sábado, 22 de abril de 2017

As curvas do sonho. Contraplacado. (actualizado)




Pergunto-me pelo fundamento de tanto optimismo dos curadores e das suas hostes.
Surpreende-me a inesperada vitalidade financeira que manifestam tantos municípios da área metropolitana de Lisboa a realizar obra por estes meses.
Assustam-me as mansas (mas mais ruidosas) reivindicações corporativas.

Só quando contemplo estas tabelas compreendo.
São os mágicos de serviço - os tecnocratas dos bancos centrais e seus associados políticos - a dar vida a esta economia colossal. Onde não há critérios de análise objectiva, não há independência dos seus agentes, onde o (suposto) regulador está investido nas entidades que é suposto regular.
Nada disto passa de uma economia de contraplacado. De uma economia sonhada, de contraplacado bem pintado e promissor. Mas que não pode resistir ao mais pequeno (mas sério) desafio.

Importa não esquecer, todavia, é que o BCE terá atingido a margem máxima de compra de títulos portugueses. O mesmo está prestes a acontecer a outros países europeus - como a Itália. Cuidado com ela. Mais preocupante que a Grécia.

Por muito sérios que possam ser os resultados das eleições francesas, quem vencer terá de enfrentar estas condicionantes. Elas são inescusáveis.
Para onde iremos a seguir?

Actualização: O Banco Central Europeu acaba de avisar que está preparado para a possível turbulência após as eleições em França - "está preparado para injectar dinheiro nos bancos franceses".
Ver aqui

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Master Class - Steven Bregman

"Investimento indexado - materializar a bolha"

Partilhamos com os nossos leitores uma apresentação de Steven Bregman no exclusivo ciclo de Conferências que James Grant conduz duas vezes por ano. Esta intervenção de Bregman ocorreu em Outubro do ano passado.
Para a melhor compreensão da informação apresentada será importante a análise dos diapositivos.

Alguns dos tópicos abordados são:
- duas gerações de investidores, dois mundos diferentes - duas tendências nas taxas de juro;
- a evolução na natureza e propósito dos fundos de investimento - a indexação (ETF´s);
- que suportes lógicos existem para as presentes valorizações (índices e empresas)?;
- as inovações nas opções de investimento traduzem-se numa compressão da volatilidade, mas estarão preparadas para mudanças inevitáveis (aumento das taxas de juro, por exemplo)?
- forçar estabilidade é apostar em mudanças drásticas e gravosas do ponto de vista financeiro, económico e social.

As comparações estabelecidas entre diferentes valorizações, os riscos potenciais e as intervenções dos bancos centrais são esclarecedoras. Assustadoramente esclarecedoras.
As perguntas ecoam. Haverá mercado livre? Haverá descoberta de preços?
Os bancos centrais, que têm fundos (aparentemente) ilimitados e não têm "skin in the game" (Nassim Taleb dixit), tornam-se accionistas de empresas, isso é sinal de um mercado livre?

Não posso deixar de considerar premonitória a referência inicial ao Titanic.

Boas reflexões.

Ver aqui

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Citação do Dia (198)

"A ´tirania` de Pisístrato fazia parte de um movimento mais alargado que se estava a desenvolver nas cidades comercialmente mais activas da Grécia do século sexto, para substituir o poder feudal de uma aristocracia proprietária pelo domínio político de uma classe média temporariamente aliada aos pobres. Tais ditaduras brotavam tanto de uma patológica concentração da riqueza, como de uma incapacidade dos ricos em alcançar um compromisso.

Forçados a escolher, o pobres - como os ricos - amam o dinheiro mais do que a liberdade política. E a única liberdade política capaz de perdurar é aquela que é preparada e cuidada para evitar que os ricos privem os pobres pela capacidade ou pela subtileza, e os pobres de roubarem os ricos pela violência ou pelos votos.

Assim, o caminho para o poder nas cidades comerciais gregas era simples: atacar a aristocracia, defender os pobres e alcançar um entendimento com a classe média. Chegado ao poder, o ditador abolia as dívidas e créditos, confiscava grandes propriedades, lançava impostos aos ricos para financiar obras públicas ou redistribuía a riqueza excessivamente concentrada. Depois de ganhar o consentimento das massas através de tais medidas, importava garantir o apoio da comunidade dos negócios promovendo o comércio, a emissão de moeda, a assinatura de tratados comerciais, ou aumentando o prestígio da burguesia.

