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terça-feira, 21 de abril de 2015

A Grande Guerra - O desastre de Gallipoli (e de Churchill)

Em mais um episódio ilustrador do famoso dictum de George Orwell quanto à importância do controlo sobre a "narrativa" do passado, o presidente turco Recep Erdoğan resolveu este ano antecipar em um dia as comemorações sobre o centenário da campanha militar na península de Gallipoli (25 de Abril), onde as tropas do então império otomano, antecessor na Anatólia da Turquia moderna, venceram as tropas aliadas. A ideia das autoridades turcas é, obviamente, contribuir para olvidar um outro aniversário que ocorre na véspera, 24 de Abril de 1915 - o da detenção pelas polícias de cerca de 250 individualidades de etnia arménia no país -, caso que marcou o início do que reconhecidamente, à prática excepção das autoridades turcas, a História assinalou como o genocídio arménio - bem acima de um milhão de mortos. São poucas, infelizmente, as vezes em que vejo razão para aplaudir o Papa Francisco, mas esta é uma delas. Haverá ainda, talvez, razões para especular quanto a uma eventual ligação entre os dois acontecimentos, mas esse não é o tema do artigo que hoje me propus partilhar com os eleitores. Eric Margolis traz-nos uma leitura sobre a campanha militar de Gallipoli, e sobre o seu principal responsável - Winston Churchill. Votos de uma boa leitura.
19 de Abril de 2015
Por Eric Margolis


Faz este mês cem anos, em Abril de 1915, quando os aliados e a Alemanha se encontravam numa situação de impasse na Frente Ocidental. Winston Churchill, o jovem e ambicioso ministro da Marinha britânica, propôs uma manobra inicialmente avançada pelo primeiro-ministro da França, Aristide Briand.

Eric Margolis
A melhor maneira de a Grã-Bretanha e a França porem termo ao impasse e estabelecerem ligação com o seu aliado isolado, a Rússia, seria através de um ousado "coup de main", um ataque de surpresa, visando conquistar os Dardanelos ao Império Otomano, ocupar Constantinopla (hoje Istambul) e pôr a Turquia fora da I Guerra Mundial. Embora muito periclitante, o Império Otomano era o mais importante aliado da Alemanha.

O plano de Churchill consistia em enviar navios de guerra das marinhas de guerra britânica e francesa e abrir caminho à força por entre os decrépitos e obsoletos fortes da Turquia ao longo do estreito dos Dardanelos que liga o Mar Egeu e o Mediterrâneo ao Mar de Mármara, a Constantinopla e ao Mar Negro, a linha de vida marítima da Rússia.

Esta ousada intervenção naval, que alguns previram que rivalizaria a do dramático ataque do almirante Nelson em 1801 à esquadra dinamarquesa-norueguesa abrigada em Copenhaga, conduziria rapidamente à vitória na guerra e alcandoraria Churchill à condição de supremo senhor da guerra, uma sua ardente ambição.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A Grande Guerra - As tréguas espontâneas do Natal de 1914


Quatro meses decorridos após o início da horrenda Grande Guerra, a que ficou conhecida por Frente Ocidental estabilizou ao longo de mais de 600 km ininterruptos de trincheiras, do Canal da Mancha à Suiça. Nela se defrontavam os contendores que, a troco da conquista de uns (reversíveis) palmos de terra, já prosseguiam numa carnificina sem fim à vista, após o termo da curta guerra de movimento inicial. Sob um olhar alemão, Erich Maria Remarque verteria no seu "A Oeste Nada de Novo" tão monstruosa enormidade. Mais tarde, no magnífico filme "Horizontes de Glória", Stanley Kubrick oferecer-nos-ia um olhar do lado dos Aliados sobre a inutilidade da matança e da incompetente indiferença criminosa do generalato.

http://www.amazon.com/Christmas-Truce-Western-Front-December-ebook/dp/B006DY7W8A/ref=sr_1_1_twi_2?ie=UTF8&qid=1419529138&sr=8-1&keywords=1447264274
As pouco divulgadas tréguas de Natal de 1914, que ocorreram em vários locais da linha de trincheiras de modo espontâneo, e que em alguns casos se prolongaram até o início de 1915, foram um sinal inquestionável do impasse a que se tinha chegado, que se prolongaria até ao fim da guerra, e, consequentemente, da inutilidade e falta de propósito da mesma.

Os governos portugueses de então sabiam pois muito bem o que um contingente português iria defrontar nestas circunstâncias. A troco de nada além de um espúrio, e de resto muito contestado à época, "interesse nacional".

