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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O quadro mental da esquerda (4)

Termino hoje a publicação da Parte IV (depois das Partes I, II e III) da série de artigos assinados por Thomas Sowell, sob o título The Mindset of the Left que pedi emprestado para encimar os quatro posts das respectivas traduções que entendi poderem ser interessantes aos leitores deste blogue.

Nesta derradeira parte, Sowell evoca a sua experiência pessoal para ilustrar, através de um exercício contrafactual - simples, mas poderoso - como as políticas "abelhudas/metediças" da esquerda (o mesmo é dizer, da esmagadora maioria da intelligentzia) acabam quase invariavelmente por produzir resultados opostos àqueles inicialmente propagandeados. 

No cerne da visão da esquerda do mundo está a suposição implícita de que mentes nobres e magnânimas - como as dos seus defensores e intérpretes - podem tomar melhores decisões relativamente às outras pessoas do que essas pessoas podem alcançar por si próprias.

Esta arbitrária e infundada asserção está subjacente ao vasto espectro de leis e políticas criado ao longo dos anos, que vai desde a reabilitação urbana ao ObamaCare.

Uma das muitas cruzadas internacionais levadas a cabo pelos "abelhudos" ["busybodies"] da esquerda tem sido a de exercer pressão para limitar as horas de trabalho das pessoas de outros países - especialmente dos países mais pobres - em negócios operados por empresas multinacionais. Um grupo de acompanhamento internacional assumiu a tarefa de assegurar que as pessoas na China não trabalhem mais que as 49 horas semanais legalmente prescritas.

Por que razão grupos de acompanhamento internacionais, dirigidos por americanos ou europeus ricos, poderiam imaginar saber o que é melhor para as pessoas que são muito mais pobres do que eles, e com muito menos opções à sua disposição, é um dos muitos mistérios da elite abelhuda.

Como alguém que saiu de casa aos 17 anos de idade, sem diploma do ensino secundário, sem experiência de trabalho e sem competências específicas, passei vários anos aprendendo da maneira mais difícil o que é realmente a pobreza. Um dos tempos mais felizes durante esses anos foi um breve período em que eu trabalhava 60 horas por semana - 40 horas entregando telegramas durante o dia e 20 horas de trabalho a tempo parcial numa oficina durante a noite.

Por que estava eu feliz? Porque, antes de ter encontrado esses empregos, eu tinha despendido semanas desesperadamente à procura de um qualquer emprego, enquanto as minhas parcas economias minguavam, literalmente, até ao meu último dólar, até ter finalmente encontrado o emprego a tempo parcial, à noite, na oficina mecânica.

Eu tinha que andar vários quilómetros da pensão onde morava no Harlem até à oficina  que ficava logo abaixo da ponte de Brooklyn, de modo a poupar até ao último dólar para comprar pão à espera que chegasse o dia de pagamento.

Quando depois encontrei um emprego a tempo inteiro para entregar telegramas durante o dia, o dinheiro conjunto dos dois empregos era mais do que eu alguma vez antes tinha conseguido. Eu pude pagar a renda em atraso que estava a dever pelo meu quarto, e comer e andar de metro na ida e volta do trabalho.

Eu consegui até mesmo pôr algum dinheiro de lado, por precaução, para acorrer a uma hipotética dificuldade futura. Foi a coisa mais próxima do nirvana para mim.

Graças a Deus que não houve abelhudos que me impedissem de trabalhar mais horas do que eles achassem que eu deveria trabalhar.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O cada vez mais curioso Glenn Beck perdeu a voz

mas proporciona um grande momento de televisão no vídeo que se segue.


