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quinta-feira, 7 de maio de 2015

40 anos após o termo da Guerra do Vietname - testemunho e análise de Eric Margolis

A dia 30 de Abril último passaram 40 anos sobre a queda de Saigão (hoje cidade de Ho Chi Minh) às mãos do exército regular norte-vietnamita (imagens). Terminava assim a 2ª guerra da Indochina (uma outra designação para a guerra do Vietname), que se iniciara de forma larvar logo após o termo da 1ª (1946-1954) - quando os franceses foram forçados a abandonar as suas pretensões coloniais no sudeste asiático - para grande consternação americana - na sequência da estrondosa derrota militar sofrida em Dien Bien Phu. Era o tempo da "teoria do dominó", adoptada pela administração Eisenhower, doutrina segundo a qual era imperioso conter a "contaminação" de um país numa dada região pelo vírus comunista pois, caso contrário, a infecção espalhar-se-ia inexoravelmente aos seus vizinhos. As sucessivas administrações decidiram aumentar a sua intervenção no Vietname até que, com Lyndon Johnson, se iniciou o horror em grande escala. A derrota americana deixou marcas profundas e fez regredir, embora momentaneamente como se veria, a pulsão intervencionista no país. Não por acaso, o então (e ainda) influente Zbigniew Brezhinski gabava-se de ter conseguido atrair a então União Soviética para o seu próprio "Vietname" (quando a URSS invadiu o Afeganistão em 1979. Uns anos mais tarde (1983) será Reagan, pela via da invasão da minúscula Granada, que faria reacender o activismo militar intervencionista americano.

No texto que hoje proponho aos leitores, Eric Margolis refere a sua condição de participante directo no conflito e como a sua própria adesão inicial se desvaneceu. Passa em revista alguns dos marcos daquela guerra, das doutrinas e da geopolítica, não lhe custando encontrar paralelismos com os tempos que correm. E com os erros que se repetem. Não está optimista - «Infelizmente, parecemos ter esquecido tudo sobre a guerra do Vietname sem que tenhamos aprendido nada.»
2 de Maio de 2015
Por Eric Margolis


Eric Margolis
Corria o ano de 1967. A guerra do Vietname estava no auge.

Eu tinha 24 anos e acabara de sair da escola de pós-graduação de New York City. Tinha sido aceite na Universidade de Cambridge para fazer um doutoramento em história.

Mas não. Num acesso de patriotismo de juventude, concluí que era dever de todo o cidadão alistar-se nas forças armadas em tempo de guerra. Foi assim que me ofereci como candidato a oficial de infantaria do Exército dos EUA e enviado para a instrução básica.

A vida só pode ser compreendida em retrospectiva e é com a sabedoria que ela proporciona que a maioria das pessoas considera que os longos 20 anos da Guerra do Vietname foram um erro terrível, um crime mesmo. Mas, à época, o envolvimento militar dos EUA na Indochina parecia fazer sentido. Para mim não havia dúvidas. Eu estava orgulhoso por vestir o uniforme do meu país.

O general Douglas MacArthur advertira os americanos para "nunca travarem uma guerra terrestre na Ásia". Ele havia presidido, uma década antes, ao impasse sangrento na Coreia e conhecia a capacidade combativa e a tenacidade dos soldados asiáticos.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Grande Guerra - O desastre de Gallipoli (e de Churchill)

Em mais um episódio ilustrador do famoso dictum de George Orwell quanto à importância do controlo sobre a "narrativa" do passado, o presidente turco Recep Erdoğan resolveu este ano antecipar em um dia as comemorações sobre o centenário da campanha militar na península de Gallipoli (25 de Abril), onde as tropas do então império otomano, antecessor na Anatólia da Turquia moderna, venceram as tropas aliadas. A ideia das autoridades turcas é, obviamente, contribuir para olvidar um outro aniversário que ocorre na véspera, 24 de Abril de 1915 - o da detenção pelas polícias de cerca de 250 individualidades de etnia arménia no país -, caso que marcou o início do que reconhecidamente, à prática excepção das autoridades turcas, a História assinalou como o genocídio arménio - bem acima de um milhão de mortos. São poucas, infelizmente, as vezes em que vejo razão para aplaudir o Papa Francisco, mas esta é uma delas. Haverá ainda, talvez, razões para especular quanto a uma eventual ligação entre os dois acontecimentos, mas esse não é o tema do artigo que hoje me propus partilhar com os eleitores. Eric Margolis traz-nos uma leitura sobre a campanha militar de Gallipoli, e sobre o seu principal responsável - Winston Churchill. Votos de uma boa leitura.
19 de Abril de 2015
Por Eric Margolis


Faz este mês cem anos, em Abril de 1915, quando os aliados e a Alemanha se encontravam numa situação de impasse na Frente Ocidental. Winston Churchill, o jovem e ambicioso ministro da Marinha britânica, propôs uma manobra inicialmente avançada pelo primeiro-ministro da França, Aristide Briand.

Eric Margolis
A melhor maneira de a Grã-Bretanha e a França porem termo ao impasse e estabelecerem ligação com o seu aliado isolado, a Rússia, seria através de um ousado "coup de main", um ataque de surpresa, visando conquistar os Dardanelos ao Império Otomano, ocupar Constantinopla (hoje Istambul) e pôr a Turquia fora da I Guerra Mundial. Embora muito periclitante, o Império Otomano era o mais importante aliado da Alemanha.

O plano de Churchill consistia em enviar navios de guerra das marinhas de guerra britânica e francesa e abrir caminho à força por entre os decrépitos e obsoletos fortes da Turquia ao longo do estreito dos Dardanelos que liga o Mar Egeu e o Mediterrâneo ao Mar de Mármara, a Constantinopla e ao Mar Negro, a linha de vida marítima da Rússia.

Esta ousada intervenção naval, que alguns previram que rivalizaria a do dramático ataque do almirante Nelson em 1801 à esquadra dinamarquesa-norueguesa abrigada em Copenhaga, conduziria rapidamente à vitória na guerra e alcandoraria Churchill à condição de supremo senhor da guerra, uma sua ardente ambição.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Lincoln - culto e mentira

Em consequência do atentado a tiro perpetrado por John Wilkes Booth na véspera, Abraham Lincoln faleceria em 15 de Abril de 1865, há precisamente 150 anos. Persistem, até aos nossos dias, fundadas dúvidas quanto à "narrativa" da versão oficial do que na altura sucedeu: acção de um lobo solitário ou produto de uma conspiração? Uma pergunta recorrente nos EUA ao longo dos anos, pergunta a que o establishment americano sempre imprimiu um sentido de urgência na adopção da primeira hipótese e em descartar a segunda (um outro aspecto do excepcionalismo americano como defenderia Allen Dulles poucos meses após o assassínio de JFK). Em qualquer caso, ao observar com atenção a fotografia do Lincoln Memorial (Memorial a Lincoln), perceber-se-á


onde os "historiadores da corte" colocaram Lincoln - num Olimpo onde só há lugar para um deus que ele incarnou em vida.