Um Feliz Natal para todos os leitores do Espectador Interessado!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 - O Lusitania (um bom pretexto e um alvo fácil)

Não tencionava incluir o caso Lusitania na série de posts que vimos publicando sobre a I Guerra Mundial. Todavia, é-me difícil não dar conta que a campanha de bombardeamentos aéreos agora em curso contra o “Estado Islâmico” tenha ocorrido após a divulgação sucessiva, em quatro vídeos distintos, de outras tantas decapitações. Primeiro, de dois cidadãos americanos; posteriormente, de um súbdito britânico seguido de, há dias apenas, de um cidadão francês. Creio impossível não notar a coincidência do envolvimento das três nacionalidades notáveis na geopolítica da região após a queda do império Otomano. Em conclusão: o que Obama e Cameron não conseguiram há um ano, tornou-se agora possível devido à divulgação de uns vídeos no YouTube. A "linha vermelha" estava, afinal, no efeito de choque causado pelo visionamento de decapitações. A encenação revela-se, mais uma vez, fundamental para fazer vingar um pretexto adequado.

Após o início da I Guerra Mundial, talvez não tenha havido acontecimento singular mais relevante para o que viria a ser o seu desfecho do que o torpedeamento por um submarino alemão do paquete transatlântico Lusitania, ocorrido em 7 de Maio de 1915, de que resultaram 1153 mortos (128 dos quais de nacionalidade norte-americana). E muito embora só a 6 de Abril de 1917 os Estados Unidos tenham declarado guerra às Potências Centrais, é inegável a importância daquele evento no processo de decisão que levaria a essa decisão e, com ela, a sorte da guerra[1]. Sublinhe-se, não obstante, que o presidente Woodrow Wilson, que procurava a sua reeleição em 1916, fez essa campanha eleitoral sob o slogan "He kept us out of war" (“Ele manteve-nos fora da guerra” – N.T.) o que indubitavelmente traduz o sentimento, de facto largamente maioritário na opinião pública americana à época, contra o envolvimento dos EUA na terrível guerra que decorria no teatro europeu.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Citação do dia (170)

A guerra tornou-se mais temível e destrutiva do que nunca porque é hoje travada com todos os meios técnicos altamente desenvolvidos que foram criados pela livre economia. A civilização burguesa construiu ferrovias e centrais de produção eléctrica, inventou explosivos e aviões, de modo a criar riqueza. O imperialismo colocou os instrumentos da paz ao serviço da destruição. Com os meios modernos seria fácil arrasar a humanidade de um só golpe. Enredado numa horrível loucura, Calígula desejou que a totalidade do povo romano tivesse uma só cabeça para que ele a pudesse decapitar. A civilização do século XX tornou possível que a loucura delirante dos modernos imperialistas viesse concretizar sonhos sangrentos similares. Pelo premir de um botão é possível expor milhares à destruição. O destino desta civilização fê-la incapaz de manter os meios externos que tinha criado a salvo das mãos daqueles que haviam permanecido afastados do seu espírito. Os tiranos modernos têm a vida muito mais facilitada da que tiveram os seus antecessores...

Ludwig von Mises in Nation, State, and Economy (1919)

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – A actualidade das suas consequências

No ano do seu centenário, temos vindo a apresentar aos leitores do Espectador Interessado, um conjunto de perspectivas de índole revisionista sobre a importância determinante da I Guerra Mundial não tanto visando o relato dos inomináveis horrores que nela ocorreram mas, e sobretudo, das suas consequências que perduram até hoje como do verdadeiro "ponto de viragem" que ela constituiu ainda que pelas piores razões. Até à data, dedicámos-lhe os seguintes posts:


Retomo agora o tema com a publicação de um artigo recente do colunista Doug Bandow (Forbes) que proporciona uma narrativa incomum também entre nós. Por exemplo, lê a génese de conflitos da actualidade (no Iraque, na Síria e na Ucrânia) à luz das circunstâncias e dos termos em que a Grande Guerra viria a terminar. Não pelos tons proclamatórios mais ou menos inflamados, mas pelos interesses das potências vencedoras e das suas conquistas e esferas de influência territorial que a novel Liga das Nações consagraria. Os diferentes protagonistas são sujeitos a um escrutínio severo, concluindo o autor pela partilha de responsabilidades na eclosão do conflito e pela dessacralização de figuras públicas que a ortodoxia historiográfica dos vencedores pretendeu (e continua a pretender) fixar. A tradução do texto é da minha responsabilidade, bem como dos links como das fotos inseridas. Como sempre, os comentários serão bem-vindos.
30 de Junho de 2014
Por Doug Bandow

Do Iraque À Ucrânia, Da Síria À Jugoslávia: Os Terroristas Que Destruíram O Mundo Moderno Há Um Século Atrás Estão Hoje A Criar Mais Guerras


O conflito no Iraque, tal como a guerra civil na Síria, começou há um século. Em bom rigor, há cem anos atrás feitos no sábado que passou. Juntamente com o desmembramento da Ucrânia por parte da Rússia; o colapso sangrento da Jugoslávia; a terrível experiência soviética; e a luta persistente entre israelitas e palestinianos.