P.S. - Pena que tenha escolhido para imagem de fundo aquele que iniciou a destruição da república, pela submissão dos estados ao centro federal, erigindo as fundações do império com uma guerra que ceifou a vida de 750 mil pessoas. Vou admitir que o tenha feito por continuar a ser vítima de um culto que dura há quase 150 anos.

sábado, 1 de junho de 2013

Silêncios

Foi um grande prazer ter ido ouvir anteontem o Jorge Colaço, meu amigo de longa data, na primeira das suas anunciadas chalras públicas, às quintas-feiras, no centro histórico de Oeiras. Na ocasião, pretextada segundo se lia no convite, pela recente publicação no Brasil (Editora Kelps) do seu livro de poesia Crateras e cristais, o Jorge também leu alguns dos seus poemas. Não me reconhecendo competência para me pronunciar sobre a sua poesia (já houve quem o tivesse feito), devo todavia dizer que o poema Silêncios me tocou fundo. Partilho-o agora.
SILÊNCIOS
Há silêncios recolhidos, densos. Há silêncios
doridos, vivos de mágoa. Há silêncios de
espanto. Há silêncios duros, tensos. Há silêncios
constrangidos. Há silêncios desajeitados. Tolos.
Há silêncios de recusa. Ou de pudor. Há silêncios
ansiosos. Há o silêncio da espera. O silêncio
da premeditação. E o da raiva. Há o silêncio da
ignomínia e da humilhação. Do esquecimento. Do
desprezo. Há silêncios palpitantes. Há mil palavras
em certos silêncios. Há o silêncio da prece. E há o
silêncio do vazio. Há silêncios impossíveis. E há o
silêncio procurado. O voto do silêncio. A humildade
do silêncio. Há segredos nos silêncios. Há silêncios
apavorados e também os há pavorosos. Mas há
silêncios deslumbrados, intensos. Há o silêncio do
silêncio, de onde a música brota. Há ainda o silêncio
de quando a voz não cabe nas palavras. E há o
silêncio que fica quando ficamos sós: humidade que
se adentra e nos devora em silêncio.
Jorge Colaço, Crateras e cristais

domingo, 30 de dezembro de 2012

Ignorância e leis de controlo de armas

Há uma tendência que parece irresistível na generalidade das sociedades ocidentais, a meu ver crescentemente suicidária para a liberdade, para pretender mudar os comportamentos das pessoas através do poder estatal (pela força) recorrendo a uma infinitude de adjectivos "positivos" como "saudável", "seguro", "(não) discriminatório", "harmonizado", "humanitário", "solidário", "civilizacional", etc. A cada vez mais maior profusão (e confusão) legal e para-legal é, simultaneamente, o melhor indicador da consequente diminuição da liberdade de actuação do indivíduo. Há pouco, muito apropriadamente, Austin Petersen socorria-se do título do livro de Joel Salatin para constatar: "Everything I want to do is illegal".

Confesso que me escapa como pessoas inteligentes e de boa-fé continuam a alimentar a crença romântica e jacobina de que é possível mudar o comportamento das pessoas através de uma cada vez maior diarreia legislativa que diariamente jorra das folhas oficiais. No que deram as diferentes "Leis Secas"? No que deu e continua a dar a guerra às drogas? Na criminalização e encarceramento de milhões, na formação de gangs criminosos e assassinos de monstruosa violência que não mostram quaisquer dificuldade em adquirir todas as armas que acham necessárias (quando não com apoio estatal, vide fronteira EUA/México...), tudo isto produzindo enormes manchas endémicas de corrupção venal, quando não activamente criminosa, bem no centro das agências estatais.

Que não se entenda (ou queira entender) o significado histórico da 2ª Emenda, enquanto direito fundamental do cidadão americano para impedir o regresso de tiranias como a britânica, percebe-se embora se lamente. Já me espanta a olímpica indiferença dessas pessoas - e em especial dos intelectuais - face a conhecidas declarações de Hitler ou Estaline sobre a matéria e a recusa em delas retirar as únicas conclusões lógicas.