Mas, também aqui, são cada vez mais os académicos que desafiam o "monstro sagrado". Thomas DiLorenzo é um deles e, tal como faz Paul Craig Roberts no artigo que de seguida se propõe aos leitores, aconselho com veemência a leitura dos seus livros sobre Lincoln (para um vislumbre do seu conteúdo, leia-se o sumarento texto que hoje publicou no LRC). É que, como sabemos, as mentiras do passado são em boa medida sustentáculo das actuais. Na política como na economia.
13 de Abril de 2015
Por Paul Craig Roberts


É uma das ironias da história que o Lincoln Memorial seja um espaço sagrado para o Movimento dos Direitos Civis e o local onde Martin Luther King proferiu o discurso "Eu tenho um sonho".

Paul Craig Roberts
Lincoln não pensava que os negros fossem iguais aos brancos. O plano de Lincoln consistia em enviar os negros da América de volta para África. Não tivesse ele sido assassinado, essa teria sido provavelmente a sua política no pós-guerra.

Como Thomas DiLorenzo e um conjunto de historiadores não pertencentes à corte concludentemente estabeleceram, Lincoln não invadiu a Confederação para libertar os escravos. A Proclamação da Emancipação só ocorreu em 1863, quando a oposição no Norte à guerra estava em crescendo, apesar das medidas do estado policial de Lincoln para silenciar opositores e jornais. A Proclamação da Emancipação foi uma medida de guerra emitida ao abrigo dos poderes de guerra de Lincoln. A proclamação permitiu que os escravos emancipados fizessem parte das fileiras do exército da União para compensar as baixas sofridas. Também havia a expectativa de que o anúncio viesse a provocar revoltas entre os escravos do Sul, enquanto os homens brancos sulistas estavam longe na guerra, e assim retirar soldados das frentes de batalha para proteger as suas mulheres e crianças. A intenção era a de acelerar a derrota do Sul antes que a oposição política a Lincoln se fortalecesse no Norte.

domingo, 1 de março de 2015

Ucrânia, um debate por fazer (I)

Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre Václav Klaus, será difícil não lhe reconhecer a clareza e o desassombro que sempre coloca no expressar dos seus pontos de vista - a defesa liberdade e da economia de mercado, o repúdio dos venenos do multiculturalismo e do globalismo universalista, a recusa do consequencialismo neocon do "fim da história" ou o combate ao ecologismo delirante. Num tempo em que o "politicamente correcto" reina, inclusive em sedes que se reclamam adeptas do conservadorismo (quando não do libertarianismo...), o afrontar o pensamento único vigente impõe com frequência um preço pessoal elevado: o isolamento e, pior, o esquecimento advindo da supressão/ocultação da opinião dissidente. A meu ver, "A Contra-Corrente" seria um título que se ajustaria a umas eventuais memórias que entenda vir a escrever (leia-se, por exemplo, esta entrevista).

Václav Klaus
Klaus - talvez o principal artífice, a seguir à "Revolução de Veludo", do quadro institucional pós-comunista na antiga federação da Checoslováquia, da privatização em massa de uma economia estatizada onde se soube evitar a emergência de clãs oligarcas, e da separação, negociada e pacífica (incluindo a moeda), entre as duas nações que a compunham - é agora ainda mais ostracizado devido à leitura que faz dos acontecimentos na Ucrânia. Tendo terminado o seu segundo mandato presidencial em Março de 2013, Klaus fundou entretanto um Instituto através do qual, acompanhado nomeadamente pelo seu antigo chefe de gabinete, Jiří Weigl, vai mantendo um repositório das suas intervenções. É desse repositório, que escolhi um texto co-assinado por Klaus e Wegl, publicado em 15 de Abril de 2014, cujo título - Let's start a real Ukrainian debate ("Iniciemos um debate a sério sobre a Ucrânia") - não escondia ao que vinha. Passados mais de dez meses sobre a sua publicação, o debate para que apelava o texto não aconteceu. Para a esmagadora maioria da opinião publicada entre nós, como no Ocidente em geral, não só perdura o maniqueísmo dos "bons" contra os "maus" como, de então para cá, ele se acentuou. Como ainda ontem voltou a suceder com uma nova "prova" (mas afinal eram ainda necessárias mais?) da alegada malignidade do Kremlin. Deste modo, cremos que o texto mantém toda a actualidade. O debate sobre a Ucrânia continua por fazer.

Tratando-se de um texto algo longo, iremos publicá-lo por partes. A primeira tem por finalidade dar um enquadramento histórico sumário do espaço geográfico ucraniano e relembrar que as linhas de demarcação conhecidas por fronteiras têm, as mais das vezes, muito de arbitrário e volátil, situação que o checo Klaus, casado com uma eslovaca, conhece aliás particularmente bem.
15 de Abril de 2014
Por Václav Klaus e Jiří Weigl


Parte I: Introdução - A herança difícil do passado

O estado ucraniano de hoje é um triste resultado das tentativas de Estaline para misturar nações e fronteiras, perturbar laços históricos naturais e criar um novo homem soviético transformando nações originais em meros resíduos étnicos e remanescências históricas. Ter isto em consideração é o ponto de partida do nosso pensamento, algo que infelizmente está em falta nos debates políticos de hoje.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Como ensinar História sem recorrer a manuais

Entre 10 e 12 de Fevereiro do corrente mês, morreram três conhecidos jornalistas americanos que estavam envolvidos numa investigação aos acontecimentos de 11 de Setembro: Bob Simon (CBS), 73 anos, num acidente de automóvel; Ned Colt (NBC), 56 anos, de ataque cardíaco; e David Carr (NYT), 58 anos, que sofreu um colapso súbito na redacção do New York Times (a autópsia viria a atribuir a causa de morte a cancro de pulmão e insuficiência cardíaca). Este último, horas antes, havia moderado um painel em que participaram, entre outros, Glenn Greenwald, Laura Poitras e Edward Snowden (por vídeo-conferência), a propósito do CitizenFour, um documentário nomeado para os Óscares de 2015, onde a realizadora Poitras conta a história do whistleblower Snowden. Meras coincidências semelhantes a estas 103? Talvez. Em todo o caso, foram estas circunstâncias que me motivaram a traduzir um recente artigo de Gary North onde se aborda o tema do revisionismo histórico e a estratégia para estimular os alunos a aguçar a sua curiosidade relativamente à História e, em particular, às histórias que se contam sobre ela (bem como as que não se contam...).
17 de Fevereiro de 2015
Por Gary North


O cerne da história revisionista reside nisto: a versão do manual escolar está errada.

