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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Greenwald: Obama, drones, propaganda e relativismo

Glenn Greenwald
Admito que o tema do artigo de Glenn Greenwald, que proponho na ocasião aos leitores do EI, possa ter aspectos delicados e me leve a incorrer num risco de (des)entendimentos que não são de todos os meus com os leitores. Apesar de por várias ocasiões ter manifestado o mais vivo repúdio (por exemplo, aqui) da componente da "guerra ao terror" por recurso a drones para executar as "listas de morte" (normalmente sem danos directos para os seus promotores, razão pelo crescente recurso que fazem deles para além de evitar as "boots on the ground"), não ignoro que as "nossas" mortes não são "iguais" às dos outros. Claro que não são. A proximidade familiar, comunitária, empresarial, clubística, regional, nacional, linguística, cultural, etc., são determinantes dessa desigualdade. Nada há de mal nisso, pelo contrário. Coisa diferente, porém, é tratar diferente o que é igual e, sem mais, disso fazer alarde ainda que pela via sinuosa da redefinição semântica ou pelo olímpico desprezo pelos obscenos danos "colaterais" tratando milhares de vítimas inocentes não com desdém mas com a borracha da memória instantânea. Haverá diferença, afinal, para os Untermenschen? Não vejo onde. É sobre isto que escreve Greenwald
24 de Abril de 2015
Por Glenn Greenwald


Em todos os anos que levo de escrita sobre as mortes provocadas pelos drones de Obama, foi ontem [23-04-2015] que aconteceu, de longe, a discussão crítica mais alargada nos círculos do jornalismo convencional. Esse facto sobre os drones, desde há muito suprimido mas crucial, foi na realidade anunciado no título principal na primeira página do The New York Times de ontem:

"Capa" do New York Times, versão online, de 23-04-2015

A razão para a anormalmente intensa cobertura, largamente crítica, das mortes de ontem provocadas pelos drones é óbvia: as vítimas deste ataque eram ocidentais e não-muçulmanas e, portanto, foram vistas como realmente humanas.

O advogado paquistanês Shahzad Akbar, que representa 150 vítimas de drones americanos e a quem foi por duas vezes negada entrada nos EUA para falar sobre elas, disse ao meu colega do Intercept Ryan Devereaux como dois dos seus clientes, duas crianças, provavelmente reagiriam ao pedido de "desculpas" de Obama de ontem:
"Hoje, se Nabila ou Zubair ou muitas das vítimas civis estiverem a ver na TV o presidente a mostrar-se tão pesaroso relativamente à morte de um ocidental, que mensagem estará ele a veicular?" A resposta, segundo ele, é: "Vós não tendes importância, sois filhos de um Deus menor, e só expressarei pesar aquando da morte de um ocidental."

terça-feira, 17 de março de 2015

Quem de facto combate o Estado Islâmico no terreno

Foram as constantes interferências de ordem externa que transformaram grande parte do Médio Oriente no atoleiro letal que hoje conhecemos. Primeiro, pelo retalhar da história e geografia milenar através da criação de fronteiras totalmente arbitrárias após o fim do império Otomano. Depois, porque o controlo da incrível riqueza em petróleo da zona tudo justificava. Um dos marcos desse intervencionismo foi o golpe que em 1953 depôs o democraticamente eleito Mohammed Mossadegh no Irão e instalou no trono Reza Pahlavi (uma "teoria da conspiração" finalmente reconhecida pela CIA, 60 anos depois). Em 1979, com a fuga do Xá e a instalação de um regime para-teocrático, o Irão passou a ser demonizado, guerreado, ostracizado, e sujeito a pesadas sanções económicas. Com o apoio explícito dos EUA - logístico, militar e de informações - Saddam Hussein atacou o Irão (também com armas químicas que, como a CIA igualmente confirmaria, eram do perfeito conhecimento americano), daí resultando uma guerra que durou oito anos (1980-1988) e causou 400 mil mortos. Com George W. Bush, o Irão foi catalogado como pertencente a um "eixo do mal" que tem persistido até hoje, reforçado com novos membros. Como os neocons nunca esconderam, o Irão é o "grande prémio".

Não deixa portanto de ser irónico que da 2ª guerra do Iraque tenha resultado um fortalecimento de facto da posição estratégica do Irão, ou, talvez melhor, do Islão xiita. Como não deixa de ser do domínio do factual que são os xiitas, e em particular Assad (aqui, numa entrevista recente à RTP), quem de facto tem combatido no terreno essa entidade difusa que dá pelo nome de Estado Islâmico bem como as diversas declinações da Al-Qaeda na região como é o caso da Frente al Nusra. É esta a leitura, lúcida e serena como é habitual, que Pat Buchanan faz da situação actual ao deflectir a retórica tonitruante dos neocons e de Netanyahu, também preocupado com a sua própria sobrevivência no poder em Israel, que tudo estão a fazer para torpedear as negociações em curso com o Irão relativas ao seu programa nuclear.

10 de Março de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Patrick J. Buchanan
América, temos um problema.

No sangrento e caótico Médio Oriente, salvo raras excepções como a dos curdos, os nossos amigos ou não conseguem ou não querem combater.

O Exército Livre da Síria claudicou. As forças do movimento Hazm na Síria, armadas pelos Estados Unidos, desmoronaram-se depois de serem alvo da perseguição pela Frente al Nusra. O exército iraquiano, treinado e equipado por nós, fugiu de Mosul em grande debandada até Bagdad. Os turcos poderiam aniquilar o ISIS na Síria, mas não irão combater. A Arábia Saudita e os países árabes do Golfo enviaram zero militares para combater o ISIS. Ficaram-se por um punhado de ataques aéreos.