Todos estes conflitos, e muitos mais, nasceram da I Guerra Mundial.

Doug Bandow
Na viragem para o século XX, os europeus tinham a expectativa de viver na boa vida a que chamaram belle époque. Os países estavam a industrializar-se, as economias a expandir-se, o comércio crescia, os impérios davam sinais de abertura.

Depois, o terrorista sérvio Gavrilo Princip disparou dois tiros e acendeu o rastilho para uma conflagração mundial que deixaria um rasto de morte, de destruição, de pobreza, de miséria e tirania. Continuamos a pagar o preço pelo que foi, talvez, o acto mais eficaz de terrorismo de estado na história da humanidade. Porém, no centésimo aniversário deste horrível momento, os sérvios bósnios erigiram estátuas, descerraram placas, e organizaram banquetes em homenagem ao homem que destruiu grande parte do mundo moderno.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VII)

Depois de um interregno aparente, regresso explicitamente ao tema da I Guerra Mundial suprimindo o impulso de escolher para título deste post qualquer coisa como um (por aqui) improvável "Obrigado, Lorde Keynes!" Explico-me. No seu livro de 1919, As Consequências Económicas da Paz" (a paz (?) de Versalhes), Keynes oferece-nos uma breve mas ainda assim rica descrição do ambiente prevalecente no mundo ocidental até às vésperas da eclosão da hecatombe iniciada em Agosto de 1914. Ela ilustra a tripla liberdade então existente - a da livre circulação de pessoas, dinheiro e bens - que o liberalismo clássico tinha tornado possível pela primeira vez na História.  O trecho que se segue é, creio, disso bem ilustrativo. Finda a guerra, uma nova era se iniciaria: a da deificação do estado-nação, do nacionalismo, do proteccionismo e da autarcia. Em suma, a vitória do colectivismo sobre o individualismo para o que era imprescindível proceder à sistemática destruição do padrão-ouro moeda que tinha vigorado nos 100 anos precedentes. A tradução é minha, bem como os realces introduzidos. (O livro está disponível para download gratuito em português do Brasil.)
John M. Keynes
"Que extraordinário episódio de progresso económico humano constituiu aquela era que terminou em Agosto de 1914! É certo que a maior parte da população trabalhava duramente e vivia com um baixo padrão de conforto, mas, aparentemente, contentava-se com a sua sorte. Todavia, a qualquer homem de capacidade ou carácter acima da média, era possível escapar a esse destino, ascendendo às classes média e alta, para quem a vida oferecia, a baixo custo e com pouco esforço, conveniências, confortos e amenidades que iam muito além do que os monarcas mais ricos e poderosos de outras eras alguma vez possuíram. Enquanto beberricava o chá matinal ainda na cama, o habitante de Londres podia encomendar por telefone diversos produtos de todo o mundo, nas quantidades que achasse adequadas, na expectativa razoável que fossem entregues rapidamente à sua porta; em simultâneo, e pelos mesmos meios, podia investir a sua riqueza em recursos naturais e em novos empreendimentos em qualquer parte do mundo e participar, sem esforço ou dificuldade, nas vantagens em perspectiva; ou podia decidir ligar a segurança da sua fortuna à boa-fé dos habitantes de um município importante num qualquer continente que a sua fantasia ou as informações de que dispusesse pudessem recomendar. Se o desejasse, podia assegurar, sem demora, um meio de transporte barato e confortável para qualquer país ou clima, sem necessitar de passaporte ou outra qualquer formalidade; podia enviar um seu empregado ao balcão mais próximo de um banco para se abastecer dos metais preciosos que entendesse conveniente, viajando de seguida para um país estrangeiro, sem conhecer a religião, a língua ou os costumes locais, transportando consigo a sua riqueza sob a forma de moedas, e considerar-se-ia muito ofendido e muito surpreendido caso houvesse o mínimo de interferência nos seus movimentos. Mas, e o mais importante de tudo, considerava esse estado de coisas como sendo normal, certo e permanente, excepto no sentido da introdução de novos aperfeiçoamentos, pelo que considerava qualquer desvio como sendo aberrante, escandaloso e evitável. Os projectos e a política do militarismo e imperialismo, dos monopólios, rivalidades raciais e culturais, restrições e exclusões, que iriam desempenhar o papel de serpente neste paraíso, eram pouco mais do que diversões quotidianas dos jornais, sem que parecessem exercer qualquer influência no curso normal da vida social e económica, cuja internacionalização, na prática, estava quase completa."