Gary North
Ela poderá estar errada por razões meramente técnicas pois é possível que determinados documentos tenham sido suprimidos, perdidos, ignorados. Poderá suceder que um dado acontecimento seja bem mais complexo do que os manuais escolares indicam. Mas, em algumas matérias, nomeadamente as relativas à banca, à guerra e à despesa pública, a história narrada no manual foi deliberadamente escrita por historiadores da corte. Os historiadores da corte suprimiram deliberadamente informação quando esta apontava para origens conspiratórias do acontecimento. É crucial para os historiadores do establishment poder ignorar investigações desse tipo catalogando-as de história conspirativa, como se as conspirações não existissem na história, e como se elas não controlassem os acontecimentos do passado.

Deste modo, o historiador revisionista deve começar com esta pergunta: quais são os aspectos de um acontecimento particular que jamais poderiam ter tido lugar? O que leva à pergunta seguinte: quais foram as perguntas que a guilda dos historiadores se recusou deliberadamente a colocar? Porquê?

Quase todas as guerras na história dos Estados Unidos são elegíveis para uma história revisionista. Já anteriormente afirmei que o que precisamos é de um estudo, em múltiplos volumes, das guerras em que a América interveio. Cada volume deveria analisar uma guerra e responder a três perguntas.
  1. Como é que os Estados Unidos entraram na guerra?
  2. Como é que a guerra foi paga?
  3. Quais foram os resultados sociais e económicos da guerra?

domingo, 2 de novembro de 2014

A quarta derrota britânica no Afeganistão

Depois da extraordinária herança deixada no Iraque, os Estados Unidos e os seus aliados, obtido um novo "sucesso" politico-militar no Afeganistão, encetam mais uma retirada de tropas, concluída que está, supostamente, a "missão" que justificou o seu envio. Como em outras ocasiões, deixam por lá um contingente de "conselheiros" e "instrutores" para auxiliar a integral assumpção das responsabilidades de segurança pelo exército (?) local. Deixam também uma florescente indústria do ópio (e heroína), droga com presença assídua nas guerras asiáticas em que as potências imperiais ocidentais participaram desde o século XIX até aos dias de hoje. É este o tema do artigo de Eric Margolis que me propus partilhar traduzindo-o. Margolis usa o seu profundo conhecimento no "terreno" da região cruzando-o com o sempre instrutivo e necessário enquadramento da história contemporânea da região.
Por Eric Margolis
1 de Novembro de 2014

Ninguém ousa classificá-la como uma derrota

Eric Margolis
Os últimos soldados britânicos saíram do Afeganistão na semana passada por via aérea, assim marcando o triste fim da quarta invasão falhada do Afeganistão pela Grã-Bretanha. Foram acompanhados pelo último destacamento de fuzileiros navais dos EUA que estava sediado em Helmand.

Muito tem feito o Afeganistão por merecer o epíteto de "cemitério de impérios"!

Para ser mais rigoroso, esta honra pertence às tribos pashtuns das montanhas do Afeganistão, que não dobram os seus joelhos perante ninguém e se orgulham do seu espírito guerreiro.

No meu livro, "War at the Top of the World" ["Guerra no Topo do Mundo" - NT], escrevi que os pashtuns eram "os homens mais valentes ao cimo da Terra". Mais tarde, acrescentaria os ferozes tchetchenos àquela fraternidade ilustre.

Os velhos imperialistas desapareceram, mas a ocupação do Afeganistão continua. O novo regime de Cabul, recém-instalado por Washington para substituir o anterior aliado e pouco cooperante Hamid Karzai, apressou-se a assinar um "acordo" que permite aos Estados Unidos manter cerca de 10 mil militares no Afeganistão por mais uns anos. Os seus membros não terão de observar as leis afegãs.

Todavia, há muito mais coisas neste arranjo. As tropas de combate dos EUA, diplomaticamente rotuladas de "instrutores" ou de "forças anti-terroristas", não são suficientemente numerosas para controlar todo o Afeganistão. A sua missão é a de defender o governo fantoche de Cabul do seu próprio povo e a crucialmente importante base aérea americana de Bagram.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"

Recordo-me com razoável nitidez dos tempos em que a RTP, anos a fio, "informava" diligentemente os seus telespectadores das sucessivas "vitórias" dos "exércitos" do Vietname do Sul e do Cambodja de Lon Nol e das impressionantes baixas consistentemente infligidas aos vietcongs. Com o desaparecimento da Indochina francesa - Vietname, Cambodja e Laos -, os EUA tentaram instalar em seu lugar uma pax americana. O resultado é conhecido e dele ressalta, pela dimensão do horror indizível, o regime genocida de Pol Pot (que, por uma das ironias da História, só viria a ser derrubado pelo Vietname comunista).

Hoje já não vejo televisão. Também talvez por isso creio ajustados os paralelos que o veterano jornalista John Pilge estabelece entre a "criação" de Pol Pot e a do que hoje conhecemos por Estado Islâmico, ISIS/ISIL, e do "exército" iraquiano sem concluir pela paternidade comum. As acções têm consequências e muitas das vezes - as mais das vezes? - produzem efeitos inesperados, indesejáveis e até mesmo contraproducentes para com os objectivos de quem as iniciou. No texto que procurei traduzir (onde inseri imagens e links da minha responsabilidade) são invocados vários testemunhos a que é impossível ficar indiferente. Como esquecer estas palavras de Madeleine Albright ao programa 60 Minutos quando tacitamente aceita atribuir ao bloqueio iraquiano a causa da morte de meio milhão de crianças e ter a temeridade de afirmar que "foi um custo que valeu a pena incorrer"? Como ignorar estas declarações de Roland Dumas (antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros sob François Mitterand), proferidas no ano passado na TV francesa, para entender a guerra terrível que dura há 3 anos e meio na Síria? Ou não merece isto, literalmente visível da janela da Turquia, a urgente retirada de conclusões?
Por John Pilge
8 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"
(From Pol Pot to ISIS: “Anything that flies on everything that moves”)

Quando transmitiu as ordens do presidente Richard Nixon para o bombardeamento "maciço" do Cambodja em 1969, Henry Kissinger disse: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova".

Agora que Barack Obama desencadeou a sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir uma nostalgia da honestidade assassina de Kissinger.

Enquanto testemunha das consequências humanas da selvajaria aérea - incluindo a decapitação das vítimas, cujos pedaços ornamentavam as árvores e os campos - não estou surpreendido pela desconsideração, uma vez mais, pela memória e pela história. Um exemplo revelador é o da ascensão ao poder de Pol Pot e dos seus Khmers Vermelhos, que tinham muito em comum com Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) dos dias de hoje. Também eles foram implacáveis ​​medievalistas que começaram por ser uma pequena seita. Também eles foram o produto de um apocalipse de fabrico americano, no caso na Ásia.

