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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Citação do dia (185)

“O Estado não é um bando de homens, com as suas armas, prisões e recursos. O Estado é a atitude de cada súbdito para com aqueles homens e as suas maquinações, bem como os mitos que moldam aquela atitude. O Estado é uma “grande ficção”, como disse Frederic Bastiat. Ou uma “perigosa superstição” como considera Larken Rose.
O Estado é a ameaça e a mentira do rufia que a vítima interioriza. O síndrome de Estocolmo institucionalizado. O Estado é a doença que vive na mente das suas vítimas. É aí, na batalha das ideias, que o Estado tem de ser verdadeira e totalmente vencido.
Um Estado sem legitimidade é uma contradição nos próprios termos. Destruir a legitimidade na mente dos seus súbditos, expondo as mentiras que suportam aquela legitimidade é já ter vencido e aniquilado o próprio Estado. Assim deixando um minúsculo bando criminoso no seu lugar.”

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mises, a queda do Muro, e a persistência da falácia socialista sob novas vestes

Num discurso proferido na Conferência do ELDD - Grupo Europa da Liberdade e da Democracia Directa do Parlamento Europeu (cuja principal formação é o UKIP) -, em 12 de Novembro último, para assinalar o 25º aniversário do fim da Cortina de Ferro, Philipp Bagus - o autor de A Tragédia do Euro - produziu um breve discurso que reputo de simultaneamente didáctico, incisivo e desassombrado perante a realidade que defrontamos. Didáctico, pela forma como esquissa a prova da impossibilidade de cálculo económico que Ludwig von Mises elaborou em 1920, antecipando em 70 anos o colapso do sistema comunista. Incisivo e desassombrado, porque não receia apontar os males profundos e estruturais que nos assolam: por um lado, a cada vez mais sufocante teia regulatória (a nacional e a de Bruxelas); por outro, pela espiral intervencionista do "socialismo monetário" constituído pela moeda fiat e pelo banco central. Alerta por fim para as tentativas que vêm ocorrendo com o intuito de suprimir a utilização de numerário (cash) que, a terem sucesso, nos colocariam em pleno totalitarismo monetário (já pouco falta, aliás). Por este motivo, entendi que poderia ser útil traduzir a sua intervenção, o que se faz abaixo. Para quem preferir ver e ouvir a intervenção de Bagus ao vivo, pode fazê-lo aqui.
Muito obrigado pela simpática introdução.

Gostaria de agradecer ao grupo ELDD o amável convite. É uma grande honra e um prazer estar aqui no 25º aniversário da queda do Muro.

Philipp Bagus
Quando o Muro foi derrubado em 1989, a maioria das pessoas foi apanhada de surpresa, incluindo os economistas da Escola de Chicago. Sherwin Rosen afirmou em 1997 que "o colapso do planeamento central na última década foi uma surpresa para a maior parte de nós". E Ronald Coase observou igualmente: "Nada do que tinha lido ou conhecido sugeria que o colapso iria ocorrer."

Bem, mas houve um grupo de economistas que não ficou nada surpreendido: os da Escola Austríaca de economia. Isto porque o grande economista austríaco Ludwig von Mises havia anunciado, logo em 1920, a impossibilidade do planeamento económico racional sob o socialismo num ensaio intitulado "Die Wirtschaftsrechnung im zocialistischen Gemeinwesen" [Cálculo Económico Sob o Socialismo - NT]. É assim que Murray Rothbard, já em 1971, se referia a Mises como sendo "o profeta do colapso do planeamento central".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Como ensinar História sem recorrer a manuais

Entre 10 e 12 de Fevereiro do corrente mês, morreram três conhecidos jornalistas americanos que estavam envolvidos numa investigação aos acontecimentos de 11 de Setembro: Bob Simon (CBS), 73 anos, num acidente de automóvel; Ned Colt (NBC), 56 anos, de ataque cardíaco; e David Carr (NYT), 58 anos, que sofreu um colapso súbito na redacção do New York Times (a autópsia viria a atribuir a causa de morte a cancro de pulmão e insuficiência cardíaca). Este último, horas antes, havia moderado um painel em que participaram, entre outros, Glenn Greenwald, Laura Poitras e Edward Snowden (por vídeo-conferência), a propósito do CitizenFour, um documentário nomeado para os Óscares de 2015, onde a realizadora Poitras conta a história do whistleblower Snowden. Meras coincidências semelhantes a estas 103? Talvez. Em todo o caso, foram estas circunstâncias que me motivaram a traduzir um recente artigo de Gary North onde se aborda o tema do revisionismo histórico e a estratégia para estimular os alunos a aguçar a sua curiosidade relativamente à História e, em particular, às histórias que se contam sobre ela (bem como as que não se contam...).
17 de Fevereiro de 2015
Por Gary North


O cerne da história revisionista reside nisto: a versão do manual escolar está errada.

