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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lições de Paris

Do mesmo modo que, agora que os preços do petróleo não param de afundar, não surpreende que surjam vozes a defender o aumento dos impostos sobre os combustíveis ("porque não seria doloroso"), parece-me evidente que o resultado último do obsceno e intolerável ataque terrorista à Charlie Hebdo consistirá, em nome da "nossa segurança", numa ainda maior redução da liberdade e privacidade de todos. Como Jonathan Turley escreveu no Washington Post, "a maior ameaça à liberdade de expressão provém não do terrorismo mas dos governos" (atente-se na evolução do Índice de Liberdade de Imprensa, nomeadamente, nos EUA, em França ou no Reino Unido.)

As acções têm consequências, sendo que estas últimas são com frequência não-intencionadas e tantas vezes contraproducentes relativamente aos objectivos anunciados pelos governos que as iniciaram. Com a autoridade de alguém que há bem mais de 40 anos chama a atenção para este facto, o texto de Ron Paul que achei por bem partilhar (minha tradução) merece a nossa reflexão.

12 de Janeiro de 2015
Por Ron Paul

Ron Paul
Após o trágico tiroteio numa revista de índole provocatória em Paris na passada semana salientei, atentas as posições francesas na política externa, que é necessário considerar o blowback [efeito de bumerangue não previsível - NT] como um factor. Aqueles que não compreendem o blowback lançaram-me a ridícula acusação de estar a desculpar o ataque ou mesmo a culpar as vítimas. O que é um absurdo, uma vez que abomino a iniciação da força para além de que a polícia não culpa as vítimas quando investiga o motivo de um criminoso.

Os media convencionais imediatamente decidiram que o tiroteio foi um ataque à liberdade de expressão. Muitos nos EUA preferiram esta versão de "eles odeiam-nos por causa das nossas liberdades", a afirmação proferida pelo presidente Bush após o 11 de Setembro. Eles expressaram solidariedade para com os franceses e prometeram lutar pela liberdade de expressão. Mas não repararam essas pessoas que a Primeira Emenda é rotineiramente violada pelo governo dos EUA? O presidente Barack Obama fez mais vezes uso da Lei de Espionagem [de 1917 - NT] que todas as administrações anteriores no seu conjunto para silenciar e encarcerar os denunciantes. Onde estão os protestos? Onde estão os manifestantes a exigir a libertação de John Kiriakou, que denunciou a utilização pela CIA do waterboarding [simulação de afogamento - NT] e de outras formas de tortura? O denunciante foi preso enquanto que os torturadores não serão processados. Protestos? Nenhum.

sábado, 13 de setembro de 2014

"A guerra para todo o sempre", por Pat Buchanan

Uma das maiores dificuldades, impossível de contornar, na compreensão dos fenómenos sociais foi apontada pelo francês Frédéric Bastiat, uma das grandes figuras do liberalismo do século XIX, no seu famoso conjunto de ensaios coligido sob o título de "Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas" (O que se vê e o que não se vê), publicado em 1850. Referindo-se à matéria económica, Bastiat explicava como a parte invisível, "submersa" e diferida no tempo dos fenómenos, poderia até ser mais importante que aquela que se apresenta imediatamente visível aos olhos de todos.

O artigo de Pat Buchanan que me propus hoje traduzir (imagens e links meus) ilustra bem, creio, esta ideia. Obama, tudo o indica, decide entrar numa nova guerra porque (convenientemente?) surgiram uns vídeos no YouTube (e portanto na televisão) coreografando a decapitação de dois jornalistas americanos pelo "Estado Islâmico". Sem surpresa, a comoção no mundo ocidental, e nos EUA em particular, foi de generalizado horror pelo barbarismo das imagens (mas acaso esta imagem será menos bárbara?). Daqui resultou a inversão da opinião americana, aferida pelas sondagens, relativamente à participação no atoleiro mortal em que se transformou a Síria. Aparentemente, o que se viu (o que se deu a ver?) produziu os seus efeitos e tornou dispensável uma ponderação de médio e longo prazos. Obama bin Laden, onde quer que esteja, não poderá deixar de sorrir.
Por Patrick J. Buchanan
12 de Setembro de 2014

A guerra para todo o sempre
(The Forever War)

A estratégia que o presidente Obama anunciou na quarta-feira à noite para "degradar e finalmente vir a destruir o grupo terrorista conhecido como ISIL", é incoerente, inconsistente e, em última análise, não credível.

Patrick J. Buchanan
Há um ano atrás, Obama e John Kerry estiveram entusiasticamente à beira de lançar ataques aéreos contra o presidente sírio, Bashar al-Assad, devido à sua alegada utilização de armas químicas para "matar o seu próprio povo".

Mas quando os americanos se ergueram como um todo exigindo ficar de fora do conflito na Síria, Obama rapidamente fez desaparecer a sua "linha vermelha" e anunciou uma nova política de não envolvimento nas "guerras civis de outros".

Agora, depois de vídeos das decapitações de dois jornalistas norte-americanos terem incendiado a nação, o presidente, lendo as sondagens, fez uma nova pirueta.

Agora, Obama quer conduzir o Ocidente e o mundo árabe directamente para a guerra civil da Síria. Só que, desta vez, iremos bombardear o ISIL e não Assad.

Quem fornecerá as legiões que Obama irá envolver para esmagar o ISIL na Síria? O Exército Livre da Síria, os mesmos rebeldes que foram derrotados uma e outra vez e cujas possibilidades de derrubar Assad foram ridicularizadas pelo próprio Obama em Agosto último como sendo uma "fantasia"? O ELS é uma força de "antigos médicos, agricultores, farmacêuticos e assim por diante", zombou o presidente.

Agora, Obama pretende que o Congresso autorize o dispêndio de 500 milhões de dólares destinados a treinar e armar aqueles médicos e farmacêuticos e a enviá-los para o combate contra um exército de terroristas jihadistas que acaba de se apoderar de um terço do Iraque.

Antes que o Congresso vote um cêntimo que seja, deverá obter algumas respostas.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pat Buchanan: Será Putin pior que Estaline?

O trágico derrube do avião civil no leste da Ucrânia no passado dia 17 desencadeou, nesse mesmo dia, o cortejo habitual de acusações indignadas e o brandir de novas ameaças de sanções por parte dos EUA/NATO para com a Rússia de Putin. O que volta a impressiona nos relatos dos media de "referência" é a sua absoluta disponibilidade para veicular o discurso da potência dominante (uma notável excepção aqui) sem que sequer tentem responder à pergunta essencial aquando de qualquer incidente que, sem muita dificuldade, pode desencadear tragédias subsequentes numa escala muitíssimo maior: Cui bono? Quem beneficia com o derrube do avião?

Talvez muitos já se tenham esquecido de umas certas "armas de destruição maciça" cuja existência constituía uma ameaça tão intolerável que "justificava" uma mortífera guerra no Iraque de que não se vê o fim, 11 anos decorridos. Havia provas, diziam, insofismáveis. Era mentira. Como mentira se revelou o cruzamento de uma certa "linha vermelha" pelo regime de Assad - as "provas" voltaram a ser insofismáveis - da utilização de gás sarin por parte do regime sírio. Novamente, cui bono?