Foto do The Guardian
De acordo com Pol Pot, o seu movimento consistia em "menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto à estratégia, táctica, lealdade e líderes a seguir". Iniciados os bombardeamentos pelos B-52 de Nixon e Kissinger como parte integrante da "Operação Menu", o demónio supremo do Ocidente mal podia acreditar na sua sorte.

domingo, 5 de outubro de 2014

Manifestações em Hong Kong: um caso isolado ou algo de muito mais importante?

Uma leitura interpretativa dos acontecimentos que têm vindo a ocorrer em Hong Kong por parte de Eric Margolis, um jornalista e escritor ferozmente independente e cuja solidez das suas análises se funda numa longa experiência adquirida in situ conjugada com um sólido conhecimento da história dos povos. São estas as razões da frequente presença por aqui sempre que se abordam temas entre o meridiano ocidental do Médio Oriente e o mais a oriente na China. A tradução é, como habitualmente, da minha responsabilidade.
3 de Outubro de 2014
Por Eric Margolis

Hong Kong Está a Ferver – Mas, até Ver, Suavemente
Hong Kong Boiling – But Gently, So Far

Hong Kong vive sob uma fervura suave. No momento em que escrevo, dezenas de milhares de estudantes continuam a manifestar-se de forma polida, exigindo que o chefe do governo nomeado por Pequim, CY Leung, se demita e seja substituído por recurso a eleições livres.

Eric Margolis
A política poucas vezes faz deflectir a obsessão maníaca de Hong Kong com os negócios e a finança, mas a onda de descontentamento da juventude representa para a China um dos seus maiores desafios de origem popular desde a revolta de Tiananmen em 1989 - que a China insiste nunca ter acontecido.

Até agora, o Partido Comunista da China e o seu novo chefe, o “falcão” Xi Jinping, têm-se contido sem recorrer a medidas de repressão dura para travar as manifestações pacíficas. Agora, todavia, os líderes dos protestos ameaçam apoderar-se de edifícios governamentais, a menos que Pequim desista dos planos para escolher o novo governo de Hong Kong em 2017. Este é um desafio directo à autoridade nacional de Pequim.

Considerando que o regime de Pequim é impiedoso no esmagamento dos protestos dos uigures muçulmanos na estratégica província de Xinjiang, a mais a ocidente da China, as exigências de Hong Kong no sentido de conseguir uma verdadeira autonomia e auto-governo surgem num momento particularmente difícil para o Partido Comunista, que está a festejar o seu 65 º aniversário da tomada de poder.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um forte argumento contra a "reindustrialização"

Entre nós, os apelos à "reindustrialização" tiveram em Álvaro Santos Pereira um dos mais estrénuos defensores (foi a sua principal bandeira enquanto ministro). Pelo que por aí se escreve, parece que o (ainda?) líder do PS também é agora um seu grande defensor. Aliás, em bom rigor, será difícil encontrar alguém que, pelo menos publicamente, discorde desse "desígnio" (Telmo Azevedo Fernandes é uma rara excepção). Por mim, confesso, não ser um adepto do credo muito embora por aqui com frequência se combata o que na prática o estado faz para dificultar, quando não impedir, a actividade empresarial. Particularmente a industrial. Bastará recordar, por exemplo, a assassina política energética adoptada, que não mostra sinais de abrandar, pelo bem sucedido combate contra os preços competitivos da energia. Ou os labirínticos e orwellianos processos que os diferentes "licenciamentos" exigem apesar do nevoeiro da propaganda das iterações "simplex" e dos sucessivos programas de "estímulo e incentivo". Tudo isto encimado por uma regulação opressiva e asfixiante. Um combate activo contra o capital produtivo, pois.

No artigo que se segue (tradução e links da minha responsabilidade), Gary North explica, pacientemente, por que o discurso da "reindustrialização", entendida como a tentativa de aumentar a fatia do sector industrial em % do PIB, não apenas não faz sentido como é contrária ao aumento do bem-estar! Há dias, dei conta de uma notícia que destacava que o volume, em toneladas, de conservas exportadas por empresas portuguesas em 2013, tinha igualado um recorde que datava de 1923. Mas o que devia ser destacado é que esse recorde tinha sido igualado com apenas 5,65% do número de fábricas que havia então (400 contra as actuais 23)!

Afinal, não começou na Escócia, mas a conjugação das leis de Moore e de Meltcalf conjugadas uma quiçá surpreendente lei dos rendimentos acelerados e da impressão 3-D vai atingir em cheio o estado-nação porque irá impôr uma descentralização massiva. E esse movimento, na tese de North, é insusceptível de ser impedido. Apesar dos luditas de turno.

Um excelente fim-de-semana!
12 de Setembro de 2014
Por Gary North

Mercados Livres: Bens Mais Baratos, Maior Riqueza, Melhores Empregos

A questão surgiu num dos fóruns sobre o futuro da produção nos Estados Unidos.

Para iniciar a formulação da resposta, atentemos num gráfico da evolução da manufactura em todo o mundo. A sua trajectória não é apenas característica dos Estados Unidos; é também a da Europa Ocidental, do Japão e do mundo como um todo. Como é visível, o contributo da indústria, em termos percentuais, no total da produção económica, diminuiu marcadamente durante os últimos 40 anos. Se o gráfico abrangesse os 40 anos anteriores, observaríamos a persistência de uma inclinação semelhante. Este é um fenómeno mundial e irreversível que tem acompanhado a expansão do crescimento económico mundial ao terceiro mundo e em especial à Ásia.



Há pessoas que se queixam da redução do peso relativo da indústria no produto interno bruto dos Estados Unidos. Isto acontece devido à total falta de familiaridade dessas pessoas com o fenómeno à escala mundial. Elas não compreendem que o crescimento económico acompanha a redução, em termos relativos, do peso da manufactura numa economia nacional.

O CORAÇÃO DE RIQUEZA MODERNA

O coração da riqueza não está na indústria mas sim no conhecimento aplicado para reduzir a importância da manufactura na economia como um todo, e em aumentar a riqueza das massas através dos serviços. Estes serviços podem ser digitais. Como podem ser pessoais. Mas não se baseiam na actividade industrial.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

As acções de Putin na Ucrânia: "inaceitáveis" ou provocadas e previsíveis?

Independentemente de isto se vir a confirmar - caso em que, a meu ver, só acelerará a importância do eixo Moscovo-Pequim (tal como a intervenção no Iraque acabaria a reforçar a posição do Irão) -, parece-me pertinente a devida referência à coluna de sábado do insuspeitíssimo Christopher Booker, no Telegraph, relativa à situação na Ucrânia e da qual retirei o título que encima o post.[1] [2] A tradução é da minha responsabilidade bem como os realces de segmentos do texto.
É sempre revelador quando os políticos nos transmitem que algo é "inaceitável". O que eles querem dizer com isso é que, muito embora as pessoas possam ter a expectativa de que eles irão fazer alguma coisa a esse respeito, o facto é que não têm a menor ideia do quê. Foi por isso que os líderes ocidentais, incluindo David Cameron, reunidos para a cimeira da NATO no País de Gales, nos disseram que a intervenção do presidente Putin na Ucrânia era "inaceitável".