Gary North
Ela poderá estar errada por razões meramente técnicas pois é possível que determinados documentos tenham sido suprimidos, perdidos, ignorados. Poderá suceder que um dado acontecimento seja bem mais complexo do que os manuais escolares indicam. Mas, em algumas matérias, nomeadamente as relativas à banca, à guerra e à despesa pública, a história narrada no manual foi deliberadamente escrita por historiadores da corte. Os historiadores da corte suprimiram deliberadamente informação quando esta apontava para origens conspiratórias do acontecimento. É crucial para os historiadores do establishment poder ignorar investigações desse tipo catalogando-as de história conspirativa, como se as conspirações não existissem na história, e como se elas não controlassem os acontecimentos do passado.

Deste modo, o historiador revisionista deve começar com esta pergunta: quais são os aspectos de um acontecimento particular que jamais poderiam ter tido lugar? O que leva à pergunta seguinte: quais foram as perguntas que a guilda dos historiadores se recusou deliberadamente a colocar? Porquê?

Quase todas as guerras na história dos Estados Unidos são elegíveis para uma história revisionista. Já anteriormente afirmei que o que precisamos é de um estudo, em múltiplos volumes, das guerras em que a América interveio. Cada volume deveria analisar uma guerra e responder a três perguntas.
  1. Como é que os Estados Unidos entraram na guerra?
  2. Como é que a guerra foi paga?
  3. Quais foram os resultados sociais e económicos da guerra?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A Imprevisibilidade do Futuro e A Conquista da Liberdade

Na véspera do Ano Novo, cabe desejar a todos os leitores do Espectador Interessado o melhor 2015 possível, num contexto que aconselha recurso ao pleno da prudência, como hoje escreveu LV, o meu parceiro de blogue.

Procurando um tema, simultaneamente de balanço e perspectiva, para o meu último post do ano, optei por um texto prospectivamente optimista (ainda que num futuro indefinido e quiçá longínquo). O artigo que escolhi traduzir (de minha exclusiva responsabilidade) contém múltiplas referências relevantes no meu próprio percurso politico-filosófico. Fez-me também recordar as palavras de um meu ex-director, hoje um bom amigo, nas boas-vindas: “Esta não é uma empresa para velocistas, mas sim para corredores de fundo”. Concorde-se ou não com o tom do autor, Richard Ebeling, as suas reflexões parecem-me ser inquestionavelmente informadas e relevantes.

Desculpem-me a auto-citação na formulação dos meus próprios votos para 2015: “Que as ideias da defesa da liberdade progridam e que não esmoreça aos seus promotores a sua defesa.” Teimosamente, claro.

29 de Dezembro de 2014
Por Richard Ebeling



Com um novo ano a começar, é fácil considerar que as perspectivas para a liberdade, na América como em muitas outras partes do mundo, pareçam ténues. Afinal de contas, o estado continua a crescer e é cada vez mais intrusivo e que recorre a cargas fiscais que absorvem enormes quantidades da riqueza privada.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Citação do dia (177)

«No processo político há um "triângulo de ferro" formado pela interacção de três grupos de pessoas. Há os que perseguem interesses especiais, que procuram obter favores e privilégios por parte do estado à custa dos consumidores, concorrentes e contribuintes; há os políticos fornecedores de favores e privilégios atribuíveis pelo estado em troca de financiamentos às campanhas eleitorais e votos; e há os gestores burocráticos do sistema regulatório, intervencionista e redistributivo, que estão constantemente à procura de formas e meios de expandir a sua autoridade e aumentar os seus orçamentos como vias para a obtenção de mais poder e oportunidades de promoção e de salários mais elevados.»
Richard M. Ebeling

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Citação do dia (175)