É preciso parar de brincar com o fogo, actividade a que o transversal Partido da Guerra se dedica com afinco desmedido. E volta a ser da denúncia do Partido da Guerra, cuja sede principal se situa nos EUA, que trata este novo artigo de Pat Buchanan que pensei ser interessante partilhar com os leitores. A tradução é da minha responsabilidade bem como a adição de fotos, links e notas.
25 de Julho de 2014
Por Patrick J. Buchanan
Será Putin pior que Estaline?

Patrick J. Buchanan
Em 1933, o Holodomor decorria na Ucrânia.

Após os "kulaks", os agricultores independentes, terem sido liquidados na colectivização forçada da agricultura soviética, foi imposta à Ucrânia uma fome genocida através do confisco da sua produção de alimentos.

As estimativas dos mortos situam-se entre dois a nove milhões de almas.

Walter Duranty, do New York Times, que apelidou os relatos da fome de "propaganda maligna", ganhou um Pulitzer pela sua mendacidade.

Em Novembro de 1933, durante o Holodomor, o maior liberal [1] de sempre, FDR [o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) - NT], convidou o ministro dos Negócios Estrangeiros Maxim Litvinov para receber o reconhecimento oficial dos EUA do regime assassino do seu senhor Estaline [2].

O genocida José Estaline
No dia 1 de Agosto de 1991, apenas quatro meses antes da própria Ucrânia ter declarado a sua independência, George H. W. Bush advertiu o poder legislativo em Kiev:
"Os americanos não apoiarão aqueles que buscam a independência com o propósito de substituir uma tirania distante por um despotismo local. Eles não irão ajudar aqueles que promovem um nacionalismo suicida baseado num ódio étnico."
Em suma, a independência da Ucrânia nunca fez parte da agenda da América. De 1933 a 1991, nunca constituiu um interesse vital dos EUA. Bush I opunha-se a essa independência.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Conquista dos EUA pela Espanha

Como aqui se dá conta, a declaração que se segue (minha tradução), alegadamente proferida por Winston Churchill em entrevista dada em Londres em 1936 a William Griffin, editor do The New York Enquirer, viria posteriormente a ser desmentida pelo próprio Churchill. Tal facto levou Griffin a intentar-lhe uma acção cível que todavia não chegaria a ser apreciada em tribunal (estava-se então em 1942, e Churchill era primeiro-ministro da Grã-Bretanha em plena II Guerra Mundial).
«A América deveria ter-se preocupado com os seus próprios assuntos e ficado de fora da Guerra Mundial. Se vós não tivésseis entrado na guerra, os Aliados teriam feito a paz com a Alemanha na Primavera de 1917. Tivéssemos feito a paz, não teria havido o colapso na Rússia seguido do comunismo, a desagregação na Itália seguida do fascismo, e a Alemanha não teria assinado o Tratado de Versalhes, que entronizou o nazismo na Alemanha. Se a América tivesse ficado fora da guerra, todos esses "ismos" não estariam hoje a varrer o continente europeu e a destruir o regime parlamentar - e se a Inglaterra tivesse feito a paz nos inícios de 1917, teria salvo as vidas de mais de um milhão de britânicos, franceses, americanos e outros.»

Winston Churchill (Agosto de 1936)
Tenha ou não Churchill proferido esta declaração (cujos pontos de vista eram à época partilhados por outras personalidades como o líder trabalhista Ramsay MacDonald ou o historiador Harry Elmer Barnes), é preciso recuar a 1898 para localizar o ponto de viragem em favor de um assumido intervencionismo externo dos EUA - sempre crescente até hoje - assim abandonando as mais veementes advertências dos Pais Fundadores quanto às consequências que adviriam para a América caso esta alguma vez enveredasse pelo aventureirismo externo.

Com a macabra oportunidade que o reemergir de mais um surto de violência no dilacerado Iraque vem proporcionar, venho sugerir ao leitor uma incursão pela pouco referida guerra Hispano-Americana (que se estendeu a Cuba e Porto Rico, Filipinas e Guam). Para guionista proponho aquele que é um dos meus historiadores preferidos dos séculos XIX e XX, Ralph Raico, que irá invocar o injustamente esquecido William Graham Sumner. A tradução do texto (de uma alocução proferida de Raico na FEE em 1995, também disponível em áudio) é da minha responsabilidade bem como das imagens escolhidas.
Por Ralph Raico (1995)


Ralph Raico
O ano de 1898 constituiu um marco na história americana. Foi o ano em que a América entrou em guerra com a Espanha - o nosso primeiro envolvimento com um inimigo estrangeiro no amanhecer da era da guerra moderna. À parte uns escassos períodos de contenção, nunca mais deixámos de nos enlear nos conflitos externos.

Algures na década de 1880, um grupo de cubanos iniciou a luta pela independência da Espanha. Tal como sucedeu antes e depois com muitos revolucionários, tinham pouco apoio real entre a massa da população. Recorreram assim a tácticas terroristas: devastando zonas rurais, dinamitando ferrovias, e matando aqueles que lhes surgiram pela frente. As autoridades espanholas responderam com duras contramedidas.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pat Buchanan: Quem é e o que é Vladimir Putin?

Encaro a secessão como um direito conexo ao direito natural (*) quer no plano das nações quer no plano individual que se poderá traduzir no direito a ser deixado em paz. Tenho assim por essencialmente benévola a leitura dos acontecimentos na Crimeia como de resto sucede quanto a outros processos secessionistas hoje em curso, até agora conduzidos por meios essencialmente pacíficos, como é o caso da Escócia, da Catalunha, de Veneza ou mesmo... de Vigo.

Se por momentos nos lembrarmos que: a própria América nasceu de um processo secessionista a cuja justeza se alude veementemente na Declaração de Independência; que Woodrow Wilson, nomeadamente no seu famoso discurso dos "quatorze pontos", impôs promoveu o estilhaçar dos impérios dos Hohenzollern e Habsburgos e redesenhou fronteiras e criou países em nome da "libertação dos povos" da Europa (pulverizando extensas populações germânicas pelo caminho...) e que o que aconteceu no Kosovo, em 1999, não caiu totalmente no esquecimento, parece-me difícil sustentar um outro ponto de vista. Tanto mais que a única alternativa enunciada, de forma ínvia ou desabrida, é o acentuar do cerco geopolítico (via NATO) à Rússia. E bem sabemos a que conduziu a política do cerco às potências centrais na Europa nos anos que antecederam a I Guerra Mundial.