John Maynard Keynes, As Consequências Económicas da Paz (1919)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O inimigo do meu inimigo tornou-se inimigo do meu amigo

A incapacidade de reconhecer os erros cometidos e assumir as respectivas responsabilidades é uma característica excessivamente comum nos políticos para reduzir estas declarações de Tony Blair a um mero caso do foro psiquiátrico. A mentira das "armas de destruição maciça" não foi no essencial diferente - à excepção, talvez, da sua escala - dos "incidentes" do Golfo de Tonkin, da explosão a bordo do USS Maine no porto de Havana ou do bombardeamento do Fort Sumter entre inúmeros outros exemplos. Mas a História ensina-nos que os Impérios não são eternos e, a meu ver, os acontecimentos recentes no Iraque são já extremamente parecidos com a última fase da guerra do Vietname (que começou com os franceses, recorde-se). Por muitas "linhas vermelhas" que se tracem (em caso de conveniência, já se vê). E não é que não tenha havido avisos prévios do que aí viria (um bom exemplo de avivar de memória pode ser lido aqui).

Com tradução de minha responsabilidade (tal como as imagem e os links introduzidos), o texto abaixo de Eric Margolis fornece uma narrativa que, infelizmente sem surpresa, não encontro eco nem nos media nem na blogosfera portuguesa. Também aqui as pistas para o que está a suceder no Médio Oriente remontam aos tempos da I Guerra Mundial e às maquinações imperiais das "Grandes Potências".
14 de Junho de 2014
Por Eric Margolis

Iraque: o caos todo-poderoso

Eric Margolis
O falecido Saddam Hussein tinha realmente razão quando previu que a invasão americana do Iraque se iria tornar na "mãe de todas as batalhas". Onze anos depois, a batalha continua.

Nesta semana, assistimos ao colapso de duas divisões do exército governamental do Iraque, 30 mil homens correndo como galinhas diante do avanço implacável dos combatentes do ISIS - Estado islâmico do Iraque e do Levante (Síria). O mesmo exército fantoche que foi treinado e equipado durante uma década pelos EUA pela soma de 14 mil milhões de dólares. Um mau augúrio para aquilo que aguarda o exército e a polícia do Afeganistão, também eles criados pelos EUA.

Recordam-se de quando o presidente George W. Bush se vangloriava da "missão cumprida"? Não foi o malévolo Saddam Hussein linchado pelos aliados xiitas dos EUA? Não foi a temida Al-Qaeda derrotada e o seu líder, Osama bin Laden, assassinado? Recordam-se de todo aquele palrar proveniente de Washington para "drenar o pântano" no Iraque?

Logo que os EUA derrubam um desafiante ao seu domínio no Médio Oriente - aquilo que chamo de American Raj - há outro que se ergue. O mais recente: o ISIS, uma feroz força jihadista que agora controla grandes parcelas da Síria e do Iraque.

domingo, 15 de junho de 2014

Sobre o Crédito ou a história a repetir-se

Nos pacotes de medidas dos bancos centrais podemos identificar ciclos. Ou seja, as políticas dos bancos centrais repetem-se desde, segundo o texto que a seguir se traduz, os anos vinte. Isso é válido para o BCE que, enquanto instituição, não existia nesse tempo. Segundo Doug Nolan, as políticas são, precisamente, as mesmas. Apesar de conduzirem a problemas e a dilemas já conhecidos. Que hão-de dar lugar a mais intervenções num ciclo que facilmente se torna visível.
Esta é a tese do artigo (parcial) que a seguir se publica, introduzindo os sublinhados que não estavam no original.


Doug Nolan, "A distribuição do crédito" - 6 de Junho de 2014

Nos últimos 23 trimestres – desde o terceiro trimestre de 2008 até ao primeiro do corrente ano – o crédito federal americano cresceu 3.338 triliões ou 351%. Acima deste crescimento ´parabólico` o crédito/liquidez da FED cresceu 1.474 triliões ou 52% nas últimas 82 semanas. (...) Tracei, repetidamente, paralelos entre o actual ciclo de Crédito – extraordinariamente prolongado – e o ciclo do período entre a 1ª Grande Guerra e 1929. Ambos os períodos possuem muitas características semelhantes, sejam os profundos avanços tecnológicos, inovação financeira, activismo experimental na gestão monetária e nos resultantes ciclos de crédito, economia e especulação.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VI)


Retomando o tema da Iª Grande Guerra, publicamos o testemunho de David Stockman. Este texto é apenas uma pequena parte de um ensaio maior (ver título no final) que o autor elaborou e publicou na sua mais recente plataforma de comunicação. Não podemos deixar de recomendar a visita e a leitura de tão rico espaço de reflexão, que conta também com contributos de John Butler, Michael Krieger, Detlev Schlichter e Mike "Mish" Shedlock, entre outros.