O muito incómodo, para o establishment "liberal" americano, Thomas Sowell, por ser negro, por ter nascido na Carolina do Norte, por ser filho de uma criada, por ter vindo depois viver para o bairro de Harlem em Nova Iorque, por ter tido de abandonar os estudos aos 17 anos, etc., e por ser um crítico feroz de Obama, desmonta aqui, ainda uma vez mais, a tese de que a publicação de leis de controlo de armas mais severas significariam menores crimes nas ruas e menos assassinatos. Nada mais falso, sustenta Sowell. Como sempre, eventuais erros de tradução do artigo são da minha inteira responsabilidade.

Será que de cada vez que acontece um trágico tiroteio é inevitável que ressurja a estridente ignorância estridente dos defensores do "controlo de armas"?

A falácia chave das chamadas leis de controlo de armas reside no facto de tais leis não as controlarem na realidade. Elas simplesmente desarmam os cidadãos respeitadores da lei, enquanto as pessoas propensas à violência com facilidade encontram armas de fogo.

Se os zelotas do controlo de armas tivessem algum respeito pelos factos, há muito que teriam descoberto isto pois, ao longo dos anos, demasiados estudos factuais se sucederam para que reste alguma dúvida que as leis do controlo de armas não apenas são inúteis como contraproducentes.

Lugares e épocas com as mais severas leis de controlo de armas foram, frequentemente, lugares e épocas com altas taxas de homicídios. Washington, D.C., é um exemplo clássico, mas é apenas um entre muitos.

A taxa de posse de armas é maior nas áreas rurais que nas urbanas, mas a taxa de homicídios é maior nas áreas urbanas. A taxa de posse de armas é maior entre os brancos do que entre os negros, mas a taxa de homicídios é maior entre os negros. Para o país como um todo, o número de pistolas [registadas] dobrou nos finais do século XX, enquanto a taxa de homicídios caiu.

Os poucos contra-exemplos apresentados pelos zelotas do controlo de armas não resistem a um escrutínio. O seu ponto referido mais convicto talvez seja o de a Inglaterra ter leis de controlo de armas mais restritas que os Estados Unidos e menores taxas de homicídio.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Citação do dia (92)

«There are some ideas so wrong that only a very intelligent person could believe in them.»
George Orwell

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

On Acting Rationally in More Ways than One

Robert Higgs escreve um belíssimo texto cujo título roubei: On Acting Rationally in More Ways than One. Leiam-no, por favor. A tradução que se segue é muito pálida perante o original. Pretende apenas tentar alargar o leque dos leitores de uma das grandes figuras da intelectualidade americana:
A racionalidade é um elemento essencial para se pensar e agir de forma bem-sucedida. Ela serve, em última análise, para prevenir contradições internas; permite-nos escolher os meios que são adequados para alcançar os objectivos que escolhemos. Eu não venho enterrar a racionalidade, venho elogiá-la.

Contudo, a racionalidade por si só não pode garantir a ninguém uma vida de sucesso. Esta limitação existe não apenas porque as contingências de tempo e circunstância podem frustrar o sucesso do plano de qualquer um - por mais racional que seja a sua formulação - mas, e mais importante, porque uma vida bem sucedida, no sentido mais profundo, requer que tenhamos escolhido os nossos objectivos sabiamente. Se o tivermos feito seremos transportados para o domínio do que poderíamos designar por meta-racionalidade.

Ted Bundy [link] era racional. Ele usou a sua considerável inteligência para seleccionar os meios para evitar ser capturado pela polícia durante os anos em que se dedicou ao rapto, ao estupro e a matar jovens mulheres. O objectivo que escolheu, contudo - praticar uma série de crimes hediondos - pré-determinou que a condução da sua vida seria tudo menos realmente bem-sucedida. A sua racionalidade instrumental foi excelente; a sua meta-racionalidade foi abismal para além da imaginação.