Pat Buchanan, com a sua habitual frieza analítica e excelente memória histórica, é uma leitura particularmente aconselhável nos domínios da política externa quando as emoções (e a propaganda) se pretendem sobrepôr à razão. Daí o convite ao leitor que adiante se segue, resultado da tradução, da minha responsabilidade, deste texto de Buchanan.
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(*) Para uma incursão de índole filosófica neste tema, atente-se neste artigo de David Gordon ou nesta entrada da Wikipedia.
17 de Março de 2014
Por Patrick J. Buchanan

Quem é e o que é Vladimir Putin? (Who and What is Vladimir Putin?)

Vladimir Putin parece ter perdido o sentido da realidade, terá dito Angela Merkel a Barack Obama após ter falado com o presidente russo. Ele está "num outro mundo". "Concordo com o que Angela Merkel disse... que ele vive num outro mundo", declarou Madeleine Albright, "Isso não faz nenhum sentido". John Kerry deu o seu contributo para esta tonta teoria insinuando que Putin estava a seguir os passos de Napoleão: "Muito simplesmente, não é possível, no século XXI, comportar-se à moda do século XIX ao invadir um outro país sob um pretexto completamente forjado."

Patrick J. Buchanan
Agora que Putin assumiu o controlo da Crimeia sem disparar um tiro, e que 95% do eleitorado da Crimeia votou no Domingo pela reintegração na Rússia, será que as suas decisões continuam a parecer irracionais? Não seria previsível que a Rússia, uma grande potência que tinha acabado de ver o seu vizinho ser puxado para fora da órbita da Rússia por um golpe apoiado pelos EUA em Kiev, iria reagir para proteger uma posição estratégica no Mar Negro que mantém há dois séculos? Zbigniew Brzezinski sugere que Putin tem por objectivo recriar o império czarista. Outros dizem que Putin pretende recriar a União Soviética e o Império Soviético.

Mas por que razão a Rússia, hoje envolvida em sangrentas guerras secessionistas com terroristas muçulmanos nas províncias do norte do Cáucaso da Chechénia, do Daguestão e da Ingúchia, quereria invadir e reanexar o gigante Cazaquistão, ou qualquer outra república muçulmana da antiga URSS, o que garantiria a intervenção jihadista e uma guerra interminável? Se nós, americanos, queremos sair do Afeganistão, por que quereria Putin voltar ao Uzbequistão? Por que quereria ele anexar a Ucrânia Ocidental onde o ódio à Rússia remonta à fome organizada da era stalinista? A invasão e ocupação de toda a Ucrânia implicaria para Moscovo incorrer em custos infindáveis em sangue e dinheiro, a inimizade da Europa, e a hostilidade dos Estados Unidos. Qual seria o objectivo da Rússia, cuja população está a diminuir à razão de meio milhão por ano, de pretender voltar a ter soldados russos em Varsóvia?

Mas se Putin não é um imperialista russo que visa restabelecer o domínio russo sobre os povos não-russos, quem é e o que é ele?

sexta-feira, 7 de março de 2014

Juiz Napolitano: O monstro Putin

De há muito que o Andrew Napolitano é uma presença assídua neste blogue quer através de clips do saudoso programa televisivo da Fox, Freedom Watch, quer pelos seus artigos e livros que publica regularmente. Antigo juiz do equivalente a um tribunal da Relação, fervoroso defensor do espírito e letra da Constituição americana e dos Pais Fundadores, Napolitano faz valer as suas qualidades de jurisconsulto na veemente defesa da Liberdade. Rigoroso e eloquente, mas sempre didáctico, Napolitano explica no artigo que se segue (minha tradução) porque não devem os EUA imiscuir-se num conflito onde nada têm a defender que lhes seja, sequer remotamente, vital ainda que o comportamento imperial do governo do ex-KGB seja, como é, abjecto. Para o efeito, irá também convocar o 6º presidente dos EUA, John Quincy Adams. Tomara que Woodrow Wilson tivesse seguido os conselhos que aquele proferiu ao invés de ter adoptado a "progressiva" e catastrófica doutrina segundo a qual os EUA têm a missão (divina?) de "tornar o mundo seguro para a democracia". As centenas de milhões de mortos que ocorreram no século XX têm aí a sua raiz. Por essa razão, importa retomar em breve a série de posts relativos à mãe de todas as catástrofes a que o século passado assistiu. O que faremos nos próximos dias.
6 de Março de 2014
Por Andrew P. Napolitano

O monstro Putin (Monster Putin)

O que sucede quando o governo dos Estados Unidos participa, de modo significativo, no derrube de governos estrangeiros em nome da difusão da democracia? Esse comportamento resulta geralmente em consequências não-intencionais e, com frequência, resulta em desastres.

Andrew P. Napolitano
Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, inicialmente para procurar armas de destruição maciça que, sabemo-lo agora, o governo Bush sabia não existirem, e promover a mudança de regime, os EUA conseguiram mudar profundamente a governação iraquiana. Mas, nesse processo, perdemos a vida de 4,500 soldados norte-americanos, sofremos 45 mil feridos, pedimos emprestados e gastámos - e não pagámos - mais de 2 milhões de milhões de dólares, causando a morte a 650 mil iraquianos e o desalojamento a 2,5 milhões, e abrimos o caminho no Iraque ao nosso inimigo público - a Al-Qaeda. A Al-Qaeda não estava no Iraque antes da nossa invasão. Hoje, ela controla um terço do país tornado instável.

Em 2010, o presidente Barack Obama decidiu que já não gostava do ditador favorito da América no Médio Oriente, o presidente Hosni Mubarak do Egipto, muito embora ele e os seus quatro antecessores imediatos tenha dado ao governo Mubarak, anualmente, cerca de 4 mil milhões de dólares. Foi assim que os nossos agentes fomentaram a revolução nas ruas, enquanto Obama sugeria abertamente que chegara a hora de Mubarak deixar o poder. Em seguida, as ansiadas e prometidas eleições livres tiveram lugar, e o inimigo declarado do Ocidente e um islâmico fanático, Mohammed Morsi, tornou-se no primeiro presidente eleito pelo povo na história do Egipto. Depois, os EUA decidiram que não o queriam na cadeira do poder independentemente da legalidade e da legitimidade moral da sua eleição, levando assim a administração Obama a incentivar um golpe militar.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra

Tal como sucedeu aqui, a vertigem dos acontecimentos (reais ou veículos de mera desinformação) é de tal ordem que o risco da incorrecção (parcial) do relato é significativo. É o que tornou a acontecer agora com o artigo de Pat Buchanan, ontem publicado, que escolhi divulgar, em versão por mim traduzida.

Mas o meu interesse nesta matéria não é o da crónica de uma eventual guerra a propósito da Ucrânia. É, antes, o de convidar a reflectir sobre uma realidade que é bem mais complexa do que o maniqueísmo habitual propalado pelos políticos e media ocidentais - aqueles a que estamos directamente sujeitos - pretendem fazer passar ao grande público. A esta luz, o artigo de Buchanan, como é de resto habitual no seu autor, convida à análise serena e lúcida e, recorda algumas referências históricas e geográficas que, ainda que elementares, são fundamentais para a interpretação do que se vem passando. Sobretudo, que haja muito cuidado na aceitação acrítica das acusações de violação do "direito internacional" quando elas são esgrimidas por parte de quem age com o estatuto de império incontestado: "We're an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you're studying that reality—judiciously, as you will—we'll act again, creating other new realities, which you can study too, and that's how things will sort out. We're history's actors ... and you, all of you, will be left to just study what we do". Ainda anteontem morreram mais 97 pessoas no Iraque.

