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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Curtas e grossas


Sob o título em epígrafe, Jürgen Stark, um antigo economista-chefe do BCE, de onde saiu com grande estrondo em 2011, publicou na passada 4. feira no Financial Times um artigo (requer registo) onde retoma as teses da "linha dura" da (relativa) ortodoxia financeira do que ele caracteriza como "o economista alemão". Seguem-se alguns excertos desse artigo que noutras circunstâncias - de indignação vituperante diante a presença num governo de coligação de um partido de extrema-esquerda com um outro de extrema-direita num ministério sem uma única mulher! - seria considerado politicamente incorrecto ao ponto de ser alvo de uma saraivada de fatwas sobre o seu autor e todos aqueles que o citem (via Juan Ramón Rallo):
«[…] A verdade é que, em contraste com muitos países da zona euro, a Alemanha tem consistentemente prosseguido uma política económica prudente. Enquanto outros viviam acima das suas possibilidades, a Alemanha evitou os excessos. Estas são diferenças culturais profundas que a união monetária faz emergir uma vez mais.

A questão não é a de um país impor austeridade a outro. As elites políticas da periferia da zona euro são responsáveis por terem perdido o acesso aos mercados financeiros em 2010. Anos de má gestão e de inobservância da lei conduziram a défices orçamentais crescentes e à acumulação de dívida. Os prémios de risco dispararam. […]

A UE não é uma federação (como não é a zona euro). Estamos muito longe desse nível de integração na Europa. Não há, portanto, base constitucional para concretizar maiores transferências para os países mais débeis. Em todo o caso, essas transferências não resolvem os problemas económicos e levam ao risco moral. Anteriores programas de transferências, como os dos fundos para pagar investimentos em infra-estruturas nos estados membros mais pobres da UE, nem sempre conduziram a uma melhoria sustentável no desempenho económico. A Grécia, por exemplo, recebeu transferências da UE correspondentes a 3 a 5% do seu produto interno bruto durante décadas, dos quais aproximadamente um terço foram pagas pela Alemanha. Mas grande parte desse dinheiro escoou-se através do poroso edifício de um estado frequentemente corrupto.

A política económica alemã não se destina a punir os países da periferia da zona euro. A chanceler Angela Merkel quer ver todos os países da zona euro a criarem as circunstâncias necessárias a um crescimento económico que seja real e sustentável - do tipo que gera empregos. Isto exige finanças nacionais sólidas. O que não tem nada a ver com um fetiche quanto ao défice zero. Os economistas alemães opõem-se ao tratamento dos sintomas. Eles alertam contra aparentes soluções que funcionam como tranquilizantes políticos no curto prazo, mas que apenas se limitam a ocultar os verdadeiros desafios económicos.

Os apelos a estímulos macroeconómicos adicionais ignoram as causas da doença europeia. É vital que sejam removidas as barreiras estruturais ao crescimento. Isso inclui sanar os balanços dos bancos para desbloquear a criação de crédito. Não é por causa da Alemanha que a França enfrenta a estagnação económica e a Itália está
há três anos em recessão. Os problemas têm origem doméstica. Eles não podem ser eliminados nem pelo Banco Central Europeu nem pelos estímulos fiscais.
As reformas exigem coragem política e forte liderança. Essas são reformas dolorosas mas são necessárias para retornar a um caminho de crescimento sólido. O verdadeiro défice é o fracasso da elite política em muitos países bem como a falta de instituições credíveis. […]»

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A generosidade de roubar a Pedro para dar a Paulo

O título que escolhi para o post talvez não permita uma associação directa às actividades (incluindo as "filantrópicas") de um certo Bernie Madoff. Mas tem. Porque são muitas as semelhanças entre as actividades redistributivas do estado social e o modus operandi daquele. É o que mostra o artigo, de Brandon Dutcher, que me propus traduzir (no qual introduzi alguns links).
7 de Outubro de 2014
Por Brandon Dutcher

O que o governo central e Bernie Madoff têm em comum
(What the Feds and Bernie Madoff Have in Common)

Bernard Madoff
Ao longo dos anos, o condenado Bernard Madoff, responsável pelo esquema ponzi que defraudou os seus investidores, doou "generosamente" milhões de dólares a instituições de beneficência - investigação do cancro, hospitais, teatros, escolas, etc. Pelo menos uma dessas organizações de caridade fez investimentos junto de Madoff, onde os fundos se evaporaram.