"Os novos valores que vão surgindo parecem justificar o abandono dos antigos valores e regras. A confiança em si mesmo, o auto-controlo e a independência, por exemplo, são substituídos pela equidade, segurança e cuidados de saúde universais. No entanto, são fáceis de identificar as clivagens entre os velhos valores e os novos.
Os novos valores reflectem uma profunda mudança nas atitudes. De assumir riscos a passar evitá-los de todo. Da produção de riqueza à preocupação exclusiva na sua preservação. Da ausência de interferências do estado (laissez-faire) ao controlo centralizado por parte do estado.
Mas estas diferenças são também expressas num conjunto diferenciado de direitos. Os antigos eram direitos a que cada um pudesse fazer algo por si mesmo. Os últimos são direitos a forçar alguém a fazer algo para mim. Os primeiros exigiam cooperação, estes últimos exigem apenas o medo e, de seguida, a violência."

Bill Bonner, "O refluxo da modernidade" - 22 de Outubro de 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Em defesa do euro (na ausência do padrão-ouro)

No artigo que hoje proponho aos leitores, Gary North expõe o seu ponto de vista sobre a zona euro num mundo dominado pela moeda fiat. Num raciocínio próximo do de Jesús Huerta de Soto, na ausência do padrão-ouro internacional integral (isto é, o padrão moeda-ouro), é o euro, ou seja, o BCE, que constitui a única barreira, ainda que débil, ao desregramento orçamental dos estados membros. Nessa medida - e só nessa medida - o arranjo monetário da zona euro (um proxy do padrão-ouro como também lhe chamou JHS) é algo de bom e correcto, diz-nos North. Os que há 15 anos assinalam a "inconsistência" entre um planeamento central monetário supra-nacional e a diversidade fiscal dos diferentes estados da zona euro, e continuam clamando pela necessidade de aliar à união monetária (o euro) uma união fiscal (um orçamento supra-nacional), são os estrénuos defensores do centralismo e, por conseguinte, ferozes opositores à ideia da descentralização. Quem são estas pessoas? Os keynesianos, claro está. A doença é essa. Não há nenhuma inconsistência entre haver num dado espaço político-geográfico uma moeda única e diferentes políticas fiscais como frequentemente por aí se ouve (olhe-se para os Estados Unidos por exemplo). A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Gary North
11 de Outubro de 2014

O que está CORRECTO no Euro
(What's RIGHT With the Euro)

Eu penso como um economista. O economista pensa sempre em termos de alternativas. A mentalidade do economista foi expressa com clareza pelo falecido comediante, Henny Youngman. "Como está a sua mulher?" "Comparada com o quê?"

Gary North
Uma das acusações mais comuns contra o euro é a seguinte: "A zona euro é composta por uma moeda centralizada, mas por políticas fiscais nacionais descentralizadas." Eu nunca vi nenhum dos críticos que invocam este argumento propor a abolição do euro e do Banco Central Europeu. Este argumento é sempre invocado para defender a ideia de união fiscal. Por outras palavras, não há nenhum esforço para descentralizar as moedas na zona euro. Mas há uma forte pressão, ainda que até agora ineficaz, para unificar as políticas fiscais da eurozona.

Pense o leitor nas implicações disto. Consegue ver o que há de errado neste argumento?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A generosidade de roubar a Pedro para dar a Paulo

O título que escolhi para o post talvez não permita uma associação directa às actividades (incluindo as "filantrópicas") de um certo Bernie Madoff. Mas tem. Porque são muitas as semelhanças entre as actividades redistributivas do estado social e o modus operandi daquele. É o que mostra o artigo, de Brandon Dutcher, que me propus traduzir (no qual introduzi alguns links).
7 de Outubro de 2014
Por Brandon Dutcher

O que o governo central e Bernie Madoff têm em comum
(What the Feds and Bernie Madoff Have in Common)

Bernard Madoff
Ao longo dos anos, o condenado Bernard Madoff, responsável pelo esquema ponzi que defraudou os seus investidores, doou "generosamente" milhões de dólares a instituições de beneficência - investigação do cancro, hospitais, teatros, escolas, etc. Pelo menos uma dessas organizações de caridade fez investimentos junto de Madoff, onde os fundos se evaporaram.

Mas Madoff não é o único que dá dinheiro às pessoas após ele lhes ter sido subtraído em primeiro lugar. Os dirigentes políticos de hoje angariam votos e aplausos dando presentinhos ao Zezinho, mas não se dão ao incómodo de dizer que a totalidade da conta vai direitinha para o cartão de crédito do Zezinho.