Ainda que naturalmente dirigido ao público norte-americano, é aos cidadãos dos países europeus que ele mais interessará. Afinal de contas, o epicentro das duas guerras mundiais aconteceu aqui no Velho Continente.

ACTUALIZAÇÃO: mais uma "pequena surpresa" (transcrição parcial aqui) a juntar a esta outra.
Por Patrick J. Buchanan
4 de Março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra! (Tune Out the War Party!)

A decisão de Vladimir Putin de enviar tropas russas para a Crimeia, pôs os nossos belicosos falcões a respirar fogo. A russofobia está desvairada e os artigos de opinião fervem de indignação.

Barack Obama deveria abstrair-se de tudo isto e reflectir sobre o modo como os presidentes ao longo da Guerra Fria lidaram com Moscovo a propósito de confrontos muito mais graves.

Patrick J. Buchanan
Quando as divisões de tanques do Exército Vermelho esmagaram os combatentes húngaros da liberdade em 1956, matando 50 mil deles, Eisenhower não levantou um dedo. Quando Khrushchev construiu o Muro de Berlim, JFK foi a Berlim e proferiu um discurso.

Quando as tropas do Pacto de Varsóvia esmagaram a Primavera de Praga em 1968, LBJ não fez nada. Quando Moscovo ordenou ao general Wojciech Jaruzelski que esmagasse o Solidariedade, Ronald Reagan recusou-se a colocar Varsóvia numa situação de isolamento.

Estes presidentes não viram nenhum interesse vital dos EUA ameaçado nessas acções soviéticas, por brutais que tivessem sido. Sentiram que o tempo estava do nosso lado durante a Guerra Fria. E a história veio a dar-lhes razão.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ucrânia: o prosseguimento do maniqueísmo imperial

Capa da The Economist da semana
Tenho feito eco por aqui, com alguma regularidade nos últimos meses, das análises geo-politicas de Eric Margolis, um dos meus analistas preferidos em matéria de política externa sempre que os Estados Unidos estejam envolvidos (uma "inevitabilidade", hoje em dia). No seu artigo de ontem, Back from the Brink in Ukraine, Margolis analisa a situação na Ucrânia à luz da persistente manobra de envolvimento da União Soviética Rússia por parte dos EUA, em mais uma instanciação da política do "cordon sanitaire", atribuída a Georges Clemenceau (ou a Woodrow Wilson?), desenvolvida na sequência do primeiro (e imediatamente evidente) desastre estratégico resultante da I Guerra Mundial - a revolução bolchevique. A Ucrânia era, já então, como nação "fronteira", peça integrante do dito "cordão". Para além disso, como Daniel McAdams também observava há dias (artigo de leitura vivamente recomendada), há demasiadas similitudes entre o desenrolar dos acontecimentos na Ucrânia com o drama que (ainda) está em curso na Síria.

Para os leitores que se interrogarem do porquê de um pronunciamento algo tardio sobre a situação da Ucrânia, a imagem acima espelha, com um "esplendor"  inaudito em tempo de paz (?) por parte de uma "respeitável e venerável instituição" com mais de 170 anos de história, a razão de ser do timing (e a justeza da decisão que tomei há três anos atrás):

A tradução que se segue é da minha responsabilidade bem como pela introdução dos links e imagens no texto.

ACTUALIZAÇÃO (ainda no "prelo") - Como sempre sucede em períodos à beira da revolução do golpe de estado (versão de rua ou palaciana), os acontecimentos sucedem-se a um rimo vertiginoso. Um dia depois da crónica de Margolis, Iakunovitch já não é presidente e Iulia Timoschenko foi libertada. Mas o essencial do artigo, a meu ver, mantém toda a actualidade.
22 de Fevereiro de 2014

Por Eric Margolis

Nos inícios deste mês, a diplomacia americana na crise da Ucrânia foi sintetizada, pela alta funcionária do Departamento de Estado, Victoria Neuland, uma destacada neoconservadora: "Que se f*** a Europa!"

Na sexta-feira [21 de Fevereiro - NT], a Europa respondeu intermediando um compromisso sensato na cada vez mais perigosa crise ucraniana, quando o exército se aprestava a intervir. Se o pacto for respeitado, o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, irá renunciar a alguns dos seus poderes, será formado um governo de unidade, serão realizadas eleições, e os manifestantes presos serão libertados. O destino da líder nacionalista presa, Yulia Timoshenko, permanece incerto.

Aqui estava uma solução diplomática inteligente para uma crise que poderia ter levado a um choque frontal entre a NATO e a Rússia, ambas potências nucleares.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pat Buchanan: Não nos metamos nas guerras dos outros

Pat Buchanan, em Staying Out of Other People’s Wars, percorrre alguns dos principais focos de tensão que, pelo mundo fora, arriscam vir a desencadear novos e perigosos conflitos armados. O messianismo wilsoniano, que arrastou os EUA para a I Guerra Mundial e lançou os fundamentos para o intervencionismo americano pelas quatro partidas do mundo, permanece hoje bem vivo no seio do que Buchanan, muito justamente, designa pelo "Partido da Guerra". No Verão passado, assistiu-se a um muito improvável recuo por parte dos "falcões" em resultado directo da surpreendente derrota de Cameron no Parlamento britânico e subsequente revolta cívica que impediu que o Partido da Guerra voltasse a vencer na "Terra dos Livres e Lar dos Bravos". Evitou-se assim que a terrível guerra na Síria aumentasse ainda mais a sua intensidade e internacionalização. Falhando Cameron, entretanto, sobrou Hollande, outro membro do Partido da Guerra "de um país que se acostumou a humilhar outros durante 400 anos de guerras e agressões" (palavras de Hunt Tooley) e que reclama a grandeur de outrora. Buchanan termina o artigo exortando os republicanos (enfim, parte deles) a regressar às práticas que já foram as do Grand Old Party. Que o oiçam.

A tradução do texto é da minha responsabilidade assim como da inserção dos links e imagens.
Por Patrick J. Buchanan
7 de Fevereiro de 2014

Não nos metamos nas guerras dos outros (Staying Out of Other People’s Wars)

"Se estas negociações [com o Irão] falharem, há duas alternativas sombrias​​", afirmou o senador Richard Durbin, "um Irão nuclear, ou a guerra, ou talvez ambos".

Patrick J. Buchanan
Os senadores John McCain e Lindsey Graham regressaram da conferência de segurança de Munique declarando que até mesmo John Kerry concorda que a política do presidente Obama relativamente à Síria falhou. Eles exortam à reconsideração do recurso a ataques aéreos.

