Andrew J. Bacevich é um antigo coronel do exército americano que, após abandonar a carreira das armas viria a dedicar-se ao estudo das matérias relativas às relações internacionais e, em particular, da política externa norte-americana. No texto, longo, publicado na American Conservative, sob o título Boykin’s World ("O mundo de Boykin"), Bacevich introduz-nos ao "Boykinism" doutrina que lhe parece ser "um novo macarthismo, mas mais perigoso que o antigo". Do meu ponto de vista, um artigo bem importante para a compreensão dos contornos da Guerra Global contra o Terrorismo por parte dos EUA. A tradução, algo livre, é minha.
Primeiro veio o alarido sobre a "mesquita no Ground Zero". Depois, foi o pastor Terry Jones, de Gainesville, Flórida, que conseguiu manchetes enquanto promovia o "Dia Internacional da Queima do Corão". Mais recentemente, tivemos um americano que publicou um insultuoso vídeo anti-muçulmano na internet com toda a agitação que se lhe seguiu.
Durante tudo isto, a posição oficial dos EUA manteve-se fixa: o governo dos Estados Unidos condena a islamofobia. Os americanos respeitam o Islão como uma religião de paz. Os incidentes sugerindo o contrário são o trabalho de uma pequena minoria de loucos, promotores de ódio e que apenas procuram publicidade. Entre os muçulmanos de Benghazi a Islamabad, este argumento tem provado ser difícil de vender.
E não sem razão: embora possa ser reconfortante tomar os surtos anti-islâmicos nos EUA como o trabalho de um grupo de fanáticos, o quadro é na realidade muito mais complicado. Essas complicações, por sua vez, ajudam a explicar por que a religião, outrora considerada um activo da política externa, se tornou, nos últimos anos, num passivo líquido.
Comecemos com uma breve lição de história. Do final dos anos 40 aos finais dos anos 80, quando o comunismo fornecia a abrangente fundamentação ideológica ao globalismo americano, a religião figurou, com proeminência, como tema da política externa dos EUA. A antipatia comunista em relação à religião ajudou a investir na Guerra Fria uma política externa consensual de uma notável durabilidade. O facto de que os comunistas serem ateus bastou para os colocar numa posição para além do admissível. Para muitos americanos, a Guerra Fria derivou a sua clareza moral da convicção de que se estava numa competição que colocava os tementes a Deus contra os que O negavam. Como estávamos do lado de Deus, parecia evidente que Deus deveria retribuir o cumprimento.
De tempos a tempos, durante as décadas em que o anticomunismo forneceu muito do espírito animador da política dos EUA, os estrategistas judaico-cristãos de Washington (não necessariamente, eles próprios, crentes), partindo da proposição teologicamente correcta de que os cristãos, judeus e muçulmanos adoram todos o mesmo Deus, procuraram recrutar muçulmanos, por vezes de convicções fundamentalistas, para a causa da oposição aos ímpios. Um exemplo especialmente notável foi a guerra soviético-afegã de 1979-1989. Para infligir dor nos ocupantes soviéticos, os Estados Unidos lançaram todo o seu peso por trás da resistência afegã, denominada em Washington de "combatentes da liberdade", e canalizaram ajuda (via sauditas e paquistaneses) aos religiosos mais extremistas de entre eles. Quando esse esforço resultou numa pesada derrota soviética, os Estados Unidos celebraram o seu apoio aos Mujahideen afegãos como prova do génio estratégico. Foi quase como se Deus tivesse anunciado um seu veredicto.
E todavia, sem que tenham passados assim tantos anos sobre a retirada soviética sob derrota, os combatentes da liberdade transformaram-se em Talibans ferozmente anti-ocidentais, proporcionando um santuário para a Al-Qaeda enquanto esta conspirava para atacar os Estados Unidos.
