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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Citação do Dia (205)

"Há um temor errante no coração do homem de hoje e que ele depositou no mais fundo da sua consciência; todavia, como um fumo ele se evade, como um hálito fino como a luz, ele pretende subir à superfície. É um temor que sobrevive a toda a justiça feita, a toda a voz propagada; dissolve o pensamento mais provado, transforma a acção mais firmemente conduzida, para atravessar intacto até ao carácter mais implacável. Aquele que percebeu uma vez o temor, mover-se nessa região de trevas que todo o homem transporta em si próprio, nunca mais deixa de o reconhecer em todos os passos da sua vida. Nunca mais medita, escreve, contacta com os amigos, desfia ou tece intrigas, viaja, regressa, atraiçoa ou convence, sem ter esse companheiro resoluto e suave pousado na sua orelha direita, no contorno do seu dedo indicador, na pálpebra fechada, no lábio pronto a falar. Uma vez pressentido o temor, o homem precipita-se na sua autêntica condição com uma vocação tão ardente que o mundo a que se adaptou se desintegra e a realidade o assalta como algo de dinâmico e que se inicia pela primeira vez.

Alheio à significação do espaço como paisagem, se não como propriedade, desviado do ciclo elementar da vida com os seus acasos e períodos detalhados, habituado a dispor da distância, da imagem e do segredo, o homem encontra-se agora mais incapaz de compreender o temor. E, ao eliminar a dificuldade, ampliou também o domínio do temor; ao desprevenir-se dos seus azares, fez-se, ao mesmo tempo, campo de atracção duma cabala fulminante.

Assim, o traumatismo do temor atinge proporções prodigiosas numa colectividade que, por exemplo, se organizou em moldes rigorosos para destruir erros e defender direitos que ninguém se ocuparia em contestar numa sociedade natural. Mas, quanto mais uma actividade substitui uma fé, mais essa actividade, por legal e razoável que seja, está sujeita a ser vítima duma desintegração que só a interferência do temor explica. O que primeiro parecia um privilégio acabrunha como um castigo, o que se praticou como lei toma a aparência de sevícia. O homem vê-se naufragado do seu próprio movimento, não controla mais nem a razão, nem os sentimentos. Perplexo na sua realidade, ele depara com a face terrível, e no entanto salvadora do temor."


Agustina Bessa-Luís, "O Ramo de Ouro" in Ensaios e Artigos (1951-2007), FCG.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Rádio Espectador Interessado (2)


Um excelente sentido para uma descrição da vertiginosa paixão pelo imediato.
Do que se sente e deseja. De como se vive.

A farsa que é viver segundo o lema: "Tudo. Agora!"

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Delícias para as noites de Verão

Capitalismo e Moralidade - parte 1

A plataforma Liberty.me é projecto que tem Jeffrey Tucker como CLO (Chief Liberty Officer). É verdadeiramente um mundo de informação, discussão e partilha para quem ambiciona um olhar diferente acerca da Vida. Não é um lugar de consensos, mas de livre pensamento e expressão acerca de tanto que podemos fazer em Liberdade: música, filosofia, economia ou psicologia. Entre tantos outros focos de interesse.
Hoje trazemos à consideração dos leitores a primeira parte de um encontro que a plataforma Liberty.me realizou no início deste mês sob o título "Capitalismo e Moralidade". A imagem e o som não são os melhores, é certo, mas as ideias valem bem a pena.
Esta primeira parte conta com os seguintes oradores e temas (cada uma das intervenções inclui um período de perguntas e respostas):

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Citação do dia (174)

"As ideias políticas que dominaram a opinião pública ao longo de décadas não podem ser refutadas pela via da argumentação racional. Elas terão que seguir o seu curso na vida e o seu colapso só poderá sobrevir na ocorrência de grandes catástrofes..."

Ludwig von Mises (escrevendo em 1919)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A vacuidade do "nós" político

No Jornal de Negócios (edição em papel) de 24 de Setembro último, o título de "A Cor do Dinheiro", a coluna diária de Camilo Lourenço (CL), rezava: "Estamos a repetir os erros do passado". Em destaque, alertava-se: "Portugal vai voltar a apostar no modelo errado de crescimento: o PIB será puxado pelo consumo (o investimento estagnou) e não pelas exportações."