O verdadeiro problema aqui não é apenas o de os nossos dirigentes não saberem o que fazer relativamente a Putin e à horrível guerra civil na Ucrânia, que já matou quase 3,000 pessoas e que os russos parecem estar a ganhar sem grande esforço. A questão é que eles e muitos outros no Ocidente têm vindo a fazer uma leitura errada desta crise desde que ela começou no início do ano.

Nunca será demais repetir que o que desencadeou a crise não foi a vontade de Putin em restaurar as fronteiras da União Soviética, mas antes a ambição absurdamente insensata por parte do Ocidente em ver a Ucrânia ser absorvida pela UE e pela NATO. Nunca teria sido possível que Putin ou todos aqueles falantes de russo no leste da Ucrânia e na Crimeia amavelmente assistissem a que o país que foi o berço da identidade russa se tornasse parte de um bloco do poder ocidental. A Rússia ficaria ainda menos contente em ver os únicos portos de águas quentes da sua marinha nas mãos de uma aliança militar que tinha sido formada para, em primeiro lugar, para a conter.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pat Buchanan: Será Putin pior que Estaline?

O trágico derrube do avião civil no leste da Ucrânia no passado dia 17 desencadeou, nesse mesmo dia, o cortejo habitual de acusações indignadas e o brandir de novas ameaças de sanções por parte dos EUA/NATO para com a Rússia de Putin. O que volta a impressiona nos relatos dos media de "referência" é a sua absoluta disponibilidade para veicular o discurso da potência dominante (uma notável excepção aqui) sem que sequer tentem responder à pergunta essencial aquando de qualquer incidente que, sem muita dificuldade, pode desencadear tragédias subsequentes numa escala muitíssimo maior: Cui bono? Quem beneficia com o derrube do avião?

Talvez muitos já se tenham esquecido de umas certas "armas de destruição maciça" cuja existência constituía uma ameaça tão intolerável que "justificava" uma mortífera guerra no Iraque de que não se vê o fim, 11 anos decorridos. Havia provas, diziam, insofismáveis. Era mentira. Como mentira se revelou o cruzamento de uma certa "linha vermelha" pelo regime de Assad - as "provas" voltaram a ser insofismáveis - da utilização de gás sarin por parte do regime sírio. Novamente, cui bono?

É preciso parar de brincar com o fogo, actividade a que o transversal Partido da Guerra se dedica com afinco desmedido. E volta a ser da denúncia do Partido da Guerra, cuja sede principal se situa nos EUA, que trata este novo artigo de Pat Buchanan que pensei ser interessante partilhar com os leitores. A tradução é da minha responsabilidade bem como a adição de fotos, links e notas.
25 de Julho de 2014
Por Patrick J. Buchanan
Será Putin pior que Estaline?

Patrick J. Buchanan
Em 1933, o Holodomor decorria na Ucrânia.

Após os "kulaks", os agricultores independentes, terem sido liquidados na colectivização forçada da agricultura soviética, foi imposta à Ucrânia uma fome genocida através do confisco da sua produção de alimentos.

As estimativas dos mortos situam-se entre dois a nove milhões de almas.

Walter Duranty, do New York Times, que apelidou os relatos da fome de "propaganda maligna", ganhou um Pulitzer pela sua mendacidade.

Em Novembro de 1933, durante o Holodomor, o maior liberal [1] de sempre, FDR [o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) - NT], convidou o ministro dos Negócios Estrangeiros Maxim Litvinov para receber o reconhecimento oficial dos EUA do regime assassino do seu senhor Estaline [2].

O genocida José Estaline
No dia 1 de Agosto de 1991, apenas quatro meses antes da própria Ucrânia ter declarado a sua independência, George H. W. Bush advertiu o poder legislativo em Kiev:
"Os americanos não apoiarão aqueles que buscam a independência com o propósito de substituir uma tirania distante por um despotismo local. Eles não irão ajudar aqueles que promovem um nacionalismo suicida baseado num ódio étnico."
Em suma, a independência da Ucrânia nunca fez parte da agenda da América. De 1933 a 1991, nunca constituiu um interesse vital dos EUA. Bush I opunha-se a essa independência.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – A actualidade das suas consequências

No ano do seu centenário, temos vindo a apresentar aos leitores do Espectador Interessado, um conjunto de perspectivas de índole revisionista sobre a importância determinante da I Guerra Mundial não tanto visando o relato dos inomináveis horrores que nela ocorreram mas, e sobretudo, das suas consequências que perduram até hoje como do verdadeiro "ponto de viragem" que ela constituiu ainda que pelas piores razões. Até à data, dedicámos-lhe os seguintes posts:


Retomo agora o tema com a publicação de um artigo recente do colunista Doug Bandow (Forbes) que proporciona uma narrativa incomum também entre nós. Por exemplo, lê a génese de conflitos da actualidade (no Iraque, na Síria e na Ucrânia) à luz das circunstâncias e dos termos em que a Grande Guerra viria a terminar. Não pelos tons proclamatórios mais ou menos inflamados, mas pelos interesses das potências vencedoras e das suas conquistas e esferas de influência territorial que a novel Liga das Nações consagraria. Os diferentes protagonistas são sujeitos a um escrutínio severo, concluindo o autor pela partilha de responsabilidades na eclosão do conflito e pela dessacralização de figuras públicas que a ortodoxia historiográfica dos vencedores pretendeu (e continua a pretender) fixar. A tradução do texto é da minha responsabilidade, bem como dos links como das fotos inseridas. Como sempre, os comentários serão bem-vindos.
30 de Junho de 2014
Por Doug Bandow

Do Iraque À Ucrânia, Da Síria À Jugoslávia: Os Terroristas Que Destruíram O Mundo Moderno Há Um Século Atrás Estão Hoje A Criar Mais Guerras


O conflito no Iraque, tal como a guerra civil na Síria, começou há um século. Em bom rigor, há cem anos atrás feitos no sábado que passou. Juntamente com o desmembramento da Ucrânia por parte da Rússia; o colapso sangrento da Jugoslávia; a terrível experiência soviética; e a luta persistente entre israelitas e palestinianos.

Todos estes conflitos, e muitos mais, nasceram da I Guerra Mundial.

Doug Bandow
Na viragem para o século XX, os europeus tinham a expectativa de viver na boa vida a que chamaram belle époque. Os países estavam a industrializar-se, as economias a expandir-se, o comércio crescia, os impérios davam sinais de abertura.