Mas Madoff não é o único que dá dinheiro às pessoas após ele lhes ter sido subtraído em primeiro lugar. Os dirigentes políticos de hoje angariam votos e aplausos dando presentinhos ao Zezinho, mas não se dão ao incómodo de dizer que a totalidade da conta vai direitinha para o cartão de crédito do Zezinho.

O ano escolar recomeçou, e "milhares de estudantes mais poderiam estar a usufruir do almoço escolar completamente grátis", noticia Jake Grovum na Stateline, "graças a um programa federal que se iniciou há quatro anos que finalmente se está a expandir a todos os 50 estados". (Finalmente!)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Citação do dia (162)

"Como convencer um público suficientemente amplo de que a protecção do emprego é uma das principais causas da sua destruição e do desemprego entre os jovens, que uma grande desigualdade na distribuição do rendimento favorece a acumulação de capital e faz mais a longo prazo pelos interesses dos pobres do que uma distribuição igualitária alguma vez o poderá fazer, que a especulação conduz à estabilização e a regulação é com demasiada frequência desestabilizadora, que a imposição da solidariedade como um sistema tem um elevado custo ao gerar uma cada vez maior necessidade de mais solidariedade, que a finalidade de uma economia é a de satisfazer os desejos dos consumidores ao passo que a tarefa de produção de padrões éticos exigentes pertence a outros domínios na sociedade? A falsa doutrina tem um trajecto fácil, enquanto a sua refutação é trabalhosa e o seu sucesso, a ser possível, só poderá acontecer quando as desagradáveis realidades da evolução dos acontecimentos esgotarem o santuário da doutrina falsa."
Anthony de Jasay, aqui

sábado, 3 de maio de 2014

A grande ficção

Os portugueses, por larga democrática maioria, preferem a subida de impostos à alternativa da redução da despesa pública. À semelhança das crianças de Inês Teotónio Pereira, a esmagadora maioria dos portugueses é socialista (como aliás a interpretação autêntica da Constituição estipula). Em consequência, a probabilidade de que algum dia possamos vir a ter um governo com um programa ambicioso de redução dos impostos, viabilizado por uma equivalente redução da despesa do estado, é, sejamos claros, rigorosamente igual a zero.

Deste modo, o anúncio do mais recente aumento de impostos que desta vez e segundo o governo, “não se destina ao estado” mas a “proteger as pensões de amanhã” (!?) é apenas mais um episódio nos sucessivos incumprimentos da grande ficção que é o “estado social” e, em particular, do sistema de pensões que temos (apesar dos avisos insuspeitos e de existirem alternativas bem sucedidas).

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Contra-exegese do "ajustamento"

Envoltos num manto cada vez mais espesso de pensamento mágico/místico, enquanto constatamos a fragorosa queda daquele que se esperaria ser um dos seus mais fiéis Intérpretes na “Europa”, vimos assistindo, pelo Rectângulo e Adjacentes, à arregimentação nas hostes Crescimentistas de um conjunto de personalidades de “direita” mas indisputavelmente também do regime. Um grupo pequeno mas convenientemente mediatizado, que se insurge contra a “língua de pau” adoptada pelo poder vigente. A tarefa de proceder à sua exegese tem estado entregue a Pacheco Pereira (creio que por sua própria escolha). No essencial, ela consiste na “desmontagem” do eufemístico/“Gaspárico” vocábulo “ajustamento” para, de seguida, negar a inexistência de alternativas para o alcançar.