O recurso à utilização da 1ª pessoa do plural nos temas políticos e económicos tornou-se tão comum, que, frequentemente, não damos conta do abuso que essa prática encerra. Mas que raio de "erro do passado" estou eu, Eduardo Freitas, a tornar a cometer? Quem é CL - por quem eu, aliás, até nutro alguma simpatia - para me estar a acusar implicitamente de querer voltar "a viver acima das minhas possibilidades"? Mas quem é que lhe disse que isso alguma vez me sucedeu (como a tantas outras pessoas)? E que dizer desta personificação da entidade Portugal que lhe confere uma vontade, uma (ir)racionalidade e um comandado devir porque o "Estado somos todos nós"? Implicitamente, e talvez mesmo contrariando a perspectiva do próprio CL, está a conferir ao Estado - e só a ele - a "chave" do sucesso ou insucesso económico de todo o país, sendo que as famílias e as empresas mais não são que meros agentes reactivos ora à largueza estatal (sob a forma de subsídios, ajudas, aumentos salariais e ads transferências sociais, etc.) ora à sua terrível "austeridade" (os "cortes"). O Estado oscila, pois, entre o Salvador e o Vilão, entre o "crescimento" e o "empobrecimento".

O artigo de Pierre Lemieux, de onde roubei o título do post, endereça algumas destas questões. Seguem-se alguns excertos (tradução e inserção de imagens da minha responsabilidade) que creio inteligíveis por não iniciados (embora todo o artigo seja, a meu ver, interessante):
We, Yevgeny Zamyatin
É quase impossível ler um jornal ou ouvir um discurso de um político sem tropeçar no padronizado "nós, enquanto sociedade" ou numa das suas variantes. "Sabem, nós vamos ter de fazer escolhas enquanto sociedade", disse o presidente Barack Obama referindo-se à vigilância da NSA. Até mesmo alguns economistas, que tinham a obrigação de estar mais atentos, caem nesta armadilha. Jonathan Gruber, um economista do MIT e um dos arquitectos do Obamacare, declarou: "Nós decidimos, enquanto sociedade, que não queremos que as pessoas tenham apólices de seguros de saúde que as exponham ao risco de incorrer em despesas de mais de seis mil dólares a pagar do seu próprio bolso."

O mesmo problema existe em expressões como "do ponto de vista da sociedade" ou "a sociedade como um todo" como ainda na personificação de países, como em "a América pensa ou faz, isso ou aquilo". Quando um vice-ministro afegão para os Assuntos Sociais disse que "[o] Afeganistão é um país islâmico e nós queremos que os nossos filhos sejam criados segundo os costumes islâmicos", ele estava a fazer o mesmo tipo de afirmação genérica, só que envolto numa bandeira diferente.

A verdade é que este "nós" colectivo não tem significado científico.

O "nós" colectivo pode fazer sentido quando respeita a um grupo contratual ("Nós na Ford produzimos excelentes automóveis") ou a um grupo constituído ou imaginado com o qual alguém se pretenda identificar. Mas para uma sociedade composta de diferentes indivíduos com diferentes preferências, onde é suposto que todos os indivíduos tenham igual importância, o "nós" colectivo não faz sentido. […]

Excepto, talvez, ao nível muito abstracto de um contrato social, expressões como "nós, enquanto sociedade" não têm significado determinável, a não ser para ilustrar "as pessoas que, como eu, impõem as suas preferências e escolhas aos outros". […]

Pierre Lemieux, 6-10-2014

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os políticos e burocratas preferem as vítimas invisíveis

No que constitui um outro excelente artigo, o Prof. Walter Williams evoca a filosofia libertária iniciada com John Locke ("Quem é o dono de si mesmo?") e o célebre ensaio de Frédéric Bastiat ("O que se vê e o que não de vê") para evidenciar as consequências reais das acções/omissões e do tipo de incentivos que a interferência do estado inevitavelmente introduz nos diferentes mercados. Neste artigo, Williams debruça-se sobre o tema da introdução de novos fármacos.

Adenda: a tradução é da minha responsabilidade bem como a introdução de links e realces no texto.
10 de Junho de 2014
Por Walter E. Williams

Quem é o seu dono?