Retomam-se as relações já experimentadas (aqui) na tentativa de dirigir a atenção às raízes dos actos da peça que ainda hoje pautam a nossa vida colectiva.
A Grande Guerra e o seu legado, por David Stockman

"O meu propósito aqui é elaborar um esboço do que foi a longa história da Iª Grande Guerra, começando, precisamente, há cem anos. Nesse mesmo ano, a Reserva Federal (FED) abria as suas portas enquanto a carnificina decorria no norte de França, o que acabou por encerrar um período de meio século de liberalismo internacionalista e de dinheiro honesto suportado pelo ouro.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (V)

A questão da responsabilidade pela eclosão do conflito


Abaixo se transcreve a que ficou conhecida pela "Cláusula da Culpa da Guerra" inscrita no Tratado de Versalhes (figurado na imagem, na versão inglesa) através da qual se "estabelecia" a questão da atribuição da responsabilidade moral pelo início da guerra e, em consequência, a imposição de obrigações de indemnização da Alemanha aos Aliados.
Artigo 231º

Os Governos aliados e associados declaram e a Alemanha reconhece que a Alemanha e os seus aliados são responsáveis, por deles ter sido a causa, por todas as perdas e por todos os prejuízos sofridos pelos Governos aliados e associados e pelos seus nacionais em consequência da guerra, que lhes foi imposta pela agressão da Alemanha e dos seus aliados.
Não foi preciso esperar muito tempo para que esta "história escrita pelos vencedores" fosse contestada. Por exemplo, em 1922, Albert Jay Nock fez publicar, sob pseudónimo, The Myth of a Guilty Nation, onde desafiava abertamente a narrativa oficial, ou seja, a suposta isenção de responsabilidades por parte dos Aliados. Mais tarde, em 1952, Charles Tansill, um eminente historiador revisionista que se dedicou em particular ao estudo das I e II Guerras Mundiais, observava em retrospectiva (minha tradução): 
"O armistício de 11 de Novembro de 1918, pôs fim à I Guerra Mundial, mas marcou o início de uma batalha travada com livros que continua até os dias de hoje. A responsabilidade pela eclosão do conflito foi levianamente colocada pelos historiadores aliados sobre os ombros dos estadistas das potências centrais. Os historiadores alemães responderam com uma enxurrada de livros e panfletos que encheram as prateleiras de muitas bibliotecas, e os chamados "revisionistas" de muitas origens alimentaram esta maré crescente ao acrescentarem monografias que desafiavam a tese aliada da culpa da guerra. Este debate decorria ainda de forma veemente quando a II Guerra Mundial eclodiu em 1939 e a atenção académica se deslocou para a questão da responsabilidade por esta mais recente expressão de loucura marcial." (Excerto inicial do prefácio à primeira edição, de 1952, de Back Door to War: The Roosevelt Foreign Policy 1933-1941)
Ralph Raico, uma referência contemporânea de que me venho socorrendo neste tema, refere aqui que a biblioteca de Yale possuía, em 2004, cerca de 30 mil livros sobre a I Guerra Mundial publicados até 1977 e outros 5 mil de então em diante. Na aproximação aos cem anos sobre o início da Grande Tragédia, não é de admirar o surgimento de uma nova "enxurrada" de livros nos escaparates (físicos e digitais) onde se continua a disputar o tema da "culpa". É assim com justeza que, como Raico observava, esta seja "a outra guerra que nunca acaba".

Levado pelo meu parceiro de blogue a investir no produto aqui proposto, do qual obtive um muito satisfatório retorno, é agora a minha vez de propor ao leitor a leitura de um texto recente, também de Paul Gottfried, onde precisamente se aborda este tema, aprofundando alguns dos aspectos contidos na entrevista que deu a Tom Woods, e se conclui, com evidência bastante, pelo errado teor do supra referido artigo 231º e dos consequentes horrores que se lhe seguiram. Como o título de um dos livros recentes sobre a matéria - que não li  - bem sumariza, a I Grande Guerra foi The War that Ended Peace.

Um texto que julgo também de interesse como contributo para a compreensão da vulgata da intrínseca "perversidade alemã", que por aí corre nos nossos dias, como "explicação conveniente" de pecados próprios. Assinalo também como muito relevante mais um exemplo de um intelectual - Konrad Canis - cuja obra, por decisiva que seja, permanece quase desconhecida fora da Alemanha por não ter sido (ainda?) traduzida para a língua inglesa. O mesmo sucedeu com Ludwig von Mises. Enquanto o texto de Keynes, Economic Consequences of the Peace (1919), conheceu, aliás justamente, larga divulgação,  um texto contemporâneo de Mises, escrito uns meses antes no mesmo ano - Nation, History and Economy -, teve que esperar até 1983 para conhecer a sua primeira edição em inglês!

