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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Economistas que nos envergonham embaraçam

A lei da procura é a mais fundamental das leis de todo o corpo da teoria económica: se tudo o resto se mantiver constante (a necessária condição ceteris paribus), um aumento que se verifique no preço de um bem ou serviço terá como consequência uma diminuição da sua quantidade procurada pelas pessoas. Recordo-me, ainda de joelhos esfolados, ouvir o meu avô materno, pequeno agricultor de sequeiro e desconhecedor do alfabeto, referir-se-lhe frequentemente, saber de experiência feito. Mas há quem teime, entre os que ominosamente se reclamam de economistas, que há um caso específico em que esta lei não se observa e, por conseguinte, a invalida, tese que o governo, pela voz do ministro Mota Soares, subscreve (apesar da troika). Walter Williams, no artigo que hoje seleccionei (minha tradução), volta a explicar por que razão essa alegada excepção é um rematado disparate gerador de desemprego entre os menos qualificados. Uma pergunta: já repararam no recente "mobiliário" com que muitas lojas da McDonald's foram recentemente dotadas? (Via LRC)
Por Walter Williams
20 de Outubro de 2014

Economistas que nos embaraçam
(Embarrassing Economists)

Com o objectivo de transmitir uma certa perspectiva, vou pedir ao leitor que faça algumas conjecturas quanto ao comportamento humano antes de explicar o meu embaraço perante alguns dos meus colegas economistas.

Walter E. Williams
Suponha o leitor que os preços das jóias de senhoras aumentaram 100%. O que preveria que iria acontecer às vendas? E se o aumento de preços fosse de 25% ou 50%? A minha suposição é que uma pessoa comum iria prever que as vendas cairiam.

Emitiria a mesma previsão acerca das vendas de automóveis se os seus preços aumentassem 100% ou 25% ou 50%? Suponha o leitor que é o presidente executivo da General Motors e o seu director de vendas lhe diz que a empresa poderia aumentar as vendas de automóveis através do anúncio de um aumento de preços de 100% ou 50%. Eu imagino que despediria o director de vendas invocando quer insanidade como incompetência.

Tentemos mais um exemplo. Qual seria a sua previsão, caro leitor, quanto às vendas de habitações se os seus preços subissem 50%? Supondo que iria prever uma queda nas vendas. Nesta altura, dirá: "Ok, Williams, já me está fazer perder a paciência com essas questões óbvias. Onde é que pretende chegar?"

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Não, a América não é comunista. Só é 70% comunista

Há uns meses atrás cheguei a esboçar um post cujo título seria "A vitória do marxismo é praticamente total". A ideia era ilustrar a tremenda proximidade, quando não mesmo decalque, entre a realidade que hoje vivemos e aquela que Marx e Engels, em 1848, pretendiam então conseguir a curto prazo como um primeiro passo em direcção à construção do paraíso na Terra.

A minha intenção acabou por não se concretizar mas Simon Black escreveu agora algo de parecido (obviamente muito melhor do que eu o faria) com o que eu pretendi.  É provável que muitos tomem o título que roubei ao artigo de Black como denotando um exagero a roçar a tontice. É esse texto, escorreito, despretensioso e to the point, que me propus traduzir e ao qual acrescentei algumas imagens, notas e links, todos da minha inteira responsabilidade. Quem continuar a sorrir com prazenteira bonomia após ter concluído a leitura do texto, ou quem já desistiu nesta altura de o ler de todo, vá até aqui e reflicta sobre algumas das razões por que a grande máquina de produção de riqueza, de liberdade e  de felicidade que é o capitalismo praticamente deixou de funcionar nos países ocidentais. 
29 de Setembro de 2014
Por Simon Black

Não, a América não é comunista. Só é 70% comunista.
(No, America isn’t Communist. It’s only 70% Communist.)

"Os proletários não têm outra coisa a perder que não as suas correntes. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!"