Quem por aqui passa com alguma regularidade, sabe bem que estou muito, muito longe de apoiar o governo em exercício, apesar do labéu neoliberal com que o carimbaram com tinta indelével, objectivo a que os media, sem uma única excepção assinalável, se têm dedicado com particular afinco. Não admirarei ninguém ao afirmar que não tenho nenhum tipo de reserva mental quanto à crítica ao formidável understatement contido no termo “ajustamento” (ou no binómio transitório/definitivo). Como não tenho nenhum problema em aceitar que existem de facto alternativas ao caminho adoptado por este governo (de resto com a prestimosa ajuda do Tribunal Constitucional, claro está).

A questão está em que a “alternativa” dos Crescimentistas não passa de mais uma perigosa ilusão que quanto mais tempo persistisse, mais agravaria a dor quando ela chegasse. Que acomodar o estilo de vida àquilo que se é capaz de produzir não é empobrecer mas sim, mais cedo ou mais tarde, percepcionar a realidade sem filtros ou palas. É acordar de um longo sonho entorpecedor para uma realidade que se pode tornar (tornou) um pesadelo. A alternativa, que a há, não passa por negar uma tão elementar mas crucial verdade.

De nada serve exorcizar a realidade. E se certamente seria útil identificar e culpar os principais responsáveis políticos que para aqui nos conduziram, creio não haver quaisquer ilusões que alguma vez tal se venha a verificar. A maioria dos portugueses continua convencida ser possível obter "algo a troco de nada". Não é. 

P.S. - Para aqueles que ficaram muito contentes com a "constitucional devolução" do subsídio de férias e 13º mês, atente-se que a receita do IRS está a crescer 30% face a 2012 pelo que cumprido foi o anunciado aumento "brutal" de impostos. E não obstante, vamos chegar ao final de 2013 com um défice orçamental a bordejar os 6% do PIB. Não há, mesmo, almoços grátis.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Peter Schiff à RT: os EUA estão intoxicados em dívida

Como alguém comenta na página do YouTube onde o vídeo está publicado,
"How pathetic is it that as an American we must watch A RUSSIAN news outlet to see a journalist actually ask the correct questions? This sums up perfectly the malicious secrecy involved in the collaboration between the federal government, the American financial markets, and the American media who allows this partnership to operate in the shadows."
Mesmo sabendo nós que a RT está longe de ser alheia aos interesses de Putin, também creio que é exactamente assim. Grande entrevista de Peter Schiff!

quinta-feira, 28 de março de 2013

Dívida pública e a crueza da aritmética

O gráfico abaixo (construído a partir dos dados disponibilizados aqui) pretende  evidenciar, mais do que a atribuição de quotas-partes de responsabilidade pelo explodir da dívida pública, duas ideias simples: 1) Todos os governos deste período (Guterres II, Durão Barroso/Santana Lopes e Sócrates I e II) contribuíram negativamente para a sua evolução (ainda que em graus diferentes); 2) Que, a não acontecerem excedentes orçamentais significativos num futuro muito próximo e durante muitos anos, o necessário "ajustamento", quando chegar, será brutal. Infelizmente, tendo presente o quadro cultural estatista em que vivemos, tanto na oposição como no governo, como no Tribunal Constitucional e também na Presidência da República, não consigo descortinar qualquer outra saída. A aritmética pode ser de uma crueza atroz e este é certamente um desses casos. Vem aí o "Grande Incumprimento" anunciado por Gary North e a razão é esta: "Politicians cannot bring themselves to stop spending money the governments do not have".


Próximo?