Depois, o terrorista sérvio Gavrilo Princip disparou dois tiros e acendeu o rastilho para uma conflagração mundial que deixaria um rasto de morte, de destruição, de pobreza, de miséria e tirania. Continuamos a pagar o preço pelo que foi, talvez, o acto mais eficaz de terrorismo de estado na história da humanidade. Porém, no centésimo aniversário deste horrível momento, os sérvios bósnios erigiram estátuas, descerraram placas, e organizaram banquetes em homenagem ao homem que destruiu grande parte do mundo moderno.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Conquista dos EUA pela Espanha

Como aqui se dá conta, a declaração que se segue (minha tradução), alegadamente proferida por Winston Churchill em entrevista dada em Londres em 1936 a William Griffin, editor do The New York Enquirer, viria posteriormente a ser desmentida pelo próprio Churchill. Tal facto levou Griffin a intentar-lhe uma acção cível que todavia não chegaria a ser apreciada em tribunal (estava-se então em 1942, e Churchill era primeiro-ministro da Grã-Bretanha em plena II Guerra Mundial).
«A América deveria ter-se preocupado com os seus próprios assuntos e ficado de fora da Guerra Mundial. Se vós não tivésseis entrado na guerra, os Aliados teriam feito a paz com a Alemanha na Primavera de 1917. Tivéssemos feito a paz, não teria havido o colapso na Rússia seguido do comunismo, a desagregação na Itália seguida do fascismo, e a Alemanha não teria assinado o Tratado de Versalhes, que entronizou o nazismo na Alemanha. Se a América tivesse ficado fora da guerra, todos esses "ismos" não estariam hoje a varrer o continente europeu e a destruir o regime parlamentar - e se a Inglaterra tivesse feito a paz nos inícios de 1917, teria salvo as vidas de mais de um milhão de britânicos, franceses, americanos e outros.»

Winston Churchill (Agosto de 1936)
Tenha ou não Churchill proferido esta declaração (cujos pontos de vista eram à época partilhados por outras personalidades como o líder trabalhista Ramsay MacDonald ou o historiador Harry Elmer Barnes), é preciso recuar a 1898 para localizar o ponto de viragem em favor de um assumido intervencionismo externo dos EUA - sempre crescente até hoje - assim abandonando as mais veementes advertências dos Pais Fundadores quanto às consequências que adviriam para a América caso esta alguma vez enveredasse pelo aventureirismo externo.

Com a macabra oportunidade que o reemergir de mais um surto de violência no dilacerado Iraque vem proporcionar, venho sugerir ao leitor uma incursão pela pouco referida guerra Hispano-Americana (que se estendeu a Cuba e Porto Rico, Filipinas e Guam). Para guionista proponho aquele que é um dos meus historiadores preferidos dos séculos XIX e XX, Ralph Raico, que irá invocar o injustamente esquecido William Graham Sumner. A tradução do texto (de uma alocução proferida de Raico na FEE em 1995, também disponível em áudio) é da minha responsabilidade bem como das imagens escolhidas.
Por Ralph Raico (1995)


Ralph Raico
O ano de 1898 constituiu um marco na história americana. Foi o ano em que a América entrou em guerra com a Espanha - o nosso primeiro envolvimento com um inimigo estrangeiro no amanhecer da era da guerra moderna. À parte uns escassos períodos de contenção, nunca mais deixámos de nos enlear nos conflitos externos.

Algures na década de 1880, um grupo de cubanos iniciou a luta pela independência da Espanha. Tal como sucedeu antes e depois com muitos revolucionários, tinham pouco apoio real entre a massa da população. Recorreram assim a tácticas terroristas: devastando zonas rurais, dinamitando ferrovias, e matando aqueles que lhes surgiram pela frente. As autoridades espanholas responderam com duras contramedidas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ascensão e (muito) provável queda do dólar americano

Julgo ter encontrado neste artigo de Robert P. Murphy - editor de um muito frequentado blogue para economistas, e autor de vários livros entre os quais o excelente Lessons for the Young Economist (dirigido à população juvenil do ensino secundário nas versões para aluno e professor) -, uma sucinta mas rica súmula da ascensão do dólar bem como da sua previsível queda. Murphy descreve o fim do padrão barra-ouro decretado por Franklin Roosevelt em 1933/34 (incluindo o episódio do roubo que perpetrou aos americanos quando lhes confiscou o ouro que detinham) e o novo arranjo monetário que lhe sucedeu, o dólar-ouro, saído da conferência de Bretton Woods e da "nova ordem internacional", dominada pelos EUA, que resultou da II Guerra Mundial. A meu ver, consegue proporcionar um relato inteligível a um qualquer leitor interessado sem todavia lhe escapar o essencial do porquê do papel privilegiado que o dólar tem proporcionado aos EUA durante todo este tempo. Termina o artigo a  explicar as razões para a sua (muito) provável queda, que, a concretizar-se, antecipa fragorosa. Em suma, razões bastantes para que achasse útil traduzi-lo (eventuais erros da minha inteira responsabilidade).
16 de Maio de 2014
Por Robert P. Murphy

Ainda Não Aconteceu o Crash: Estavam os Economistas da Escola Austríaca
Errados relativamente ao Dólar?

Robert P. Murphy
Os críticos do governo dos EUA, com frequência, chamam a atenção para os perigos da moeda fiduciária. Com efeito, desde que Richard Nixon acabou com a ligação do dólar ao ouro (em 1971), muitos proponentes do "dinheiro sólido" alertaram para um crash do dólar. Isto levou os críticos destes "gold bugs" a ridicularizar as previsões aparentemente erradas destes últimos e dos seus excêntricos pontos de vista. Neste artigo irei percorrer algumas das principais questões nesta matéria. Como veremos, os gold bugs poderão vir a acabar por ser os últimos a rir.

Sob o padrão-ouro clássico, o dólar americano era convertível em ouro à paridade de 20,67 dólares por onça. Quando FDR [Franklin Delano Roosevelt N.T.] tomou posse em 1933, ele terminou com esta estrita ligação do dólar e confiscou o ouro da nação. (O famoso depósito de ouro em Fort Knox foi na realidade construído com a finalidade de armazenar o ouro roubado dos americanos).

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Fronteiras (também a propósito da Ucrânia)

Uma confissão prévia: não só não me dei conta da passagem do "dia da Europa" (o que poderia passar por mera distracção) como - e mais "grave" - desconhecia mesmo a sua existência. De resto, não fora um outro cartaz na rua, dificilmente evitável ao olhar, e umas quantas fotografias sorridentemente indigentes no facebook (e também capa de um jornal) onde descortinei o que julgo ter sido um candidato a candidato a presidente da Comissão Europeia, e corria o risco de não me dar conta de a campanha eleitoral para as eleições "europeias" se ter iniciado. Bem, exagero um pouco pois não apenas sou um visitante frequente do Euro Referendum como procuro seguir o caminho que o UKIP e o seu líder, Nigel Farage, vão trilhando (e as sondagens prometem-lhe uns saborosos 20%!).