A maioria das pessoas recorda-se das ideias e frases mais enérgicas de Karl Marx, como da montanha de cadáveres que os seus discípulos deixaram para trás, especialmente no século XX.

No entanto, a maior parte esqueceu-se ou nem sequer conhece as políticas específicas que Marx advogava.

No seu Manifesto Comunista[1] de 1848, Marx elencou uma lista[2] de dez exigências de curto prazo. Estas - pensou - seriam precursoras do ideal do fim do estado, a sociedade comunista sem classes.

Ironicamente, as medidas de Marx assemelham-se muito aos pontos de vista convencionais no mundo de hoje. Isso é assim porque praticamente cada um dos itens dessa lista já foi posto em prática, em diferentes graus, nos Estados Unidos.

Crê o leitor que tal não poderia acontecer na Terra dos Livres? Ora atente no que se segue.

No topo da lista de Marx está a abolição da propriedade privada.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ler os outros

João César das Neves, hoje, no DN, meu realce:
«[A] taxa de desemprego em Portugal das pessoas sem qualquer qualificação costumava ser a mais baixa de todos os escalões educativos, por vezes menos de metade do valor global. Desde 2009 ela tem subido mais do que todas as outras e está já quase dois pontos percentuais acima da média nacional. Impor rigidez legal nestas condições é ignorância criminosa.»

sábado, 30 de novembro de 2013

O salário mínimo é um exterminador de empregos; um crime, portanto

Ao longo destes últimos dias, o tema do salário mínimo voltou em força à ribalta pelos diferentes quadrantes políticos, incluindo do próprio governo (ou pelo menos parte dele, não fosse a troika...). Celeste Cardona, por exemplo, numa "comovente" crónica no DN, diz que "seria inteligente proceder, de imediato, ao seu aumento"; Patrick Monteiro de Barros, numa tirada à Warren Buffet à lusa escala, diz ter "vergonha" do seu valor ser tão baixo; para o PS (à boleia da "vitória" do SPD sobre Merkel) e a UGT, idem aspas e por aí adiante. Entretanto, quem ousa dizer a verdade em voz alta é alvo de um chorrilho inacreditável de insultos. Foi o que aconteceu ao prof. César das Neves quando afirmou, de resto correctissimamente, que aumentar o salário mínimo significaria a "estragar a vida dos [mais] pobres". Noutros tempos, talvez não escapasse à fogueira (literal) devido à "insensibilidade social" que as suas declarações veicularam.

Tinha prometido voltar a este assunto ainda que há pouco tenha aqui postado o artigo Salário mínimo, disparate máximo. Mas a indignação demonstrada pela generalidade dos media e das personalidades sobre este tema é tão despropositada (para usar um acentuado eufemismo) que tenho que voltar ao tema. De permeio, uma referência ao chavão, também largamente utilizado por quase toda a gente (incluindo Cavaco Silva), da rejeição de uma "estratégia de baixos salários" e da promoção de "políticas de crescimento". Mas acaso viveremos sob um regime estalinista em que a economia marcha ao ritmo dos planos quinquenais? Ou preferiremos emular Kirchner ou Maduro? Ou viveremos sob a nostalgia dos planos de fomento de Salazar?

Volto assim a socorrer-me de mais um excelente artigo de Dominick T. Armentano, Minimum Wages and Unemployment: Case Closed que arrasa a "argumentação" dos defensores do aumento do salário mínimo.
A única questão relevante no debate sobre um salário mínimo imposto pelo governo é: será que ele reduz as oportunidades de emprego? O debate não está em saber se alguns trabalhadores ficarão melhor depois dos mínimos legais aumentarem; tal acontecerá com alguns trabalhadores. O debate não está em saber se o "consumo" pode vir a aumentar quando forem pagos salários mais altos a alguns trabalhadores; isso poderá suceder, apesar de os trabalhadores desempregados passarem a consumir menos. E o debate não está em saber se os empregadores "ricos" têm condições para pagar salários mais altos; alguns certamente que têm, mas se eles devem ser obrigados a fazê-lo por força legal é uma outra questão completamente distinta.