Walter E. Williams
Darcy Olsen, presidente do Instituto Goldwater com sede no Arizona, e Richard Garr, presidente da Neuralstem, uma empresa de biotecnologia, escreveram "O Direito a Tentar drogas experimentais" no USA Today (2014/05/28). Eles observaram que "este ano, mais de 5.000 americanos irão perder a batalha contra a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), comummente conhecida como doença de Lou Gehrig". Até há pouco tempo, não havia medicamentos no mercado que melhorassem significativamente as vidas dos pacientes com ELA. Mas há agora um em ensaios clínicos - que se mantém bem promissor - que a Food and Drug Administration [equivalente, na área do medicamento, ao Infarmed português – N.T.] não aprovou. O tempo médio que demora a obter a aprovação de uma droga pela FDA é de 10 anos. Esse é um tempo que os doentes terminais não têm.

Os legisladores no Colorado, Louisiana e Missouri aprovaram recentemente legislação conhecida por "Direito a Tentar", e os eleitores do Arizona irão pronunciar-se sobre esta matéria em Novembro próximo. A iniciativa "Direito a Tentar" foi concebida pelo Instituto Goldwater. Ela proporcionaria aos doentes terminais o acesso a drogas experimentais que tivessem observado os ensaios básicos de segurança. Sob a supervisão de um médico, seria dada a oportunidade às pessoas de testar drogas experimentais promissoras antes de elas obterem a aprovação final da FDA.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Citação do dia (162)

"Como convencer um público suficientemente amplo de que a protecção do emprego é uma das principais causas da sua destruição e do desemprego entre os jovens, que uma grande desigualdade na distribuição do rendimento favorece a acumulação de capital e faz mais a longo prazo pelos interesses dos pobres do que uma distribuição igualitária alguma vez o poderá fazer, que a especulação conduz à estabilização e a regulação é com demasiada frequência desestabilizadora, que a imposição da solidariedade como um sistema tem um elevado custo ao gerar uma cada vez maior necessidade de mais solidariedade, que a finalidade de uma economia é a de satisfazer os desejos dos consumidores ao passo que a tarefa de produção de padrões éticos exigentes pertence a outros domínios na sociedade? A falsa doutrina tem um trajecto fácil, enquanto a sua refutação é trabalhosa e o seu sucesso, a ser possível, só poderá acontecer quando as desagradáveis realidades da evolução dos acontecimentos esgotarem o santuário da doutrina falsa."
Anthony de Jasay, aqui

sábado, 26 de abril de 2014

Liberdade e ordem social

Uma proposta de reflexão serena para o fim-de-semana após mais um aniversário do "25 de Abril" a partir de uma palestra (legendada em português do Brasil) que Jörg Guido Hülsmann proferiu em 2011, em terras de Vera Cruz. Um tema fundamental que Hulsmann percorre, da Antiguidade até aos dias de hoje, e que constitui exemplo de que o conhecimento não apenas não evolui de forma linear no tempo como é ainda susceptível de terríveis recuos (dando razão ao título do livro de um bom amigo).


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Citação do dia (160)

"A liberdade é, essencialmente, uma condição de desigualdade, não de igualdade. Ela reconhece como um facto da natureza as diferenças estruturais inerentes ao homem - de temperamento, carácter e capacidade - e respeita essas diferenças. Nós não somos iguais e lei alguma poderá fazer com que venhamos a sê-lo."
Frank Chodorov

quinta-feira, 27 de março de 2014

Veneza e o movimento secessionista

Como tinha anunciado, depois de ter apresentado uma visão pessimista de Pat Buchanan relativamente ao futuro da Velha Europa, de que a emergência dos movimentos secessionistas e potencial fragmentação do status quo dos estados correspondentes seria um evidente sinal, eis um artigo que, a propósito do referendo de Domingo passado em Veneza, olha para o conceito de secessão como algo para além do benévolo - para o desejável. Para o efeito, Ryan McMaken socorre-se de Hans-Hermann Hoppe.

