chairman da Google) ou Mark Zuckerberg (CEO da Facebook) de facto coniventes com a ilegal e maciça recolha cega de dados sem que para tal exista mandado judicial ou, sequer, "causa provável".


Um excelente fim-de-semana!

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Citação do dia (174)

"As ideias políticas que dominaram a opinião pública ao longo de décadas não podem ser refutadas pela via da argumentação racional. Elas terão que seguir o seu curso na vida e o seu colapso só poderá sobrevir na ocorrência de grandes catástrofes..."

Ludwig von Mises (escrevendo em 1919)

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

A generosidade de roubar a Pedro para dar a Paulo

O título que escolhi para o post talvez não permita uma associação directa às actividades (incluindo as "filantrópicas") de um certo Bernie Madoff. Mas tem. Porque são muitas as semelhanças entre as actividades redistributivas do estado social e o modus operandi daquele. É o que mostra o artigo, de Brandon Dutcher, que me propus traduzir (no qual introduzi alguns links).
7 de Outubro de 2014
Por Brandon Dutcher

O que o governo central e Bernie Madoff têm em comum
(What the Feds and Bernie Madoff Have in Common)

Bernard Madoff
Ao longo dos anos, o condenado Bernard Madoff, responsável pelo esquema ponzi que defraudou os seus investidores, doou "generosamente" milhões de dólares a instituições de beneficência - investigação do cancro, hospitais, teatros, escolas, etc. Pelo menos uma dessas organizações de caridade fez investimentos junto de Madoff, onde os fundos se evaporaram.

Mas Madoff não é o único que dá dinheiro às pessoas após ele lhes ter sido subtraído em primeiro lugar. Os dirigentes políticos de hoje angariam votos e aplausos dando presentinhos ao Zezinho, mas não se dão ao incómodo de dizer que a totalidade da conta vai direitinha para o cartão de crédito do Zezinho.

O ano escolar recomeçou, e "milhares de estudantes mais poderiam estar a usufruir do almoço escolar completamente grátis", noticia Jake Grovum na Stateline, "graças a um programa federal que se iniciou há quatro anos que finalmente se está a expandir a todos os 50 estados". (Finalmente!)

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

A vacuidade do "nós" político

No Jornal de Negócios (edição em papel) de 24 de Setembro último, o título de "A Cor do Dinheiro", a coluna diária de Camilo Lourenço (CL), rezava: "Estamos a repetir os erros do passado". Em destaque, alertava-se: "Portugal vai voltar a apostar no modelo errado de crescimento: o PIB será puxado pelo consumo (o investimento estagnou) e não pelas exportações."

O recurso à utilização da 1ª pessoa do plural nos temas políticos e económicos tornou-se tão comum, que, frequentemente, não damos conta do abuso que essa prática encerra. Mas que raio de "erro do passado" estou eu, Eduardo Freitas, a tornar a cometer? Quem é CL - por quem eu, aliás, até nutro alguma simpatia - para me estar a acusar implicitamente de querer voltar "a viver acima das minhas possibilidades"? Mas quem é que lhe disse que isso alguma vez me sucedeu (como a tantas outras pessoas)? E que dizer desta personificação da entidade Portugal que lhe confere uma vontade, uma (ir)racionalidade e um comandado devir porque o "Estado somos todos nós"? Implicitamente, e talvez mesmo contrariando a perspectiva do próprio CL, está a conferir ao Estado - e só a ele - a "chave" do sucesso ou insucesso económico de todo o país, sendo que as famílias e as empresas mais não são que meros agentes reactivos ora à largueza estatal (sob a forma de subsídios, ajudas, aumentos salariais e ads transferências sociais, etc.) ora à sua terrível "austeridade" (os "cortes"). O Estado oscila, pois, entre o Salvador e o Vilão, entre o "crescimento" e o "empobrecimento".

O artigo de Pierre Lemieux, de onde roubei o título do post, endereça algumas destas questões. Seguem-se alguns excertos (tradução e inserção de imagens da minha responsabilidade) que creio inteligíveis por não iniciados (embora todo o artigo seja, a meu ver, interessante):
We, Yevgeny Zamyatin
É quase impossível ler um jornal ou ouvir um discurso de um político sem tropeçar no padronizado "nós, enquanto sociedade" ou numa das suas variantes. "Sabem, nós vamos ter de fazer escolhas enquanto sociedade", disse o presidente Barack Obama referindo-se à vigilância da NSA. Até mesmo alguns economistas, que tinham a obrigação de estar mais atentos, caem nesta armadilha. Jonathan Gruber, um economista do MIT e um dos arquitectos do Obamacare, declarou: "Nós decidimos, enquanto sociedade, que não queremos que as pessoas tenham apólices de seguros de saúde que as exponham ao risco de incorrer em despesas de mais de seis mil dólares a pagar do seu próprio bolso."

O mesmo problema existe em expressões como "do ponto de vista da sociedade" ou "a sociedade como um todo" como ainda na personificação de países, como em "a América pensa ou faz, isso ou aquilo". Quando um vice-ministro afegão para os Assuntos Sociais disse que "[o] Afeganistão é um país islâmico e nós queremos que os nossos filhos sejam criados segundo os costumes islâmicos", ele estava a fazer o mesmo tipo de afirmação genérica, só que envolto numa bandeira diferente.

A verdade é que este "nós" colectivo não tem significado científico.

O "nós" colectivo pode fazer sentido quando respeita a um grupo contratual ("Nós na Ford produzimos excelentes automóveis") ou a um grupo constituído ou imaginado com o qual alguém se pretenda identificar. Mas para uma sociedade composta de diferentes indivíduos com diferentes preferências, onde é suposto que todos os indivíduos tenham igual importância, o "nós" colectivo não faz sentido. […]

Excepto, talvez, ao nível muito abstracto de um contrato social, expressões como "nós, enquanto sociedade" não têm significado determinável, a não ser para ilustrar "as pessoas que, como eu, impõem as suas preferências e escolhas aos outros". […]

Pierre Lemieux, 6-10-2014