Os defensores da lei do salário mínimo fazem duas afirmações gerais. A primeira é a de que o aumento do salário mínimo não aumenta o desemprego entre os jovens e os menos qualificados, o único segmento laboral relevante; e a segunda, é a de que existem estudos empíricos que suportam a conclusão de que aumentar o salário mínimo não prejudica o [nível de] emprego.

O senso comum, a lógica, e a lei da procura refutam facilmente a primeira alegação. Aumentar o preço de qualquer coisa, mantendo as outras variáveis ​​constantes, reduz sempre em alguma quantidade o consumo. Com rendimento fixo e substitutos disponíveis, os empregadores privados utilizarão marginalmente menos trabalhadores quando os seus salários são aumentados por via legal. Bastará exagerar o aumento salarial para tornar o ponto óbvio: se se dobrasse o salário mínimo e a produtividade permanecesse inalterada, haverá alguém no planeta que acredite que o emprego não iria diminuir drasticamente? Bem, pela mesma lógica, um aumento marginal no salário mínimo, digamos, de 8 para 10 dólares, como a Califórnia acaba de legislar, terá um efeito marginal negativo sobre o emprego dos jovens e dos pouco qualificados. Caso encerrado.

Mais devagar, dizem os defensores do salário mínimo. E quanto aos estudos (presumivelmente realizados por economistas de renome) que não identificaram perdas de emprego quando se aumentaram os mínimos legais? Bem, o problema aqui, claro, é que "testar" uma proposição em economia não é como testar uma teoria em física ou química.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Consequências do axioma fundamental do estatismo (I)

Posto isto, temos:
Todo o indivíduo que esteja disposto a trabalhar por um salário inferior ao mínimo legalmente estabelecido, não passa de um pobre tolo. É, de longe, socialmente preferível que vá engrossar a geração dos "nem-nem", condição muito menos degradante do que a que decorreria de trabalhar a troco de uma miserável miséria. Por esse motivo, a lei proíbe-o de cometer um tal crime contra si próprio.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Salário mínimo, disparate máximo

A mais recente investida governamental (ou, talvez melhor, da componente que provém do auto-denominado "partido dos contribuintes") no sentido de decretar incentivar o aumento dos salários e, em particular, ainda que enviesadamente, do salário mínimo (que segundo o socialista centrista Mota Soares só não aumentará porque a troika não deixa mas também não diminui porque, aí, é o governo que se recusa a aceitar a sugestão da troika), leva-me a revisitar o tema do salário mínimo. Para o efeito, e porque é particularmente importante nesta questão o apelo à didáctica, socorri-me de um artigo recentemente publicado no Washington Times, da autoria do Prof. Dominick T. Armentano, cuja tradução, de minha responsabilidade, abaixo reproduzo e de onde roubei o título deste post.

É espantoso que sobre um assunto que há muito está esclarecido continue a persistir na opinião pública, com a ajuda inestimável de um punhado de activistas políticos economistas (?), a ideia de que é possível iludir reescrever a lei da procura. Mas este é também o tempo em que, mesmo ao arrepio da lógica mais elementar, os mitos se acumulam e se reforçam (mesmo que muito antigos). Por algum motivo se explica o generalizado desprezo por Aristóteles.