Consideremos agora o que os nossos velhos inimigos já fizeram e estão a fazer.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

As conexões sauditas no 11 de Setembro

Praticamente logo após os atentados de 11 de Setembro, circularam intensos rumores quanto a uma alegada (e estreita) ligação de membros da elite saudita que, através de apoio logístico, e sobretudo financeiro, teriam apoiado (tornado possível?) aquela operação terrorista. Este era um elo que começava por surgir como natural já que 15 dos 19 piratas do ar eram nacionais do país governado pela Casa de Saud. Desde muito cedo (antes mesmo da formação da oficial Comissão de Inquérito aos acontecimentos - 2002) que familiares das vítimas fizeram sentir as suas suspeições nessa direcção. E a caminho dos quinze anos passados sobre o sucedido, o certo é que continuam classificadas como secretas 28 páginas do relatório oficial as quais, precisamente, se crê evidenciarem essa conexão. A isto acrescem as acusações da semana passada provenientes de Zacarias Moussaoui que até mesmo o New York Times entendeu destacar. Emprestando todo o seu envolvimento jornalístico de longa data, no terreno, no mundo islâmico, Eric Margolis elabora sobre a verosimilhança das acusações de Moussaoui recuando para isso ao tempo em que conheceu pessoalmente um dos fundadores da Al-Qaeda. É um artigo informativo, pleno de pormenores relevantes para um maior entendimento sobre o reino saudita ou, melhor, sobre a razão de ser dos comportamento da dinastia de Saud.

Votos de uma excelente semana!

7 de Fevereiro de 2015
Por Eric Margolis


Desde 2001 que circulam alegações do envolvimento da Arábia Saudita nos ataques à América do 11 de Setembro. Os sauditas têm negado qualquer envolvimento muito embora 15 dos 19 piratas do ar fossem cidadãos sauditas.

Eric Margolis
Esta semana, as alegações de envolvimento saudita reacenderam-se quando um dos homens condenados pelos ataques de 11 de Setembro, Zacarias Moussaoui, reafirmou aquelas acusações. Moussaoui, que está numa prisão de segurança máxima nos EUA, acusa príncipes e altos funcionários sauditas de terem financiado os ataques do 11 de Setembro e outras operações da Al-Qaeda. Ele talvez tenha sido torturado e tem problemas mentais.

Entre os sauditas que Moussaoui nomeou estão o príncipe Turki Faisal e o príncipe Bandar bin Sultan, dois dos homens mais poderosos e influentes do reino. Turki foi chefe da inteligência saudita; Bandar foi embaixador em Washington durante a administração Bush.

Estas acusações surgem num momento em que decorre em Washington uma luta furiosa pela (não) divu, lgação das páginas secretas do relatório da Comissão de Inquérito aos ataques do 11 de Setembro que supostamente implicam a Arábia Saudita. A Casa Branca alega que a divulgação do relatório seria embaraçante e prejudicaria as relações entre os EUA e a Arábia Saudita.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lições de Paris

Do mesmo modo que, agora que os preços do petróleo não param de afundar, não surpreende que surjam vozes a defender o aumento dos impostos sobre os combustíveis ("porque não seria doloroso"), parece-me evidente que o resultado último do obsceno e intolerável ataque terrorista à Charlie Hebdo consistirá, em nome da "nossa segurança", numa ainda maior redução da liberdade e privacidade de todos. Como Jonathan Turley escreveu no Washington Post, "a maior ameaça à liberdade de expressão provém não do terrorismo mas dos governos" (atente-se na evolução do Índice de Liberdade de Imprensa, nomeadamente, nos EUA, em França ou no Reino Unido.)

As acções têm consequências, sendo que estas últimas são com frequência não-intencionadas e tantas vezes contraproducentes relativamente aos objectivos anunciados pelos governos que as iniciaram. Com a autoridade de alguém que há bem mais de 40 anos chama a atenção para este facto, o texto de Ron Paul que achei por bem partilhar (minha tradução) merece a nossa reflexão.

12 de Janeiro de 2015
Por Ron Paul

Ron Paul
Após o trágico tiroteio numa revista de índole provocatória em Paris na passada semana salientei, atentas as posições francesas na política externa, que é necessário considerar o blowback [efeito de bumerangue não previsível - NT] como um factor. Aqueles que não compreendem o blowback lançaram-me a ridícula acusação de estar a desculpar o ataque ou mesmo a culpar as vítimas. O que é um absurdo, uma vez que abomino a iniciação da força para além de que a polícia não culpa as vítimas quando investiga o motivo de um criminoso.

Os media convencionais imediatamente decidiram que o tiroteio foi um ataque à liberdade de expressão. Muitos nos EUA preferiram esta versão de "eles odeiam-nos por causa das nossas liberdades", a afirmação proferida pelo presidente Bush após o 11 de Setembro. Eles expressaram solidariedade para com os franceses e prometeram lutar pela liberdade de expressão. Mas não repararam essas pessoas que a Primeira Emenda é rotineiramente violada pelo governo dos EUA? O presidente Barack Obama fez mais vezes uso da Lei de Espionagem [de 1917 - NT] que todas as administrações anteriores no seu conjunto para silenciar e encarcerar os denunciantes. Onde estão os protestos? Onde estão os manifestantes a exigir a libertação de John Kiriakou, que denunciou a utilização pela CIA do waterboarding [simulação de afogamento - NT] e de outras formas de tortura? O denunciante foi preso enquanto que os torturadores não serão processados. Protestos? Nenhum.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Iraque e Irão: aprender com os erros ou voltar a repeti-los?