A Coreia do Norte vem avisando que, caso os exercícios militares anuais entre os EUA e a Coreia do Sul se venham a concretizar no próximo mês de Março, isso poderia significar a guerra, possivelmente uma guerra nuclear.

O presidente das Filipinas, Benigno Aquino III, comparou esta semana a situação do seu país com aquela que, em 1938, enfrentava a Checoslováquia, e as ilhotas sob disputa ao largo da sua costa no Mar do Sul da China, à região dos Sudetas. Tal como Hitler na Europa, Aquino está a dizer que a China está em marcha na Ásia.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Iraque e Irão: aprender com os erros ou voltar a repeti-los?

Minha tradução do texto de Ron Paul, Iraq: The "Liberation" Neocons Would Rather Forget (Iraque: a "libertação" que os neocons prefeririam esquecer). Por cá, a par do cada vez mais "progressista" Público, também há quem sustente, aparentemente em quadrantes diversos, que se devia ter insistido ainda um "pouco" mais, à semelhança do que se perspectiva para o Afeganistão. Nada aprenderam. Também aqui, segundo eles, e à semelhança do dogma keynesiano, o problema não está - nunca está - na medicina, antes na dose prescrita.
5 de Janeiro de 2014

Recordam-se de Falluja? Pouco depois da invasão do Iraque, em 2003, os militares dos EUA dispararam sobre manifestantes desarmados, tendo matado pelo menos 20 pessoas e ferido dezenas de outras. Em retaliação, os iraquianos locais atacaram uma coluna de "contratados" [neste contexto, figuras entre civis e mercenários pertencentes a empresas privadas(?)] pelos militares dos EUA, matando quatro deles. Os EUA, de seguida, lançaram um ataque em força sobre Falluja para retomar o controlo, o que provocou a morte a, talvez, 700 iraquianos e praticamente à destruição da cidade.

Ron Paul
De acordo com às notícias da imprensa do passado fim-de-semana, Falluja está agora sob o controlo de grupos afiliados da Al-Qaeda. A província de Anbar, onde se localiza Falluja, está sitiada pela Al-Qaeda. Durante a "surge" ["onda"] de 2007, mais de mil militares americanos foram mortos na "pacificação" da província de Anbar. Apesar de Al-Qaeda não estar presente no Iraque antes da invasão dos EUA, ela está agora a efectuar a sua própria surge em Anbar.

Para o Iraque, a "libertação" dos EUA está a revelar-se muito pior que o autoritarismo de Saddam Hussein, e continua a piorar. O ano que passou foi o mais letal no Iraque nos últimos cinco anos. Em 2013, os combates e as explosões de bombas custaram a vida a 7.818 civis e a 1.050 membros das forças de segurança. Só em Dezembro, perto de mil pessoas foram mortas.

Lembro-me de estar presente em muitas audições no Comité de Relações Internacionais da Câmara [dos Representantes] onde se elogiava a "surge", a qual, diziam-nos, assegurou aos EUA uma vitória no Iraque. Eles também elogiaram o chamado "despertar", que foi realmente um acordo firmado com insurgentes [sunitas] para pararem de lutar em troca de dólares. Eu sempre me perguntei o que sucederia quando os dólares deixassem de surgir.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O que não se disse acerca do Iraque (e assim continua a suceder)

Pelo menos os mais antigos frequentadores do blogue terão presente o contador macabro inscrito na coluna da direita sob a epígrafe "As acções têm consequências". É raro o dia que não dou conta de por lá haver "actividade" apesar de os jornais já praticamente terem deixado de se preocupar com as notícias da trágica sucessão de mortos e feridos que não mostra sinais de abrandar (bem pelo contrário, apesar de as próprias Nações Unidas terem retirado do seu website um "contador oficial" que mantinham desde 2003). Estranhamente (<sarcasmo/>) também não dou conta que os media se interroguem quanto à súbita "calmaria" no morticínio sírio (apesar disto) logo que, numa curva inesperada e in extremis, se regressou ao lá de cá da "linha vermelha". Mas nem por isso deixa de haver quem pretenda prosseguir na tresloucada doutrina intervencionista persistindo em alcançar o "Grande Prémio": a guerra contra o Irão.

É este o tema do artigo de Ron Paul que me propus traduzir, a propósito da visita que Nuri al-Maliki, primeiro-ministro do Iraque, fez a Obama na semana passada em Washington.
Por Ron Paul
3 de Novembro de 2013

Outubro foi o mês mais mortífero no Iraque desde Abril de 2008. Nesses cinco anos e meio, não só não houve qualquer melhoria nas condições de segurança no Iraque como, pelo contrário, elas se tornaram muito piores. Mais de 1000 pessoas foram mortas no Iraque no mês passado, na sua grande maioria civis. Outras 1600 ficaram feridas, com os carros-bomba e os tiroteios a continuar a mutilar e a assassinar.

Enquanto o Iraque pós-"libertação" mergulha na espiral descendente, o primeiro-ministro Nuri al-Maliki esteve em Washington na semana passada a suplicar por mais ajuda dos Estados Unidos para ajudar a restaurar a ordem numa sociedade destruída pela invasão dos EUA em 2003. A Al-Qaeda conseguiu avanços recentes significativos e o Iraque necessita de mais ajuda militar dos EUA para combater a sua influência crescente, disse Maliki ao presidente Obama na reunião que tiveram na sexta-feira passada.

Obama prometeu trabalhar em conjunto com o Iraque para enfrentar a crescente presença da Al-Qaeda, mas o que não foi dito foi que antes do ataque dos EUA não havia Al-Qaeda no Iraque. O aparecimento da Al-Qaeda no Iraque coincidiu com a ataque dos EUA. Alegaram que tínhamos que combater o terror no Iraque, mas a invasão dos EUA resultou na criação de redes terroristas onde antes não havia nenhuma. Que desastre.

domingo, 15 de setembro de 2013

Um apelo à precaução vindo da Rússia (que terá valido a pena)

A última semana foi verdadeiramente febril quanto à evolução dos acontecimentos na Síria que culminou (?) hoje mesmo, com um notável desinteresse pouco entusiasmo dos jornais de "referência" europeus (não nos americanos), com o anúncio da celebração de um acordo entre os EUA e a Rússia, mediante o qual é aparentemente encontrada uma "saída" para a crise e evitada assim uma escalada de consequências imprevisíveis da situação que já de si era (e continua a ser) explosiva.

É impossível saber o que daqui a 20, 50 anos os livros de História registarão mas é talvez provável que façam menção a uma peça de jornal, assinada pelo ex-KGB, reincidente presidente russo vitalício em exercício (e sempre profissional) Vladimir Putin com o título "A Plea for Caution From Russia" ("Um apelo à precaução vindo da Rússia"). Um artigo que Patrick J. Buchanan classifica de "notável" (vídeo recomendado); que fez com que John Boehner, o Speaker da Câmara dos Representantes, se tivesse sentido "insultado"; que o neocon John McCain classificou como um "insulto à inteligência de cada americano" e que a outros lhes terá provocado a sensação de "vómito". Não é de admirar a reacção: Putin atreveu-se a pôr em causa o "excepcionalismo americano", uma espécie de elemento absorvente (e "absolvente") das malfeitorias feitas em seu nome...

