sábado, 7 de setembro de 2013

Mas afinal de quem é esta guerra?

É a pergunta que Patrick J. Buchanan formula em mais um artigo em que defende vigorosamente a auto-exclusão dos EUA de um envolvimento na guerra civil Síria que grassa há mais de dois anos - "Just Whose War Is This?". Neste artigo, Buchanan foca importante aspectos internos dos EUA que raramente são focados. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"Na Quarta-feira [dia 4 de Setembro], John Kerry disse ao Senado para não se preocupar com o custo de uma guerra americana na Síria.

Os sauditas e os árabes do Golfo, confortados com um rotundo barril de petróleo, vendido aos consumidores americanos a 110 dólares, irão pagar a conta dos mísseis Tomahawk.

Será que chegámos a isto - soldados, marinheiros, fuzileiros e aviadores norte-americanos, agindo como mercenários de sheiks, sultões e emires, quais Hessianos [mercenários de Hessen, Alemanha] da Nova Ordem Mundial, contratados para levar a cabo a matança pelos sauditas e pela realeza sunita?

Ontem [5ª feira], também, surgiu um relatório espantoso no Washington Post.

A Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas [link] juntou-se com o lobby israelita AIPAC [link] numa campanha pública a todo o gás em favor de uma guerra dos EUA contra a Síria.

Marvin Hier do Centro Simon Wiesenthal e Abe Foxman da Liga Anti-Difamação invocaram o Holocausto, tendo Hier acusado os EUA e a Grã-Bretanha de não terem conseguido salvar os judeus em 1942.

No entanto, se a memória for útil, em 1942 os britânicos estavam a combater Rommel no deserto e os americanos recolhiam ainda os seus mortos em Pearl Harbor e morriam em Bataan e Corregidor.

A Coligação Judaica-Republicana, também financiada por Sheldon Adelson, o magnata do casino de Macau, cuja preocupação pelas crianças que sofrem na Síria é uma espécie de lenda, está também a apoiar a guerra de Obama.

Adelson, que desembolsou 70 milhões de dólares para derrubar Barack, quer a sua recompensa - a guerra à Síria. E ele está a consegui-la. O Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, e o líder da maioria, Eric Cantor, já a saudaram e nela se alistaram. Sheldon, o mais rico de todos os ricos financiadores políticos, está a comprar uma guerra para si próprio.

E todavia, será realmente inteligente que organizações judaicas coloquem um selo judeu numa campanha para arrastar a América para uma guerra que a maioria de seus compatriotas não quer travar?


Além do mais, esta guerra tem tudo para ser um descalabro. Se ela vier, uma nação dividida será liderada por um tímido e hesitante comandante-em-chefe que faz com que Adlai Stevenson se pareça com Stonewall Jackson.

O chefe do Comando Conjunto das forças armadas, general Martin Dempsey, está a ter dificuldades até mesmo na definição da missão. Enquanto Obama diz que vai ser um ataque rápido de horas, um "ataque de aviso", John McCain diz que a resolução do Senado autoriza ataques vigorosos, ajuda letal aos rebeldes e uma campanha para derrubar Bashar al-Assad.

Se o Partido Republicano apoiar esta guerra, ele será o dono desta guerra.

E o envolvimento dos EUA não será de dias, mas terá uma duração indeterminada. E se o nosso poder for desencadeado, o nosso prestígio e o estatuto de superpotência irão atrás.

Se os rebeldes vierem a perder, perderemos. E se forem os rebeldes a ganhar, quem ganhará?

Serão os mesmos jihadistas que acabaram de bombardear aquela aldeia cristã e que aterrorizaram aquele convento de freiras cristãs?

Serão os mesmos rebeldes que vimos na primeira página do New York Times, de 5ª feira, prestes a executar, ao estilo Einsatzgruppen, soldados sírios em cativeiro, esquecendo-se apenas de assegurar que as vítimas dos seus crimes de guerra começassem primeiro por cavar as suas próprias sepulturas?

Será que o Partido Republicano deseja realmente tomar como sua uma guerra que poderá acabar por colocar a Al-Qaeda no poder ou a ocupar santuários na Síria?

Quer realmente a comunidade judaica dos EUA ser responsável por iniciar uma guerra que venha a terminar com dois milhões de sírios cristãos a enfrentar um destino não muito diferente daquele que tiveram os judeus da Polónia?

Acerca do debate sobre esta guerra, há um aspecto do absurdo.

É-nos dito que temos de punir Assad por ter matado sírios através de gás, mas não queremos que o regime de Assad caia. O que suscita uma pergunta: quantos sírios teremos de matar com os mísseis para ensinar Assad que ele não pode matar mais nenhuns sírios com gás? Com artilharia, tudo bem. Com gás, não.

Quantos sírios teremos de matar para restaurar a credibilidade do nosso confuso presidente que agora diz não ter sido ele quem traçou a tal "linha vermelha" das armas químicas; foi o mundo que a traçou quando proibiu tais armas.

No entanto, esta afirmação pode proporcionar a Obama uma maneira de sair de uma crise criada pelo próprio sem que tenha que começar uma guerra para salvar a face.

O Irão e a Rússia concordam que foram usadas armas químicas. Vladimir Putin disse que a Rússia apoiará uma acção militar contra aqueles que as usaram. Os russos puseram a circular um documento de 100 páginas que imputa a utilização ocorrida em Março último de armas químicas aos rebeldes. Os turcos teriam interceptado pequenas quantidades de sarin destinados aos rebeldes. Já nós afirmamos haver provas sólidas de que o regime de Assad autorizou e utilizou armas químicas.

Por que não dizer aos russos para se reunirem connosco no Conselho de Segurança [da ONU] onde facilmente provaremos o nosso caso?

Se pudermos, e o fizermos, teremos um muito maior apoio para agir e para aplicar sanções colectivas do que agora temos. E se provarmos o nosso caso e a ONU nada fizer, teremos aprendido algo de útil a respeito da comunidade internacional.

Mas a ideia de proceder ao lançamento de mísseis baseando-nos em provas que não iremos revelar acerca da utilização pela Síria de armas químicas, ataques que permitirão o progresso da causa dos terroristas da Al-Qaeda que mataram 3.000 de nós e que estão ansiosos para matar mais ainda, seria um acto de tal estupidez paralisante que não se pode crer que mesmo este grupo conscientemente o cometesse."

2 comentários:

Miguel Loureiro disse...

Contra todas as desumanidades (TODAS!), obrigado pelo contributo de racionalidade argumentativa e histórica.
Vou fazer link

Antonio Cristovao disse...

havendo um pouco mais de trabalho na informação devemos ter presente o papel de experts e consultores americanos e ingleses junto de algumas? dos países? da peninsula do petroleo-porque será que o Barhein deixou de ser noticia?
Seria educativo ter informação séria sobre estes "laços" Israel/Londres/NY +Qatar & Ca.
Não é justo sermos como o corno.