O ano escolar recomeçou, e "milhares de estudantes mais poderiam estar a usufruir do almoço escolar completamente grátis", noticia Jake Grovum na Stateline, "graças a um programa federal que se iniciou há quatro anos que finalmente se está a expandir a todos os 50 estados". (Finalmente!)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A vacuidade do "nós" político

No Jornal de Negócios (edição em papel) de 24 de Setembro último, o título de "A Cor do Dinheiro", a coluna diária de Camilo Lourenço (CL), rezava: "Estamos a repetir os erros do passado". Em destaque, alertava-se: "Portugal vai voltar a apostar no modelo errado de crescimento: o PIB será puxado pelo consumo (o investimento estagnou) e não pelas exportações."

O recurso à utilização da 1ª pessoa do plural nos temas políticos e económicos tornou-se tão comum, que, frequentemente, não damos conta do abuso que essa prática encerra. Mas que raio de "erro do passado" estou eu, Eduardo Freitas, a tornar a cometer? Quem é CL - por quem eu, aliás, até nutro alguma simpatia - para me estar a acusar implicitamente de querer voltar "a viver acima das minhas possibilidades"? Mas quem é que lhe disse que isso alguma vez me sucedeu (como a tantas outras pessoas)? E que dizer desta personificação da entidade Portugal que lhe confere uma vontade, uma (ir)racionalidade e um comandado devir porque o "Estado somos todos nós"? Implicitamente, e talvez mesmo contrariando a perspectiva do próprio CL, está a conferir ao Estado - e só a ele - a "chave" do sucesso ou insucesso económico de todo o país, sendo que as famílias e as empresas mais não são que meros agentes reactivos ora à largueza estatal (sob a forma de subsídios, ajudas, aumentos salariais e ads transferências sociais, etc.) ora à sua terrível "austeridade" (os "cortes"). O Estado oscila, pois, entre o Salvador e o Vilão, entre o "crescimento" e o "empobrecimento".

O artigo de Pierre Lemieux, de onde roubei o título do post, endereça algumas destas questões. Seguem-se alguns excertos (tradução e inserção de imagens da minha responsabilidade) que creio inteligíveis por não iniciados (embora todo o artigo seja, a meu ver, interessante):
We, Yevgeny Zamyatin
É quase impossível ler um jornal ou ouvir um discurso de um político sem tropeçar no padronizado "nós, enquanto sociedade" ou numa das suas variantes. "Sabem, nós vamos ter de fazer escolhas enquanto sociedade", disse o presidente Barack Obama referindo-se à vigilância da NSA. Até mesmo alguns economistas, que tinham a obrigação de estar mais atentos, caem nesta armadilha. Jonathan Gruber, um economista do MIT e um dos arquitectos do Obamacare, declarou: "Nós decidimos, enquanto sociedade, que não queremos que as pessoas tenham apólices de seguros de saúde que as exponham ao risco de incorrer em despesas de mais de seis mil dólares a pagar do seu próprio bolso."

O mesmo problema existe em expressões como "do ponto de vista da sociedade" ou "a sociedade como um todo" como ainda na personificação de países, como em "a América pensa ou faz, isso ou aquilo". Quando um vice-ministro afegão para os Assuntos Sociais disse que "[o] Afeganistão é um país islâmico e nós queremos que os nossos filhos sejam criados segundo os costumes islâmicos", ele estava a fazer o mesmo tipo de afirmação genérica, só que envolto numa bandeira diferente.

A verdade é que este "nós" colectivo não tem significado científico.

O "nós" colectivo pode fazer sentido quando respeita a um grupo contratual ("Nós na Ford produzimos excelentes automóveis") ou a um grupo constituído ou imaginado com o qual alguém se pretenda identificar. Mas para uma sociedade composta de diferentes indivíduos com diferentes preferências, onde é suposto que todos os indivíduos tenham igual importância, o "nós" colectivo não faz sentido. […]

Excepto, talvez, ao nível muito abstracto de um contrato social, expressões como "nós, enquanto sociedade" não têm significado determinável, a não ser para ilustrar "as pessoas que, como eu, impõem as suas preferências e escolhas aos outros". […]

Pierre Lemieux, 6-10-2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Não, a América não é comunista. Só é 70% comunista

Há uns meses atrás cheguei a esboçar um post cujo título seria "A vitória do marxismo é praticamente total". A ideia era ilustrar a tremenda proximidade, quando não mesmo decalque, entre a realidade que hoje vivemos e aquela que Marx e Engels, em 1848, pretendiam então conseguir a curto prazo como um primeiro passo em direcção à construção do paraíso na Terra.