Agora que começam a chegar os primeiros resultados dos referendos de ontem em várias zonas da Ucrânia do Leste, parece-me oportuno sublinhar duas coisas relevantes para os europeus:
1) Que o "desafogo" a que agora assistimos no financiamento da dívida pública, que determinou ao governo português uma "saída limpa", é totalmente artificial (os "mercados" estão a exigir à república portuguesa um prémio menor do que fazem, por exemplo, à Austrália, um país de rating AAA);

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Esvaziando o mito da deflação

A uma mentira que mil vezes se repete só resta contrapor, com uma frequência equivalente, o seu rebatimento. Assim, face a múltiplas notícias que dão conta do papão deflacionista (por exemplo, Vítor Constâncio terá ainda ontem afirmado que (meu realce) “[e]speramos [no BCE] que o valor baixo de Março seja corrigido para um registo mais elevado em Abril”), volto a insistir no combate ao endeusamento da inflação como fenómeno essencialmente benévolo (se contido num valor "baixo") acompanhado do esconjurar da autêntica peste negra que a deflação representaria. Têm sido múltiplos os meus posts sobre o tema. Mas julgo ser preciso insistir. Primeiro, evocando Mises:
"O mais importante a recordar é que a inflação não é um acto de Deus, que a inflação não é uma catástrofe dos elementos ou uma doença que surge como uma praga. A inflação é uma política."
Depois, procurando contribuir para a desmistificação do fenómeno deflacionário pela via de uma tradução, da minha responsabilidade (notas do texto original substituídas por links), de um texto de Chris Casey ontem publicado cujo título roubei para encimar o presente post.
2 de Abril de 2014
Por Chris Casey
Esvaziando o mito da deflação

O temor da deflação funciona como a justificação teórica para todas as acções inflacionistas levadas a cabo pela Reserva Federal e pelos bancos centrais em todo o mundo. É por isso que a Reserva Federal tem por objectivo uma taxa de inflação de preços de 2% e não de 0%. Em larga medida, esta é a razão que levou a Reserva Federal a mais do que quadruplicar a base monetária de Agosto de 2008 até hoje. E é, de forma notável, um enorme mito, pois não há nada de intrinsecamente perigoso ou prejudicial na deflação.

A deflação é temida não apenas pelos seguidores de Milton Friedman (os designados monetaristas ou membros da Escola de Chicago), mas também pelos economistas keynesianos. Um dos mais destacados keynesianos, Paul Krugman, num artigo do New York Times de 2010 intitulado "Por que é a deflação uma coisa má", apontou a deflação como a causa da contracção da procura agregada uma vez que "quando as pessoas têm a expectativa de que os preços vão baixar, elas tornam-se menos propensas a consumir, e, em especial, menos dispostas a contrair empréstimos".

Presumivelmente, ele acredita que este diferimento na despesa durará para todo o sempre. Mas sabemos por experiência própria que, mesmo em presença de uma descida de preços, os indivíduos e as empresas acabarão por, num dado momento, vir a comprar o bem ou serviço em questão. Não é possível renunciar eternamente ao consumo. Vemos isto suceder todos os dias na indústria da informática / electrónica: o valor da utilização de um iPhone ao longo dos próximos seis meses é superior ao da poupança que resultaria do adiar da sua compra.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VI)


Retomando o tema da Iª Grande Guerra, publicamos o testemunho de David Stockman. Este texto é apenas uma pequena parte de um ensaio maior (ver título no final) que o autor elaborou e publicou na sua mais recente plataforma de comunicação. Não podemos deixar de recomendar a visita e a leitura de tão rico espaço de reflexão, que conta também com contributos de John Butler, Michael Krieger, Detlev Schlichter e Mike "Mish" Shedlock, entre outros.

Retomam-se as relações já experimentadas (aqui) na tentativa de dirigir a atenção às raízes dos actos da peça que ainda hoje pautam a nossa vida colectiva.
A Grande Guerra e o seu legado, por David Stockman

"O meu propósito aqui é elaborar um esboço do que foi a longa história da Iª Grande Guerra, começando, precisamente, há cem anos. Nesse mesmo ano, a Reserva Federal (FED) abria as suas portas enquanto a carnificina decorria no norte de França, o que acabou por encerrar um período de meio século de liberalismo internacionalista e de dinheiro honesto suportado pelo ouro.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra

Tal como sucedeu aqui, a vertigem dos acontecimentos (reais ou veículos de mera desinformação) é de tal ordem que o risco da incorrecção (parcial) do relato é significativo. É o que tornou a acontecer agora com o artigo de Pat Buchanan, ontem publicado, que escolhi divulgar, em versão por mim traduzida.

Mas o meu interesse nesta matéria não é o da crónica de uma eventual guerra a propósito da Ucrânia. É, antes, o de convidar a reflectir sobre uma realidade que é bem mais complexa do que o maniqueísmo habitual propalado pelos políticos e media ocidentais - aqueles a que estamos directamente sujeitos - pretendem fazer passar ao grande público. A esta luz, o artigo de Buchanan, como é de resto habitual no seu autor, convida à análise serena e lúcida e, recorda algumas referências históricas e geográficas que, ainda que elementares, são fundamentais para a interpretação do que se vem passando. Sobretudo, que haja muito cuidado na aceitação acrítica das acusações de violação do "direito internacional" quando elas são esgrimidas por parte de quem age com o estatuto de império incontestado: "We're an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you're studying that reality—judiciously, as you will—we'll act again, creating other new realities, which you can study too, and that's how things will sort out. We're history's actors ... and you, all of you, will be left to just study what we do". Ainda anteontem morreram mais 97 pessoas no Iraque.

Ainda que naturalmente dirigido ao público norte-americano, é aos cidadãos dos países europeus que ele mais interessará. Afinal de contas, o epicentro das duas guerras mundiais aconteceu aqui no Velho Continente.

ACTUALIZAÇÃO: mais uma "pequena surpresa" (transcrição parcial aqui) a juntar a esta outra.
Por Patrick J. Buchanan
4 de Março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra! (Tune Out the War Party!)

A decisão de Vladimir Putin de enviar tropas russas para a Crimeia, pôs os nossos belicosos falcões a respirar fogo. A russofobia está desvairada e os artigos de opinião fervem de indignação.

Barack Obama deveria abstrair-se de tudo isto e reflectir sobre o modo como os presidentes ao longo da Guerra Fria lidaram com Moscovo a propósito de confrontos muito mais graves.

Patrick J. Buchanan
Quando as divisões de tanques do Exército Vermelho esmagaram os combatentes húngaros da liberdade em 1956, matando 50 mil deles, Eisenhower não levantou um dedo. Quando Khrushchev construiu o Muro de Berlim, JFK foi a Berlim e proferiu um discurso.

