A questão da responsabilidade pela eclosão do conflito
Abaixo se transcreve a que ficou conhecida pela "Cláusula da Culpa da Guerra" inscrita no Tratado de Versalhes (figurado na imagem, na versão inglesa) através da qual se "estabelecia" a questão da atribuição da responsabilidade moral pelo início da guerra e, em consequência, a imposição de obrigações de indemnização da Alemanha aos Aliados.
Artigo 231º
Os Governos aliados e associados declaram e a Alemanha reconhece que a Alemanha e os seus aliados são responsáveis, por deles ter sido a causa, por todas as perdas e por todos os prejuízos sofridos pelos Governos aliados e associados e pelos seus nacionais em consequência da guerra, que lhes foi imposta pela agressão da Alemanha e dos seus aliados.
Não foi preciso esperar muito tempo para que esta "história escrita pelos vencedores" fosse contestada. Por exemplo, em 1922, Albert Jay Nock fez publicar, sob pseudónimo, The Myth of a Guilty Nation, onde desafiava abertamente a narrativa oficial, ou seja, a suposta isenção de responsabilidades por parte dos Aliados. Mais tarde, em 1952, Charles Tansill, um eminente historiador revisionista que se dedicou em particular ao estudo das I e II Guerras Mundiais, observava em retrospectiva (minha tradução):
"O armistício de 11 de Novembro de 1918, pôs fim à I Guerra Mundial, mas marcou o início de uma batalha travada com livros que continua até os dias de hoje. A responsabilidade pela eclosão do conflito foi levianamente colocada pelos historiadores aliados sobre os ombros dos estadistas das potências centrais. Os historiadores alemães responderam com uma enxurrada de livros e panfletos que encheram as prateleiras de muitas bibliotecas, e os chamados "revisionistas" de muitas origens alimentaram esta maré crescente ao acrescentarem monografias que desafiavam a tese aliada da culpa da guerra. Este debate decorria ainda de forma veemente quando a II Guerra Mundial eclodiu em 1939 e a atenção académica se deslocou para a questão da responsabilidade por esta mais recente expressão de loucura marcial." (Excerto inicial do prefácio à primeira edição, de 1952, de Back Door to War: The Roosevelt Foreign Policy 1933-1941)
Ralph Raico, uma referência contemporânea de que me venho socorrendo neste tema, refere aqui que a biblioteca de Yale possuía, em 2004, cerca de 30 mil livros sobre a I Guerra Mundial publicados até 1977 e outros 5 mil de então em diante. Na aproximação aos cem anos sobre o início da Grande Tragédia, não é de admirar o surgimento de uma nova "enxurrada" de livros nos escaparates (físicos e digitais) onde se continua a disputar o tema da "culpa". É assim com justeza que, como Raico observava, esta seja "a outra guerra que nunca acaba".
Levado pelo meu parceiro de blogue a investir no produto aqui proposto, do qual obtive um muito satisfatório retorno, é agora a minha vez de propor ao leitor a leitura de um texto recente, também de Paul Gottfried, onde precisamente se aborda este tema, aprofundando alguns dos aspectos contidos na entrevista que deu a Tom Woods, e se conclui, com evidência bastante, pelo errado teor do supra referido artigo 231º e dos consequentes horrores que se lhe seguiram. Como o título de um dos livros recentes sobre a matéria - que não li - bem sumariza, a I Grande Guerra foi The War that Ended Peace.
Um texto que julgo também de interesse como contributo para a compreensão da vulgata da intrínseca "perversidade alemã", que por aí corre nos nossos dias, como "explicação conveniente" de pecados próprios. Assinalo também como muito relevante mais um exemplo de um intelectual - Konrad Canis - cuja obra, por decisiva que seja, permanece quase desconhecida fora da Alemanha por não ter sido (ainda?) traduzida para a língua inglesa. O mesmo sucedeu com Ludwig von Mises. Enquanto o texto de Keynes, Economic Consequences of the Peace (1919), conheceu, aliás justamente, larga divulgação, um texto contemporâneo de Mises, escrito uns meses antes no mesmo ano - Nation, History and Economy -, teve que esperar até 1983 para conhecer a sua primeira edição em inglês!
A tradução que se segue é de minha inteira responsabilidade bem como dos links e notas nele introduzidos.
Um texto que julgo também de interesse como contributo para a compreensão da vulgata da intrínseca "perversidade alemã", que por aí corre nos nossos dias, como "explicação conveniente" de pecados próprios. Assinalo também como muito relevante mais um exemplo de um intelectual - Konrad Canis - cuja obra, por decisiva que seja, permanece quase desconhecida fora da Alemanha por não ter sido (ainda?) traduzida para a língua inglesa. O mesmo sucedeu com Ludwig von Mises. Enquanto o texto de Keynes, Economic Consequences of the Peace (1919), conheceu, aliás justamente, larga divulgação, um texto contemporâneo de Mises, escrito uns meses antes no mesmo ano - Nation, History and Economy -, teve que esperar até 1983 para conhecer a sua primeira edição em inglês!
A tradução que se segue é de minha inteira responsabilidade bem como dos links e notas nele introduzidos.
Por Paul Gottfried
21 de Janeiro de 2014
Sonambulismo suicida (Sleepwak to Suicide)
Talvez nenhuma outra guerra tenha sido abordada de forma mais tendenciosa e, nas últimas décadas, mais inadequada, que a Primeira Guerra Mundial. Desde os anos 60 que se fixou uma visão deste conflito nos círculos académicos e jornalísticos que coloca a culpa de modo quase exclusivo num dos lados. O governo alemão, liderado por um perverso e autoritário imperador e seu belicoso estado-maior, desencadeou um combate que custou mais de 30 milhões de vidas e uma destruição incalculável no continente europeu.
Segundo o académico Fritz Fischer - que se tornou o favorito da esquerda alemã, apesar do seu passado de leal Nazi - a guerra foi planeada e iniciada por uma Alemanha empenhada em dominar o mundo. A contribuição dos outros beligerantes para o iniciar das hostilidades em 1914, sugere Fischer no seu livro de 1961, Germany’s Bid for World Power[1], foi inconsequente. O resto da Europa foi arrastado para uma luta que a Alemanha havia planeado durante décadas, uma conflagração iniciada pela sua classe dirigente antidemocrática e por um povo alegremente ultra-nacionalista.