A tradução que se segue é de minha inteira responsabilidade bem como dos links e notas nele introduzidos.
Por Paul Gottfried
21 de Janeiro de 2014

Sonambulismo suicida (Sleepwak to Suicide)

Talvez nenhuma outra guerra tenha sido abordada de forma mais tendenciosa e, nas últimas décadas, mais inadequada, que a Primeira Guerra Mundial. Desde os anos 60 que se fixou uma visão deste conflito nos círculos académicos e jornalísticos que coloca a culpa de modo quase exclusivo num dos lados. O governo alemão, liderado por um perverso e autoritário imperador e seu belicoso estado-maior, desencadeou um combate que custou mais de 30 milhões de vidas e uma destruição incalculável no continente europeu.

Segundo o académico Fritz Fischer - que se tornou o favorito da esquerda alemã, apesar do seu passado de leal Nazi - a guerra foi planeada e iniciada por uma Alemanha empenhada em dominar o mundo. A contribuição dos outros beligerantes para o iniciar das hostilidades em 1914, sugere Fischer no seu livro de 1961, Germany’s Bid for World Power[1], foi inconsequente. O resto da Europa foi arrastado para uma luta que a Alemanha havia planeado durante décadas, uma conflagração iniciada pela sua classe dirigente antidemocrática e por um povo alegremente ultra-nacionalista.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (IV)

Paul Gottfried
No seguimento dos artigos sobre a 1ª Grande Guerra, propomos a audição de uma pequena entrevista sobre o tema levada a cabo por Tom Woods. O entrevistado (imagem à esq.) discute teses historiográficas, explorando, crítica e humoristicamente, a visão da maldade moral dos alemães. Paul Gottfried é Presidente do The Mencken Club. Aproximadamente trinta minutos bem investidos (aqui).

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – vista pelo convidado Floribundus

Tendo acedido, muito amavelmente, ao convite que lhe endereçámos, a seguir se publica o contributo do nosso leitor Floribundus, co-autor de um magnífico blogue, sobre o tema da I Grande Guerra:


Antecedentes, factos e consequências sociais e políticas da I Guerra Mundial

Antecedentes ou avanço turco na Europa

Otman unificou os mongóis da Anatólia no séc. XIII. Os turcos otomanos atravessaram os estreitos e entraram na Europa em 1346 para empreender uma guerra santa (jihad).

Os guerreiros do sultão Murad I derrotaram os sérvios em Pristina (1389), na região do Kosovo ("Kos", melro). Para facilitar o domínio, trouxeram albaneses (walshs) islamizados. Os kosovares permaneceram vassalos do Islão até 1871. A Sérvia só integrou o Kosovo em 1878. A luta anti-turca, iniciada em 1912, pôs fim ao jugo turco.

O primeiro cerco de Constantinopla, por Bajazé I, ocorreu no ano de 1391. Os romenos foram derrotados na batalha de Rovine em 1394; as zonas da Transilvânia, Valáquia e Moldávia passaram a pagar tributo ao sultão. Na batalha de Tarnovo (1395), os turcos desbarataram os Búlgaros; seguiu-se Nicopolis no ano seguinte.

Durante o cerco de Belgrado (1456), o Papa Calisto III pediu orações. Memed II retirou. O imperador de Constantinopla recebeu ajuda do mercenário genovês Giovanni Giustiniani, mas Memed conseguiu apoderar-se da cidade (1456). Os turcos tomaram a ilha de Lesbos em 1462. Aflita, a República de Veneza envia, em 1479, Gentile Bellini para executar o retrato do sultão. Após um cerco de 2 meses e com um exército de 90 mil homens, o sultão Memet IV tomou a cidade de Otranto (1480), no sul de Itália.

Giovanni da Capistrano defendeu Belgrado (1521) mas a capital da Sérvia acabou nas mãos dos turcos. O italiano tem monumento no Stephensdom, em Viena. Luís II da Hungria e Boémia saiu derrotado da batalha de Mohacs (1526) contra Soleimão I.

Soleimão I (Wikipedia)
1º cerco de Viena, de 27 de Setembro a 15 de Dezembro de 1529, por Soleimão I (1494-1566), o Magnífico, sultão da Turquia e califa do Islão, o qual decidiu atacar o Imperador Ferdinand pela disputa da Hungria. Dirigiram a defesa de Viena Wilhelm von Roggendorf e o mercenário alemão, conde Niklas Salm; o grão-vizir Kara Mustafá Paxá viu-se obrigado a retirar perante o auxílio externo atempado.

Afirmava Martinho Lutero (1483-1546), indica Thomas F. Madden em Crusades[1], que os turcos eram castigo de Deus contra os pecados dos cristãos, como escreveu em "Da guerra com os turcos"[2]. Quando Soleimão cercou Viena, dele disse que era o seu primeiro grande erro.