A minha intenção acabou por não se concretizar mas Simon Black escreveu agora algo de parecido (obviamente muito melhor do que eu o faria) com o que eu pretendi.  É provável que muitos tomem o título que roubei ao artigo de Black como denotando um exagero a roçar a tontice. É esse texto, escorreito, despretensioso e to the point, que me propus traduzir e ao qual acrescentei algumas imagens, notas e links, todos da minha inteira responsabilidade. Quem continuar a sorrir com prazenteira bonomia após ter concluído a leitura do texto, ou quem já desistiu nesta altura de o ler de todo, vá até aqui e reflicta sobre algumas das razões por que a grande máquina de produção de riqueza, de liberdade e  de felicidade que é o capitalismo praticamente deixou de funcionar nos países ocidentais. 
29 de Setembro de 2014
Por Simon Black

Não, a América não é comunista. Só é 70% comunista.
(No, America isn’t Communist. It’s only 70% Communist.)

"Os proletários não têm outra coisa a perder que não as suas correntes. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!"

A maioria das pessoas recorda-se das ideias e frases mais enérgicas de Karl Marx, como da montanha de cadáveres que os seus discípulos deixaram para trás, especialmente no século XX.

No entanto, a maior parte esqueceu-se ou nem sequer conhece as políticas específicas que Marx advogava.

No seu Manifesto Comunista[1] de 1848, Marx elencou uma lista[2] de dez exigências de curto prazo. Estas - pensou - seriam precursoras do ideal do fim do estado, a sociedade comunista sem classes.

Ironicamente, as medidas de Marx assemelham-se muito aos pontos de vista convencionais no mundo de hoje. Isso é assim porque praticamente cada um dos itens dessa lista já foi posto em prática, em diferentes graus, nos Estados Unidos.

Crê o leitor que tal não poderia acontecer na Terra dos Livres? Ora atente no que se segue.

No topo da lista de Marx está a abolição da propriedade privada.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O mercado do namoro: a anarquia em acção

A permanente intoxicação a que somos diariamente sujeitos vem instilando a ideia - infelizmente com muito sucesso, reconheça-se, tanto à "esquerda" como à "direita" - de que os mercados precisam de ser constantemente vigiados e regulados de modo a evitar as suas inerentes e tenebrosas "falhas". Há todavia um mercado, determinante para a vida social, em que se repudiaria por absurda uma qualquer intervenção burocrática - o mercado do enamoramento. A contrario, isso significa que consideramos estar em presença de um mercado que funciona bem. Mas se esse bom funcionamento é reconhecido, por que razão outros que lhe são próximos são alvo de intervenção estatal? É este o mote de um estimulante ensaio da autoria de Julian Adorney de que traduzi o excerto inicial e final (destaques meus) e serviu de título ao presente post.
Para os defensores do estado, a "anarquia" é um conceito assustador. Eles alegam que a intervenção estatal é necessária à nossa protecção pois que, na sua ausência, instalar-se-ia o inferno.

Mas na realidade vivemos todos os dias sob anarquia num dos aspectos mais importantes das nossas vidas: o namoro. Todos os dias as pessoas conhecem outras pessoas, têm encontros sentimentais, sexo casual, apaixonam-se e separam-se. Tudo isto sem que haja intervenção estatal.

O namoro, apesar de raramente envolver a troca directa de serviços por dinheiro, não deixa de ser um mercado como é o mercado de trabalho. As partes interessadas procuram relacionamentos mutuamente benéficos com outras pessoas, que têm o que aquelas precisam e pretendem o que estas oferecem. Os homens heterossexuais sozinhos, por exemplo, procuram relacionamentos reciprocamente agradáveis com mulheres heterossexuais que estejam disponíveis. Se duas pessoas pretendem um relacionamento com uma mesma pessoa, com frequência lutarão por ela (pense-se em The Bachelor). Isto mimetiza o modo como dois empregadores que queiram ambos contratar o mesmo empregado poderão vir a lutar por ele - por exemplo, através de sucessivas propostas remuneratórias.