Seguindo a máxima de "não acreditar em nada até que seja oficialmente desmentido", dir-se-ia que se consolidam as probabilidades de mais um candidato a ainda mais um pedido de resgate: Primeira-ministra da Eslovénia exclui pedido de ajuda internacional.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Da situação espanhola ou por que os banqueiros idiotas adoram o keynesianismo

Resolvi traduzir mais um (longo) texto de Gary North - Why Dumb Bankers Love Keynesianism. Não por me  ter decidido dedicar-me à tradução (após uma tentativa, na aparência bem sucedida, a avaliar pelo número de hits directos) mas porque me parece estar a crescer o movimento entre nós dos que defendem a saída da zona euro como forma de resolver os nossos problemas. Não é esta a minha opinião e North, no seu estilo muito particular mas sempre cristalino, também não a sustenta. Creio valer a pena conhecer a sua argumentação, 100% anti-keynesiana, nesta sistemática refutação de um texto de Paul Krugman.
Os banqueiros idiotas adoram os resgates governamentais. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas abominam as consequências económicas negativas de decisões estúpidas. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas adoram a inflação monetária que conduz a lucros bancários. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas adoram governos nacionais suficientemente grandes para salvar os grandes bancos. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas odeiam as corridas aos bancos. O mesmo acontece com os keynesianos. Os banqueiros idiotas querem o comando sem terem de arcar com as suas responsabilidades pessoais. O mesmo acontece com os keynesianos.

Paul Krugman é o principal porta-voz do keynesianismo no nosso tempo. Ele vê como sua a função de assegurar que os contribuintes socorram os grandes bancos multinacionais. Quando os contribuintes resistem, ele ridiculariza-os por terem vistas curtas.

Ele dissimula a sua posição de defensor dos interesses dos banqueiros falando em nome dos trabalhadores. Mas os grandes resgates bancários são a consequência inescapável das políticas que preconiza. Ele é o amigo dos banqueiros multinacionais. Tal como sucede com o seu colega de Princeton, Ben Bernanke.

Podemos ver isto no seu recente artigo [link] apelando ao governo alemão, ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Central Europeu para emprestarem mais dinheiro ao governo espanhol muito embora o governo se recuse a cortar na despesa.

Ele quer que a economia evite o custo de liquidar os empréstimos que vieram do Norte. Que deve haver ainda mais empréstimos ao estado para que possa haver mais pagamentos às pessoas desempregadas, que irão gastar o dinheiro e pôr a economia a "rolar". Em seguida, isto permitirá que os devedores espanhóis satisfaçam o pagamento dos juros aos bancos alemães.

Portanto, uma vez apanhados na armadilha dos maus empréstimos, os banqueiros devem fazer ainda mais maus empréstimos. Por que farão eles isso? Porque o governo alemão, o BCE e o FMI vão continuar a comprar títulos de dívida pública do estado espanhol.

Se isto soa como Bernanke e Paulson, em 2008, é porque foram eles que estabeleceram o padrão.

A Europa está entrando em recessão. Há uma contínua crise fiscal na Grécia, em Portugal e em Espanha, que é enorme.

A Alemanha entrou agora em recessão. A Grã-Bretanha, provavelmente, já lá entrou.

Krugman está consternado com as exigências do FMI, do BCE e dos políticos alemães segundo as quais a redução da despesa dos governos dos PIIGS deve ser uma condição para beneficiarem do auxílio do FMI e da Alemanha. Ele é um keynesiano. Ele odeia a ideia de austeridade, que significa austeridade para as burocracias estatais. Ele quer mais despesa por parte dos governos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dançando sobre o túmulo do keynesianismo

Num momento notável de insensatez, intentei traduzir o importante texto de Gary North que foi publicado no site do Mises Institute, na 2ª feira, dia 1 de Outubro. O título era, confesso-o, aliciante - Dancing on the Grave of Keynesianism - mas o que se me tornou irresistível foi o seu brilhante conteúdo e a necessidade que senti em contribuir para o divulgar. As minhas desculpas pelas insuficiências na tradução (de minha inteira responsabilidade) pelo que aconselho vivamente a leitura do original.
O colapso da União Soviética em Dezembro de 1991 foi a melhor notícia da minha vida. O monstro morreu. Não foi apenas a URSS que caiu. Toda a mitologia da violência revolucionária como método de regeneração social, promovida desde a Revolução Francesa, caiu com ela. Como escrevi no meu livro de 1968, o marxismo foi uma religião da revolução. E o marxismo morreu institucionalmente no último mês de 1991.