Parecem-me motivos bastantes para justificar uma tradução do texto de V. Putin. Pro memoria.
Moscovo - Os recentes acontecimentos envolvendo a Síria impeliram-me a falar directamente ao povo americano e aos seus líderes políticos. É importante que o faça num tempo em que a comunicação entre as nossas sociedades é insuficiente.

As relações entre nós passaram por diferentes fases. Confrontámo-nos durante a guerra fria. Mas também já fomos aliados, e juntos derrotámos os nazis. A organização internacional universal - as Nações Unidas - foi então criada para evitar que uma tal devastação voltasse a acontecer.

Os fundadores das Nações Unidas compreenderam que as decisões que afectam a guerra e a paz somente devem ser tomadas por consenso, e foi com o consentimento da América que o veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança foi consagrado na Carta das Nações Unidas. A profunda sabedoria desta decisão esteve na base da estabilidade das relações internacionais ao longo de décadas.

Ninguém deseja que as Nações Unidas sofram o destino da Liga das Nações, a qual entrou em colapso porque não detinha apoio real. Mas isto poderá suceder caso países influentes ignorem as Nações Unidas e levem a cabo acções militares sem autorização do Conselho de Segurança.

O potencial ataque dos Estados Unidos à Síria, apesar da forte oposição de muitos países e de grandes líderes políticos e religiosos, incluindo o Papa, resultará em mais vítimas inocentes e numa escalada do conflito que poderá, potencialmente, alargá-lo muito para além das fronteiras da Síria. Um ataque iria aumentar a violência e desencadear uma nova onda de terrorismo. Poderia prejudicar os esforços multilaterais para resolver o problema nuclear iraniano e o conflito israelo-palestiniano e desestabilizar ainda mais o Médio Oriente e o Norte da África. Poderia desequilibrar todo o sistema internacional de lei e ordem.

A Síria não está a assistir a uma batalha pela democracia, mas a um conflito armado entre governo e oposição num país multi-religioso. Existem poucos campeões da democracia na Síria. Mas há mais do que suficientes combatentes da Al-Qaeda e de extremistas de todos os matizes a lutar contra o governo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos designou a Al-Nusra e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que lutam ao lado da oposição, como organizações terroristas. Este conflito interno, alimentado por armas estrangeiras fornecidas à oposição, é um dos mais sangrentos do mundo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Síria: uma interpretação do que aconteceu nos últimos dias

Num estilo inconfundível, o juíz Andrew Napolitano faz uma leitura interpretativa dos mais recentes acontecimentos na Síria, nomeadamente o recuo a que Obama foi obrigado (também pela sua própria e extraordinária inépcia). Como é habitual, trata-se de mais um brilhante texto por parte de Napolitano que, se possível, deve ser lido no original - "Obama’s Incompetent and Unconstitutional Case for War". A tradução que se segue, de minha responsabilidade, empalidece a qualidade do texto mas tenho esperança que possa ser, não obstante, um contributo para difundir uma interpretação dos acontecimentos (que estão longe de terem estabilizado) que é muito diferente da transmitida pelos media portugueses.
Quando o secretário de Estado John Kerry, aparentemente irritado pela falta de sono, respondeu de uma forma arrogante mas que pensava ser realista, à pergunta de um repórter numa conferência de imprensa em Londres, no fim-de-semana passado, ele dificilmente poderia imaginar qual seria a reacção do mundo. Questionado sobre se existiria alguma coisa que o presidente sírio, Bashar al-Assad, poderia fazer àquela hora relativamente tardia para evitar uma invasão americana, Kerry disse a uma audiência internacional que se Assad desistisse de todas as armas químicas que o seu governo possui, os EUA renunciariam a uma invasão.

Mas tal não constituía uma preocupação, acrescentou Kerry. Assad não irá fazer isso, e nós acabaremos por invadir a Síria de modo a cumprir a ameaça do presidente Obama. Durante dois dias, Obama manteve-se em silêncio sobre isto enquanto o seu arqui-inimigo, o presidente russo, Vladimir Putin, se colocava sob os holofotes arrogando-se da superioridade moral.

Putin, parecendo-se mais com um laureado com o Nobel da Paz do que com o assassino por que é conhecido, ofereceu-se para mediar um acordo segundo o qual o stock químico sírio seria entregue às Nações Unidas, o governo sírio poderia continuar a defender-se dos esforços da Al-Qaeda para tomar o poder, e os EUA não interviriam na Síria.

Obama é normalmente firme quanto à sua convicção de que necessita fazer valer a ameaça que proferiu no Verão passado, quando tentava superar Mitt Romney na dureza da retórica. Foi nessa altura que Obama ameaçou intervir na guerra civil da Síria se fossem usadas armas químicas pelo governo. Não obstante, e odiando o embaraço internacional que viu desabar sobre si, quando subitamente Putin parece ser mais razoável que ele, Obama admitiu à minha colega da Fox News, Chris Wallace, que a ideia inspirada por Kerry e pressionada por Putin parecia merecer ser considerada. E de seguida o governo sírio concordou.

Ainda na semana passada, o presidente argumentava que só a força militar poderia mostrar ao mundo que os EUA não falam em vão. Ainda na semana passada, ele deu-se conta que precisava de cobertura política para justificar uma invasão impopular, e por isso pediu ao Congresso autorização para invadir a Síria, mesmo sabendo que já detém a autoridade legal para ordenar uma invasão. Ainda na semana passada, enviou a sua equipa política, incluindo a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, para defender que a guerra é a única saída. E ainda na semana passada, insinuou que poderia bombardear a Síria mesmo que o Congresso dissesse que não.

O que aconteceu?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Nigel Farage faz aquecer (ou gelar?) Durão Barroso

Hoje, no dia em que se conheceram os valores referentes a Agosto da série (iniciada em Novembro de 1996) de valores das temperaturas recolhidas por satélite por meio de sistemas de detecção remota (Remote Sensing Systems, ou RSS), é possível constatar - como o fez Christopher Monckton - que, com esta série de dados, há 202 meses (16 anos e 10 meses) que se verifica um aquecimento global da ordem dos... ZERO graus! Foi este o dia que Durão Barroso, alvo favorito de Nigel Farage no Parlamento Europeu (que o primeiro faz inteiramente por merecer), escolheu para invocar um "consenso albanês" de 99% (!) dos cientistas climáticos, poucos dias depois de o seu próprio Comissário para a Indústria ter denunciado o "sistemático massacre industrial" em boa parte imputável ao exorbitante custo da energia eléctrica na Europa, consequência de anos e anos de adopção e prática de uma fanática agenda "verde".