Actualização ex ante: especialmente para os cépticos do significado jurídico do referendo, ler aqui.
24 de Março de 2014
Por Ryan McMaken

A secessão de Veneza da Itália, Hans-Hermann Hoppe e os estados-nação

Com uma expressão maioritária de 89%, os eleitores de Veneza optaram pela secessão da Itália. Na prática, o que isso significa é que os venezianos pretendem deixar de remeter a receita fiscal para Roma. Aparentemente, os venezianos, que habitam a capital histórica de uma das repúblicas mais ricas e florescentes da humanidade, não pretendem continuar a subsidiar os burocratas de Roma, famosos pela corrupção. Há muito que a Itália do Sul é considerada pela mais rica, mais limpa e mais eficiente Itália do Norte como um sorvedouro dos seus recursos. Pelo menos de acordo com o Daily Mail, já se fala também em alargar o movimento de secessão a outras áreas do Norte.

Um dos pró-secessionistas parece-se mesmo com um Hoppeano:

Um dos activistas do movimento pela secessão, Paolo Bernardini, professor de História Europeia na Universidade de Insubria, na região do Como, no norte da Itália, disse que chegara "a altura" de Veneza se tornar novamente num estado autónomo.
"Embora a história nunca se repita, estamos agora a assistir a um forte regresso das pequenas nações, dos pequenos e prósperos países, capazes de interagir entre si no mundo global."
“O povo de Veneza percebeu que somos uma nação (digna de) se auto-governar e que está a ser publicamente oprimida, e o mundo inteiro está a caminhar em direcção à fragmentação - uma fragmentação positiva - onde as tradições locais se misturam com os mercados globais.”
Naturalmente, os grandes estados-nação da Europa odeiam e temem desenvolvimentos como este. Mas para quem consiga lembrar-se da História, há nela pouca "tradição" que os estados-nação possam reivindicar. A Itália é um país inventado, tal como a Alemanha, amalgamados à força no século XIX por poderosos políticos autoritários como Otto von Bismarck, que, evidentemente, odiava o liberalismo clássico e o capitalismo com toda a força do seu ser.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da recusa de uma teleologia do homem arquitectada por ateus activistas que querem fazer de Deus

Ainda que algo serôdias, julguei relevante partilhar as resoluções de Ano Novo de Greg Lentz e, sobretudo, as reflexões que a elas conduziram. É um texto longo mas estou convencido que o leitor, que preza a liberdade e tenta entender o mundo, terá algo a ganhar em lê-lo até ao fim (no original, de preferência). O título do post que escolhi, que me insatisfaz, bem poderia ser o de uma famosa obra de Hayek - "A Arrogância Fatal" (The Fatal Conceit). Em jeito justificativo, diria que preferi o risco da verbosidade à tentativa de ombrear com a simplicidade própria dos verdadeiramente grandes. Não tenho essa arrogância e deploro os que dela se arrogam. A tradução, como habitualmente, é minha.
"A resolução de problemas é como a caça; é um prazer selvagem no qual somos muito talentosos."
Thomas Harris, Silêncio dos Inocentes

Há algo de viciante no processo de resolução de um problema. Nos últimos tempos, tenho dado comigo a pensar no mesmo problema uma e outra vez: se o homem almeja o autogoverno, por que razão tão prontamente aceita as grilhetas da governação colectiva? Onde estão os homens que se recusaram a ser governados e conseguiram ser bem sucedidos?

Não aceito que o homem seja incapaz de se autogovernar, mas, para o observador casual, parecerá de facto ser esse o caso.

Num raro momento de clarividência, enquanto congeminava soluções para as minhas próprias problemáticas resoluções de Ano Novo, ocorreu-me que talvez ao homem não seja inadequado o autogoverno mas antes que este seja um viciado na resolução de problemas. Afinal de contas, o homem é um caçador. A satisfação de criar e pôr em prática uma solução, constitui algo de tão gratificante que é necessário prosseguir na busca do próximo desafio a superar.

Onde irá o viciado na resolução de problemas procurar a sua próxima conquista? No mundo ao seu redor. A sua dependência leva-o a uma perseguição interminável na procura de problemas cada vez maiores para resolver, de modo a que possa sentir novos "picos" psicológicos. Eventualmente, perde todo o sentido de autoconsciência. Perguntas como "Será isto realmente um problema? Quem sou eu para pensar que poderei resolver este problema? Serão os benefícios obtidos na resolução deste problema superiores aos seus custos?", caíram no esquecimento. A sua caçada transforma-se em arrogância e a arrogância conduz à loucura.

