terça-feira, 17 de setembro de 2013

Matt Ridley: O pessimismo deslocado de Sir David Attenborough

Já em tempos alinhavei no EI (por exemplo, aqui) algumas linhas sobre o marco histórico - que ocorreu por volta de 1800 - que permitiu, por razões ainda hoje acerrimamente discutidas entre académicos, ultrapassar o que se costuma designar por armadilha malthusiana. Refiro-me ao resultado de um conjunto de circunstâncias - entre outras, as Revoluções Industrial e Agrícola, o desenvolvimento de novas instituições, a expansão e defesa dos direitos de propriedade e, segundo Deirdre [ex-Donald] McCloskey, da "vitória dos valores éticos burgueses" - que vieram a permitir a ocorrência, em simultâneo, de um espantoso aumento populacional acompanhado de uma ainda mais extraordinária melhoria nas condições de vida das populações (ainda que de forma muito assimétrica na linha do tempo).

Independentemente do peso relativo de cada um dos factores "explicativos" para a evolução verificada na explosão demográfica e no rendimento per capita não creio que haja dúvida de que a impressionante evolução tecnológica, que continua em aceleração, ocupará um lugar muito importante na explicação do dinamismo económico que se verifica, sustentadamente, de há pouco mais de duzentos anos para cá. (E todavia os "modelos" econométricos fogem do "factor tecnológico", como o diabo da cruz - de facto, como modelar a mente humana? - o que, por si só, deveria ser suficiente para descartar a sua utilidade prática para efeitos futuros).

O profundo pessimismo que Thomas Malthus veiculava - compreensível com o olhar então contemporâneo para tudo o que (não) se passou nos milénios anteriores - continua hoje vivíssimo, em boa medida associado ao culto da Mãe Natureza e do espantalho do "esgotamento de recursos" e concomitante abominação, implícita quanto não explícita, da espécie humana que, a não ser sustida no seu crescimento, melhor, sem garantir o seu (radical) decréscimo, porá fim ao objecto de culto e, posteriormente, do própria espécie humana.

Creio que Sir David Attenborough não subscreve integralmente (pelo menos, de modo público) as teses catastrofistas, sucessivamente desmentidas pela realidade, de um Paul Ehrlich ou de uma Rachel Carson e das legiões dos seus seguidores. Não obstante, ainda que de uma forma mais subtil e visualmente muito mais atraente, Attenborough tem feito passar ao longo dos anos uma espécie de "nostalgia por antecipação" nos seus documentários/séries que, naturalmente, procura suscitar "tomadas de consciência" e uma "urgência em fazer algo" (por parte dos governos, evidentemente) para prevenir a destruição da Mãe Natureza. No texto que se segue (minha tradução e meus realces), Matt Ridley, autor do famoso "O O[p]timista Racional" explica que há razões bastantes, já hoje, para que Sir David Attenborough pelo menos atenue o seu pessimismo e que, não obstante a sabedoria (?) convencional, não há incompatibilidade entre crescimento económico e conservação/desenvolvimento da natureza, bem pelo contrário.
Numa acção de promoção da sua iminente nova série acerca da evolução dos animais, Sir David Attenborough afirmou, numa entrevista esta semana, pensar ser impossível que possa ocorrer uma redução da população humana durante este século e que "temos sorte em estar a viver agora, porque as coisas irão piorar". As pessoas irão olhar para trás, daqui a 100 anos, "para um mundo que estava menos apinhado de gente, que estava cheio de maravilhas naturais e que era mais saudável".

É uma opinião comum, a dele, que eu em tempos partilhei. Ele deseja que as pessoas desfrutem dos espaços abertos e das abundantes manadas de caça que ele tem tido a felicidade de observar. Para que isso possa suceder, ele acha que é vital que se reduza a população humana.

De um modo muito polido, diria que eu agora discordo, de forma apaixonada, das duas premissas da sua argumentação. É realmente muito provável, ao invés de impossível, que a população esteja a diminuir nos finais deste século e é igualmente bastante provável que as pessoas nessa altura vivas venham a dispor de mais regiões selvagens para explorar e de mais fauna para admirar relativamente ao que sucede hoje.

A taxa de crescimento da população mundial reduziu-se sensivelmente a metade, tendo passado de mais de 2% por ano na década de 1960 para cerca de 1% agora. Até mesmo o número total de pessoas, que anualmente se soma à população anual, tem vindo a cair de há perto de 30 anos para cá. Se estas reduções continuarem, esse número chegará a zero por volta de 2070 - daqui a pouco mais de 50 anos. Nas últimas décadas, a taxa de natalidade baixou em todo um mundo. A fertilidade no Bangladesh passou de quase 7 filhos por mulher em 1960 para pouco mais de 2 hoje; no Quénia, de 8 para 4.5; no Brasil, de 5.7 para 1.8; no Irão, de 6.8 para 1.9; na Irlanda, de 3.9 para 2.

Ainda faz parte da sabedoria convencional que a única maneira de conseguir diminuir o crescimento demográfico implica agir maldosamente para com as pessoas, embora por motivos nobres. Seria necessário necessário coagi-las, suborná-las, envergonhá-las ou educá-las para terem menos filhos contrariando as suas preferências. Um país - a China -, reduziu de facto a sua taxa de natalidade com medidas coercivas sob a forma da política do filho único. Outro - a Índia -, tentou introduzir a esterilização forçada na década de 1960, em troca de ajuda alimentar dos Estados Unidos, mas [o seu Governo] foi derrotado pelo protesto popular e pela democracia, factores desconhecidos na China.