Imagem retirada daqui
No entanto, não podemos mostrar conclusivamente que "o Ocidente" derrotou a União Soviética. O que derrotou a União Soviética foi o planeamento económico socialista. A União Soviética baseava-se no socialismo e o cálculo económico socialista é irracional. Ludwig von Mises, em 1920, descreveu por quê no seu artigo "Cálculo Económico na Comunidade Socialista". Ele mostrou, no plano teórico, exactamente o que há de errado com todo o planeamento socialista. Ele deixou claro por que razões o socialismo nunca poderia competir com o mercado livre. Em consequência de não existirem mercados de bens de capital, os planeadores económicos não conseguem alocar o capital de acordo com as necessidades mais importantes e mais desejadas pelo público.

A argumentação de Mises não foi levada a sério pela comunidade académica. O socialismo era tão popular entre os académicos, em 1920, que eles não responderam a Mises durante mais de 15 anos. Quando finalmente um importante economista, que de facto não era um grande economista mas simplesmente um comunista polaco, elaborou uma resposta a Mises, obteve grande publicidade. O seu nome era Oscar Lange. Ele era um homem sem princípios. Ele ensinou na Universidade de Chicago. Ele não tinha nenhuma teoria do funcionamento da economia. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, voltou para a Polónia, renunciou à sua cidadania americana e tornou-se num importante burocrata do governo polaco. Ele foi escolhido a dedo por Estaline para ser o primeiro embaixador polaco nos Estados Unidos. Ele era um marxista. Ele era um comunista. Ele era um homem sem princípios. Passou a sua carreira com o dedo no ar, para ver de que lado o vendo soprava. Quanto à sua crítica de Mises, nunca a Polónia adoptou a por si designada resposta organizacional prática a Mises, tal como em nenhuma outra nação da comunidade socialista.

Deste modo, a única supostamente grande refutação académica a Mises foi feita por um homem desprovido de integridade que se passou para o lado do comunismo quando conseguiu uma oferta melhor. E todavia foi anunciado como sendo um economista brilhante porque, supostamente, havia refutado Mises. O mundo académico nunca admitiu o que Lange foi: um comunista sem princípios. Ele nunca admitiu que nenhum país socialista alguma vez tivesse aplicado a sua suposta alternativa ao sistema de  mercado livre. O mundo académico agarrou-se simplesmente, por mais de 50 anos, à sua totalmente hipotética alternativa ao mercado livre para a alocação de capital. O mundo académico não aprenderia a verdade.

domingo, 30 de setembro de 2012

Austeridade e dissociação cognitiva

Um excerto da crónica de hoje de Alberto Gonçalves:
"Ao que tudo indica, o povo em protesto não quer aumentos de impostos e, em simultâneo, não quer a redução na despesa que compensaria a manutenção dos impostos tal como estão ou estavam. O povo pretende a expulsão da troika e não se encontra minimamente preparado para a penúria que a partida da troika implicaria. O povo rejeita a austeridade sem perceber que a alternativa é uma austeridade maior e menos meiga. O povo está contra o Estado e vive apavorado com a ideia de que o Estado recue nas suas vidas. O povo insulta o Governo que desastradamente tenta corrigir as contas públicas embora não deseje que as corrija com acerto, nem dedique grandes insultos aos governos que deliberadamente transformaram as contas públicas na ruína actual. O povo, em suma, é realista à maneira do Maio de 68: pedindo o impossível. Impossível no sentido de que não tem pés nem cabeça."
Acresce, como bem observa o cronista logo a seguir ao trecho transcrito, que o problema cognitivo não se circunscreve ao povo (relembrando um memorável post de João Caetano Dias). De facto,  a bandeira desta doença profunda é hasteada pela quase totalidade dos media e das nossas elites.