Citação do dia (132)

"Naturally the common people don’t want war: Neither in Russia, nor in England, nor for that matter in Germany. That is understood. But, after all, it is the leaders of the country who determine the policy and it is always a simple matter to drag the people along, whether it is a democracy, or a fascist dictatorship, or a parliament, or a communist dictatorship. Voice or no voice, the people can always be brought to the bidding of the leaders. That is easy. All you have to do is tell them they are being attacked, and denounce the peacemakers for lack of patriotism and exposing the country to danger. It works the same in any country."

Herman Göring

sábado, 7 de setembro de 2013

Mas afinal de quem é esta guerra?

É a pergunta que Patrick J. Buchanan formula em mais um artigo em que defende vigorosamente a auto-exclusão dos EUA de um envolvimento na guerra civil Síria que grassa há mais de dois anos - "Just Whose War Is This?". Neste artigo, Buchanan foca importante aspectos internos dos EUA que raramente são focados. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"Na Quarta-feira [dia 4 de Setembro], John Kerry disse ao Senado para não se preocupar com o custo de uma guerra americana na Síria.

Os sauditas e os árabes do Golfo, confortados com um rotundo barril de petróleo, vendido aos consumidores americanos a 110 dólares, irão pagar a conta dos mísseis Tomahawk.

Será que chegámos a isto - soldados, marinheiros, fuzileiros e aviadores norte-americanos, agindo como mercenários de sheiks, sultões e emires, quais Hessianos [mercenários de Hessen, Alemanha] da Nova Ordem Mundial, contratados para levar a cabo a matança pelos sauditas e pela realeza sunita?

Ontem [5ª feira], também, surgiu um relatório espantoso no Washington Post.

A Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas [link] juntou-se com o lobby israelita AIPAC [link] numa campanha pública a todo o gás em favor de uma guerra dos EUA contra a Síria.

Marvin Hier do Centro Simon Wiesenthal e Abe Foxman da Liga Anti-Difamação invocaram o Holocausto, tendo Hier acusado os EUA e a Grã-Bretanha de não terem conseguido salvar os judeus em 1942.

No entanto, se a memória for útil, em 1942 os britânicos estavam a combater Rommel no deserto e os americanos recolhiam ainda os seus mortos em Pearl Harbor e morriam em Bataan e Corregidor.

A Coligação Judaica-Republicana, também financiada por Sheldon Adelson, o magnata do casino de Macau, cuja preocupação pelas crianças que sofrem na Síria é uma espécie de lenda, está também a apoiar a guerra de Obama.

Adelson, que desembolsou 70 milhões de dólares para derrubar Barack, quer a sua recompensa - a guerra à Síria. E ele está a consegui-la. O Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, e o líder da maioria, Eric Cantor, já a saudaram e nela se alistaram. Sheldon, o mais rico de todos os ricos financiadores políticos, está a comprar uma guerra para si próprio.

E todavia, será realmente inteligente que organizações judaicas coloquem um selo judeu numa campanha para arrastar a América para uma guerra que a maioria de seus compatriotas não quer travar?

sábado, 31 de agosto de 2013

A mentira, a plasticidade da "prova" e a política do bombardeamento

Ontem, a Casa Branca fez divulgar um documento de 4 páginas onde foram apresentadas "provas" de que foi o regime de Assad quem levou a cabo a autoria do ataque químico no passado dia 21 de Agosto na Síria,nos arredores de Damasco. Este é o excerto relevante (tradução minha):
"Identificámos cem vídeos relativos ao ataque, muitos dos quais mostram um grande número de corpos que apresentam sinais físicos consistentes, ainda que não exclusivamente, com a exposição a agente de gás de nervos. Segundo o relato de vítimas, os sintomas incluíam perda de consciência, emissão de espuma pelo nariz e pela boca, pupilas contraídas, taquicardia e dificuldade em respirar. Vários dos vídeos mostram o que parecem ser numerosas vítimas mortais sem ferimentos visíveis, o que é consistente com a morte provocada por armas químicas, e inconsistente com a morte provocada por armas ligeiras, por munições de alto poder explosivo ou por agentes vesicantes. Há pelo menos 12 localizações distintas nos vídeos publicamente disponíveis, e uma amostragem desses vídeos confirmou que alguns deles foram filmados nas horas e locais descritos nas imagens. Consideramos que a oposição síria não tem a capacidade para forjar todos estes vídeos, bem como os sintomas físicos verificados por pessoal médico, ONGs e outras informações associadas a este ataque químico."
Temos assim que, nas palavras da própria administração americana, os EUA e a França (antiga potência colonial na zona, uma coincidência curiosa com o Vietname) do petit homme, outorgando-se a si próprios o direito de representação de uma "comunidade internacional" ainda mais exígua com a saída forçada de Cameron do elenco, estão prestes a bombardear a Síria e, com isso, a escalar um conflito para dimensões impossíveis de prever. Para isso, julgam suficientes 100 vídeos do YouTube ("publicamente disponíveis") pois, segundo a administração americana, os rebeldes (quais deles?) não teriam condições (técnicas? logísticas) para os forjar!! Nestas circunstâncias, não é de admirar que Vladimir Putin esteja a surgir como um improvável paladino da promoção da liberdade!!

Portanto, o futuro do Médio Oriente e, não é de excluir, mesmo o de todo o mundo, joga-se no YouTube e na (in)capacidade de produção e realização de vídeos. Extraordinário! Mas, se assim é, e já sem falar daquele onde se pode observar o esquartejamento de cadáveres dos oponentes para lhes comer as vísceras, por que não considerar estes outros que sugerem exactamente o envolvimento dos rebeldes e aliados dos EUA nesta história das armas químicas (para além dos democratíssimos sauditas e qataris)? Aliás, não seria a primeira vez que tal aconteceria este ano...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

domingo, 18 de agosto de 2013

A situação no Egipto: da Primavera ao Inverno Árabe

Eric Margolis, jornalista, comentador e também autor de vários livros sobre o Islão, o Médio Oriente ou o conflito Indo-Paquistanês sobre Caxemira,  assina o artigo Storm on the Nile ("Tempestade no Nilo") que, a meu ver, enquadra e explica de forma sucinta mas correcta (bem diferente da "narrativa" que os media de "referência" proporcionam) os trágicos acontecimentos que estão a ocorrer no Egipto, a responsabilidade das sucessivas administrações norte-americanas e, em particular, da actual e das suas tergiversações. Profetiza também o que me parece ser muito provável: o regresso ao mubarakismo onde o principal intérprete será agora o general al-Sissi.

A tradução do artigo de Eric Margolis é da minha responsabilidade. O título do post também foi roubado ao autor.

ACTUALIZAÇÃO: Advogado diz que Mubarak deve ser libertado esta semana
As Forças Armadas do Egipto, financiadas pelos EUA, entraram em guerra contra o povo do Egipto. A Primavera Árabe transformou-se no Inverno Árabe.

Até ao momento, o exército e a polícia de segurança conseguiram brilhantes vitórias no campo de batalha contra homens desarmados, mulheres e crianças, matando e ferindo milhares que exigiam um retorno ao governo democrático.