Este mercado do namoro é, praticamente, anarquia pura. Não há nenhum burocrata estatal a dizer com quem cada um deverá namorar. As mulheres brancas heterossexuais não estão legalmente obrigadas a namorar exclusivamente homens que sejam brancos heterossexuais. E embora a conduta sexual com menores de idade seja proibida, qualquer pessoa acima dos dezoito anos pode namorar outra pessoa maior de idade. […]

Assim sendo, por que razão os estatistas aceitam a anarquia no namoro, ao passo que exigem a intervenção estatal noutras áreas?

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Citação do dia (170)

A guerra tornou-se mais temível e destrutiva do que nunca porque é hoje travada com todos os meios técnicos altamente desenvolvidos que foram criados pela livre economia. A civilização burguesa construiu ferrovias e centrais de produção eléctrica, inventou explosivos e aviões, de modo a criar riqueza. O imperialismo colocou os instrumentos da paz ao serviço da destruição. Com os meios modernos seria fácil arrasar a humanidade de um só golpe. Enredado numa horrível loucura, Calígula desejou que a totalidade do povo romano tivesse uma só cabeça para que ele a pudesse decapitar. A civilização do século XX tornou possível que a loucura delirante dos modernos imperialistas viesse concretizar sonhos sangrentos similares. Pelo premir de um botão é possível expor milhares à destruição. O destino desta civilização fê-la incapaz de manter os meios externos que tinha criado a salvo das mãos daqueles que haviam permanecido afastados do seu espírito. Os tiranos modernos têm a vida muito mais facilitada da que tiveram os seus antecessores...

Ludwig von Mises in Nation, State, and Economy (1919)

sábado, 26 de julho de 2014

E se a democracia for uma fraude?

O título do post, que roubei de um artigo do juiz Andrew Napolitano recentemente publicado no Washington Times, dispensa uma apresentação elaborada. Trata-se de um convite à reflexão relativamente ao "endeusamento democrático" em que vivemos, ainda que ilustrado com a realidade e história americanas. A tradução que se segue desse artigo, da minha responsabilidade, é um substituto possível para aqueles que, como vivamente se aconselha, não o puderem ler no original.
23 de Julho de 2014
Por Andrew P. Napolitano
E se a democracia for uma fraude?

E se se desse o caso de ser permitido votar apenas porque isso não faz diferença? E se, independentemente de como se votar, as elites conseguirem sempre os seus intentos? E se o conceito de "uma pessoa, um voto" fosse apenas uma ficção criada pelo estado para induzir a complacência?
Andrew P. Napolitano

E se a democracia, sob a forma que veio a adquirir hoje na América, for perigosa para a liberdade pessoal? E se se der o caso de a nossa alegada democracia corroer o entendimento por parte do povo dos direitos naturais e das razões de ser da existência do governo e, em vez disso, transformar as campanhas políticas em concursos de beleza? E se a democracia americana permitir ao governo fazer o que bem entender, enquanto houver mais pessoas a preocupar-se em aparecer na cabina de voto para apoiar o governo do que a surgir a dizer não?

E se o propósito da democracia contemporânea for o de convencer as pessoas de que poderiam prosperar não por via da criação voluntária de riqueza mas do roubo de outros? E se a única forma moral de adquirir riqueza for através da actividade económica voluntária? E se o estado tiver persuadido as pessoas que poderiam adquirir riqueza através da actividade política? E se a actividade económica incluir todas as coisas que são produtivas e pacíficas que fazemos de forma voluntária? E se a actividade política incluir todas as coisas parasitas e destrutivas que o estado faz? E se o estado nunca tiver criado riqueza? E se tudo o que o que o estado detém tiver sido roubado?

quarta-feira, 16 de julho de 2014

17 anos e 10 meses depois, continua a narrativa marialva do CO2

Facto: as temperaturas registadas na baixa troposfera, medidas por recurso a satélite (série RSS), registam uma tendência ZERO no aumento da temperatura nos últimos 17 anos e 10 meses.

