segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Iraque e Irão: aprender com os erros ou voltar a repeti-los?

Minha tradução do texto de Ron Paul, Iraq: The "Liberation" Neocons Would Rather Forget (Iraque: a "libertação" que os neocons prefeririam esquecer). Por cá, a par do cada vez mais "progressista" Público, também há quem sustente, aparentemente em quadrantes diversos, que se devia ter insistido ainda um "pouco" mais, à semelhança do que se perspectiva para o Afeganistão. Nada aprenderam. Também aqui, segundo eles, e à semelhança do dogma keynesiano, o problema não está - nunca está - na medicina, antes na dose prescrita.
5 de Janeiro de 2014

Recordam-se de Falluja? Pouco depois da invasão do Iraque, em 2003, os militares dos EUA dispararam sobre manifestantes desarmados, tendo matado pelo menos 20 pessoas e ferido dezenas de outras. Em retaliação, os iraquianos locais atacaram uma coluna de "contratados" [neste contexto, figuras entre civis e mercenários pertencentes a empresas privadas(?)] pelos militares dos EUA, matando quatro deles. Os EUA, de seguida, lançaram um ataque em força sobre Falluja para retomar o controlo, o que provocou a morte a, talvez, 700 iraquianos e praticamente à destruição da cidade.

Ron Paul
De acordo com às notícias da imprensa do passado fim-de-semana, Falluja está agora sob o controlo de grupos afiliados da Al-Qaeda. A província de Anbar, onde se localiza Falluja, está sitiada pela Al-Qaeda. Durante a "surge" ["onda"] de 2007, mais de mil militares americanos foram mortos na "pacificação" da província de Anbar. Apesar de Al-Qaeda não estar presente no Iraque antes da invasão dos EUA, ela está agora a efectuar a sua própria surge em Anbar.

Para o Iraque, a "libertação" dos EUA está a revelar-se muito pior que o autoritarismo de Saddam Hussein, e continua a piorar. O ano que passou foi o mais letal no Iraque nos últimos cinco anos. Em 2013, os combates e as explosões de bombas custaram a vida a 7.818 civis e a 1.050 membros das forças de segurança. Só em Dezembro, perto de mil pessoas foram mortas.

Lembro-me de estar presente em muitas audições no Comité de Relações Internacionais da Câmara [dos Representantes] onde se elogiava a "surge", a qual, diziam-nos, assegurou aos EUA uma vitória no Iraque. Eles também elogiaram o chamado "despertar", que foi realmente um acordo firmado com insurgentes [sunitas] para pararem de lutar em troca de dólares. Eu sempre me perguntei o que sucederia quando os dólares deixassem de surgir.


Onde estão agora os líderes entusiastas das "ondas" e dos "despertares"?

A um deles, Richard Perle, entrevistado no ano passado na NPR [estação nacional pública de rádio dos EUA], foi-lhe perguntado se a invasão do Iraque, que ele promoveu, valeu ou não a pena. A sua resposta foi:
Tenho que dizer que não acho que essa seja uma pergunta razoável. O que fizemos na altura foi feito na convicção de que era necessário proteger esta nação. Não se pode, uma década depois, voltar atrás e dizer, bem, nós não deveríamos ter feito o que fizemos.
Muitos de nós sempre dissemos que não deveríamos ter feito o que fizemos - antes de o fazermos. Infelizmente, a administração Bush adoptou o conselho dos neocons que pressionavam a fazer a guerra prometendo que ela seria um "passeio." Continuamos a assistir aos resultados daquele terrível erro, que só dá mostras de piorar.

No mês passado, os EUA enviaram cerca de uma centena de mísseis ar-terra à força aérea iraquiana para ajudar no combate ao recrudescimento da Al-Qaeda. Ironicamente, os mesmos grupos da Al-Qaeda que os EUA estão a ajudar os iraquianos a combater estão a beneficiar da guerra, secreta e ostensiva, dos EUA que visa derrubar Assad na vizinha Síria. Por que razão o governo dos EUA não consegue aprender com os seus erros?

Os neocons podem estar a recuar das suas anteriores posições sobre o Iraque, mas isso não significa que tenham desistido. Foram eles que pressionaram para atacar a Síria no Verão [passado]. Felizmente, não tiveram êxito. Eles estão agora a envidar todos os esforços para inviabilizar os esforços do presidente Obama de negociação com os iranianos. Na semana passada, William Kristol instou Israel a atacar o Irão na esperança de nos conduzir posteriormente a um envolvimento. Os senadores neoconservadores de ambos os partidos apresentaram recentemente uma proposta legislativa - o Nuclear Weapon Free Iran Act of 2013 -, que igualmente nos faria regressar a uma lógica de guerra com o Irão.

Da próxima vez que os neocons nos disserem que devemos atacar, bastará pensar no Iraque.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

A arrogancia/impunidade que permite que após 400 mil mortos nenhuma entidade questione a mentira que foi aventada para tomar controle do petroleo do Iraque causa bastante preocupação a quem dá prioridade a paz e justiça.