Abraham Maslow escreveu:
"Suponho que seja tentador, se a única ferramenta que se possui for um martelo, que se trate tudo à nossa volta como se fossem pregos."
Julgo ser próprio de um académico emitir uma tão presciente afirmação sobre a condição humana. O meio académico está para o solucionador de problemas como a Fábrica de Chocolate está para Willy Wonka [link]. A terra da experimentação livre das teorias e suas consequências. É um lugar onde as ideias reinam, supremas. No mundo académico, toda a existência humana constitui um prego à procura de um martelo mental.
- o sentido da vida: a filosofia
- a pobreza: as ciências sociais
- a moralidade: a ética
É um lugar onde há pouca ênfase na humildade, no pragmatismo, ou nas consequências.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Socialismo e fascismo: no plano económico, mais semelhanças que diferenças

"A filosofia do socialismo - na sua essência, a alegação pura e simples de que uns devem ficar com o que outros produziram - é tão antiga como a humanidade. A implantação nas sociedades desta filosofia, sob a forma da propriedade e controlo totais por parte do estado dos principais meios de produção e do planeamento central na alocação dos recursos e das produções, todavia, preencheu apenas um breve período histórico. Devido à sua incapacidade intrínseca para resolver problemas envolvendo o cálculo económico, o conhecimento e a motivação, o socialismo na prática [o "socialismo real"] consumiu capital previamente acumulado e empobreceu milhares de milhões de pessoas encurraladas na experiência, matando centenas de milhões no decorrer do processo, foi entretanto abandonado praticamente em toda a parte onde foi tentado. A filosofia subjacente, porém, não se enfraqueceu um pouco que fosse. Agora, em praticamente todos os países com alguma relevância, um sistema de fascismo económico - um sistema com direitos de propriedade privada severamente condicionados, mas com alguma margem de manobra empresarial - serve como um mais viável substituto à medida que o contexto em que o velho pecado da inveja impulsiona a acção político-económica de uma forma tão acentuada quanto a que sempre sucedeu na URSS e na China maoísta."
Robert Higgs (minha tradução)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os Escolásticos de Salamanca e a Ciência Económica: uma lição magistral por Jesús Huerta de Soto

Uma excepcional oração de sapiência por parte do incontestável líder da Escola Austríaca em Espanha (Philipp Bagus, um seu jovem discípulo bem conhecido, está sentado entre a assistência), proferida na homenagem a Diego de Covarrubias (um dos escolásticos do "século de ouro" espanhol, proferida na catedral de Segóvia, em Novembro passado. Jesús Huerta de Soto apresenta o caso da Escolástica tardia espanhola para "reivindicar" as raízes da Escola que Carl Menger, em 1871, viria a iniciar. Traçando sucessivos paralelos entre os ensinamentos de então e os caminhos que a doutrina económica dominante assumiu nos sécs. XX e XXI, com as terríveis consequências que hoje conhecemos e atravessamos, Huerta de Soto aponta o dedo da responsabilidade a Adam Smith (como Murray Rothbard já o havia feito). Absolutamente fascinante, para quem se interessa pela história económica.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Walter Williams: "Mascarando o totalitarismo"

Minha tradução do mais recente texto de Walter Williams, "Masking Totalitarism", onde se aborda a distinção fundamental entre direitos negativos e positivos e a conexão dos segundos ao exercício do poder do estado, o mesmo é dizer, da coerção.
Uma das mais antigas noções da história da humanidade é a de que algumas pessoas dão ordens e as outras obedecem. Os membros da poderosa elite acreditam deter uma sabedoria superior à das massas e que foram predestinados a impor pela força essa sabedoria a todos os outros. A sua agenda inclui um ataque ao livre mercado e o que isso implica: a troca voluntária. Os tiranos não confiam que as pessoas, agindo de forma voluntária, façam aquilo que o tirano acha que elas deveriam fazer. Por conseguinte, o funcionamento livre do mercado é substituído pelo planeamento económico e pela regulação o que não é outra coisa senão a substituição forçada dos planos das outras pessoas pelos da poderosa elite.