Curioso, por fim, que após 9 (nove) meses consecutivos de quedas na taxa de desemprego (que está agora - dados de Setembro do corrente - aos níveis de Agosto de 2012), o governo tenha achado oportuno vir falar no assunto nos termos em que o fez, quando não lhe cabe a si nenhum mérito no sucedido.
Dominick T. Armentano
No seu discurso do estado da União de 2013, o presidente Obama sugeriu ao Congresso que aumentasse o salário mínimo federal do actual valor de 7,25 dólares por hora para, pelo menos, 9 dólares. Vários estados estão também debatendo um aumento; com efeito, a Assembleia Legislativa da Califórnia aprovou recentemente, e o governador Jerry Brown acaba de assinar, uma lei que elevará o salário horário mínimo no estado de 8 para 10 dólares no espaço de três anos. Na Flórida, onde resido, o mínimo legal (com algumas excepções importantes) é de 7,79 dólares e é reajustado anualmente pela inflação.

Será que o actual alvoroço nacional para "fazer alguma coisa" quanto aos salários mínimos constitui mais um erro governamental [federal e estatal]? Sim, absolutamente. As leis do salário mínimo fazem diminuir as oportunidades de emprego para os trabalhadores (em particular os adolescentes e os trabalhadores não qualificados) e prejudicam alguns dos próprios indivíduos que, conceptualmente, era suposto ajudar - os trabalhadores pobres. Aumentar o salário mínimo substancialmente, a nível estadual ou federal, seria um erro de política pública.

Para se ver por que assim é, coloquemos a nós próprios a seguinte pergunta: o que é provável que aconteça quando aumentamos o preço da cerveja, das casas de férias, dos livros, dos jornais ou de quase tudo, mantendo as outras variáveis constantes? Resposta: menos unidades de cerveja, de férias, de livros ou de jornais são vendidos no mercado. Na teoria económica, a  isto se denomina  como a "lei da procura" a funcionar; a preços mais elevados, menos unidades de um dado bem ou serviço serão comprados.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A demência do salário mínimo - parte II

Continuação do artigo de Thomas Sowell publicado no dia 17 de Setembro na Townhall (1ª parte):
Thomas Sowell
Os resultados de um inquérito levado a cabo junto de economistas norte-americanos mostraram que 90% deles consideraram que as leis do salário mínimo conduzem ao aumento da taxa de desemprego entre os trabalhadores menos qualificados. A inexperiência é, frequentemente, o problema. Apenas cerca de 2% dos americanos com mais de 24 anos de idade ganhava o salário mínimo.

Os defensores das leis do salário mínimo justificam normalmente o seu apoio a essa legislação pelas suas estimativas de quanto "necessita" um trabalhador de modo a que tenha "um salário digno", ou pela utilização de um qualquer outro critério que preste pouca ou nenhuma atenção ao nível de saber-fazer do trabalhador, à experiência ou à produtividade geral. Deste modo, não é de estranhar que as leis de salário mínimo fixem salários que expulsam muitos jovens do mercado de trabalho.

O que é surpreendente é que, apesar da acumulação de evidências ao longo dos anos dos efeitos devastadores das leis do salário mínimo sobre as taxas de desemprego dos adolescentes negros, os membros do Conclave dos Congressistas Negros (CBC) continuem a votar a favor de tais leis.

Certa vez, há anos atrás, durante uma discussão confidencial com um membro do CBC, perguntei-lhe como era possível que eles apoiassem as leis do salário mínimo.

A resposta que obtive foi que os membros do CBC faziam parte de uma coligação política e, como tal, eram supostos votar a favor das iniciativas que os outros membros da coligação pretendessem, tais como as leis de salário mínimo, para que dessa forma os outros membros da coligação viessem a votar favoravelmente as iniciativas pretendidas pelo CBC.