Quando as tropas do Pacto de Varsóvia esmagaram a Primavera de Praga em 1968, LBJ não fez nada. Quando Moscovo ordenou ao general Wojciech Jaruzelski que esmagasse o Solidariedade, Ronald Reagan recusou-se a colocar Varsóvia numa situação de isolamento.

Estes presidentes não viram nenhum interesse vital dos EUA ameaçado nessas acções soviéticas, por brutais que tivessem sido. Sentiram que o tempo estava do nosso lado durante a Guerra Fria. E a história veio a dar-lhes razão.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Citação do dia (154)

[O] padrão-ouro não entrou em colapso. Os governos aboliram-no de modo a preparar o caminho para a inflação. Todo o sombrio aparelho de opressão e coerção - polícias, guardas alfandegários, tribunais criminais, prisões, em alguns países até mesmo carrascos - teve que ser accionado para destruir o padrão-ouro. Promessas solenes foram quebradas, leis retroactivas foram promulgadas, disposições constitucionais e declarações de direitos foram desafiadas abertamente. E as hostes de autores servis louvaram o que os governos haviam feito, saudando o alvorecer do milénio da moeda fiduciária.

Ludwig von Mises, in The Theory of Money and Credit
(Edição em língua inglesa de 1952, minha tradução)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (V)

A questão da responsabilidade pela eclosão do conflito


Abaixo se transcreve a que ficou conhecida pela "Cláusula da Culpa da Guerra" inscrita no Tratado de Versalhes (figurado na imagem, na versão inglesa) através da qual se "estabelecia" a questão da atribuição da responsabilidade moral pelo início da guerra e, em consequência, a imposição de obrigações de indemnização da Alemanha aos Aliados.
Artigo 231º

Os Governos aliados e associados declaram e a Alemanha reconhece que a Alemanha e os seus aliados são responsáveis, por deles ter sido a causa, por todas as perdas e por todos os prejuízos sofridos pelos Governos aliados e associados e pelos seus nacionais em consequência da guerra, que lhes foi imposta pela agressão da Alemanha e dos seus aliados.
Não foi preciso esperar muito tempo para que esta "história escrita pelos vencedores" fosse contestada. Por exemplo, em 1922, Albert Jay Nock fez publicar, sob pseudónimo, The Myth of a Guilty Nation, onde desafiava abertamente a narrativa oficial, ou seja, a suposta isenção de responsabilidades por parte dos Aliados. Mais tarde, em 1952, Charles Tansill, um eminente historiador revisionista que se dedicou em particular ao estudo das I e II Guerras Mundiais, observava em retrospectiva (minha tradução): 
"O armistício de 11 de Novembro de 1918, pôs fim à I Guerra Mundial, mas marcou o início de uma batalha travada com livros que continua até os dias de hoje. A responsabilidade pela eclosão do conflito foi levianamente colocada pelos historiadores aliados sobre os ombros dos estadistas das potências centrais. Os historiadores alemães responderam com uma enxurrada de livros e panfletos que encheram as prateleiras de muitas bibliotecas, e os chamados "revisionistas" de muitas origens alimentaram esta maré crescente ao acrescentarem monografias que desafiavam a tese aliada da culpa da guerra. Este debate decorria ainda de forma veemente quando a II Guerra Mundial eclodiu em 1939 e a atenção académica se deslocou para a questão da responsabilidade por esta mais recente expressão de loucura marcial." (Excerto inicial do prefácio à primeira edição, de 1952, de Back Door to War: The Roosevelt Foreign Policy 1933-1941)
Ralph Raico, uma referência contemporânea de que me venho socorrendo neste tema, refere aqui que a biblioteca de Yale possuía, em 2004, cerca de 30 mil livros sobre a I Guerra Mundial publicados até 1977 e outros 5 mil de então em diante. Na aproximação aos cem anos sobre o início da Grande Tragédia, não é de admirar o surgimento de uma nova "enxurrada" de livros nos escaparates (físicos e digitais) onde se continua a disputar o tema da "culpa". É assim com justeza que, como Raico observava, esta seja "a outra guerra que nunca acaba".

Levado pelo meu parceiro de blogue a investir no produto aqui proposto, do qual obtive um muito satisfatório retorno, é agora a minha vez de propor ao leitor a leitura de um texto recente, também de Paul Gottfried, onde precisamente se aborda este tema, aprofundando alguns dos aspectos contidos na entrevista que deu a Tom Woods, e se conclui, com evidência bastante, pelo errado teor do supra referido artigo 231º e dos consequentes horrores que se lhe seguiram. Como o título de um dos livros recentes sobre a matéria - que não li  - bem sumariza, a I Grande Guerra foi The War that Ended Peace.

Um texto que julgo também de interesse como contributo para a compreensão da vulgata da intrínseca "perversidade alemã", que por aí corre nos nossos dias, como "explicação conveniente" de pecados próprios. Assinalo também como muito relevante mais um exemplo de um intelectual - Konrad Canis - cuja obra, por decisiva que seja, permanece quase desconhecida fora da Alemanha por não ter sido (ainda?) traduzida para a língua inglesa. O mesmo sucedeu com Ludwig von Mises. Enquanto o texto de Keynes, Economic Consequences of the Peace (1919), conheceu, aliás justamente, larga divulgação,  um texto contemporâneo de Mises, escrito uns meses antes no mesmo ano - Nation, History and Economy -, teve que esperar até 1983 para conhecer a sua primeira edição em inglês!

A tradução que se segue é de minha inteira responsabilidade bem como dos links e notas nele introduzidos.
Por Paul Gottfried
21 de Janeiro de 2014

Sonambulismo suicida (Sleepwak to Suicide)

Talvez nenhuma outra guerra tenha sido abordada de forma mais tendenciosa e, nas últimas décadas, mais inadequada, que a Primeira Guerra Mundial. Desde os anos 60 que se fixou uma visão deste conflito nos círculos académicos e jornalísticos que coloca a culpa de modo quase exclusivo num dos lados. O governo alemão, liderado por um perverso e autoritário imperador e seu belicoso estado-maior, desencadeou um combate que custou mais de 30 milhões de vidas e uma destruição incalculável no continente europeu.

Segundo o académico Fritz Fischer - que se tornou o favorito da esquerda alemã, apesar do seu passado de leal Nazi - a guerra foi planeada e iniciada por uma Alemanha empenhada em dominar o mundo. A contribuição dos outros beligerantes para o iniciar das hostilidades em 1914, sugere Fischer no seu livro de 1961, Germany’s Bid for World Power[1], foi inconsequente. O resto da Europa foi arrastado para uma luta que a Alemanha havia planeado durante décadas, uma conflagração iniciada pela sua classe dirigente antidemocrática e por um povo alegremente ultra-nacionalista.