segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Eric Margolis: Síria - o objectivo último é o Irão

Eric Margolis, escreve que o "Buldózer americano está pronto para começar a rolar" e crê haver fortes razões para supor que o objectivo último é o Irão como aliás Wesley Clark publicamente já tinha deixado nas entrelinhas. A tradução é da minha autoria.

Importante (e inteligente) desenvolvimento de última horaRússia pede à Síria para entregar arsenal químico para evitar ataque dos EUA.
"Recordando os massacres e destruição durante a guerra da independência da Grécia durante a década de 1820 do Império Otomano, Victor Hugo escreveu na altura: "Os turcos passaram por aqui. Está tudo está em ruínas e todo o mundo está de luto".

Hoje, as nações em ruínas e sob luto são o Iraque, o Sudão, o Afeganistão e, em menor grau, a Líbia, todos desmembrados ou divididos pela força do poderoso Império americano ["American Raj"].

A Síria é claramente o alvo seguinte do buldózer imperial americano. Após dois anos de uma brutal rebelião, armada e financiada pelos EUA e seus aliados regionais, a Síria enfrenta agora a devastação.

A campanha de ataques aéreos e de mísseis irá esmagar a força aérea síria, os tanques, a artilharia e as comunicações. Israel está preparado para esquadrinhar as ruínas da Síria.

Pura comédia negra. Roubando desavergonhadamente a propaganda da administração Bush, a Casa Branca de Obama tem vindo de facto a advertir que as armas químicas sírias (a maioria das suas matérias-primas proveniente da Europa) representam uma ameaça terrível para os Estados Unidos. A Síria adquiriu armas químicas para enfrentar o grande arsenal de armas nucleares de Israel, originalmente fornecidas pela França.

Não actuar equivalerá a um outro apaziguamento à la Munique, adverte Obama. Mas o Congresso dos EUA não podia agir porque ainda estava de férias de Verão.

O presidente Obama até concedeu que não havia urgência em agir. O importante era, segundo declarou, que a "credibilidade" dos Estados Unidos estava em jogo. Os políticos invocam a credibilidade como uma desculpa depois de terem cometido um enorme erro - em especial, as insensatas "linhas vermelhas" de Obama na Síria que encurralaram o presidente num beco [numa box] criado por ele mesmo.



O que estamos a presenciar é a mais recente versão da nova era do colonialismo e do imperialismo do século XXI, devidamente retocada com um fervor a evocar os Cruzados.

Hoje, o eufemismo favorito é a intervenção humanitária, mas a música continua a mesma. A Síria não tem a ver com gás venenoso ou com direitos humanos: trata-se de uma guerra por interposição contra o Irão, a única nação que é agora capaz de desafiar uma dominação militar total dos EUA e de Israel, no Médio Oriente.

Para a França, trata-se de reafirmar o seu antigo domínio colonial na Síria e no Líbano.

Em 1857, um padeiro chinês em Hong Kong tentou envenenar o superintendente do comércio britânico. O parlamento britânico foi convocado para votar sobre a retaliação contra a China. A votação não foi favorável. Mas logo depois um novo parlamento composto por mais conservadores votou pela guerra.

A França apressou-se a aliar-se à Grã-Bretanha, invocando o assassinato de um missionário francês. A Rússia e os EUA juntaram-se-lhe igualmente. A Segunda Guerra do Ópio tinha começado. A China foi rapidamente derrotada pelas potências ocidentais e foi forçada a abrir os seus portos ao comércio dos beligerantes e a começar a consumir ópio altamente viciante, cultivado no Império Britânico da Índia.

Olhe-se para os acontecimentos actuais na Síria a esta luz histórica em vez de sob toda a indignação com as armas químicas. De resto, uma vez que aquele estranho culto japonês, Aum Shinrikyo, conseguiu produzir gás Sarin caseiro (eu perdi por pouco o seu ataque no metro de Tóquio) como é que vamos saber quem realmente lançou o gás na Síria?

Bem mais importante, o Congresso dos EUA tem vindo a ser seriamente corrompido pelo dinheiro dos interesses especiais - e esta é uma forma suave de colocar as coisas. De que outra forma conseguiriam os banqueiros de Wall Street escapar da punição pelas suas egrégias fraudes financeiras e pelo roubo?

Agora, outros abastados interesses especiais na América estão fazendo rufar os tambores da guerra e a manipular os seus representantes no Congresso. Israel está a pressionar fortemente os EUA para destruir o seu velho rival a Síria - o que significaria derrubar o último estado árabe capaz de oferecer resistência militar, mesmo que modesta, a Israel.

Assim, parece provável que a próxima votação do Congresso possa aprovar uma "limitada". Mas recordam da "mission creep" [tendência para uma operação militar aumentar o seu âmbito inicial] dos dias do Vietname? Estimativas anteriores de uma designada campanha aérea "limitada" contra o Irão apontavam para mais de 3.200 alvos a serem atingidos repetidamente.

E quem vai governar a Síria depois que o presidente Bashar Assad ser deposto ou morto? Hoje, o Iraque, a Líbia e o Afeganistão dificilmente oferecem um exemplo promissor da democracia Washington.

Washington ainda está a tentar descobrir o que aconteceu na Herzegovina - não está pronta para a complexidade enlouquecedora da Síria. De facto, eu apostaria que a maioria dos membros do Congresso dos EUA não conseguiria localizar a Síria num mapa. Os contribuintes comuns americanos, mostram as sondagens, estão totalmente contra ainda mais uma alegre guerrinha que não tem nenhum sentido, nem estratégia de saída, e que apenas oferece caos e confusão.

Mas o buldózer americano continua simplesmente a rolar."

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Por enquanto ainda é o Assad o melhor protector das fronteiras de Israel. Os ingleses já tinham decidido : prometer tau-tau mas deixar o pau no ar.O Irão é demais para agora.