Quando perguntei o que poderiam os membros negros do Congresso obter em troca do apoio às leis do salário mínimo que compensasse sacrificar gerações inteiras de jovens negros a enormes taxas de desemprego, a discussão terminou rapidamente. Talvez tenha sido veemente quando fiz aquela pergunta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A demência do salário mínimo

Em resposta a mais uma investida dos proponentes de leis (federais e estatais) fixando salários mínimos obrigatórios mais elevados para "estimular" a economia americana, Thomas Sowell vem, mais uma vez demonstrar a sua insustentabilidade lógica e até mesmo empírica no seu artigo - "Minimum Wage Maddness". Como por várias vezes tenho assinalado neste blogue, Sowell é uma personagem muito perigosa para os defensores do "politicamente correcto" e para todos aqueles que tomam os desejos por realidades.  A par com Walter Williams, é negro, nasceu pobre, teve de interromper os estudos e começar a trabalhar em empregos modestos (mais do que um em simultâneo) conseguindo por fim chegar à universidade e ser de há muito hoje uma das referências intelectuais mais marcantes nos Estados Unidos. Já publicou bem para cima de 30 livros (lista).

Que ele possa ajudar a combater uma das mais persistentes falácias que, embora mil vezes já refutada, sempre "regressa" fazendo tábua rasa da lógica e das terríveis consequências da sua aplicação. (A tradução que se segue do artigo citado é da minha responsabilidade.)
Thomas Sowell
As cruzadas políticas pelo aumento do salário mínimo estão novamente de volta. Os defensores de leis sobre o salário mínimo atribuem frequentemente a si próprios o crédito de terem mais "compaixão" para com "os pobres". Mas raramente se preocupam em verificar quais são as consequências reais da aplicação de tal legislação.

Um dos mais simples e mais fundamentais princípios económicos é que as pessoas tendem a comprar mais quando o preço é mais baixo e menos quando o preço é mais elevado. No entanto, os defensores da legislação sobre o salário mínimo parecem pensar que o governo pode aumentar o preço do trabalho sem reduzir a quantidade de trabalho que virá a ser contratada.

Quando passamos dos princípios económicos aos factos concretos, o caso contra a legislação sobre o salário mínimo é ainda mais forte. Os países com legislação sobre o salário mínimo, quase invariavelmente, têm maiores taxas de desemprego do que os países que a não têm.

A maioria dos países tem hoje leis do salário mínimo, mas nem sempre assim aconteceu. As taxas de desemprego foram muito inferiores em locais e tempos em que não havia leis do salário mínimo.

A Suíça é uma das poucas nações modernas que não tem uma lei do salário mínimo. Em 2003, a revista "The Economist" relatava: "o desemprego na Suíça aproximou-se de um máximo de cinco anos ao atingir 3.9% em Fevereiro". Em Fevereiro do corrente ano, a taxa de desemprego na Suíça foi de 3.1%. Uma recente edição da "The Economist" evidenciava uma taxa de desemprego na Suíça de 2.1%.

A maioria dos americanos hoje nunca viu taxas de desemprego tão baixas. No entanto, houve um tempo em que não havia lei federal do salário mínimo nos Estados Unidos. A última vez que tal ocorreu foi durante a administração Coolidge [Agosto de 1923 a Março de 1929], quando a taxa de desemprego anual chegou a um valor tão baixo como 1.8%. Quando Hong Kong era uma colónia britânica, não havia lei do salário mínimo. Em 1991, a taxa de desemprego era de menos de 2%.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O quadro mental da esquerda (4)

Termino hoje a publicação da Parte IV (depois das Partes I, II e III) da série de artigos assinados por Thomas Sowell, sob o título The Mindset of the Left que pedi emprestado para encimar os quatro posts das respectivas traduções que entendi poderem ser interessantes aos leitores deste blogue.

Nesta derradeira parte, Sowell evoca a sua experiência pessoal para ilustrar, através de um exercício contrafactual - simples, mas poderoso - como as políticas "abelhudas/metediças" da esquerda (o mesmo é dizer, da esmagadora maioria da intelligentzia) acabam quase invariavelmente por produzir resultados opostos àqueles inicialmente propagandeados. 

No cerne da visão da esquerda do mundo está a suposição implícita de que mentes nobres e magnânimas - como as dos seus defensores e intérpretes - podem tomar melhores decisões relativamente às outras pessoas do que essas pessoas podem alcançar por si próprias.