Forçadas a depender da popularidade mais do que do poder hereditário, as ditaduras, na sua maior parte, mantiveram-se afastadas de guerras, suportavam a religião, mantinham a ordem, promoviam a moralidade, favoreciam um estatuto elevado para as mulheres, encorajavam as artes e despendiam avultados recursos a aprimorar as suas cidades.
E faziam isto, em muitos casos, enquanto mantinham procedimentos de governo popular de maneira a que, mesmo debaixo de um governo despótico, as pessoas aprendessem as maneiras da liberdade."


Will Durant, "The Story of Civilization II, The Life of Greece", pp. 122, 123

Tradução e itálicos da nossa responsabilidade.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Cogitações (8)

Ainda há quem duvide da selectividade e da abordagem qualitativa do jornalismo. Tenho por clara e confirmada a inclinação na descrição, na análise e no comentário (muitas vezes confundidos).

Alguém duvida que, se os autores de semelhante ideia fossem outros, de outro quadrante político (conhecido ou não), a reserva moral que a opinião publicada ainda julga ser se manteria serena?
Estou a imaginar os títulos: "Populismo cresce em Portugal" ou "Trump, Farage e Le Pen têm seguidores em Portugal".

Assim como assim, é apenas mais um fim de semana de activismo político. Nada de mais.

Podemos notar, todavia, que o problema europeu não desapareceu. Como se pretendia mostrar com os recentes festejos dos 60 anos.
Ironias.

terça-feira, 7 de março de 2017

Terapia de choque ou uma conversa entre cavalheiros?

"Haverá uma maldição financeira?"

No vídeo que aqui partilhamos, muitos são os detalhes que importa sublinhar. Seja o nível intelectual, a cordialidade e a actualidade dos temas aqui tratados.

O anfitrião Ross Ashcroft (realizador do premiado "Os Quatros Cavaleiros do Apocalipse") dirige, com um ritmo, com uma qualidade e um tacto raro no jornalismo económico, uma entrevista/debate acerca da possibilidade da existência de uma maldição financeira. Os convidados são o académico Richard Werner (autor da expressão Quantitative Easing e já aqui lhe demos destaque) e David Buik, comentador económico londrino.

A verdadeira natureza do negócio bancário das últimas décadas é aqui explicada com uma facilidade estonteante. O papel do crédito e da moeda no contexto das necessidades produtivas do mercado e as suas consequências nas crescentes desigualdades sociais são aqui relacionadas de um modo muito esclarecedor.

A rematar uma consideração histórica: a cidade de Londres não é uma jurisdição britânica. Não faz parte do Reino Unido. A rainha tem de pedir autorização para lá se deslocar.

Imperdível para perspectivar o presente.



Por que haveremos de pagar tão caro por um "serviço de intermediação que funciona, ainda por cima, em circuito fechado"?
Uma pérola, certo?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sobredeterminação das Narrativas oficiais

"Sistema de alianças e propaganda"

Partilhamos com os nossos leitores uma entrevista a Oana Lungescu (conselheira da NATO para as políticas de comunicação e presença nas plataformas sociais, sim a guerra também já passa por elas) levada a cabo por Jonathan Eyal (Royal United Services Institute - RUSI).
Não deverá espantar-nos que uma conselheira para a área da comunicação social seja entrevistada para dar conta da natureza e condição do sistema de alianças da NATO. É precisamente no plano da mensagem e da sua divulgação que a guerra para já se desenvolve.

Todo o desenvolvimento e desfecho da eleição de Trump (mas também do Brexit, não esqueçamos) deve ser considerado um caso exemplar para compreender a dimensão e a natureza das tensões e dos conflitos que se desenvolvem por estes tempos. A guerra, por agora, está focada na mensagem, na iniciativa de orientar a narrativa acerca dos eventos mais relevantes da história e da política internacional.

A luta pela interpretação destes eventos não é nova, é certo. Mas os meios para disputar a narrativa determinada unilateralmente multiplicaram-se. Seja pelo reforço das posições de alguns gigantes - China e Rússia -, seja pela renovada importância de que alguns (pequenos) actores se vêem investidos. A tensão entre os diferentes interesses das grandes potências atingiu uma intensidade tal que estes pequenos actores podem ser decisivos na determinação da próxima peça de dominó que há-de cair.

Não podemos sublinhar mais a importância de perceber a que ponto chega o desespero em controlar a interpretação dos eventos (vejam-se as mudanças legislativas para punir a "dissidência" em Inglaterra). Esta entrevista é, julgamos, paradigmática desse receio. A decadência que se tornou evidente nos meios de comunicação convencionais, especialmente a propósito de Trump, elevou a constatação do senso comum a verdadeira função que esses meios ocupavam nas respetivas máquinas de propaganda.