Minha tradução do texto de Ron Paul, Iraq: The "Liberation" Neocons Would Rather Forget (Iraque: a "libertação" que os neocons prefeririam esquecer). Por cá, a par do cada vez mais "progressista" Público, também há quem sustente, aparentemente em quadrantes diversos, que se devia ter insistido ainda um "pouco" mais, à semelhança do que se perspectiva para o Afeganistão. Nada aprenderam. Também aqui, segundo eles, e à semelhança do dogma keynesiano, o problema não está - nunca está - na medicina, antes na dose prescrita.
5 de Janeiro de 2014

Recordam-se de Falluja? Pouco depois da invasão do Iraque, em 2003, os militares dos EUA dispararam sobre manifestantes desarmados, tendo matado pelo menos 20 pessoas e ferido dezenas de outras. Em retaliação, os iraquianos locais atacaram uma coluna de "contratados" [neste contexto, figuras entre civis e mercenários pertencentes a empresas privadas(?)] pelos militares dos EUA, matando quatro deles. Os EUA, de seguida, lançaram um ataque em força sobre Falluja para retomar o controlo, o que provocou a morte a, talvez, 700 iraquianos e praticamente à destruição da cidade.

Ron Paul
De acordo com às notícias da imprensa do passado fim-de-semana, Falluja está agora sob o controlo de grupos afiliados da Al-Qaeda. A província de Anbar, onde se localiza Falluja, está sitiada pela Al-Qaeda. Durante a "surge" ["onda"] de 2007, mais de mil militares americanos foram mortos na "pacificação" da província de Anbar. Apesar de Al-Qaeda não estar presente no Iraque antes da invasão dos EUA, ela está agora a efectuar a sua própria surge em Anbar.

Para o Iraque, a "libertação" dos EUA está a revelar-se muito pior que o autoritarismo de Saddam Hussein, e continua a piorar. O ano que passou foi o mais letal no Iraque nos últimos cinco anos. Em 2013, os combates e as explosões de bombas custaram a vida a 7.818 civis e a 1.050 membros das forças de segurança. Só em Dezembro, perto de mil pessoas foram mortas.

Lembro-me de estar presente em muitas audições no Comité de Relações Internacionais da Câmara [dos Representantes] onde se elogiava a "surge", a qual, diziam-nos, assegurou aos EUA uma vitória no Iraque. Eles também elogiaram o chamado "despertar", que foi realmente um acordo firmado com insurgentes [sunitas] para pararem de lutar em troca de dólares. Eu sempre me perguntei o que sucederia quando os dólares deixassem de surgir.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O que não se disse acerca do Iraque (e assim continua a suceder)

Pelo menos os mais antigos frequentadores do blogue terão presente o contador macabro inscrito na coluna da direita sob a epígrafe "As acções têm consequências". É raro o dia que não dou conta de por lá haver "actividade" apesar de os jornais já praticamente terem deixado de se preocupar com as notícias da trágica sucessão de mortos e feridos que não mostra sinais de abrandar (bem pelo contrário, apesar de as próprias Nações Unidas terem retirado do seu website um "contador oficial" que mantinham desde 2003). Estranhamente (<sarcasmo/>) também não dou conta que os media se interroguem quanto à súbita "calmaria" no morticínio sírio (apesar disto) logo que, numa curva inesperada e in extremis, se regressou ao lá de cá da "linha vermelha". Mas nem por isso deixa de haver quem pretenda prosseguir na tresloucada doutrina intervencionista persistindo em alcançar o "Grande Prémio": a guerra contra o Irão.

É este o tema do artigo de Ron Paul que me propus traduzir, a propósito da visita que Nuri al-Maliki, primeiro-ministro do Iraque, fez a Obama na semana passada em Washington.
Por Ron Paul
3 de Novembro de 2013

Outubro foi o mês mais mortífero no Iraque desde Abril de 2008. Nesses cinco anos e meio, não só não houve qualquer melhoria nas condições de segurança no Iraque como, pelo contrário, elas se tornaram muito piores. Mais de 1000 pessoas foram mortas no Iraque no mês passado, na sua grande maioria civis. Outras 1600 ficaram feridas, com os carros-bomba e os tiroteios a continuar a mutilar e a assassinar.

Enquanto o Iraque pós-"libertação" mergulha na espiral descendente, o primeiro-ministro Nuri al-Maliki esteve em Washington na semana passada a suplicar por mais ajuda dos Estados Unidos para ajudar a restaurar a ordem numa sociedade destruída pela invasão dos EUA em 2003. A Al-Qaeda conseguiu avanços recentes significativos e o Iraque necessita de mais ajuda militar dos EUA para combater a sua influência crescente, disse Maliki ao presidente Obama na reunião que tiveram na sexta-feira passada.