O pensamento moderno eleva a racionalidade instrumental ao apogeu de critérios estipulados para se pensar e agir de forma bem-sucedida. Certos grupos adoram-na - um deles incessantemente proferindo o mantra A = A para expressar a sua devoção - imaginando que só a sua adopção permitirá às pessoas viver de modo bem-sucedido. Mas a menos que as pessoas dediquem um esforço sério e sustentado à consideração da sabedoria para  alcançar fins específicos e não outros que estejam disponíveis, elas podem ser sempre muito racionais, mas cometerão o erro das suas vidas - e da vida dos outros pelo caminho fora.

Infelizmente, quando as pessoas estão definindo os seus rumos de vida durante os seus anos de jovens adultos, muitos delas dão-se consigo próprias anos a fio na universidade, onde encontram a apoteose da racionalidade instrumental a par do desrespeito ou desvalorização da meta-racionalidade. Com efeito, o escárnio das fontes tradicionais de orientação - a religião e sabedoria popular - frequentemente está presente em qualquer discussão dessas fontes, que são tidas como aglomerados de tolices e superstições. Quanto à sabedoria, é-se aparentemente aconselhado a apenas manter uma mente aberta, isto é, a considerar todos os tipos de fins como igualmente dignos e tão simplesmente como uma questão de gosto pessoal. Assim, mal preparados para viver uma vida verdadeiramente com significado, os jovens adultos partem para os mares do tempo e da circunstância, reagindo a uma tempestade após outra nas suas carreiras e nas suas famílias, mas sem nunca saberem para onde se estão dirigindo ou se teria sido melhor ter navegado numa direcção muito diferente.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Um deus da Vida e da Morte na Sala Oval

Secret ‘Kill List’ Proves a Test of Obama’s Principles and Will, no New York Times:
Mr. Obama is the liberal law professor who campaigned against the Iraq war and torture, and then insisted on approving every new name on an expanding “kill list,” poring over terrorist suspects’ biographies on what one official calls the macabre “baseball cards” of an unconventional war. When a rare opportunity for a drone strike at a top terrorist[1] arises — but his family is with him — it is the president who has reserved to himself the final moral calculation.
__________________
[1]Inclusive se se tratar de uma rapariga adolescente de 17 anos.
Leitura complementar: Obama’s Shadow Wars, por Andrew Bacevich.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Alinhamento em Nova Iorque

Este, designado de Manhattanhenge, em homenagem ao astrofísico Neil deGrasse Tyson, ocorre quando o sol, no seu ocaso, é visível em simultâneo, no plano evidenciado na fotografia, com o conjunto das ruas da esquadria de Manhattan, no sentido este-oeste.

Fotografia publicada no Telegraph

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma folha A4 e o Hotel do Mar

é o título da notável crónica de Pedro Lomba, hoje no Público. Lomba chama a atenção para as inacreditáveis declarações que Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, fez nesta entrevista (que eu não tinha lido mas de onde ecoou algo como "Fui convidada pela Maçonaria e pela Opus Dei, mas não fui para nenhuma") em particular, as respostas às seguintes perguntas de Bárbara Reis e São José Almeida:
P:Tem que se criar um novo capitalismo?

A. Esteves: Sim. Um novo paradigma para o capitalismo passa por esse regresso da política. Eu acredito que numa folha A4 se podia mudar a Europa toda. É uma questão de acertar em cheio. Esta crise já nos obrigou a ver as evidências, agora falta só a coragem de as passar ao papel.
(...)
P: Tenciona ter uma atitude pública para contrariar o espírito do caça-político?