A via do default, isto é, do incumprimento do serviço da dívida e mesmo do seu repúdio, é um caminho possível para a saída da terrível situação em que nos encontramos (decorrente do gigantesco processo de endividamento público para que os nossos governos nos arrastaram, pelo menos nos últimos 17 anos). Não me custa admitir até que essa seja uma saída moralmente defensável. É, porém, uma via de dor, instantânea, profunda e duradoura. Que ninguém tenha a menor dúvida disso.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Portugal e a Zona Euro: permanecer ou abandonar? (2)

(Continuação daqui)

Como sempre acontece, o sector privado da economia rapidamente se ajusta. Se não há crédito disponível, os agentes privados não têm como escapar: já não podem despender mais do que o seu rendimento. Inclusivamente, com as famílias, verifica-se um fenómeno aparentemente paradoxal: embora, no agregado, o rendimento disponível diminua, a poupança aumenta!

Já com o Estado, o ajustamento às novas condições de forte restrição de crédito é muito lento e talvez mesmo virtualmente impossível sem default: Por um lado, porque é "impensável", por politicamente muito perigoso, pôr em causa as "conquistas civilizacionais" do Estado social (até que...); por outro, porque a gigantesca burocracia estatal (a oficial e a "paralela") é de uma tenacidade a toda a prova quando se trata de se auto-proteger (sabe muito bem que a melhor forma do fazer é, até, de clamar pelo seu contínuo crescimento).

Chegados aqui, surge a pergunta em título. Devemos nós abandonar a Zona Euro, desvalorizar e, em consequência, automaticamente empobrecer face ao exterior para, de seguida, imprimir dinheiro freneticamente ao ritmo das reivindicações de reposição do poder de compra pelos sindicatos (em regra, sem sucesso) e assim criar um novo ciclo inflacionista dos preços? Ora nós já vimos este filme por duas vezes num passado não longínquo. Alguém acredita que, deixados a nós próprios, iríamos conseguir adoptar uma política orçamental responsável sem recurso sistemático ao imposto da inflação?

É esta, no essencial, a razão pela qual creio ser desejável que permaneçamos na Zona Euro. Ainda que de uma forma imperfeita, essa condição obriga o Estado português a observar regras mínimas de "austeridade", ou seja, que não gaste sistematicamente mais do que recebe via impostos (e sem sofrer as consequências de os aumentar). Se o não fizermos também no futuro, o crédito voltará a secar. É esta a disciplina que o euro nos impõe. E se é certo que o BCE tem vindo a acelerar, por diversas formas, a monetização das dívidas soberanas (criando moeda para o efeito), há razões fortes para pensar que a sua dimensão, pelo menos enquanto a Alemanha permanecer na Zona, nunca será tão acentuada como a que sucederia sob um regime de moedas nacionais (nacionalismo monetário).

Creio, assim, que Jesús Huerta de Soto tem toda a razão (do ponto de vista dos países fiscalmente irresponsáveis como é o nosso) quando tem a ousadia intelectual de propor uma defesa do euro enquanto substituto, ainda que imperfeito, para a disciplina orçamental que um regresso a um padrão-ouro exigiria. (Inclusivamente na sugestão que faz a Philipp Bagus, seu antigo discípulo e autor da Tragédia do Euro de proceder a uma alteração no título desta última obra para "A Tragédia do Banco Central Europeu (e não do euro)").

Nota: em sentido contrário ao que aqui defendo, ver a coluna de hoje de Camilo Lourenço.

Portugal e a Zona Euro: permanecer ou abandonar? (1)

A azul os países actualmente membros da Zona Euro
 (imagem retirada daqui)
Quando falamos no euro estamos a falar de duas coisas diferentes ainda que interligadas: de um projecto instrumental para a concretização do fim último perseguido pelos seus promotores - a criação dos Estados Unidos da Europa (EUE) -, mas também, numa acepção estritamente monetária e económica, da criação de um regime de "câmbios fixos" entre os países pertencentes à zona onde o euro é a moeda adoptada.