Obama prometeu trabalhar em conjunto com o Iraque para enfrentar a crescente presença da Al-Qaeda, mas o que não foi dito foi que antes do ataque dos EUA não havia Al-Qaeda no Iraque. O aparecimento da Al-Qaeda no Iraque coincidiu com a ataque dos EUA. Alegaram que tínhamos que combater o terror no Iraque, mas a invasão dos EUA resultou na criação de redes terroristas onde antes não havia nenhuma. Que desastre.

domingo, 15 de setembro de 2013

Um apelo à precaução vindo da Rússia (que terá valido a pena)

A última semana foi verdadeiramente febril quanto à evolução dos acontecimentos na Síria que culminou (?) hoje mesmo, com um notável desinteresse pouco entusiasmo dos jornais de "referência" europeus (não nos americanos), com o anúncio da celebração de um acordo entre os EUA e a Rússia, mediante o qual é aparentemente encontrada uma "saída" para a crise e evitada assim uma escalada de consequências imprevisíveis da situação que já de si era (e continua a ser) explosiva.

É impossível saber o que daqui a 20, 50 anos os livros de História registarão mas é talvez provável que façam menção a uma peça de jornal, assinada pelo ex-KGB, reincidente presidente russo vitalício em exercício (e sempre profissional) Vladimir Putin com o título "A Plea for Caution From Russia" ("Um apelo à precaução vindo da Rússia"). Um artigo que Patrick J. Buchanan classifica de "notável" (vídeo recomendado); que fez com que John Boehner, o Speaker da Câmara dos Representantes, se tivesse sentido "insultado"; que o neocon John McCain classificou como um "insulto à inteligência de cada americano" e que a outros lhes terá provocado a sensação de "vómito". Não é de admirar a reacção: Putin atreveu-se a pôr em causa o "excepcionalismo americano", uma espécie de elemento absorvente (e "absolvente") das malfeitorias feitas em seu nome...

Parecem-me motivos bastantes para justificar uma tradução do texto de V. Putin. Pro memoria.
Moscovo - Os recentes acontecimentos envolvendo a Síria impeliram-me a falar directamente ao povo americano e aos seus líderes políticos. É importante que o faça num tempo em que a comunicação entre as nossas sociedades é insuficiente.

As relações entre nós passaram por diferentes fases. Confrontámo-nos durante a guerra fria. Mas também já fomos aliados, e juntos derrotámos os nazis. A organização internacional universal - as Nações Unidas - foi então criada para evitar que uma tal devastação voltasse a acontecer.

Os fundadores das Nações Unidas compreenderam que as decisões que afectam a guerra e a paz somente devem ser tomadas por consenso, e foi com o consentimento da América que o veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança foi consagrado na Carta das Nações Unidas. A profunda sabedoria desta decisão esteve na base da estabilidade das relações internacionais ao longo de décadas.

Ninguém deseja que as Nações Unidas sofram o destino da Liga das Nações, a qual entrou em colapso porque não detinha apoio real. Mas isto poderá suceder caso países influentes ignorem as Nações Unidas e levem a cabo acções militares sem autorização do Conselho de Segurança.

O potencial ataque dos Estados Unidos à Síria, apesar da forte oposição de muitos países e de grandes líderes políticos e religiosos, incluindo o Papa, resultará em mais vítimas inocentes e numa escalada do conflito que poderá, potencialmente, alargá-lo muito para além das fronteiras da Síria. Um ataque iria aumentar a violência e desencadear uma nova onda de terrorismo. Poderia prejudicar os esforços multilaterais para resolver o problema nuclear iraniano e o conflito israelo-palestiniano e desestabilizar ainda mais o Médio Oriente e o Norte da África. Poderia desequilibrar todo o sistema internacional de lei e ordem.

A Síria não está a assistir a uma batalha pela democracia, mas a um conflito armado entre governo e oposição num país multi-religioso. Existem poucos campeões da democracia na Síria. Mas há mais do que suficientes combatentes da Al-Qaeda e de extremistas de todos os matizes a lutar contra o governo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos designou a Al-Nusra e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que lutam ao lado da oposição, como organizações terroristas. Este conflito interno, alimentado por armas estrangeiras fornecidas à oposição, é um dos mais sangrentos do mundo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

sábado, 7 de setembro de 2013

Mas afinal de quem é esta guerra?

É a pergunta que Patrick J. Buchanan formula em mais um artigo em que defende vigorosamente a auto-exclusão dos EUA de um envolvimento na guerra civil Síria que grassa há mais de dois anos - "Just Whose War Is This?". Neste artigo, Buchanan foca importante aspectos internos dos EUA que raramente são focados. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"Na Quarta-feira [dia 4 de Setembro], John Kerry disse ao Senado para não se preocupar com o custo de uma guerra americana na Síria.

Os sauditas e os árabes do Golfo, confortados com um rotundo barril de petróleo, vendido aos consumidores americanos a 110 dólares, irão pagar a conta dos mísseis Tomahawk.

Será que chegámos a isto - soldados, marinheiros, fuzileiros e aviadores norte-americanos, agindo como mercenários de sheiks, sultões e emires, quais Hessianos [mercenários de Hessen, Alemanha] da Nova Ordem Mundial, contratados para levar a cabo a matança pelos sauditas e pela realeza sunita?

Ontem [5ª feira], também, surgiu um relatório espantoso no Washington Post.

A Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas [link] juntou-se com o lobby israelita AIPAC [link] numa campanha pública a todo o gás em favor de uma guerra dos EUA contra a Síria.

Marvin Hier do Centro Simon Wiesenthal e Abe Foxman da Liga Anti-Difamação invocaram o Holocausto, tendo Hier acusado os EUA e a Grã-Bretanha de não terem conseguido salvar os judeus em 1942.

No entanto, se a memória for útil, em 1942 os britânicos estavam a combater Rommel no deserto e os americanos recolhiam ainda os seus mortos em Pearl Harbor e morriam em Bataan e Corregidor.