Retirado daqui
É à teimosa persistência desta realidade inconveniente que se deve o abandono do já quase esquecido "aquecimento global" que seria maioritariamente imputável à acção humana pela utilização da energia de origem fóssil (pelo aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera). Daí que houvesse que recauchutá-lo em alterações climáticas de que os "fenómenos extremos" - de furacões a calmarias, secas a inundações, desassoreamentos a assoreamentos, desertificação ou verdificação, calor ou frio, gelo ou degelo, enfim, o que quer que seja, constituiriam manifestações - seriam já tão evidentes que impunham a tomada de medidas "imediatas e severas" para evitar a anunciada catástrofe global.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VII)

Depois de um interregno aparente, regresso explicitamente ao tema da I Guerra Mundial suprimindo o impulso de escolher para título deste post qualquer coisa como um (por aqui) improvável "Obrigado, Lorde Keynes!" Explico-me. No seu livro de 1919, As Consequências Económicas da Paz" (a paz (?) de Versalhes), Keynes oferece-nos uma breve mas ainda assim rica descrição do ambiente prevalecente no mundo ocidental até às vésperas da eclosão da hecatombe iniciada em Agosto de 1914. Ela ilustra a tripla liberdade então existente - a da livre circulação de pessoas, dinheiro e bens - que o liberalismo clássico tinha tornado possível pela primeira vez na História.  O trecho que se segue é, creio, disso bem ilustrativo. Finda a guerra, uma nova era se iniciaria: a da deificação do estado-nação, do nacionalismo, do proteccionismo e da autarcia. Em suma, a vitória do colectivismo sobre o individualismo para o que era imprescindível proceder à sistemática destruição do padrão-ouro moeda que tinha vigorado nos 100 anos precedentes. A tradução é minha, bem como os realces introduzidos. (O livro está disponível para download gratuito em português do Brasil.)
John M. Keynes
"Que extraordinário episódio de progresso económico humano constituiu aquela era que terminou em Agosto de 1914! É certo que a maior parte da população trabalhava duramente e vivia com um baixo padrão de conforto, mas, aparentemente, contentava-se com a sua sorte. Todavia, a qualquer homem de capacidade ou carácter acima da média, era possível escapar a esse destino, ascendendo às classes média e alta, para quem a vida oferecia, a baixo custo e com pouco esforço, conveniências, confortos e amenidades que iam muito além do que os monarcas mais ricos e poderosos de outras eras alguma vez possuíram. Enquanto beberricava o chá matinal ainda na cama, o habitante de Londres podia encomendar por telefone diversos produtos de todo o mundo, nas quantidades que achasse adequadas, na expectativa razoável que fossem entregues rapidamente à sua porta; em simultâneo, e pelos mesmos meios, podia investir a sua riqueza em recursos naturais e em novos empreendimentos em qualquer parte do mundo e participar, sem esforço ou dificuldade, nas vantagens em perspectiva; ou podia decidir ligar a segurança da sua fortuna à boa-fé dos habitantes de um município importante num qualquer continente que a sua fantasia ou as informações de que dispusesse pudessem recomendar. Se o desejasse, podia assegurar, sem demora, um meio de transporte barato e confortável para qualquer país ou clima, sem necessitar de passaporte ou outra qualquer formalidade; podia enviar um seu empregado ao balcão mais próximo de um banco para se abastecer dos metais preciosos que entendesse conveniente, viajando de seguida para um país estrangeiro, sem conhecer a religião, a língua ou os costumes locais, transportando consigo a sua riqueza sob a forma de moedas, e considerar-se-ia muito ofendido e muito surpreendido caso houvesse o mínimo de interferência nos seus movimentos. Mas, e o mais importante de tudo, considerava esse estado de coisas como sendo normal, certo e permanente, excepto no sentido da introdução de novos aperfeiçoamentos, pelo que considerava qualquer desvio como sendo aberrante, escandaloso e evitável. Os projectos e a política do militarismo e imperialismo, dos monopólios, rivalidades raciais e culturais, restrições e exclusões, que iriam desempenhar o papel de serpente neste paraíso, eram pouco mais do que diversões quotidianas dos jornais, sem que parecessem exercer qualquer influência no curso normal da vida social e económica, cuja internacionalização, na prática, estava quase completa."