Walter E. Williams
Porque os americanos ainda mantêm uma grande margem de liberdade, os tiranos têm que mascarar a sua agenda. No plano universitário, alguns professores conferem à tirania uma qualidade intelectual quando pregam não ser a liberdade negativa suficiente. Tem de haver liberdade positiva ou liberdades. Esta ideia está muito difundida no meio académico, mas a sua mais recente encarnação surgiu pela mão do professor David Coates, da Universidade Wake Forest, num artigo no Huffington Post, intitulado "Liberdade negativa ou liberdade positiva: tempo para escolher?" (artigo datado de 2013/11/13). Examinemos então a liberdade negativa contrastando-a à liberdade positiva.

A liberdade negativa (ou direito negativo) refere-se à ausência de constrangimento ou coerção quando as pessoas se envolvem em trocas voluntárias e pacíficas. Algumas dessas liberdades negativas estão enumeradas na Declaração dos Direitos dos Cidadãos da nossa Constituição. Em termos mais gerais, pelo menos na utilização histórica padrão, um direito é algo que existe em simultâneo entre as pessoas. Como tal, um direito não impõe nenhuma obrigação a outrem. Por exemplo, o direito à liberdade de expressão é algo que todos nós possuímos. O meu direito à liberdade de expressão não impõe nenhuma obrigação a outrem, excepto o da não-interferência. Da mesma forma, o meu direito a viajar não impõe nenhuma obrigação sobre ninguém.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Paráfrase do axioma fundamental do estatismo

2500 anos depois, após Platão, Hobbes, Rousseau e Marx, talvez se possa hoje enunciar assim:
A pessoa humana, individualmente considerada, mesmo que adulta e mentalmente não inibida, é incapaz de decidir o que é melhor para si mesma e para os que de si dependem.

sábado, 9 de novembro de 2013

Citação do dia (144)

There's a key to the good things of the world. We all have the key. That key is the mind. It is thought that opens the way to all things.
Charles A. Lindbergh

domingo, 27 de outubro de 2013

Citação do dia (142)

"All rational action is in the first place individual action. Only the individual thinks. Only the individual reasons. Only the individual acts."

Ludwig von Mises

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Exaltação da economia informal

Leio que Adolfo Mesquita Nunes, actual secretário de Estado do Turismo e suposto adepto de tendências liberais, tenciona "encontrar o melhor quadro legislativo para potenciar uma fiscalização mais eficaz [do "alojamento paralelo"] e que o regime seja suficientemente atractivo para que traga a economia informal para a economia formal".

Há décadas que vimos ouvindo este discurso que se destina a sancionar a contínua rapacidade fiscal do estado para mitigar o buraco previamente aberto pelo incessante aumento da despesa pública que, por regra, e maquiavelicamente, é desligado no tempo do efectivo aumento de impostos necessário ao seu financiamento. Pretendendo ser possível dar algo a alguém sem, em simultâneo, ter que o retirar a outro alguém, o recurso à "indolor" contracção de empréstimos é o percurso habitual (e o único que restava depois de termos aderido ao euro até que o crédito secou). Geralmente acompanhado pelo críptico chavão do "alargamento da base tributária", invocam-se ainda razões de "equidade" pois que, supostamente, "se todos pagassem o que deviam pagar, os que já pagam os impostos devidos pagariam menos". Tremenda falácia, esta, em que muitos continuam a cair já que de quanto mais impostos o estado se apossar, mais aumentará a despesa pública.

Ocorre-me uma passagem, lapidar, de uma entrevista que Orlando Vitorino, um injustamente esquecido filósofo português, deu ao Comércio do Porto, em Maio de 1985:
"Quanto à «economia paralela», começo por lhe observar que é, essa, uma designação eufemística. A sua designação correcta é a de «economia clandestina». Quer dizer: uma economia cuja actividade se exerce à margem das leis estabelecidas, o que é condenável. Mas se observarmos que essas leis são contrárias aos justos direitos dos homens, como o direito de cada um ser dono do que é seu, trabalhar no que entender, produzir o que quiser, vender e comprar por livre contrato, não ver extorquidos pelos impostos os seus salários e os seus lucros, então a economia clandestina nada tem de condenável, é um factor de prosperidade que está compensando os Portugueses dos erros da política económica do Estado, uma luta pela liberdade contra a servidão que conta já com um milhão de combatentes. A isto nos trouxe o socialismo: os Portugueses têm no Estado o seu primeiro inimigo!"

sábado, 5 de outubro de 2013

Citação do dia (136)

"How can I possibly put a new idea into your heads, if I do not first remove your delusions?"
Robert Heinlein