Não faço parte daqueles que anseiam pelo aparecimento dos EUE obtidos através da persistente acção de um planeamento central burocrático e agressivamente metastático, também conhecido pelo "método comunitário". Nada de bom advirá daqui senão a continuação do declínio económico relativo da "Europa" e não será a propaganda das "Estratégias" e das "Agendas" que o poderá evitar, muito menos por uma qualquer espécie de "Grande Salto em Frente". Só há um "método" seguro, win-win, no relacionamento entre as nações: o que resulta do comércio livre que garante, sempre, o benefício mútuo dos que nele participam.

Mas o que me interessa agora abordar, ainda que brevemente, são os méritos e eventuais deméritos (económicos) da adesão (e permanência) a uma zona monetária única como é a do euro.

Miguel Beleza, antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva, em recente entrevista ao i, confessava que o argumento a que o então primeiro-ministro foi "particularmente sensível" para concordar com à adesão de Portugal à "União Monetária Europeia", antecâmara ao euro, foi o de, por essa via, "ficarmos com taxas [de juro] iguais às da Holanda – a dívida portuguesa com as taxas holandesas". Eis, sem grandes enfeites ou rodeios, a  grande vantagem do euro segundo o ponto de vista dos políticos: poder passar a financiar a dívida pública a baixas taxas de juro, o que viria a significar a capacidade de aumentar em muito o endividamento sem que os juros a suportar se tornassem um obstáculo. Uma espécie de um novo "ouro do Brasil", porventura o derradeiro. E foi assim que o Estado inchou até ter (quase, por enquanto) rebentado.

Do lado da economia privada, famílias e empresas, ao passarem a aceder a condições de crédito com que "nem no  tempo da outra senhora" sonhavam, aplaudiram a decisão. Era, afinal, ou parecia ser, um grande e continuado "almoço grátis".

Até ao dia em que o crédito secou, por receio dos credores de que o país não fosse capaz de pagar o que pediu emprestado.

(Continua)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Epifania tardia

Ferreira Leite diz que pensionistas estão a ser alvo de um "logro".

O logro não é de agora, ele sempre existiu desde que o Estado prometeu o que sabia não poder cumprir. Os esquemas de Ponzi,  mais tarde ou mais cedo, sempre acabam mal.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sinais (15)

Miguel Madeira perguntava ontem, aqui, se os bancos gregos abririam hoje de manhã ou se durariam até ao próximo fim-de-semana, depois das notícias de Domingo que davam conta de que o FMI já "teria desistido" da Grécia. É certo que o dia de hoje chegou e os bancos gregos (ainda) abriram. Mas o fim não deve andar longe (ainda que os zombies, frequentemente, custem a aceitar que já morreram).

É certo que se mantém o truísmo que "a Espanha não é a Grécia", mas um outro fim parece aproximar-se, inexorável: o fim da negação de que não seria preciso um novo o resgate soberano: yields dos títulos da dívida pública espanhola a 10 anos a chegar a 7.5%, um spread para os títulos germânicos que atinge os 640 pontos e a bolsa espanhola a dar um novo tombo que já rondou os 5% hoje de manhã.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O inadjectivável delírio

Vasco Pulido Valente escreve sob o título "E não se queixem da Sra!". Um excerto:
«O programa do Partido Socialista Francês reflecte, de resto, o inadjectivável delírio da facção "socrática" do nosso PS. Segundo Hollande veementemente promete (e esperemos que se trate de uma grande mentira) se ele por acaso ganhar, os rendimentos acima de 1.000.000 € serão taxados em 75%; o Estado criará uma espécie de "Banco de Fomento" à Salazar para as PME; a idade de reforma desce para os 60 anos (porque não para 50?); o sistema escolar irá receber até 2017 mais 60.000 professores; e o PSF vai renegociar o PO e congelar os combustíveis durante três meses. Nem a irresponsabilidade de Guterres conseguia congeminar um plano tão absurdo, que nem para 1990 parece razoável. Mas, como se sabe, a França é o berço da revolução e o farol da humanidade. Não é?»
Público, 14-12-2012