A Coligação Judaica-Republicana, também financiada por Sheldon Adelson, o magnata do casino de Macau, cuja preocupação pelas crianças que sofrem na Síria é uma espécie de lenda, está também a apoiar a guerra de Obama.

Adelson, que desembolsou 70 milhões de dólares para derrubar Barack, quer a sua recompensa - a guerra à Síria. E ele está a consegui-la. O Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, e o líder da maioria, Eric Cantor, já a saudaram e nela se alistaram. Sheldon, o mais rico de todos os ricos financiadores políticos, está a comprar uma guerra para si próprio.

E todavia, será realmente inteligente que organizações judaicas coloquem um selo judeu numa campanha para arrastar a América para uma guerra que a maioria de seus compatriotas não quer travar?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Pat Buchanan: "A única coisa que aprendemos da história é que não aprendemos com a história"

Nas vésperas de ainda mais outra aventura guerreira (a caminho do Irão?) sob um amplo beneplácito bipartidário, entusiasta ou complacente, Patrick J. Buchanan defende, convincentemente, que o Congresso deveria impedir o presidente Obama de iniciar a participação aberta dos EUA na guerra civil síria. Congress Should Veto Obama’s War é o título da sua mais recente peça que procurei traduzir (algo livremente).
"O Congresso não tem um conjunto muito significativo de responsabilidades fundamentais", disse Barack Obama na semana passada numa espantosa observação.

De facto, na Constituição, o Congresso aparece como o primeiro poder do estado federal. E entre os seus poderes, enumerados, estão: o poder de tributar, o de cunhar moeda, o de criar tribunais, o de promover a defesa comum, o de criar e financiar um exército, o de manter uma marinha e o de declarar a guerra.

Mas, ainda assim, talvez o menosprezo de Obama seja justificado.

Senão, considere-se o amplo assentimento do Congresso às notícias de que Obama decidiu atacar a Síria, um país que não nos atacou e contra o qual o Congresso nunca autorizou uma declaração de guerra.

Porque está Obama a fazer planos para lançar mísseis de cruzeiro sobre a Síria?

De acordo com um "alto funcionário da administração (...) que insistiu no anonimato", o presidente Bashar al-Assad usou armas químicas contra o seu próprio povo, na semana passada, em dois anos de guerra civil na Síria.

Mas quem delegou nos Estados Unidos a autoridade para andar pelas ruas do mundo a dar coronhadas em maus actores? De onde vem a autoridade para o nosso presidente imperial traçar "linhas vermelhas" e dar ordens a países para que não as cruzem?

Nem o Conselho de Segurança nem o Congresso nem a NATO nem a Liga Árabe autorizaram o lançamento de uma guerra contra a Síria.

Quem outorgou a Barack Obama o papel de Wyatt Earp da Aldeia Global?

Além do mais, onde está a prova de que foram usadas armas de destruição maciça e que só Assad pôde ter ordenado a sua utilização? Tal ataque não faz qualquer sentido.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pat Buchanan: Depois de 58 mil mortos, saímos do Vietname. Quantos americanos mataram os vietnamitas desde que partimos?

É com esta simples pergunta, que roubei para título do post, que termina mais um lúcido artigo de Patrick J. Buchanan - To Stop al-Qaeda, Stop Bombing & Occupying Muslim Lands. A tradução é minha.

ACTUALIZAÇÃO: afinal, parece que a ameaça global terrorista se circunscreve ao Iémen.
Aparentemente, a ameaça é séria e específica.

Os Estados Unidos ordenaram o fecho de 22 missões diplomáticas e emitiram um alerta mundial para os cidadãos norte-americanos em viagem.

A ameaça vem da Al-Qaeda na Península Arábica (a AQPA), o ramo mais letal da organização terrorista.

"Depois de Benghazi", disse o senador Lindsey Graham (Republicano, da Carolina do Sul), "esses elementos da Al-Qaeda estão realmente 'sob esteróides' e pensam que nós estamos mais fracos e que eles estão mais fortes. (...)

"Eles querem expulsar o Ocidente do Médio Oriente e tomar o poder nesses países muçulmanos e criar uma entidade religiosa à imagem da Al-Qaeda (...) e, se nós alguma vez mordermos o isco e tentarmos voltar para casa e transformar a América numa fortaleza, haverá outros 11 de Setembro."

Na momento em que esta coluna for publicada, a América poderá já ter sido atingida. E no entanto, não será já tempo de colocar a Al-Qaeda em perspectiva e examinar se a nossa política no Médio Oriente está a criar mais terroristas do que aqueles que estamos a matar?

Em 2010, a América perdeu 15 cidadãos devido ao terrorismo. Treze deles morreram no Afeganistão. O pior ataque resultou no assassinato de seis americanos numa missão médica cristã na província de Badakhshan.

E no entanto, em 2010, nem uma morte aqui na América resultou de terrorismo.

Naquele ano, porém, 780 mil americanos morreram de doenças cardíacas, 575 mil de cancro, 138 mil de doenças respiratórias, 120 mil em acidentes (35 mil em acidentes de automóvel), 69 mil de diabetes, 40 mil induzidas por drogas, 38 mil por suicídio, 32 mil por doenças do fígado, 25 mil por mortes induzidas pelo álcool, 16 mil por homicídio e 8 mil pelo HIV/SIDA.