No entanto, em todos os outros países, o controlo voluntário da natalidade provou ser uma arma mais eficaz que a coerção, e a taxa de natalidade desceu igualmente de forma rápida. Isto sucedeu porque aconteceram coisas boas: crescimento económico, emancipação feminina e, acima de tudo, a conquista da mortalidade infantil. Contanto que as mulheres tenham algum tipo de acesso aos meios de controle de natalidade, um dos melhores factores preditivos de uma taxa de natalidade decrescente é uma taxa de mortalidade infantil em queda. Logo que as crianças parem de morrer na infância, as pessoas passam a planear famílias menos numerosas. Assim que pensem que as suas crianças irão sobreviver, começam a investir nelas, em vez de optar por ter mais filhos.



É possível ver isto nas estatísticas. Não há nenhum país do mundo com uma taxa de mortalidade infantil abaixo de 10 por cada 1000 nascimentos que tenha uma fertilidade maior que 3 filhos por mulher; enquanto que todos os países, excepto um (Suazilândia), que têm uma taxa de mortalidade infantil acima de 100 têm uma também uma fertilidade acima de 4.5. Mantenham-se as crianças vivas e o crescimento demográfico diminuirá.

É por isso que a recente e pronunciada queda da mortalidade infantil em África é uma tão boa notícia para Sir David e outros que partilham as suas preocupações. Graças ao rápido crescimento económico, melhor governação e muito melhor saúde pública, especialmente contra a malária, a maioria dos países africanos está agora a experimentar reduções na mortalidade infantil de 5% ou mais por ano, um ritmo que é muito mais rápido do que aconteceu na década de 1990. Estas reduções serão com toda a segurança em breve seguidas, tal como a noite se sucede ao dia, por uma queda ainda mais rápida das taxas de natalidade.

A Europa, a Ásia e a América Latina já fizeram esta transição e a maioria dos países está a "produzir" bebés à taxa de reposição (ou abaixo) de 2.2 filhos por mulher, altura em que a população estabiliza (sem imigração). A África, durante tanto tempo tida como um caso especial ("bicudo"), está a seguir-lhes o exemplo de uma forma praticamente idêntica.

Só por este último motivo, suspeito que a população mundial vá parar de crescer e começar a diminuir até antes de 2070 e quase de certeza ainda neste século. Mas mesmo que isso não venha a acontecer, há uma boa razão para tranquilizar Sir David de que os nossos netos terão mais vida selvagem para observar do que ele teve. Num engenhoso estudo levado a cabo por cientistas da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, foi recentemente calculado que mesmo com a população a continuar a crescer, e mesmo que as pessoas comam mais alimentos e, especialmente, mais carne, é quase certo que já passámos "o pico de terra cultivada", devido ao ritmo a que os fertilizantes estão a melhorar a produtividade agrícola. (Ou tê-lo-íamos conseguido não fossem os projectos de biocombustíveis.) Vamos alimentar nove ou dez mil milhões de pessoas em 2070 a partir de uma área cultivada consideravelmente menor da que precisamos para alimentar sete mil milhões hoje.

A poupança de terras já está a ocorrer em grande escala. A cobertura florestal está a aumentar em muitas partes do mundo, da Escócia ao Bangladesh. As populações de animais selvagens estão a florescer na Europa (veados, ursos, javalis, lontras), nas regiões polares (morsas, focas, pinguins, baleias) e na América do Norte (perus, coiotes, bisontes, gansos) e isto está a acontecer ao ritmo mais rápido nos países mais ricos. De acordo com um recente relatório, as populações de animais cresceram 6% na Europa, América do Norte e no norte da Ásia entre 1970 e 2012, enquanto diminuíam nas regiões tropicais. Há uma correlação quase perfeita entre a gravidade dos problemas conservacionistas e a pobreza, porque quanto mais ricas forem as pessoas menos tentarão viver da terra e competir com a natureza, e menos procurarão carne de caça e carvão vegetal na floresta.

Uma vez mais, de África pode surgir uma surpresa agradável. Ao longo das últimas quatro décadas, a produtividade agrícola em África quase não se alterou enquanto dobrava ou quadruplicava na maior parte da Ásia. Isso deve-se quase inteiramente a uma escassez de fertilizantes, situação que está a começar a alterar-se. Se os rendimentos agrícolas africanos aumentassem, a área dedicada ao cultivo a nível mundial iria começar a decrescer a um ritmo ainda mais rápido, libertando mais e mais terra para um "retorno à vida selvagem". As grandes manadas e bandos que tanto prazer dão a Sir David voltariam a surgir em cada vez mais locais. A conclusão feliz a retirar é que fazer com que as pessoas melhorem a sua situação e possibilitar um "regresso" à natureza são objectivos que não se opõem, andando antes de mãos dadas.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

apoiado. os catastrofistas teoricos têm minado mais a defesa da natureza que os derrames do Golfo. E apos um inicio com grande redução da mortalidade infantil + esperança de vida as sociedade param o aumento da população e melhoram a gestão dos espaços.