E o que Lungescu faz nesta entrevista? Dar orientações para quem as quer ouvir de como "falar verdade". Assim como afirmar a frescura e a vitalidade do sistema de alianças e informações da NATO, cujo modo se pode aferir pelas recentes demonstrações de prontidão por essa Europa fora (veja-se na Lituânia, há dias). Chega a ser deliciosa a candura do lema "responder à agressão russa" presente nestas manobras. Mas como muitas coisas deliciosas, mostram-se deliciosamente perigosas.




É suposto estarmos descansados, não é?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Cogitações (7)

Ouvem-se por aí algumas das últimas conclusões a que chegou o INFARMED a propósito dos resultados de (e cito) "tratamentos inovadores para a hepatite C só possíveis pela concorrência entre produtores".

Ouve-se mas não se acredita. Será possível que o politicamente correto duvide que a abolição de limitações à entrada de novos operadores traz benefícios? Em particular para quem mais precisa deles?

Este profundo consenso não olha à sua volta e não vê que os sectores onde se diminuem as limitações à actividade económica são aqueles onde os custos mais baixam e a qualidade dos produtos sobe?

Se isto já acontece, entre outros, com telefones móveis, roupa desportiva ou (vejam lá!!) com medicamentos inovadores para tratamento de doenças, por que espera o politicamente correto? Em nome de que coerência (filosófica ou política) podem manter-se os constrangimentos à concorrência seja em que sector for?

Pior cego...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Radar

Ainda se hão-de fazer sentir as verdadeiras consequências de uma economia de papel ao longo dos próximos anos. O caso indiano que por aqui temos acompanhado, é exemplar de algumas delas. Se lhes associarmos a desmaterialização monetária em curso (está a começar na Europa, ver aqui) perceberemos a magnitude das mudanças que vêm ao nosso encontro.
Entretanto, um ex-governador do Banco Central Indiano Venugopal Reddy concluiu em recente discurso que, e cito: "o dólar é um activo seguro, mas o ouro é ainda mais seguro. (...) O ouro é uma forma de poupança ou de reserva de valor que compete com a moeda oficial".
A sinceridade fica-lhes tão bem.
Ver notícia aqui. Se algum leitor encontrar o livro branco onde se faz a exposição mais extensa destas ideias e o queira partilhar connosco, deixo aqui, antecipadamente, o nosso agradecimento.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Cogitações (6)

O primeiro-ministro visita a Índia por estes dias. Pouca atenção pude dar a tal facto, mas não posso deixar de notar, não obstante a pequena pesquisa que fiz, a ausência de tratamento jornalístico, pelos meios de comunicação portugueses, da situação económica e social indiana depois da decisão de Modi de banir 87% da massa monetária em circulação.

Pude ver uma reportagem acerca de um modelo de camisa muito célebre, pois é igual ao que Modi usa. Uma outra envolvia a camisola da selecção portuguesa de futebol. E, claro, várias digressões acerca das raízes familiares do pm português.
Alguma referência à actualidade da economia e sociedade indianas? Alguma referência a isto? A isto? Ou ainda a isto?
Alguma análise ao recrudescimento do nacionalismo indiano? Manobra de aparente contenção do Paquistão pela hostilidade, que Modi tão perigosamente conduz?

Assim vai a narrativa em mais um acto ensaiado. E ainda há quem se questione por que razões enfrenta profunda crise o serviço jornalístico? Este "lapso" é apenas uma centelha brilhante da impossibilidade da neutralidade jornalística e da sua subserviência ao poder político.
E não é apenas pelos EUA ou a propósito de Trump e da sua eleição.
Fake News? É isto. Fabricadas e transmitidas pelos meios de comunicação convencionais, esses "guardiões da verdade", essas soberbas "instituições vigilantes dos agentes do poder"...

domingo, 8 de janeiro de 2017

Citação do Dia (196)

Party Hardy ou Festa Rija

(...)Os fundos de pensões ou já estão em incumprimento ou precisam de encontrar financiamento de qualquer maneira e a maneira como o estão a fazer é procurando financiar-se com mais dívida e a assumir mais risco em investimentos bolsistas.
Um ponto preocupante que não me canso de sublinhar é o seguinte: os investidores estão a conduzir a valorizações de activos para que entidades que não enfrentam consequências pessoais por pagarem excessivamente os possam comprar: os bancos centrais e as próprias empresas a recomprar os seus títulos."
Northman Trader, "2016 Market Review: Party Hardy".

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Balanço e Contas

Alguns balanços


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Fonte: Visual Capitalist.

Destaca-se a comparação com os índices que surgem na base da tabela. Quem lê os meios convencionais nem percebe tal subtileza.

Adenda: Anexamos mais umas tabelas para completar a análise (fonte)



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