A. Esteves: Os deputados sabem que podem contar comigo para defender a imagem a que temos direito, que é uma imagem de dignidade. E é uma dignidade acrescida pelo sentido de entrega que é superior ao do cidadão comum, à das pessoas que estão habituadas às suas vidinhas(...)
Palavras que merecem a justa indignação de Lomba:
«Está a dra. Assunção a dizer que a "dignidade" de um deputado é "acrescida" face ao cidadão comum? Que a "entrega" de um deputado é "superior" [à] do cidadão comum que aguenta há décadas em silêncio os vexames de uma democracia partidária de videirinhos? Quer maior "entrega" do que essa? E ainda fala das "pessoas habituadas às suas vidinhas"?»
e
«Achar-se que uma folha A4 chegava para mudar a Europa toda" mostra bem a inépcia e a falta de cultura política das nossas elites. E, no entanto, a frase já convenceu um dos "mestres" da dra. Assunção, o notável professor Freitas do Amaral que, em entrevista recente à Visão, afirmou isto: "Como dizia a presidente da AR, Assunção Esteves, os problemas da Europa podem resolver-se numa folha A4. Vinham os líderes dos países europeus, reuniam-se num fim-de-semana, num sítio tranquilo como o Hotel do Mar, em Sesimbra, e resolviam o problema."(...)
Espantoso. Mas não se surpreendam. Estamos a falar do mesmo professor Freitas que, há uns anos, propôs acabar o conflito Israel-Palestina com um jogo de futebol.
Caros concidadãos: se me estiverem a ler em 2080, saibam que eram assim as elites do regime em 2011. A gente pedia ideias e em troca recebia uma folha A4 e o Hotel do Mar»
Como comentário diria apenas que quando o dr. Mário Soares e outros estadistas portugueses se lamentam,  da falta de "estatura" dos actuais políticos europeus, no fundo, do que se estão a queixar é que rareiem agora os políticos arquitectos dos desígnios vertidos numa folha A4. Os tais que nos meteram no desastre monumental com a introdução do euro (como via, insidiosa, do verdadeiro Projecto: a concretização dos Estados Unidos da Europa). Ignorantes.
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Nota: há uns anos largos atrás, trabalhava eu então na CP, o presidente de uma recém-nomeada administração, convocou uma espécie de conclave (passivo) dos directores da empresa (umas largas dezenas). Depois de uma arenga de cerca de duas horas, em que humilhou propositadamente três das mais prestigiadas figuras da casa, terminou a reunião solicitando a cada um dos presentes que lhe remetessem, numa única folha A4, o que achavam que devia ser mudado na empresa. Já não me recordo muito bem mas, logo após se saber, através da imprensa, que requisitou um jeep todo-o-terreno para exercitar, talvez, uma espécie de Paris-Dakar em pleno areal nas cercanias da Figueira da Foz, o seu fim foi o que se adivinha. Não sei já se chegou a durar um ano antes de ser demitido. Quanto às tais folhas A4, não será preciso acrescentar que nunca mais ninguém ouviu falar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Igual a si próprio

Sampaio: "Afinal de contas tinha razão quando disse que há mas vida além do Orçamento"

O dr. Cunhal, também foi repetidamente incensado por variadíssimas luminárias, da direita à esquerda, pela sua suposta coerência, pelos vistos um quasi supremo valor em si mesmo. Idiotas.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Amanhã, o quintal

vai estar aberto como habitualmente.


Aliás, puxando pela memória, só me recordo de ter aderido a uma greve no liceu. Foi divertido rubricar o livro de ponto que o piquete, de que fazia parte, tomou posse, in situ.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Portugal provisório, quando não definitivo

Não posso dizer que tenha ficado surpreendido ao ler, no i, que Dois mil novos médicos fazem hoje prova “medíocre”, embora a razão de ser do adjectivo não ser aquela que estava à espera:
"O exame de 100 questões de escolha múltipla foi instituído depois do 25 de Abril como “solução temporária” para a colocação dos médicos, explicou ao i Nuno Sousa, director do Curso de Medicina da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Desde então, a chamada Prova Nacional de Seriação mantém-se, embora seja consensual que não serve os propósitos para que foi criada."
Eis uma excelente caracterização, em meia dúzia de linhas, do Estado português. Sem querer passar por passadista recordo-me, entre mil outros exemplos, a inauguração do viaduto rodoviário "provisório" de Alcântara, em 31 de Março de 1972, ao tempo em que Santos e Castro era o presidente da câmara municipal de Lisboa:
Foto retirada daqui (Arquivo Municipal de Lisboa)
Mas suponho que já alguém se teria anteriormente dedicado a este fenómeno quando inventou as famosíssimas marcas que aqui evoco (um pouco em memória, ainda que sem saudosismo, do tempo em que eu era um grande fumador e que, quando o dinheiro "apertava", tinha de optar por uma alternativa ao SG Filtro...):