A resistência veneziana de 1665-1669 terminou com a entrega da ilha de Cândia (Creta) aos turcos. A Sagrada Liga venceu a batalha naval de Lepanto (1571) para permitir algum desafogo na navegação mediterrânica.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (III)

Dando prosseguimento aos propósitos aqui enunciados, com o post de hoje pretende-se ilustrar alguns dos aspectos que concorrem para o que nos sugere ser a justeza da caracterização da I Guerra Mundial como um verdadeiro "ponto de viragem" (o Turning Point que Ralph Raico escolheu como título do primeiro ensaio do seu excelente Great Wars & Great Leaders).

Para o efeito, pareceu-nos oportuno convocar (parte de) um texto de Murray Rothbard onde se aborda o conceito de "guerra justa". Na sua opinião, e pelo menos do ponto de vista dos americanos, a Grande Guerra (ou a II Guerra Mundial, para o efeito) não cabe entre o que eram agora "nações em armas" e onde passou a ser um dever absoluto servir o estado. Ainda que se contemple a e(in)volução verificada no direito internacional que irá dar cobertura ao conceito da "guerra total" (eufemismo para designar a inclusão dos civis no catálogo dos alvos de guerra "legítimos"), é difícil deixar de inferir pela elevação desse dever de servir o estado como um supremo sacrifício. Ao invés, na "velha ordem", Voltaire observava: "Os povos são indiferentes às guerras dos seus senhores", fossem estes num dia da casa dos Bourbons quando noutro eram súbditos dos Habsburgos (ou vice-versa, em resultado do sucessivo pelejar). De seguida, Rothbard passa em revista as doutrinas wilsonianas da "segurança colectiva", da "emancipação dos povos" e da auto-atribuída missão messiânica de transportar a "democracia" às quatro partidas do mundo. Pela força das armas, se necessário fosse (como já se tinha entrevisto na guerra hispano-americana de 1898 e nas "sequelas" da guerra de guerrilha nas Filipinas). Este é um corpo doutrinário que permanece nos dias de hoje tal como sucedeu nas intervenções, então contemporâneas, a que Rothbard alude (Bósnia e Somália). No seu conjunto, estas são razões bastantes para asseverar que a GG terá sido o maior desastre da humanidade.

A tradução que se segue, da minha responsabilidade, corresponde sensivelmente ao primeiro terço do ensaio de Rothbard (a partir das notas que preparou para uma palestra que proferiu (em audio, aqui) numa conferência que decorreu entre 20 e 22 de Maio de 1994, que viria a ser incluída neste livro). Todas as imagens e ligações inseridas são igualmente da minha única responsabilidade. O mesmo se diga quanto às anotações introduzidas.
Por Murray N. Rothbard (1926-1995)

Grande parte da teoria do "Direito Internacional clássico", desenvolvida pela escolástica católica, nomeadamente pelos escolásticos espanhóis do século XVI como Vitoria e Suarez, seguidos depois pelo escolástico protestante holandês Grócio e por juristas dos séculos XVIII e XIX, consistiu numa explanação dos critérios definidores do que seria uma guerra justa. Porque a guerra, ao implicar a prática do grave acto de matar, tem de ser justificada.

A minha própria perspectiva sobre a guerra pode ser enunciada de uma forma simples: existe uma guerra justa quando um povo tenta repelir a ameaça de dominação pela força por parte de um outro povo ou derrubar uma dominação já existente. A guerra é injusta, por outro lado, quando um povo tenta impor a sua dominação sobre outro povo, ou tenta manter uma pré-existente dominação coerciva sobre outrem.

Murray Rothbard
Durante a minha vida, o meu activismo político e ideológico concentrou-se na oposição às guerras da América. Em primeiro lugar, porque acreditei ter sido injusto o seu fomento, e, em segundo lugar, porque a guerra, nas penetrantes palavras do libertário Randolph Bourne, redigidas durante a I Guerra Mundial, sempre foi "a saúde do Estado", um instrumento para o engrandecimento do poder do Estado sobre a saúde, as vidas, e a prosperidade dos seus cidadãos-súbditos e instituições sociais. A participação numa guerra, ainda que justa, é uma decisão que não pode ser tomada de forma leviana; uma participação numa guerra injusta deve, por consequência, ser considerada um anátema.