Esta arbitrária e infundada asserção está subjacente ao vasto espectro de leis e políticas criado ao longo dos anos, que vai desde a reabilitação urbana ao ObamaCare.

Uma das muitas cruzadas internacionais levadas a cabo pelos "abelhudos" ["busybodies"] da esquerda tem sido a de exercer pressão para limitar as horas de trabalho das pessoas de outros países - especialmente dos países mais pobres - em negócios operados por empresas multinacionais. Um grupo de acompanhamento internacional assumiu a tarefa de assegurar que as pessoas na China não trabalhem mais que as 49 horas semanais legalmente prescritas.

Por que razão grupos de acompanhamento internacionais, dirigidos por americanos ou europeus ricos, poderiam imaginar saber o que é melhor para as pessoas que são muito mais pobres do que eles, e com muito menos opções à sua disposição, é um dos muitos mistérios da elite abelhuda.

Como alguém que saiu de casa aos 17 anos de idade, sem diploma do ensino secundário, sem experiência de trabalho e sem competências específicas, passei vários anos aprendendo da maneira mais difícil o que é realmente a pobreza. Um dos tempos mais felizes durante esses anos foi um breve período em que eu trabalhava 60 horas por semana - 40 horas entregando telegramas durante o dia e 20 horas de trabalho a tempo parcial numa oficina durante a noite.

Por que estava eu feliz? Porque, antes de ter encontrado esses empregos, eu tinha despendido semanas desesperadamente à procura de um qualquer emprego, enquanto as minhas parcas economias minguavam, literalmente, até ao meu último dólar, até ter finalmente encontrado o emprego a tempo parcial, à noite, na oficina mecânica.

Eu tinha que andar vários quilómetros da pensão onde morava no Harlem até à oficina  que ficava logo abaixo da ponte de Brooklyn, de modo a poupar até ao último dólar para comprar pão à espera que chegasse o dia de pagamento.

Quando depois encontrei um emprego a tempo inteiro para entregar telegramas durante o dia, o dinheiro conjunto dos dois empregos era mais do que eu alguma vez antes tinha conseguido. Eu pude pagar a renda em atraso que estava a dever pelo meu quarto, e comer e andar de metro na ida e volta do trabalho.

Eu consegui até mesmo pôr algum dinheiro de lado, por precaução, para acorrer a uma hipotética dificuldade futura. Foi a coisa mais próxima do nirvana para mim.

Graças a Deus que não houve abelhudos que me impedissem de trabalhar mais horas do que eles achassem que eu deveria trabalhar.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Passos Coelho, salário mínimo e economistas

Enquanto o Prof. Dr. António Nogueira Leite, aqui, acha ser "uma inutilidade baixar o salário mínimo dado o nível baixo que existe" e que, repetindo um argumento do Prof. Dr. Francisco Louçã, "[u]m negócio que não consiga pagar o actual salário mini[m]o aos trabalhadores não é sustentável", Walter Williams, aqui, escreve que a existência de um salário mínimo para além de der o maior inimigo dos indivíduos com mais reduzidas qualificações profissionais (ao afastá-los do mercado de trabalho), também "é, por todo o lado, um dos mais efectivos instrumentos racistas".

Curioso. Até o primeiro-ministro admite que o "mais sensato" seria diminuir o salário mínimo nacional [como aconteceu na Irlanda] ao invés de o aumentar, como Seguro e os restantes crescimentistas reclamam. Porém, não o fará!!! Não sei bem classificar isto: será que é reconhecer que a governação e a sensatez são incompatíveis? Ou é,pura e simplesmente, a cobardia por fim confessada?