Será o terrorismo o assassino que mais devemos temer, nele investindo a parte de leão dos nossos recursos de combate?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

7 coisas com que estou mais preocupado do que com um ataque terrorista

A propósito da "chuva" de notícias quanto à "iminência" de ataques terroristas (num timing muito conveniente para uma administração fortemente abalada por sucessivos escândalos, em particular o da revelação da extensão das actividades de espionagem interna sobre a generalidade dos seus próprios cidadãos), e com a permissão de Robert Wenzel (que há pouco mais de um ano atrás foi convidado a dar uma palestra na Reserva Federal de Nova Iorque), de seguida traduzo o seu post de hoje (ontem) - 7 Things I Am More Concerned About Than a Terrorist Attack:
"O que estou a fazer na sequência do novo alerta terrorista lançado pelo governo dos EUA? Absolutamente nada.

A probabilidade de vir a ser alvo de um ataque terrorista é inferior a 0,0000000001%. Todavia, há coisas com que estou realmente preocupado:
  1. Com o caminhar pelas ruas, noite dentro, com medo de ser assaltado por jovens praticamente iletrados saídos de uma escola pública, que são impedidos de dar os primeiros passos para conseguir um emprego, devido às leis do salário mínimo.
  2. Com o Obamacare que outra coisa não irá fazer que não seja introduzir o socialismo no sector médico e, em última análise, conduzir ao declínio da esperança de vida nos EUA.
  3. Com o crescimento do estado de vigilância. Edward Snowden tinha toda a razão ao salientar que aquilo que temos é um estado  que, de um momento para o outro, pode mudar a agulha da espionagem para a tirania. Essa mudança não ocorreu, ainda, de uma forma que impacte com a maioria de nós. Mas é uma mudança que pode acontecer a qualquer momento.
  4. Com os negócios crony capitalist/governo que sufocam o sistema de mercado livre e movimentam mais poder para as mãos dos crony capitalists, que se alimentam cada vez mais à conta do estado.
  5. Com o activismo das operações por parte do governo para silenciar os whistleblowers e outros desmascaradores de actividades governamentais ( Bradley Manning, Edward Snowden, Julian Assange), de modo a tornar mais difícil de compreender aquilo que o governo anda a fazer.
  6. Com a emissão de moeda por parte da Reserva Federal que pode levar à explosão de uma muito forte inflação a qualquer momento.
  7. Com a emissão de moeda por parte da Reserva Federal resultando numa economia manipulada que leva a economia a entrar em cíclicos estados maníaco-depressivos.
Estes são todos perigos reais criados pelo estado. Quando o estado nos adverte para um potencial ataque terrorista, tenham em mente o que o estado está a fazer-nos diariamente - coisas que têm um impacto muito real sobre as nossas vidas diárias. O estado representa uma ameaça muito maior para nós que uma probabilidade inferior a 0,0000000001% de sermos afectados directamente por um ataque terrorista.

Aqui fica o meu alerta: TEMAM O ESTADO, ELE ESTÁ-NOS ATACANDO AGORA."

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A escalada da tragédia síria

Obama Escalates Syria’s Civil War é o título de mais um dos lúcidos artigos de Patrick J. Buchanan contra a tentação (e a prática) imperial dos EUA que resultou da instalação dos neocons nos corredores do poder. Não há - e de há muito que sabe ser assim - qualquer diferença na política externa (e interna) de Obama face à de George W. Bush. Só palas partidárias e uma cegueira e surdez incuráveis podem impedir esse reconhecimento (veja-se, por exemplo, esta notícia de ontem, esta outra de há uns dias ou ainda esta, em versão "animal feroz" na ausência de teleponto).

A "guerra ao terror" de Bush (na realidade, começada ainda por Clinton no Afeganistão) deu nisto: US drops demand Taliban renounce al-Qaeda to allow talks to progress e Afeganistão rompe negociações com os Estados Unidos. Não admira que Obama não se preocupe com a presença em força de terroristas entre os rebeldes que decidiu agora (como antes na Líbia) ajudar directamente com armas. Em nome de quê? Em nome de quê? Ou será que alguém acredita nisto? Se há, que reflicta nesta asserção famposa de Benjamin Franklin: "Those who would give up essential liberty to purchase a little temporary safety deserve neither liberty nor safety."

A tradução, algo livre, do artigo de Pat Buchanan é da minha responsabilidade.
Barack Obama acaba de dar os seus primeiros passos numa guerra na Síria que podem definir e destruir a sua presidência.

Na quinta-feira, enquanto festejava com os foliões LGBT o Mês do Orgulho Gay, um funcionário, Ben Rhodes, informou a imprensa na Casa Branca que irão ser fornecidas aos rebeldes sírios armas americanas.

Durante dois anos, Obama manteve-se fora desta guerra sectária/civil que já consumiu 90 mil vidas. Por que está entrando nela agora?

A Casa Branca alega ter agora provas que Bashar Assad usou gás sarin para matar 100-150 pessoas, desta forma ultrapassando uma "linha vermelha" que Obama tinha estabelecido como factor de "mudança de jogo". Desafiado, com a credibilidade contestada, ele tinha que fazer alguma.

No entanto, a alegada utilização por Assad de gás sarin para justificar a intervenção dos EUA, mais parece constituir um pretexto para entrar na guerra que uma racionalização para nela participar.

Porque a Casa Branca decidira intervir semanas atrás, antes da utilização do gás sarin ter sido confirmada. E por que razão teria Assad usado apenas minúsculos vestígios? Onde está a evidência fotográfica dos mortos desfigurados?

Que provas temos de que não foram os rebeldes que forjaram a utilização de gás sarin ou que o usaram eles próprios para conseguir que os crédulos americanos entrassem na sua guerra?