Houve apenas duas guerras na história americana que foram, na minha opinião, segura e inquestionavelmente correctas e justas; e não apenas isso já que o lado oposto travou uma guerra que foi clara e particularmente injusta. Porquê? Porque não tivemos que nos questionar se uma ameaça à nossa liberdade e à nossa propriedade era clara ou estava presente; em ambas as guerras, os americanos tentavam livrar-se da dominação indesejada de outro povo. E em ambos os casos, o outro lado tentou, de uma forma feroz, manter o domínio sobre os americanos através da força. Em ambos os casos, um lado - o "nosso lado", se quiserem - era particularmente justo, enquanto o outro lado - o "lado deles" - era injusto.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (II)

"Uma análise da história dos conflitos militares dos últimos dois séculos revela, claramente, que muitas guerras com efeitos devastadores para a humanidade poderiam ter sido prevenidas, ou seriam menos nocivas, não fosse a crescente influência dos estados na definição de políticas monetárias, em particular a sua influência e controlo da expansão do crédito e da criação de moeda. De facto, os governos têm escondido o verdadeiro custo destes conflitos dos seus cidadãos, usando procedimentos inflacionários para o seu financiamento. Que, ao abrigo da emergência militar, os tem deixado impunes. Por conseguinte, podemos afirmar com segurança que a inflação alimentou as guerras."

Jesús Huerta de Soto (2009), "Money, Bank Credit and Economic Cycles" (pp. 758, 759)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (I)

No ano que decorre "comemoram-se" 100 anos sobre o início da "guerra para acabar com a guerra”. Uma guerra que iria "libertar os povos" do jugo dos impérios aristocráticos que negavam o direito daqueles à "autodeterminação". Uma guerra “justa” tanto mais que havia que “tornar o mundo seguro para a democracia”. Em definitivo, a decisão de participar no teatro de guerra europeu constituía um dever “humanitário” para os detentores do poder na “Terra dos Livres e Lar dos Bravos”. E é indisputável que a entrada na guerra da América foi absolutamente determinante para decidir quem seriam os imediatos vencedores e vencidos, 20 milhões de mortos depois. Poucos anos volvidos, todavia, ver-se-iam quais as suas ainda mais terríveis consequências mediatas. Como um militar britânico profeticamente observou na altura, "After the ‘war to end war’ they seem to have been pretty successful in Paris at making a ‘Peace to end Peace.’" (tradução: “Depois da ‘guerra para acabar com a guerra’ tudo indica que em Paris [Conferência de Paris, de 1919] foram coroados de êxito os esforços para alcançar uma ‘Paz para acabar com a Paz’”).

O grande historiador libertário Ralph Raico ensaia aqui, em jeito de prólogo, um telegráfico exercício "contrafactual" com o objectivo de ilustrar o real "ponto de viragem" que a I Guerra Mundial constituiu (minha tradução):
A Primeira Guerra Mundial é o ponto de viragem do século XX. Não tivesse a guerra ocorrido, os prussianos Hohenzollerns teriam muito provavelmente permanecido à frente dos destinos da Alemanha, com a sua subordinada panóplia de reis e nobreza a governar os mais pequenos estados alemães. Quaisquer que tivessem sido as vitórias de Hitler nas eleições para o Reichstag, teria ele conseguido erguer a sua ditadura totalitária e exterminacionista no meio desta poderosa superestrutura aristocrática? Teria sido altamente improvável. Na Rússia, os poucos milhares de revolucionários comunistas de Lenine confrontavam-se com o imenso exército imperial russo, o maior do mundo. Para que Lenine tivesse uma qualquer oportunidade de sucesso, aquele grande exército tinha primeiro que ser pulverizado, que foi o que os alemães fizeram. Assim, um século XX em que não tivesse ocorrido a Grande Guerra poderia muito bem ter significado um século sem nazis ou comunistas. Imagine-se um tal cenário! Foi também um ponto de viragem na história da nossa nação americana que, sob a liderança de Woodrow Wilson, se tornou em algo de radicalmente diferente daquilo que tinha sido anteriormente. Daí, a importância das origens daquela guerra, do seu desenrolar, e das suas consequências.
Com o devido respeito e ressalvadas as devidas distâncias, parece-nos que a Grande Guerra constituiu também um “ponto de viragem” em direcção a um horror inominável com contornos que o direito internacional prevalecente à sua eclosão considerava ilegais. Referimo-nos, nomeadamente, ao facto de com ela se ter tornado “legítimo” tomar as populações como alvos directos de guerra nomeadamente através da indução da fome severa e generalizada (mais tarde, com o desenvolvimento da aviação, viria o extermínio em massa das populações através dos bombardeamentos "estratégicos" de cidades desprovidas de objectivos militares).

Propomo-nos vir a fazer aqui no Espectador Interessado, ao longo das próximas semanas, um conjunto de incursões nessa época, e nas suas circunstâncias, tentando proporcionar aos leitores ângulos de abordagem desse "ponto de viragem" que, provavelmente, não serão dos mais comuns, antes se filiando assim numa visão inevitavelmente revisionista.

(Continua)