A minha proposta é outra e mais simples: extinguir o salário mínimo nacional. 17% de desemprego (cerca de 40% entre os jovens), não será uma razão bastante? Até quando necessitará de subir para que acabem de vez com as patranhas das políticas "activas" de emprego que apenas torram dinheiro (que não há) sem qualquer proveito?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Novidades teóricas-práticas do crescimento e desemprego

Uma de índole doméstica, que deriva de uma inabalável fé nas virtudes da despesa pública já não apenas por "opção ideológica" mas agora também por mero "realismo". António José Seguro, resolveu escrever uma carta à troika queixando-se dos efeitos da política por ela prescrita (cujos termos, não o esqueçamos, foram no essencial fixados no "turno" de Sócrates/Teixeira dos Santos) e que classifica de austeridade expansionista recorrendo à figura, particularmente adequada, do oxímoro1. É mais um afloramento das teorias crescimentistas que tão boa conta têm dado de si - agora como no passado -, desta vez veiculadas sob forma epistolar. Enfim, já sabemos que do PS não vem muito mais que isto, para além da sua responsabilidade directa em 3 (três) pré-bancarrotas em pouco mais de 30 anos.

Além fronteiras, o fustigador-mor das políticas de "austeridade expansionista" (por exemplo, aqui onde cita "contra-evidências"1 ou aqui, entre as múltiplas investidas publicamente conhecidas) trouxe-nos ontem uma crónica histórica: Paul Krugman, pelo seu próprio punho, admite finalmente que já não é economista. Assim, e contrariamente ao que o próprio escreveu no seu manual universitário quanto aos efeitos não-intencionais (diminuição dos níveis de emprego) em consequência de aumentos mandatórios do salário mínimo, vem agora desdizer-se clamando que a recente proposta de Obama, anunciada no último discurso do Estado da União, de aumentar o salário mínimo é, afinal, uma "good policy".
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1Que os economistas empiricistas adoram criar e debater.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Citação do dia (64)

"In truth, there is only one way to regard a minimum wage law: it is compulsory unemployment, period. The law says: it is illegal, and therefore criminal, for anyone to hire anyone else below the level of X dollars an hour. This means, plainly and simply, that a large number of free and voluntary wage contracts are now outlawed and hence that there will be a large amount of unemployment. Remember that the minimum wage law provides no jobs; it only outlaws them; and outlawed jobs are the inevitable result."
Murray Rothbard, Making Economic Sense

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O dispendioso e inútil estorvo das agências regulação

Não faço ideia, nem isso me interessa minimamente, se é ou não verdade que a Lactogal vinha "impondo condições anticoncorrenciais" (supostamente, fixação de preços mínimos de venda) aos seus clientes na restauração e hotelaria. Que se saiba, a Lactogal não é monopolista nos sectores onde actua e assim, se por hipótese, essa prática comercial era de facto efectiva, o que a empresa aliás desmente, não vejo que ela seja lesiva do que quer que seja pois esses clientes tinham certamente alternativa de abastecimento. Por outro lado, creio improvável que a Lactogal tenha recorrido a uma qualquer máfia ou. sequer, a um bando de arruaceiros para obrigar os seus clientes a lhes comprar os produtos. 

Os burocratas dessa ent(inutl)idade que se dá pela sigla de AdC e que aliás não fazem uma ínfima ideia do que seja uma empresa, fariam bem melhor em explicar ao Governo por que razão a fixação de tabelas de preços  de serviços de notário, de actos médicos, de medicamentos ou de salários, por critérios meramente administrativos, e à escala nacional são, esses sim, altamente lesivos da concorrência e do bem-estar. Pelo menos alguns dos muitos economistas que por lá pululam hão-de ter estudado esses capítulos da matéria. 
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Declaração de interesses: não só accionista, directa ou indirectamente, da Lactogal nem, tanto quanto julgo saber, de qualquer outra empresa do sector ou fora dele. É certo que bebo leite de quando em vez, preferindo Vigor.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Este país não é para jovens (4)