John Maynard Keynes, As Consequências Económicas da Paz (1919)

sábado, 17 de maio de 2014

Citação do dia (163)

«Os argumentos intelectuais usados pelo Estado ao longo da história para "construir o consenso" do público podem ser classificados em dois grupos: 1) que o regime do governo existente é inevitável, absolutamente necessário e muito melhor do que os males indescritíveis que se seguiriam à sua queda; e 2) que os governantes do Estado são homens particularmente grandiosos, sábios e altruístas - bem mais grandiosos, sábios e melhores que os seus simples súbditos. Em tempos passados, este segundo argumento tomou a forma do regime de "direito divino" ou do próprio "governante divino", ou de uma "aristocracia" de homens. Nos tempos modernos [...] este argumento enfatiza o regime de uma sábia associação de "peritos científicos", especialmente dotados do conhecimento da arte de governar e dos factos misteriosos do mundo. A utilização crescente do jargão científico, especialmente nas ciências sociais, permitiu aos intelectuais tecer a apologia do regime estatal que rivaliza com o antigo poder sacerdotal do obscurantismo. Por exemplo, um ladrão que presumisse justificar o seu roubo dizendo que estava na verdade a ajudar as suas vítimas por via das suas despesas [com o produto do roubo - N.T.], proporcionando assim ao comércio retalhista um necessitado estímulo, seria apupado de imediato. Mas quando esta mesma teoria é revestida de equações matemáticas keynesianas e de impressionantes referências ao "efeito multiplicador", ela transporta uma muito maior convicção a um público iludido.»
Murray Rothbard

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VI)


Retomando o tema da Iª Grande Guerra, publicamos o testemunho de David Stockman. Este texto é apenas uma pequena parte de um ensaio maior (ver título no final) que o autor elaborou e publicou na sua mais recente plataforma de comunicação. Não podemos deixar de recomendar a visita e a leitura de tão rico espaço de reflexão, que conta também com contributos de John Butler, Michael Krieger, Detlev Schlichter e Mike "Mish" Shedlock, entre outros.

Retomam-se as relações já experimentadas (aqui) na tentativa de dirigir a atenção às raízes dos actos da peça que ainda hoje pautam a nossa vida colectiva.
A Grande Guerra e o seu legado, por David Stockman

"O meu propósito aqui é elaborar um esboço do que foi a longa história da Iª Grande Guerra, começando, precisamente, há cem anos. Nesse mesmo ano, a Reserva Federal (FED) abria as suas portas enquanto a carnificina decorria no norte de França, o que acabou por encerrar um período de meio século de liberalismo internacionalista e de dinheiro honesto suportado pelo ouro.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mas afinal onde pára a austeridade?

No magnífico post que o meu colega de blogue deu ontem à estampa, somos persuasivamente convidados a que não confundamos as peculiaridades da encenação e dos seus episódios laterais, com o guião "dorsal" da peça que se vem desenrolando.

Peça deste jogo de espelhos vem sendo reservada à "austeridade". Para uns, ela tem sido a receita adequada e a causa primeira da obtenção de resultados encorajadores (aumento das exportações, queda na taxa de desemprego, redução do défice orçamental em percentagem do PIB, menores custos de financiamento na emissão de nova dívida pública, etc.); para outros, depois de nos ter colocado numa rota de "espiral recessiva", a continuação da austeridade impede-nos agora de retomar o "caminho de crescimento" (através de mais défice/dívida por conta dos supostamente indispensáveis "investimentos" públicos de "estímulo" à economia). O manifesto dos 70 enquadra-se neste último grupo pois na realidade a "reestruturação" da dívida pública que os seus subscritores propõem é meramente instrumental no acomodar de (ainda) mais despesa pública. Tão só e apenas.

Sendo certo que, como Mark Thornton recordava, há três formas de austeridade e, numa delas, até se encara seriamente a hipótese de repúdio da dívida pública (sem iludir as consequências dessa via), importa ter presente uma clarificação adicional quanto à "narrativa" da austeridade. É o que David Howden faz no texto Where's the Austerity? cuja tradução, de minha responsabilidade, se segue.

(Entretanto, assinei este outro manifesto por força do que aqui se alude ironicamente.)
10 de Março de 2014
Por David Howden

A dívida global já ultrapassa 100 milhões de milhões (trillions) de dólares, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais[1]. Ao longo dos últimos cinco anos, a dívida aumentou em cerca de 30 trillions de dólares. E, saliente-se, os maiores emitentes de dívida foram os estados.

As baixas taxas de juros atraíram os governos a recorrer à dívida para financiar os projectos públicos do presente. Ora, como se costuma dizer, não há almoços grátis. A certa altura, essa dívida terá de ser paga. Na melhor das hipóteses, tudo o que esses governos fizeram foi deslocar despesa para o futuro à custa das gerações futuras em benefício das gerações actuais.