Os mais recentes protestos, levados a cabo no Cairo por apoiantes do governo eleito de Morsi, foram dispersados por tiros e enormes buldózeres blindados semelhantes aos veículos gigantes usados por Israel para esmagar as barricadas e os manifestantes palestinianos. Todos os egípcios que se opõem à ditadura de Sissi são agora, oficialmente, "terroristas".

Os generais do Egipto e os apoiantes da direita dura mubarakista já abandonaram qualquer pretensão de que existe um governo civil e dependem agora das baionetas e dos tanques. Os homens que detêm as armas fazem as regras.

Este é o terceiro governo árabe, resultante de eleições razoavelmente justas, a ser derrubado ou sitiado, como em Gaza, por regimes militares apoiados pelo Ocidente. Ao contrário do que sucedeu na Argélia, onde o primeiro governo eleito foi esmagado, os islamistas do Egipto não têm armas e é improvável que sejam capazes de organizar uma resistência interna séria para além de algumas alfinetadas no Alto Egipto e no Sinai.

A sangrenta contra-revolução mubarakista, financiada pela Arábia Saudita e por outras monarquias do Golfo, colocou os Estados Unidos, o patrono do Egipto, numa séria embrulhada. Washington foi forçada a denunciar o golpe e a repressão estatal em curso como "deplorável", nas palavras do Secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

No entanto, semanas antes, o evidentemente confuso Kerry tinha elogiado o golpe que derrubou o primeiro governo democraticamente eleito do Egipto falando da "restauração da democracia". Ele recusou-se a classificar o putsch militar como um golpe de estado, pois isso significaria cortar os 1,3 mil milhões de dólares anuais em pagamentos dos Estados Unidos às forças armadas do Egipto, um importante aliado dos EUA. O presidente Obama limitou-se a evitar toda esta questão.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O incidente do Golfo de Tonkin, as mentiras e o elogio ao whistleblower que as pôs a nu

Na 4ª feira desta semana, Barack Obama foi ao programa de Jay Leno (vídeo e transcrição da entrevista aqui). A certa altura, afirmou: "Nós não temos um programa de espionagem doméstica. O que temos são alguns mecanismos através dos quais podemos seguir o rasto de um número de telefone ou de um endereço de email que nós sabemos estar de algum modo ligado a alguma espécie de ameaça terrorista". Espantoso! Apenas algumas semanas após Edward Snowden (por exemplo, aqui)!

No texto que se segue, Ellberg's Lessons For Our Time, que procurei traduzir o melhor que soube, publicado em 1 de Maio de 2008, James Bovard, um colunista frequente da American Conservative recorda uma das reflexões de Daniel Ellsberg que, creio, pode ajudar à compreensão da lógica que preside a uma tal descarada declaração do presidente americano em exercício: "a concentração de poder no Executivo desde a II Guerra Mundial tinha focado praticamente toda a responsabilidade pelo "fracasso" político sobre um homem, o presidente. Em simultâneo, isso deu-lhe uma enorme capacidade para evitar ou adiar ou ocultar um fracasso pessoal através da força ou da fraude. Confrontado com uma resistência externa resoluta, como aconteceu no Vietname, esse poder não poderia deixar de corromper o homem que o detinha."

O meu objectivo é, porém, ajudar a melhor compreender o papel insubstituível (e heróico) dos whistleblowers o aproveitando o aniversário de uma das muitas operações de false-flag (o incidente do Golgo de Tonkin). A bem da verdade.
Daniel Ellsberg
Daniel Ellsberg é o tipo de americano que deveria receber uma Medalha da Liberdade. Só que as Medalhas da Liberdade são distribuídas por presidentes que rotineiramente as atribuem aos "idiotas úteis" e apologistas das suas guerras e tomadas de poder. Ela devia ser renomeada para Medalha pela Capacitação ou Aplauso de Crimes Oficiais em Nome da Liberdade.

Ellsberg, conscientemente, arriscou passar uma vida na prisão para levar a verdade sobre a Guerra do Vietname aos americanos. Ele tinha tido a esperança que a verdade libertaria os americanos do feitiço das mentiras oficiais. Mas a experiência no Iraque indica que os americanos pouco ou nada aprenderam com os logros da era do Vietname.

Flora Lewis, uma colunista do New York Times, escrevendo três semanas antes do 11 de Setembro, comentava numa recensão a um livro sobre as mentiras do governo dos EUA relativas à Guerra do Vietname, "Provavelmente nunca haverá um retorno à discrição, na verdade, conluio, com o qual os media costumavam lidar com os presidentes, e é melhor que assim seja". Mas, poucos meses após o seu comentário, os media provaram ser tão cobardes como sempre.

No ano seguinte, saía o livro de Ellsberg - "Secrets: A Memoir of Vietnam and the Pentagon Papers". Eu deveria ter lido este livro antes de escrever o capítulo "Lying and Legitimacy" de "Attention Deficit Democracy". As amargas experiências de Ellsberg teriam refreado o meu idealismo juvenil. O seu livro foi publicado numa época em que os americanos ainda tendiam a ver Bush através da santa névoa do 11 de Setembro. As suas mentiras sobre o Iraque só vieram a ser amplamente reconhecidas depois da queda de Baghdad e da não materialização das armas de destruição maciça.

Ellsberg conta a história de como ele, enquanto antigo tenente dos Marines com um doutoramento pela Universidade de Harvard, foi contratado por John McNaughton, assistente do Secretário da Defesa, e começou a trabalhar, em Agosto de 1964, no dia em que a crise do Golfo de Tonkin eclodiu. Ele relata a recepção dos despachos por telegrama emitidos pelo navio de guerra USS Maddox.

Poucas horas após o destroyer dos EUA ter informado que estava a ser atacado por lanchas torpedeiras norte-vietnamitas [PT boats, no original], o comandante do navio telegrafara para Washington que os relatos de um ataque contra o seu navio podiam ter sido muito exagerados: "Toda a acção deixa muitas dúvidas".

Imagem wikipedia
Mas isso não importava, porque este foi apenas o pretexto que Lyndon Johnson estava à procura. Johnson e o Secretário da Defesa, Robert McNamara, apressaram-se a anunciar que o ataque tinha sido não provocado. Mas, numa reunião do Conselho de Segurança Nacional na noite em que o primeiro relatório chegou, quando Johnson perguntou, "Será que eles querem a guerra ao atacar os nossos navios no meio do Golfo de Tonkin?" o chefe da CIA, John McCone, respondeu:
Não. Os norte-vietnamitas estão reagindo defensivamente ao nosso ataque às suas ilhas ao largo da costa. Eles estão respondendo por questões de orgulho e na base de considerações de defesa.
O facto era que os Estados Unidos tinham orquestrado um ataque de comandos sul-vietnamitas em território norte-vietnamita antes do alegado conflito ter começado. Mas Johnson mentiu e começou os bombardeamentos, e o Congresso apressou-se a apoiá-lo.