E todavia, por que razão o Presidente Obama, cuja orgulhosa jactância assenta na promessa de que ele nos irá desemaranhar das guerras do Afeganistão e do Iraque, tal como Dwight Eisenhower com a Guerra da Coreia, iria mergulhar-nos numa nova guerra?

Ele tem estado sob severa pressão política e internacional para fazer algo depois de Assad e o Hezbollah terem recapturado a cidade estratégica de Qusair e começado a preparar-se para recapturar Aleppo, a maior cidade.

Caso Assad tenha sucesso, isso significaria uma derrota decisiva para os rebeldes e seus apoiantes: os turcos, os sauditas e qataris. E isso significaria uma vitória geoestratégica para o Irão, o Hezbollah e a Rússia, que provaram constituir aliados confiáveis.

Para evitar essa derrota e humilhação, vamos agora enviar armas e munições para manter o controlo dos rebeldes sobre território suficiente para negociar uma paz que venha a remover Assad.

terça-feira, 18 de junho de 2013

De Bush a Obama, do Iraque à Síria: intervencionismo fútil e destruidor

Ron Paul já não é membro da Câmara dos Representantes mas continua a manter uma presença cívica notável, nomeadamente e quanto a questões de política externa, através do novel Instituto para a Paz e Prosperidade a que empresta o seu nome. Nesse âmbito, anteontem, Ron Paul produziu uma declaração pública a propósito da decisão de Obama de fornecer, oficialmente, armas aos rebeldes sírios. A Síria é um atoleiro, como talvez até Recep Erdogan já terá compreendido. Outros só o compreenderão quando o desastre assumir proporções ainda mais calamitosas e finalmente se derem conta - mais uma vez - da futilidade da intervenção externa (apesar da propaganda que alguns títulos tentam transparecer). A tradução do texto é minha.
O presidente Obama anunciou na semana passada que a "comunidade" dos serviços de informações dos EUA acabara de estabelecer que o governo sírio usou gás venenoso em pequena escala assim matando cerca de 100 pessoas numa guerra civil que já levou à perda de cerca de 100 mil vidas. Devido a esta utilização de gás, alegou o presidente, a Síria havia cruzado a "linha vermelha" e, como tal, os EUA têm de começar a armar os rebeldes que lutam pelo derrube do governo sírio.

Deixando de lado a questão do porquê de 100 mortos por meio de gás serem algo mais importantes do que os 99900 mortos por outros meios, a verdade é que a sua explicação tem tantos furos quanto um passador. O Washington Post noticiou esta semana que a decisão de, publicamente, fornecer armas aos rebeldes sírios foi tomada "há semanas atrás". Por outras palavras, foi tomada num momento em que a comunidade dos serviços de informações não acreditava, "com um alto grau de confiança", que o governo sírio tivesse usado armas químicas.

Mais: este plano de cedência de armas aos rebeldes sírios tornara-se a política adoptada muito mais cedo que isso, como noticiava o Washington Post informando que a CIA havia expandido ao longo do ano passado as suas bases secretas na Jordânia para preparar a transferência de armas para os rebeldes na Síria.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A desnudação do império e do seu imperador

Discurso de Obama aos novos diplomados da Universidade Estatal do Ohio, no Ohio Stadium, em 5 de Maio de 2013, em Columbus, Ohio. Desse discurso, destaca-se o seguinte trecho (tradução minha):
PRESIDENTE OBAMA: «Infelizmente, vocês cresceram ouvindo vozes que, incessantemente, alertam que o governo nada mais é do que uma espécie de entidade sinistra e separada que está na raiz de todos os nossos problemas. Algumas destas mesmas vozes também fazer o seu melhor para tudo estragar. Eles advertem que a tirania está sempre à espreita ao virar da esquina. Vocês devem rejeitar essas vozes. Porque o que elas sugerem é que a nossa experiência única, corajosa e criativa, de autogoverno de alguma forma não passa de um logro em que não se pode confiar.

Nós nunca fomos um povo que colocasse toda a nossa confiança no governo para resolver os nossos problemas. Nem deveríamos desejar tal coisa. Mas também não achamos que o governo seja a fonte de todos os nossos problemas. Porque entendemos que esta democracia é nossa. E, como cidadãos, entendemos que não se trata de saber o que poderá a América fazer por nós, mas sim o que pode ser feito por nós, em conjunto, através do trabalho duro e frustrante, mas absolutamente necessário do autogoverno. E, classe de 2013, vocês têm que estar envolvidos nesse processo.»
Apenas uns dias depois, iniciou-se uma torrente de escândalos que ontem culminaram (?) com a divulgação de uma monstruosa e inominável operação de espionagem à escala das dezenas de milhões de... cidadãos americanos que, como apropriadamente aqui se escreve, fariam Richard Nixon corar de vergonha de tal modo que mesmo o obamaniaco New York Times, em editorial, assinale: "Mr. Obama is proving the truism that the executive branch will use any power it is given and very likely abuse it". Pois é. Mesmo um Prémio Nobel (da Paz, calcule-se). Mesmo um ex-professor de direito constitucional. Nada mudou depois de Bush. Ou por outra: afinal, no domínio da liberdade, tudo piorou com Obama.

Por um qualquer alinhamento astral ditado pelos deuses, tudo isto se acontece quando se iniciou esta semana o julgamento (?) do whistleblower e, esse sim verdadeiro herói, Bradley Manning, acusado de traição por ter ajudado (!) o inimigo (através do The Guardian, do New York Times, do El Pais, do le Monde e da Der Spiegel, via Wikileaks) divulgando factos inconvenientes para as administrações americanas. Vergonha!

sábado, 20 de abril de 2013

A retórica de Obama, o atentado de Boston e o curioso Glenn Beck

Ainda há bem pouco tempo, em mais uma tentativa para desarmar a população civil (à boa maneira do que todos os regimes totalitários fizeram), ouvimos Obama afirmar: "Weapons of war have no place on our streets". No caso, Obama não estava a abranger como "armas de guerra" nem as panelas de pressão utilizadas no atentado de Boston nem o tipo de faca usada para apunhalar uma quinzena de pessoas numa universidade texanaLone Star College). Em qualquer caso, do pouco que ainda conhecemos, se é que alguma vez viremos a saber o que realmente se passou, o que me parece de reter foi a dimensão gigantesca e absolutamente desproporcionada da reacção das autoridades - na realidade, impondo um estado de sítio a uma cidade com perto de um milhão de habitantes - uma escala mais própria de uma ficção que se julgava distópica.

Em plena cacafonia informativa que a cada um caberá navegar, confesso que fiquei intrigado com esta ameaça reacção do curioso Glenn Beck (via EPJ). Na próxima 2ª feira, veremos se com algum real conteúdo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Prémio Nobel da Paz, o Executor-em-chefe, o complexo militar-industrial e a destruição do estado de direito

John Whitehead, presidente do Instituto Rutherford, instituição americana de defesa dos direitos civis a quem já me referi no post A polícia do Pré-crime e do Pensamento na América de Obama, assina mais uma importantíssima mensagem de alerta para com as consequências letais de uma política externa de imperialismo policial que tem o seu zénite no recurso cada vez mais generalizado aos drones para assassinar opositores (reais ou imaginários) dos EUA.

Este é um tema a que regresso frequentemente pois, ao contrário de muitos, subscrevo a tese de Whitehead, que já Ron Paul defende de há muito, que a ilegalidade constitucional, o apagamento do Congresso e o descartar do Judicial vêm conferindo ao Executivo um poder irrestrito que, fatalmente, se repercutirá no próprio território americano. É de uma seriíssima gravidade o que se vem passando. É esta a razão que me levou a tentar proporcionar um acesso mais amplo ao artigo de Whitehead, através de tradução da minha responsabilidade.
Quando Barack Obama ascendeu à presidência em 2008, havia um sentimento, pelo menos entre aqueles que nele votaram, de que o país poderia mudar para melhor. Aqueles que assistiram, chocados, com o modo como o presidente Bush ia erodindo as nossas liberdades civis ao longo dos seus dois mandatos pensaram que talvez este jovem e carismático senador do Illinois viesse mudar o rumo e pôr fim a algumas das piores transgressões da administração Bush - a detenção por tempo indefinido de suspeitos de terrorismo, a tortura, as prisões secretas [black site prisons] e as guerras intermináveis ​​que drenavam os nossos recursos, apenas para citar algumas.

Poucos anos mais tarde, aquela fantasia provou ser apenas isso: uma fantasia. Na verdade, Barack Obama não só continuou o legado de Bush, mas levou-o à sua conclusão lógica. Como presidente, Obama foi para além da Baía de Guantánamo, para além do espiar dos e-mails e telefonemas dos americanos, e para além foi quanto ao bombardeio de países sem autorização do Congresso. Ele agora reivindica, como foi revelado num memorando do Departamento de Justiça, graças a uma fuga de informação, o direito a assassinar qualquer cidadão americano, em qualquer lugar no mundo, desde que tenha a sensação de que eles possam, em algum momento no futuro, representar uma ameaça para os Estados Unidos.

Digiramos o que precede: o Presidente dos Estados Unidos da América acredita que tem o direito absoluto de o matar a si com base em "provas" secretas segundo as quais você pode ser um terrorista. Não apenas ele acha que o pode matar, como acredita que tem o direito de o fazer em segredo, sem o acusar formalmente de qualquer crime e sem lhe proporcionar a oportunidade de se defender perante um tribunal. A culminar tudo isso, o memorando afirma que essas decisões quanto a quem matar não estão sujeitas a qualquer reexame judicial.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Por detrás do encobrimento de Benghazi

Patrick J. Buchanan, em Behind the Benghazi Cover-up, termina assim o seu artigo de ontem, publicado na The American Conservative (minha tradução):
Porque é que a Casa Branca persistiu  na falsa história de ter sido um protesto contra um vídeo a causa da morte do embaixador Stevens, quando não podia deixar de saber que não tinha havido protesto algum?

A explicação mais plausível é que a verdade - que estávamos sendo atingidos  pelo pior ataque terrorista desde o 11 de Setembro, numa cidade que salvámos - teria exposto a vanglória de Obama quanto ao seu triunfo na Líbia e da Al-Qaeda estar "em fuga" e "em vias de ser derrotada" como mera propaganda absurda.

A Al-Qaeda está agora na Líbia, no Mali, no Iémen, na Síria, no Iraque e no Paquistão.

E a epidemia de motins anti-americanos em todo o mundo muçulmano, com as eleições da Primavera Árabe levando ao poder regimes islâmicos, testemunha a verdade real. Após quatro anos de Obama, é a América que está em fuga do Médio Oriente .

Mas não podemos deixar que as pessoas o descubram até 6 de Novembro.

Daí a tentativa de encobrimento do que se passou em Benghazi.
Nota: é bom que os EUA estejam de saída do Médio Oriente. Para todos.