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O mercado de rins: a razão moral

«O Prof. James Stacey Taylor sustenta que, havendo livre vontade entre adultos conscientes, a compra e venda de rins deve ser permitida. E ao invés de enumerar argumentos teóricos complexos para sustentar este ponto de vista, mais valerá olhar para as histórias humanas para concluir por que deve o mercado de rins ser permitido. Peter Randall, por exemplo, tornou-se famoso, em 2003, por ter posto um dos seus rins à venda no eBay. Procurava desse modo angariar fundos para o tratamento da sua filha de seis anos de idade, Alice, que sofria de paralisia cerebral.

Um mercado de rins permitiria a pessoas como Peter vender o seu rim legalmente e em condições de segurança. Por outro lado, um mercado de rins permitiria aos directamente interessados comprar um rim e assim ultrapassar o sofrimento causado pela diálise.

Alguns poderão aceitar os argumentos precedentes mas sentem que o dom da vida é demasiado precioso para que se lhe fixe um preço. No entanto, quando os rins são ilegais, como agora sucede nos Estados Unidos, todos  os envolvidos numa operação de transplante são pagos, à excepção do doador do rim. Segundo o Prof. Taylor, tal indica algo de errado. A venda de rins deve ser permitida, assim como a venda de todos os outros produtos e serviços médicos. Proibir a venda de rins significa que pessoas como a Alice não receberão o tratamento de que necessitam para além de também assegurar que milhares de pessoas irão sofrer com a diálise incapacitante.»

sábado, 12 de novembro de 2011

Em louvor dos preconceitos

por Maria Filomena Mónica. Um trecho:
Claro que há preconceitos estúpidos, mas daí não se pode concluir que todos o sejam. O essencial é isolar os bons. É isso que tento praticar. Por vezes, basta-me saber de onde provêm certas afirmações para imediatamente me colocar do outro lado da barricada. Uma das razões porque gosto de ler os artigos do prof. Boaventura de Sousa Santos é porque me libertam da tarefa de pensar. Quando vejo o seu nome no fim de um texto, sei que devo afirmar o contrário.

Dir-me-ão que é um preconceito. Começou, de facto, por ser, mas já não é, uma vez que acabo de ler o seu último livro, "Portugal: Ensaio contra a Autoflagelação". Como se isto não bastasse, tomei conhecimento de que, a 7 de Outubro, proferiu a lição inaugural de uma cátedra, despudoradamente intitulada Boaventura de Sousa Santos em Ciências Sociais, criada pela Universidade de Coimbra. Segundo revelou o reitor, a instituição está em risco de encerrar por falta de verbas, pelo que espero que a nóvel cátedra esteja a ser financiada pelo sociólogo-mor do reino.
Leitura relacionada: "The Case For Discrimination" (PDF), de Walter Block.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Estimável

o esforço do edil António Costa. Mas e eu que sempre comprei os meus jornais com o meu dinheiro? Não merecerei, sequer, uma nota de rodapé? Pois aqui fica o reconhecimento a mim próprio (perdoem-me o narcisismo) gravado, algures, num disco rígido.

Memórias

"A convulsão social está em marcha e vem aí", diz Vasco Lourenço. Esta converseta lembra-me outros tempos, nas mesmas paragens.


Nota curiosa para a repescagem automobilística do acrónimo SUV.