Mesmo que se queira ganhar competências profissionais para assim, mais facilmente, se obter uma colocação profissional,
19-06-2012 - 51% dos jovens prontos para trabalhar de graça
há quem não deixe. E esse alguém é o Governo que não altera esta criminosa legislação:
01-06-2011 - Novos estágios não remunerados passam a ser proibidos a partir da próxima semana

segunda-feira, 12 de março de 2012

Desemprego dos jovens: uma fotografia do horror na europa do sul

que governos irresponsáveis promoveram activamente anos a fio. Note-se, ao contrário da propaganda papagueada por muitos, que o problema português se vem agravando há mais de 10 anos consecutivos. Este facto deveria ser suficiente para concluir, pelo menos no nosso caso, que não terão sido as políticas "neoliberais"(?) praticadas por outros e cujos efeitos teríamos importado as fautoras de semelhante tragédia. É essencial diminuir, de forma muito agressiva, os encargos que recaem sobre os empregadores e a formação dos salários e, em simultâneo, liberalizar a contratação e o despedimento. Ou seja, se por uma vez,  promovêssemos o emprego e não o seu contrário (como por exemplo, com coisas destas, destas ou destas) não teríamos voltado a existir a um êxodo migratório sem paralelo desde os anos 60 do século passado.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A progressiva destruição do capitalismo

e consequente ascensão do socialismo está bem evidenciada nos títulos destes dois editoriais do New York Times, separados entre si de 25 anos, a propósito dessa clássica política de promoção do desemprego que resulta da fixação de salários mínimos, via Carpe Diem:
1987-14-01 - "The Right Minimum Wage: $0.00"
2012-02-13 - "Raise New York's Minimum Wage"

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Espatifando o dinheiro dos contribuintes

é o que os governos inevitavelmente fazem quando decidem subsidiar o sector A ou escolher penalizar o sector B, aquilo que os americanos designam por "picking winners and loosers". E talvez nunca como agora seja tão visível que essa escolha de "quem deve ganhar e quem deve perder" não possa senão conduzir ao desperdício monumental de recursos, quando se olha para os resultados da massiva intervenção estatal nos mercados de energia. Subsídios gigantescos às energias ditas "limpas" e penalizações fiscais e administrativas às energias fósseis. O resultado, por todo o lado, é o mesmo: aumento exponencial do custo da energia produzida (como o candidato Obama, aliás, não escondia) e consequente perda de competitividade onde essas "apostas" foram mais vincadas. Portugal e Espanha são dois "bons" exemplos (subida dos preços da electricidade, défice tarifário, etc.).

Entre muitas das loucuras levadas a cabo sob o "chapéu-de-chuva" da eco-teocracia, surgem inclusivamente o que à partida seria tido por anedota como seja a de, nos Estados Unidos, multar refinarias por não colocarem no mercado combustível com mistura de etanol celulósico. A razão é simples: é que não existe oferta comercial de etanol celulósico. Até o New York Times se apercebe do absurdo na sua peça  A Fine for Not Using a Biofuel That Doesn’t Exist (no WSJ, aqui)! Porém, este absurdo não obstou a que este ano a EPA (o regulador ambiental dos EUA) não venha exigir que se dobre essa mistura em 2012!!!

Ademais, como sempre acontece quando o Estado estabelece uma nova "plataforma" de distribuição de subsídios, um outro subproduto inevitável é o aumento dos níveis de corrupção. O vídeo seguinte, da CBS, bem ilustra este problema:

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Em defesa do desemprego, sempre!

Estão duas personalidades a discutir na SICN - Maria de Belém e Nuno Magalhães - o tema da prorrogação (excepcional?) dos contratos a termo. Maria de Belém diz que o Direito do Trabalho nasceu para "resolver"os problemas emergentes da "relação assimétrica entre empregador e empregado", destinando-se, pois, a "proteger" este último daquele. A "protecção" tem funcionado extraordinariamente bem como o prova o seguinte gráfico: