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terça-feira, 17 de março de 2015

Quem de facto combate o Estado Islâmico no terreno

Foram as constantes interferências de ordem externa que transformaram grande parte do Médio Oriente no atoleiro letal que hoje conhecemos. Primeiro, pelo retalhar da história e geografia milenar através da criação de fronteiras totalmente arbitrárias após o fim do império Otomano. Depois, porque o controlo da incrível riqueza em petróleo da zona tudo justificava. Um dos marcos desse intervencionismo foi o golpe que em 1953 depôs o democraticamente eleito Mohammed Mossadegh no Irão e instalou no trono Reza Pahlavi (uma "teoria da conspiração" finalmente reconhecida pela CIA, 60 anos depois). Em 1979, com a fuga do Xá e a instalação de um regime para-teocrático, o Irão passou a ser demonizado, guerreado, ostracizado, e sujeito a pesadas sanções económicas. Com o apoio explícito dos EUA - logístico, militar e de informações - Saddam Hussein atacou o Irão (também com armas químicas que, como a CIA igualmente confirmaria, eram do perfeito conhecimento americano), daí resultando uma guerra que durou oito anos (1980-1988) e causou 400 mil mortos. Com George W. Bush, o Irão foi catalogado como pertencente a um "eixo do mal" que tem persistido até hoje, reforçado com novos membros. Como os neocons nunca esconderam, o Irão é o "grande prémio".

Não deixa portanto de ser irónico que da 2ª guerra do Iraque tenha resultado um fortalecimento de facto da posição estratégica do Irão, ou, talvez melhor, do Islão xiita. Como não deixa de ser do domínio do factual que são os xiitas, e em particular Assad (aqui, numa entrevista recente à RTP), quem de facto tem combatido no terreno essa entidade difusa que dá pelo nome de Estado Islâmico bem como as diversas declinações da Al-Qaeda na região como é o caso da Frente al Nusra. É esta a leitura, lúcida e serena como é habitual, que Pat Buchanan faz da situação actual ao deflectir a retórica tonitruante dos neocons e de Netanyahu, também preocupado com a sua própria sobrevivência no poder em Israel, que tudo estão a fazer para torpedear as negociações em curso com o Irão relativas ao seu programa nuclear.

10 de Março de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Patrick J. Buchanan
América, temos um problema.

No sangrento e caótico Médio Oriente, salvo raras excepções como a dos curdos, os nossos amigos ou não conseguem ou não querem combater.

O Exército Livre da Síria claudicou. As forças do movimento Hazm na Síria, armadas pelos Estados Unidos, desmoronaram-se depois de serem alvo da perseguição pela Frente al Nusra. O exército iraquiano, treinado e equipado por nós, fugiu de Mosul em grande debandada até Bagdad. Os turcos poderiam aniquilar o ISIS na Síria, mas não irão combater. A Arábia Saudita e os países árabes do Golfo enviaram zero militares para combater o ISIS. Ficaram-se por um punhado de ataques aéreos.

Consideremos agora o que os nossos velhos inimigos já fizeram e estão a fazer.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"

Recordo-me com razoável nitidez dos tempos em que a RTP, anos a fio, "informava" diligentemente os seus telespectadores das sucessivas "vitórias" dos "exércitos" do Vietname do Sul e do Cambodja de Lon Nol e das impressionantes baixas consistentemente infligidas aos vietcongs. Com o desaparecimento da Indochina francesa - Vietname, Cambodja e Laos -, os EUA tentaram instalar em seu lugar uma pax americana. O resultado é conhecido e dele ressalta, pela dimensão do horror indizível, o regime genocida de Pol Pot (que, por uma das ironias da História, só viria a ser derrubado pelo Vietname comunista).

Hoje já não vejo televisão. Também talvez por isso creio ajustados os paralelos que o veterano jornalista John Pilge estabelece entre a "criação" de Pol Pot e a do que hoje conhecemos por Estado Islâmico, ISIS/ISIL, e do "exército" iraquiano sem concluir pela paternidade comum. As acções têm consequências e muitas das vezes - as mais das vezes? - produzem efeitos inesperados, indesejáveis e até mesmo contraproducentes para com os objectivos de quem as iniciou. No texto que procurei traduzir (onde inseri imagens e links da minha responsabilidade) são invocados vários testemunhos a que é impossível ficar indiferente. Como esquecer estas palavras de Madeleine Albright ao programa 60 Minutos quando tacitamente aceita atribuir ao bloqueio iraquiano a causa da morte de meio milhão de crianças e ter a temeridade de afirmar que "foi um custo que valeu a pena incorrer"? Como ignorar estas declarações de Roland Dumas (antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros sob François Mitterand), proferidas no ano passado na TV francesa, para entender a guerra terrível que dura há 3 anos e meio na Síria? Ou não merece isto, literalmente visível da janela da Turquia, a urgente retirada de conclusões?
Por John Pilge
8 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"
(From Pol Pot to ISIS: “Anything that flies on everything that moves”)

Quando transmitiu as ordens do presidente Richard Nixon para o bombardeamento "maciço" do Cambodja em 1969, Henry Kissinger disse: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova".

Agora que Barack Obama desencadeou a sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir uma nostalgia da honestidade assassina de Kissinger.

Enquanto testemunha das consequências humanas da selvajaria aérea - incluindo a decapitação das vítimas, cujos pedaços ornamentavam as árvores e os campos - não estou surpreendido pela desconsideração, uma vez mais, pela memória e pela história. Um exemplo revelador é o da ascensão ao poder de Pol Pot e dos seus Khmers Vermelhos, que tinham muito em comum com Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) dos dias de hoje. Também eles foram implacáveis ​​medievalistas que começaram por ser uma pequena seita. Também eles foram o produto de um apocalipse de fabrico americano, no caso na Ásia.

Foto do The Guardian
De acordo com Pol Pot, o seu movimento consistia em "menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto à estratégia, táctica, lealdade e líderes a seguir". Iniciados os bombardeamentos pelos B-52 de Nixon e Kissinger como parte integrante da "Operação Menu", o demónio supremo do Ocidente mal podia acreditar na sua sorte.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

5 minutos de sanidade contra 100 anos de bombardeamentos

Uma brilhante intervenção de George Calloway na Câmara dos Comuns, em 26-09-2014, protestando contra a participação do Reino Unido em mais uma campanha de bombardeamentos no Médio Oriente, agora em pretexto da luta contra uma criatura - o "Estado Islâmico" - criada e alimentada nos bombardeamentos precedentes. O absurdo de mais esta insanidade está também magistralmente enunciada aqui


Via LRC

sábado, 13 de setembro de 2014

"A guerra para todo o sempre", por Pat Buchanan

Uma das maiores dificuldades, impossível de contornar, na compreensão dos fenómenos sociais foi apontada pelo francês Frédéric Bastiat, uma das grandes figuras do liberalismo do século XIX, no seu famoso conjunto de ensaios coligido sob o título de "Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas" (O que se vê e o que não se vê), publicado em 1850. Referindo-se à matéria económica, Bastiat explicava como a parte invisível, "submersa" e diferida no tempo dos fenómenos, poderia até ser mais importante que aquela que se apresenta imediatamente visível aos olhos de todos.

O artigo de Pat Buchanan que me propus hoje traduzir (imagens e links meus) ilustra bem, creio, esta ideia. Obama, tudo o indica, decide entrar numa nova guerra porque (convenientemente?) surgiram uns vídeos no YouTube (e portanto na televisão) coreografando a decapitação de dois jornalistas americanos pelo "Estado Islâmico". Sem surpresa, a comoção no mundo ocidental, e nos EUA em particular, foi de generalizado horror pelo barbarismo das imagens (mas acaso esta imagem será menos bárbara?). Daqui resultou a inversão da opinião americana, aferida pelas sondagens, relativamente à participação no atoleiro mortal em que se transformou a Síria. Aparentemente, o que se viu (o que se deu a ver?) produziu os seus efeitos e tornou dispensável uma ponderação de médio e longo prazos. Obama bin Laden, onde quer que esteja, não poderá deixar de sorrir.
Por Patrick J. Buchanan
12 de Setembro de 2014

A guerra para todo o sempre
(The Forever War)

A estratégia que o presidente Obama anunciou na quarta-feira à noite para "degradar e finalmente vir a destruir o grupo terrorista conhecido como ISIL", é incoerente, inconsistente e, em última análise, não credível.

Patrick J. Buchanan
Há um ano atrás, Obama e John Kerry estiveram entusiasticamente à beira de lançar ataques aéreos contra o presidente sírio, Bashar al-Assad, devido à sua alegada utilização de armas químicas para "matar o seu próprio povo".

Mas quando os americanos se ergueram como um todo exigindo ficar de fora do conflito na Síria, Obama rapidamente fez desaparecer a sua "linha vermelha" e anunciou uma nova política de não envolvimento nas "guerras civis de outros".

Agora, depois de vídeos das decapitações de dois jornalistas norte-americanos terem incendiado a nação, o presidente, lendo as sondagens, fez uma nova pirueta.

Agora, Obama quer conduzir o Ocidente e o mundo árabe directamente para a guerra civil da Síria. Só que, desta vez, iremos bombardear o ISIL e não Assad.

Quem fornecerá as legiões que Obama irá envolver para esmagar o ISIL na Síria? O Exército Livre da Síria, os mesmos rebeldes que foram derrotados uma e outra vez e cujas possibilidades de derrubar Assad foram ridicularizadas pelo próprio Obama em Agosto último como sendo uma "fantasia"? O ELS é uma força de "antigos médicos, agricultores, farmacêuticos e assim por diante", zombou o presidente.

Agora, Obama pretende que o Congresso autorize o dispêndio de 500 milhões de dólares destinados a treinar e armar aqueles médicos e farmacêuticos e a enviá-los para o combate contra um exército de terroristas jihadistas que acaba de se apoderar de um terço do Iraque.

Antes que o Congresso vote um cêntimo que seja, deverá obter algumas respostas.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O inimigo do meu inimigo tornou-se inimigo do meu amigo

A incapacidade de reconhecer os erros cometidos e assumir as respectivas responsabilidades é uma característica excessivamente comum nos políticos para reduzir estas declarações de Tony Blair a um mero caso do foro psiquiátrico. A mentira das "armas de destruição maciça" não foi no essencial diferente - à excepção, talvez, da sua escala - dos "incidentes" do Golfo de Tonkin, da explosão a bordo do USS Maine no porto de Havana ou do bombardeamento do Fort Sumter entre inúmeros outros exemplos. Mas a História ensina-nos que os Impérios não são eternos e, a meu ver, os acontecimentos recentes no Iraque são já extremamente parecidos com a última fase da guerra do Vietname (que começou com os franceses, recorde-se). Por muitas "linhas vermelhas" que se tracem (em caso de conveniência, já se vê). E não é que não tenha havido avisos prévios do que aí viria (um bom exemplo de avivar de memória pode ser lido aqui).

Com tradução de minha responsabilidade (tal como as imagem e os links introduzidos), o texto abaixo de Eric Margolis fornece uma narrativa que, infelizmente sem surpresa, não encontro eco nem nos media nem na blogosfera portuguesa. Também aqui as pistas para o que está a suceder no Médio Oriente remontam aos tempos da I Guerra Mundial e às maquinações imperiais das "Grandes Potências".
14 de Junho de 2014
Por Eric Margolis

Iraque: o caos todo-poderoso

Eric Margolis
O falecido Saddam Hussein tinha realmente razão quando previu que a invasão americana do Iraque se iria tornar na "mãe de todas as batalhas". Onze anos depois, a batalha continua.

Nesta semana, assistimos ao colapso de duas divisões do exército governamental do Iraque, 30 mil homens correndo como galinhas diante do avanço implacável dos combatentes do ISIS - Estado islâmico do Iraque e do Levante (Síria). O mesmo exército fantoche que foi treinado e equipado durante uma década pelos EUA pela soma de 14 mil milhões de dólares. Um mau augúrio para aquilo que aguarda o exército e a polícia do Afeganistão, também eles criados pelos EUA.

Recordam-se de quando o presidente George W. Bush se vangloriava da "missão cumprida"? Não foi o malévolo Saddam Hussein linchado pelos aliados xiitas dos EUA? Não foi a temida Al-Qaeda derrotada e o seu líder, Osama bin Laden, assassinado? Recordam-se de todo aquele palrar proveniente de Washington para "drenar o pântano" no Iraque?

Logo que os EUA derrubam um desafiante ao seu domínio no Médio Oriente - aquilo que chamo de American Raj - há outro que se ergue. O mais recente: o ISIS, uma feroz força jihadista que agora controla grandes parcelas da Síria e do Iraque.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Iraque e Irão: aprender com os erros ou voltar a repeti-los?

Minha tradução do texto de Ron Paul, Iraq: The "Liberation" Neocons Would Rather Forget (Iraque: a "libertação" que os neocons prefeririam esquecer). Por cá, a par do cada vez mais "progressista" Público, também há quem sustente, aparentemente em quadrantes diversos, que se devia ter insistido ainda um "pouco" mais, à semelhança do que se perspectiva para o Afeganistão. Nada aprenderam. Também aqui, segundo eles, e à semelhança do dogma keynesiano, o problema não está - nunca está - na medicina, antes na dose prescrita.
5 de Janeiro de 2014

Recordam-se de Falluja? Pouco depois da invasão do Iraque, em 2003, os militares dos EUA dispararam sobre manifestantes desarmados, tendo matado pelo menos 20 pessoas e ferido dezenas de outras. Em retaliação, os iraquianos locais atacaram uma coluna de "contratados" [neste contexto, figuras entre civis e mercenários pertencentes a empresas privadas(?)] pelos militares dos EUA, matando quatro deles. Os EUA, de seguida, lançaram um ataque em força sobre Falluja para retomar o controlo, o que provocou a morte a, talvez, 700 iraquianos e praticamente à destruição da cidade.

Ron Paul
De acordo com às notícias da imprensa do passado fim-de-semana, Falluja está agora sob o controlo de grupos afiliados da Al-Qaeda. A província de Anbar, onde se localiza Falluja, está sitiada pela Al-Qaeda. Durante a "surge" ["onda"] de 2007, mais de mil militares americanos foram mortos na "pacificação" da província de Anbar. Apesar de Al-Qaeda não estar presente no Iraque antes da invasão dos EUA, ela está agora a efectuar a sua própria surge em Anbar.

Para o Iraque, a "libertação" dos EUA está a revelar-se muito pior que o autoritarismo de Saddam Hussein, e continua a piorar. O ano que passou foi o mais letal no Iraque nos últimos cinco anos. Em 2013, os combates e as explosões de bombas custaram a vida a 7.818 civis e a 1.050 membros das forças de segurança. Só em Dezembro, perto de mil pessoas foram mortas.

Lembro-me de estar presente em muitas audições no Comité de Relações Internacionais da Câmara [dos Representantes] onde se elogiava a "surge", a qual, diziam-nos, assegurou aos EUA uma vitória no Iraque. Eles também elogiaram o chamado "despertar", que foi realmente um acordo firmado com insurgentes [sunitas] para pararem de lutar em troca de dólares. Eu sempre me perguntei o que sucederia quando os dólares deixassem de surgir.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O que não se disse acerca do Iraque (e assim continua a suceder)

Pelo menos os mais antigos frequentadores do blogue terão presente o contador macabro inscrito na coluna da direita sob a epígrafe "As acções têm consequências". É raro o dia que não dou conta de por lá haver "actividade" apesar de os jornais já praticamente terem deixado de se preocupar com as notícias da trágica sucessão de mortos e feridos que não mostra sinais de abrandar (bem pelo contrário, apesar de as próprias Nações Unidas terem retirado do seu website um "contador oficial" que mantinham desde 2003). Estranhamente (<sarcasmo/>) também não dou conta que os media se interroguem quanto à súbita "calmaria" no morticínio sírio (apesar disto) logo que, numa curva inesperada e in extremis, se regressou ao lá de cá da "linha vermelha". Mas nem por isso deixa de haver quem pretenda prosseguir na tresloucada doutrina intervencionista persistindo em alcançar o "Grande Prémio": a guerra contra o Irão.

É este o tema do artigo de Ron Paul que me propus traduzir, a propósito da visita que Nuri al-Maliki, primeiro-ministro do Iraque, fez a Obama na semana passada em Washington.
Por Ron Paul
3 de Novembro de 2013

Outubro foi o mês mais mortífero no Iraque desde Abril de 2008. Nesses cinco anos e meio, não só não houve qualquer melhoria nas condições de segurança no Iraque como, pelo contrário, elas se tornaram muito piores. Mais de 1000 pessoas foram mortas no Iraque no mês passado, na sua grande maioria civis. Outras 1600 ficaram feridas, com os carros-bomba e os tiroteios a continuar a mutilar e a assassinar.

Enquanto o Iraque pós-"libertação" mergulha na espiral descendente, o primeiro-ministro Nuri al-Maliki esteve em Washington na semana passada a suplicar por mais ajuda dos Estados Unidos para ajudar a restaurar a ordem numa sociedade destruída pela invasão dos EUA em 2003. A Al-Qaeda conseguiu avanços recentes significativos e o Iraque necessita de mais ajuda militar dos EUA para combater a sua influência crescente, disse Maliki ao presidente Obama na reunião que tiveram na sexta-feira passada.

Obama prometeu trabalhar em conjunto com o Iraque para enfrentar a crescente presença da Al-Qaeda, mas o que não foi dito foi que antes do ataque dos EUA não havia Al-Qaeda no Iraque. O aparecimento da Al-Qaeda no Iraque coincidiu com a ataque dos EUA. Alegaram que tínhamos que combater o terror no Iraque, mas a invasão dos EUA resultou na criação de redes terroristas onde antes não havia nenhuma. Que desastre.

domingo, 15 de setembro de 2013

Um apelo à precaução vindo da Rússia (que terá valido a pena)

A última semana foi verdadeiramente febril quanto à evolução dos acontecimentos na Síria que culminou (?) hoje mesmo, com um notável desinteresse pouco entusiasmo dos jornais de "referência" europeus (não nos americanos), com o anúncio da celebração de um acordo entre os EUA e a Rússia, mediante o qual é aparentemente encontrada uma "saída" para a crise e evitada assim uma escalada de consequências imprevisíveis da situação que já de si era (e continua a ser) explosiva.

É impossível saber o que daqui a 20, 50 anos os livros de História registarão mas é talvez provável que façam menção a uma peça de jornal, assinada pelo ex-KGB, reincidente presidente russo vitalício em exercício (e sempre profissional) Vladimir Putin com o título "A Plea for Caution From Russia" ("Um apelo à precaução vindo da Rússia"). Um artigo que Patrick J. Buchanan classifica de "notável" (vídeo recomendado); que fez com que John Boehner, o Speaker da Câmara dos Representantes, se tivesse sentido "insultado"; que o neocon John McCain classificou como um "insulto à inteligência de cada americano" e que a outros lhes terá provocado a sensação de "vómito". Não é de admirar a reacção: Putin atreveu-se a pôr em causa o "excepcionalismo americano", uma espécie de elemento absorvente (e "absolvente") das malfeitorias feitas em seu nome...

Parecem-me motivos bastantes para justificar uma tradução do texto de V. Putin. Pro memoria.
Moscovo - Os recentes acontecimentos envolvendo a Síria impeliram-me a falar directamente ao povo americano e aos seus líderes políticos. É importante que o faça num tempo em que a comunicação entre as nossas sociedades é insuficiente.

As relações entre nós passaram por diferentes fases. Confrontámo-nos durante a guerra fria. Mas também já fomos aliados, e juntos derrotámos os nazis. A organização internacional universal - as Nações Unidas - foi então criada para evitar que uma tal devastação voltasse a acontecer.

Os fundadores das Nações Unidas compreenderam que as decisões que afectam a guerra e a paz somente devem ser tomadas por consenso, e foi com o consentimento da América que o veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança foi consagrado na Carta das Nações Unidas. A profunda sabedoria desta decisão esteve na base da estabilidade das relações internacionais ao longo de décadas.

Ninguém deseja que as Nações Unidas sofram o destino da Liga das Nações, a qual entrou em colapso porque não detinha apoio real. Mas isto poderá suceder caso países influentes ignorem as Nações Unidas e levem a cabo acções militares sem autorização do Conselho de Segurança.

O potencial ataque dos Estados Unidos à Síria, apesar da forte oposição de muitos países e de grandes líderes políticos e religiosos, incluindo o Papa, resultará em mais vítimas inocentes e numa escalada do conflito que poderá, potencialmente, alargá-lo muito para além das fronteiras da Síria. Um ataque iria aumentar a violência e desencadear uma nova onda de terrorismo. Poderia prejudicar os esforços multilaterais para resolver o problema nuclear iraniano e o conflito israelo-palestiniano e desestabilizar ainda mais o Médio Oriente e o Norte da África. Poderia desequilibrar todo o sistema internacional de lei e ordem.

A Síria não está a assistir a uma batalha pela democracia, mas a um conflito armado entre governo e oposição num país multi-religioso. Existem poucos campeões da democracia na Síria. Mas há mais do que suficientes combatentes da Al-Qaeda e de extremistas de todos os matizes a lutar contra o governo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos designou a Al-Nusra e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que lutam ao lado da oposição, como organizações terroristas. Este conflito interno, alimentado por armas estrangeiras fornecidas à oposição, é um dos mais sangrentos do mundo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Síria: uma interpretação do que aconteceu nos últimos dias

Num estilo inconfundível, o juíz Andrew Napolitano faz uma leitura interpretativa dos mais recentes acontecimentos na Síria, nomeadamente o recuo a que Obama foi obrigado (também pela sua própria e extraordinária inépcia). Como é habitual, trata-se de mais um brilhante texto por parte de Napolitano que, se possível, deve ser lido no original - "Obama’s Incompetent and Unconstitutional Case for War". A tradução que se segue, de minha responsabilidade, empalidece a qualidade do texto mas tenho esperança que possa ser, não obstante, um contributo para difundir uma interpretação dos acontecimentos (que estão longe de terem estabilizado) que é muito diferente da transmitida pelos media portugueses.
Quando o secretário de Estado John Kerry, aparentemente irritado pela falta de sono, respondeu de uma forma arrogante mas que pensava ser realista, à pergunta de um repórter numa conferência de imprensa em Londres, no fim-de-semana passado, ele dificilmente poderia imaginar qual seria a reacção do mundo. Questionado sobre se existiria alguma coisa que o presidente sírio, Bashar al-Assad, poderia fazer àquela hora relativamente tardia para evitar uma invasão americana, Kerry disse a uma audiência internacional que se Assad desistisse de todas as armas químicas que o seu governo possui, os EUA renunciariam a uma invasão.

Mas tal não constituía uma preocupação, acrescentou Kerry. Assad não irá fazer isso, e nós acabaremos por invadir a Síria de modo a cumprir a ameaça do presidente Obama. Durante dois dias, Obama manteve-se em silêncio sobre isto enquanto o seu arqui-inimigo, o presidente russo, Vladimir Putin, se colocava sob os holofotes arrogando-se da superioridade moral.

Putin, parecendo-se mais com um laureado com o Nobel da Paz do que com o assassino por que é conhecido, ofereceu-se para mediar um acordo segundo o qual o stock químico sírio seria entregue às Nações Unidas, o governo sírio poderia continuar a defender-se dos esforços da Al-Qaeda para tomar o poder, e os EUA não interviriam na Síria.

Obama é normalmente firme quanto à sua convicção de que necessita fazer valer a ameaça que proferiu no Verão passado, quando tentava superar Mitt Romney na dureza da retórica. Foi nessa altura que Obama ameaçou intervir na guerra civil da Síria se fossem usadas armas químicas pelo governo. Não obstante, e odiando o embaraço internacional que viu desabar sobre si, quando subitamente Putin parece ser mais razoável que ele, Obama admitiu à minha colega da Fox News, Chris Wallace, que a ideia inspirada por Kerry e pressionada por Putin parecia merecer ser considerada. E de seguida o governo sírio concordou.

Ainda na semana passada, o presidente argumentava que só a força militar poderia mostrar ao mundo que os EUA não falam em vão. Ainda na semana passada, ele deu-se conta que precisava de cobertura política para justificar uma invasão impopular, e por isso pediu ao Congresso autorização para invadir a Síria, mesmo sabendo que já detém a autoridade legal para ordenar uma invasão. Ainda na semana passada, enviou a sua equipa política, incluindo a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, para defender que a guerra é a única saída. E ainda na semana passada, insinuou que poderia bombardear a Síria mesmo que o Congresso dissesse que não.

O que aconteceu?

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Something is in the air

Não há maneira de saber se é apenas algo de efémero, mas não foi Putin quem fez parar os tambores de guerra. Não, foram os próprios americanos que o conseguiram assim derrotando, pelo menos para já, o Partido da Guerra (veja-se como o líder da maioria (democrata) no Senado, Harry Reid, chegou ao ponto de afirmar que "os anarquistas tomaram conta do Congresso"!!). Jon Stewart, em dois clips do programa do seu programa, do dia 10 de Setembro, ilustra bem a coisa (um pouco de paciência para os segundos iniciais de publicidade...). 



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Eric Margolis: Síria - o objectivo último é o Irão

Eric Margolis, escreve que o "Buldózer americano está pronto para começar a rolar" e crê haver fortes razões para supor que o objectivo último é o Irão como aliás Wesley Clark publicamente já tinha deixado nas entrelinhas. A tradução é da minha autoria.

Importante (e inteligente) desenvolvimento de última horaRússia pede à Síria para entregar arsenal químico para evitar ataque dos EUA.
"Recordando os massacres e destruição durante a guerra da independência da Grécia durante a década de 1820 do Império Otomano, Victor Hugo escreveu na altura: "Os turcos passaram por aqui. Está tudo está em ruínas e todo o mundo está de luto".

Hoje, as nações em ruínas e sob luto são o Iraque, o Sudão, o Afeganistão e, em menor grau, a Líbia, todos desmembrados ou divididos pela força do poderoso Império americano ["American Raj"].

A Síria é claramente o alvo seguinte do buldózer imperial americano. Após dois anos de uma brutal rebelião, armada e financiada pelos EUA e seus aliados regionais, a Síria enfrenta agora a devastação.

A campanha de ataques aéreos e de mísseis irá esmagar a força aérea síria, os tanques, a artilharia e as comunicações. Israel está preparado para esquadrinhar as ruínas da Síria.

Pura comédia negra. Roubando desavergonhadamente a propaganda da administração Bush, a Casa Branca de Obama tem vindo de facto a advertir que as armas químicas sírias (a maioria das suas matérias-primas proveniente da Europa) representam uma ameaça terrível para os Estados Unidos. A Síria adquiriu armas químicas para enfrentar o grande arsenal de armas nucleares de Israel, originalmente fornecidas pela França.

Não actuar equivalerá a um outro apaziguamento à la Munique, adverte Obama. Mas o Congresso dos EUA não podia agir porque ainda estava de férias de Verão.

O presidente Obama até concedeu que não havia urgência em agir. O importante era, segundo declarou, que a "credibilidade" dos Estados Unidos estava em jogo. Os políticos invocam a credibilidade como uma desculpa depois de terem cometido um enorme erro - em especial, as insensatas "linhas vermelhas" de Obama na Síria que encurralaram o presidente num beco [numa box] criado por ele mesmo.

domingo, 8 de setembro de 2013

A intervenção militar americana na Síria: Cui bono?

Num esforço continuado, revelador de uma energia aparentemente inesgotável, o Ron Paul Institute for Peace and Prosperity, fundado há uns meses atrás e dedicado à análise das matérias de política externa, tornou-se rapidamente numa referência para a concentração de esforços, numa lógica não partidária, para todos aqueles que acham que é imperioso pôr fim ao aventureirismo bélico americano pelos quatro cantos do mundo e, muito em particular, no Médio Oriente. Foi lá que ontem encontrei uma peça, a que atribuo grande credibilidade pela lista dos subscritores do "Memorando", e que me levou a fazer o esforço de o traduzir numa matéria que não me é suficientemente familiar. Porquê conferir credibilidade a ex-espiões, ou pelo menos a ex-insiders (link), perguntarão. Bem, entre outras razões socorro-me do relato de Daniel Ellsberg, na sua Memória sobre o Vietname e sobre os Papéis do Pentágono (livro ainda na vitrina), onde ele pôde constatar, a começar por si próprio, que os analistas profissionais do seu tempo, que trabalhavam para as sucessivas administrações americanas, convergiam praticamente todos na conclusão pela futilidade da intervenção americana no Vietname e, em particular, da escalada da guerra por Lyndon Johnson e Richard Nixon (como antes por JFK). Os políticos, esses, tinham porém planos próprios, impermeáveis à análise e à informação proveniente dos serviços de intelligence. Vejo muitos paralelos com a situação presente relativamente à Síria.

Os Profissionais de Intelligence Veteranos para a Sanidade [VIPS na sigla em inglês] emitiram um memorando dirigido ao presidente Obama desafiando directamente as alegações da sua administração sobre a utilização pela Síria de armas químicas:

MEMORANDO PARA: O Presidente

DE: Profissionais de Intelligence Veteranos pela Sanidade (VIPS)

ASSUNTO: Será a Síria uma armadilha?

Prioridade: IMEDIATA

Lamentamos informá-lo que alguns dos nossos antigos colegas de trabalho nos estão a dizer, de forma categórica, que contrariamente às afirmações da sua administração, as informações mais credíveis mostram que Bashar al-Assad não foi responsável pelo incidente químico que matou e feriu civis sírios em 21 de Agosto, e que os funcionários dos serviços secretos britânicos também sabem que assim foi. Ao escrever este breve relatório, optámos por assumir que V. não tenha sido plenamente informado porque os seus conselheiros decidiram dar-lhe a oportunidade daquilo que é comummente conhecido como "desmentido plausível".

Nós já enveredámos por este caminho noutra ocasião - com o presidente George W. Bush, a quem dirigimos os nossos primeiros memorandos VIPS, imediatamente após Colin Powell, no discurso que proferiu na ONU, a 5 de Fevereiro de 2003, em que impingiu "intelligence" fraudulenta para sustentar o ataque ao Iraque. Na altura, optámos também por dar ao presidente Bush o benefício da dúvida, pensando que ele estava a ser enganado - ou, no mínimo, muito mal assessorado.

A detecção da natureza fraudulenta do discurso de Powell não exigia particular inteligência. E assim, naquela mesma tarde, instámos veementemente o V. antecessor que "ampliar a discussão para além... do círculo daqueles conselheiros que se inclinam de forma evidente para uma guerra para a qual não vemos nenhuma razão convincente e da qual acreditamos que as consequências não intencionais poderão vir a ser catastróficas". Nós oferecemos-lhe o mesmo conselho hoje.

As nossas fontes confirmam que um incidente químico de algum tipo causou de facto mortos e feridos no dia 21 de Agosto, num subúrbio de Damasco. Elas insistem, no entanto, que o incidente não foi o resultado de um ataque do Exército [regular] Sírio utilizando armas químicas do seu arsenal. Esse é o facto mais saliente, de acordo com agentes da CIA que trabalham no tema da Síria. Dizem-nos que o director da CIA, John Brennan, está a perpetrar uma fraude do tipo pré-guerra-do-Iraque junto dos membros do Congresso, dos media, e do público - e talvez até mesmo junto de si.

sábado, 7 de setembro de 2013

Mas afinal de quem é esta guerra?

É a pergunta que Patrick J. Buchanan formula em mais um artigo em que defende vigorosamente a auto-exclusão dos EUA de um envolvimento na guerra civil Síria que grassa há mais de dois anos - "Just Whose War Is This?". Neste artigo, Buchanan foca importante aspectos internos dos EUA que raramente são focados. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"Na Quarta-feira [dia 4 de Setembro], John Kerry disse ao Senado para não se preocupar com o custo de uma guerra americana na Síria.

Os sauditas e os árabes do Golfo, confortados com um rotundo barril de petróleo, vendido aos consumidores americanos a 110 dólares, irão pagar a conta dos mísseis Tomahawk.

Será que chegámos a isto - soldados, marinheiros, fuzileiros e aviadores norte-americanos, agindo como mercenários de sheiks, sultões e emires, quais Hessianos [mercenários de Hessen, Alemanha] da Nova Ordem Mundial, contratados para levar a cabo a matança pelos sauditas e pela realeza sunita?

Ontem [5ª feira], também, surgiu um relatório espantoso no Washington Post.

A Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas [link] juntou-se com o lobby israelita AIPAC [link] numa campanha pública a todo o gás em favor de uma guerra dos EUA contra a Síria.

Marvin Hier do Centro Simon Wiesenthal e Abe Foxman da Liga Anti-Difamação invocaram o Holocausto, tendo Hier acusado os EUA e a Grã-Bretanha de não terem conseguido salvar os judeus em 1942.

No entanto, se a memória for útil, em 1942 os britânicos estavam a combater Rommel no deserto e os americanos recolhiam ainda os seus mortos em Pearl Harbor e morriam em Bataan e Corregidor.

A Coligação Judaica-Republicana, também financiada por Sheldon Adelson, o magnata do casino de Macau, cuja preocupação pelas crianças que sofrem na Síria é uma espécie de lenda, está também a apoiar a guerra de Obama.

Adelson, que desembolsou 70 milhões de dólares para derrubar Barack, quer a sua recompensa - a guerra à Síria. E ele está a consegui-la. O Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, e o líder da maioria, Eric Cantor, já a saudaram e nela se alistaram. Sheldon, o mais rico de todos os ricos financiadores políticos, está a comprar uma guerra para si próprio.

E todavia, será realmente inteligente que organizações judaicas coloquem um selo judeu numa campanha para arrastar a América para uma guerra que a maioria de seus compatriotas não quer travar?

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Da inexistência de credibilidade das administrações americanas

Ontem, Peter Klein, escrevia a propósito da (falta de) credibilidade das alegações humanitárias (!?) da administração americana para justificar o bombardeamento, unilateral, na Síria (minha tradução):
"Os EUA têm que bombardear a Síria, dizem-nos, para manter a sua "credibilidade" no palco mundial. Eu não consigo entender isso. O governo dos EUA invadiu, ocupou e desestabilizou o Afeganistão e o Iraque. O Exército dos EUA usa bombas de fragmentação, de fósforo branco, e munições de urânio empobrecido, todos elas proibidas ou desencorajadas através de tratado ou convenção internacional. O Presidente apoia a execução extrajudicial, as extradições não judiciais e a tortura, todas elas proibidas pelas Convenções de Genebra. A NSA espia os seus próprios cidadãos, em violação da lei dos EUA, e nega esse facto até ser apanhada em flagrante. Que credibilidade é possível atribuir ao governo dos EUA?"
James Bovard, por seu lado, em "We can't trust White House Syria claims", e a propósito do celebérrimo massacre de oficiais polacos, perpetrado pelo exército vermelho, ocorrido durante a II GG na floresta de Katyn, em 1940, que só o ano passado, mais de 70 anos depois(!) e mais de 20 após o fim da Guerra Fria (!!), se soube oficialmente que os EUA tinham "abafado" a verdade, faz observar que, a nada acontecer que modifique o secretismo, aliás crescente, das administrações americanas, só em 2082 os EUA admitirão a verdade sobre o caso sírio.

Vejamos, então, recorrendo à história recente, e sem invocar inúmeros exemplos de operações de false flag, que viriam a "justificar" as pré-desejadas intervenções guerreiras pela administração imperial em exercício, "Dez ataques com armas químicas que Washington não que falemos". Segue-se uma tradução minha, parcial e adaptada, deste artigo de Wesley Messamore. As  imagens têm a mesma proveniência.

1 - As forças armadas dos EUA lançaram 75 milhões de litros de produtos químicos sobre o Vietname de 1962 a 1971


Durante a Guerra do Vietname, as forças armadas dos EUA pulverizaram as florestas e terras agrícolas do Vietname e países vizinhos com 75 milhões de litros de produtos químicos, incluindo o muito tóxico Agente Laranja, para deliberadamente destruir o abastecimento alimentar, arrasar a ecologia da floresta e devastar a vida de centenas de milhares de pessoas inocentes. O Vietname estima que em resultado de uma década de ataques químicos, 400 mil pessoas tenham sido mortas ou mutiladas, 500 mil bebés tenham nascido com problemas congénitos e 2 milhões tenham sido vítimas de cancro ou outras doenças. Em 2012, a Cruz Vermelha estimou que um milhão de pessoas no Vietname são deficientes ou têm problemas de saúde relacionados com o Agente Laranja. [E, todavia, como Patrick J. Buchanan, assinalava "Depois de 58 mil mortos, saímos do Vietname. Quantos americanos mataram os vietnamitas desde que partimos?".]

2 - Israel atacou civis palestinianos com fósforo branco em 2008-2009


O fósforo branco é uma horrível arma química incendiária que faz derreter a carne humana até aos ossos.

Em 2009, múltiplos grupos de direitos humanos, incluindo o Observatório dos Direitos Humanos, a Amnistia Internacional e a Cruz Vermelha Internacional informaram que o governo israelita estava a atacar civis no seu próprio país com armas químicas. Uma equipa da Amnistia Internacional afirmou ter encontrado "provas irrefutáveis de utilização generalizada de fósforo branco" enquanto arma em áreas civis densamente povoadas. O Exército israelita negou as acusações no início, mas acabaria por vir a admitir que elas eram verdadeiras.

Após a série de acusações destas ONG, os militares israelitas chegaram mesmo a atingir o quartel-general da ONU (!), em Gaza, com um ataque químico. Que havemos de pensar de todas estas provas quando as comparamos com as do caso contra a Síria? Por que não tentou Obama bombardear Israel?

3 - Washington atacou civis iraquianos com fósforo branco em 2004


Em 2004, jornalistas "embebidos" nas forças armadas dos EUA no Iraque começaram a relatar a utilização de fósforo branco em Fallujah contra insurgentes iraquianos. Inicialmente, os militares mentiram e disseram que só estavam a usar fósforo branco para criar cortinas de fumo ou para iluminar alvos. Depois, admitiram ter usado o volátil produto químico como arma incendiária. À época, a emissora de televisão italiana RAI exibiu um documentário intitulado "Fallujah, o massacre escondido", que incluiu imagens sombrias de vídeo e fotografias, bem como entrevistas a testemunhas oculares residentes em Fallujah e a militares dos EUA que revelavam como o governo dos EUA fez indiscriminadamente chover fogo químico branco sobre a cidade iraquiana derretendo mulheres e crianças até à morte.

4 - A CIA ajudou Saddam Hussein a massacrar iranianos e curdos com armas químicas em 1988


Os registos da CIA provam agora que Washington sabia que Saddam Hussein estava a usar armas químicas (incluindo gás de nervos sarin e gás mostarda) na Guerra Irão-Iraque, no entanto, continuou a fornecer informações secretas ao exército iraquiano, informando Hussein dos movimentos das tropas iranianas sabendo que ele usaria essas informações para lançar ataques químicos. Em certo ponto no início de 1988, Washington advertiu Hussein para um movimento de tropas iranianas, que teria terminado a guerra com uma derrota decisiva para o governo iraquiano. Em Março um encorajado Hussein com novos amigos em Washington atingiu uma aldeia curda ocupada por tropas iranianas com múltiplos agentes químicos, matando cerca de 5 mil pessoas e ferindo pelo menos 10 mil mais, a maioria deles civis. Milhares de pessoas morreram nos anos seguintes de complicações, doenças e malformações congénitas.

(...)
7 - O FBI atacou homens, mulheres e crianças com gás lacrimogéneo em Waco, em 1993



No infame cerco em Waco de uma pacífica comunidade de Adventistas do Sétimo Dia, o FBI bombeou gás lacrimogéneo para dentro de edifícios sabendo que mulheres, crianças e bebés os ocupavam. O gás lacrimogéneo era altamente inflamável e acabou por dar origem a um incêndio que envolveu os edifícios em chamas levando à morte de 49 homens e mulheres e 27 crianças, incluindo bebés e crianças. De lembrar, que atacar um soldado inimigo armado num campo de batalha com bombas de gás lacrimogéneo é um crime de guerra. Que tipo de crime constitui um ataque contra um bebé com gás lacrimogéneo?

Ler o resto do artigo aqui.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Hollande, le Ridicule

Esta notícia - França quer intervir na Síria mas só se for acompanhada - é reveladora do estado do estado francês e, em particular, do seu actual presidente. Manietado pelo secular intervencionismo, os dirigentes do estado francês buscam desesperadamente oportunidades de se colocar em bicos de pés para recordar que a França não desapareceu e que continua a perseguir a sua grandeur. (Escrevi umas linhas sobre isto aqui, há um par de meses, a propósito de declínio económico do país afogado num estatismo crescente.)

Entretanto, mão amiga fez-me chegar à mão a crónica de Vasco Pulido Valente (VPV) no Público, intitulada "O ridículo mata", publicada no passado dia 24 de Agosto que, já exangue após meros 15 meses de mandato com níveis de impopularidade recorde, não encontra melhor antídoto para lidar com a gravíssima crise económica interna que intentar mais uma aventura numa ex-colónia (no caso chamaram-lhe "mandato", mas como VPV assinala, era um mero eufemismo). Transcrevo-o agora (à falta de um digitalizador) pela sua oportunidade. Uma chapelada de cartola!
«Disse ontem [Sexta-feira, 24 de Agosto] que o Ocidente se tinha mostrado cauteloso e, até certo ponto, desinteressado da guerra civil na Síria. Não me lembrei da França, que se julga desde o princípio do século XIX a entidade redentora da humanidade. Não só, segundo a ortodoxia, ensinou a liberdade aos povos, como a grande revolução de 1789-1794 (que, por acaso suprimiu qualquer vestígio de liberdade), mas serviu de modelo a Lenine e aos bolcheviques no glorioso golpe de Estado de 1917. Esta fé continua a ser essencial à cultura política do Estado e da "inteligência". Infelizmente, depois de 1815 e da derrota definitiva de Napoleão, a França nunca foi mais do que uma potência de terceira ordem; e desde o fim da II Grande Guerra perdeu mesmo a "supremacia" cultural, que sempre lhe dava algum consolo e importância.

Hoje quase desapareceu. Apesar de uma literatura incomparável, pouca gente lê a sua língua. Pátria da "haute" e da "baixa" cuisine, é agora, a seguir à América, a maior consumidora per capita da fast food do McDonalds. E o resto nem merece discussão. O que aparentemente deixa a França sem meios para afirmar a sua "grandeza". Neste compreensível desespero, o socialista François Hollande, a quem falta a pose e a oratória do general de Gaulle (e também o talento político), resolveu ressuscitar o velho belicismo do país: uma escolha tradicional, mas sem dúvida um pouco estranha, porque a França não ganha uma guerra de 1918 para cá. De qualquer maneira, o terrível Hollande, no meio de uma economia em estagnação, já se meteu na insurreição contra Kadhafi e nos conflitos do Mali. Com certeza que lhe soube bem esta espécie de "glória".

E a Síria não lhe podia ficar indiferente. Primeiro, porque foi um mandato francês (de facto, uma colónia com outro nome). Segundo, porque as barbaridades de Assad manifestamente chamavam "a grande redentora da humanidade". Enquanto as verdadeiras potências (a América, a Rússia, a China e a Inglaterra) tentavam não se imiscuir numa guerra que não compreendiam e que envolve uma apreciável parte do Médio Oriente muçulmano (o Irão, o Iraque, o Qatar e a Arábia Saudita) - Hollande proclamou o dever de punir Assad e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, pregava na televisão a necessidade de usar a "força". Como os franceses dizem, o ridículo mata.»

sábado, 31 de agosto de 2013

A mentira, a plasticidade da "prova" e a política do bombardeamento

Ontem, a Casa Branca fez divulgar um documento de 4 páginas onde foram apresentadas "provas" de que foi o regime de Assad quem levou a cabo a autoria do ataque químico no passado dia 21 de Agosto na Síria,nos arredores de Damasco. Este é o excerto relevante (tradução minha):
"Identificámos cem vídeos relativos ao ataque, muitos dos quais mostram um grande número de corpos que apresentam sinais físicos consistentes, ainda que não exclusivamente, com a exposição a agente de gás de nervos. Segundo o relato de vítimas, os sintomas incluíam perda de consciência, emissão de espuma pelo nariz e pela boca, pupilas contraídas, taquicardia e dificuldade em respirar. Vários dos vídeos mostram o que parecem ser numerosas vítimas mortais sem ferimentos visíveis, o que é consistente com a morte provocada por armas químicas, e inconsistente com a morte provocada por armas ligeiras, por munições de alto poder explosivo ou por agentes vesicantes. Há pelo menos 12 localizações distintas nos vídeos publicamente disponíveis, e uma amostragem desses vídeos confirmou que alguns deles foram filmados nas horas e locais descritos nas imagens. Consideramos que a oposição síria não tem a capacidade para forjar todos estes vídeos, bem como os sintomas físicos verificados por pessoal médico, ONGs e outras informações associadas a este ataque químico."
Temos assim que, nas palavras da própria administração americana, os EUA e a França (antiga potência colonial na zona, uma coincidência curiosa com o Vietname) do petit homme, outorgando-se a si próprios o direito de representação de uma "comunidade internacional" ainda mais exígua com a saída forçada de Cameron do elenco, estão prestes a bombardear a Síria e, com isso, a escalar um conflito para dimensões impossíveis de prever. Para isso, julgam suficientes 100 vídeos do YouTube ("publicamente disponíveis") pois, segundo a administração americana, os rebeldes (quais deles?) não teriam condições (técnicas? logísticas) para os forjar!! Nestas circunstâncias, não é de admirar que Vladimir Putin esteja a surgir como um improvável paladino da promoção da liberdade!!

Portanto, o futuro do Médio Oriente e, não é de excluir, mesmo o de todo o mundo, joga-se no YouTube e na (in)capacidade de produção e realização de vídeos. Extraordinário! Mas, se assim é, e já sem falar daquele onde se pode observar o esquartejamento de cadáveres dos oponentes para lhes comer as vísceras, por que não considerar estes outros que sugerem exactamente o envolvimento dos rebeldes e aliados dos EUA nesta história das armas químicas (para além dos democratíssimos sauditas e qataris)? Aliás, não seria a primeira vez que tal aconteceria este ano...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Pat Buchanan: "A única coisa que aprendemos da história é que não aprendemos com a história"

Nas vésperas de ainda mais outra aventura guerreira (a caminho do Irão?) sob um amplo beneplácito bipartidário, entusiasta ou complacente, Patrick J. Buchanan defende, convincentemente, que o Congresso deveria impedir o presidente Obama de iniciar a participação aberta dos EUA na guerra civil síria. Congress Should Veto Obama’s War é o título da sua mais recente peça que procurei traduzir (algo livremente).
"O Congresso não tem um conjunto muito significativo de responsabilidades fundamentais", disse Barack Obama na semana passada numa espantosa observação.

De facto, na Constituição, o Congresso aparece como o primeiro poder do estado federal. E entre os seus poderes, enumerados, estão: o poder de tributar, o de cunhar moeda, o de criar tribunais, o de promover a defesa comum, o de criar e financiar um exército, o de manter uma marinha e o de declarar a guerra.

Mas, ainda assim, talvez o menosprezo de Obama seja justificado.

Senão, considere-se o amplo assentimento do Congresso às notícias de que Obama decidiu atacar a Síria, um país que não nos atacou e contra o qual o Congresso nunca autorizou uma declaração de guerra.

Porque está Obama a fazer planos para lançar mísseis de cruzeiro sobre a Síria?

De acordo com um "alto funcionário da administração (...) que insistiu no anonimato", o presidente Bashar al-Assad usou armas químicas contra o seu próprio povo, na semana passada, em dois anos de guerra civil na Síria.

Mas quem delegou nos Estados Unidos a autoridade para andar pelas ruas do mundo a dar coronhadas em maus actores? De onde vem a autoridade para o nosso presidente imperial traçar "linhas vermelhas" e dar ordens a países para que não as cruzem?

Nem o Conselho de Segurança nem o Congresso nem a NATO nem a Liga Árabe autorizaram o lançamento de uma guerra contra a Síria.

Quem outorgou a Barack Obama o papel de Wyatt Earp da Aldeia Global?

Além do mais, onde está a prova de que foram usadas armas de destruição maciça e que só Assad pôde ter ordenado a sua utilização? Tal ataque não faz qualquer sentido.

7 países em 5 anos

Já tentei, por duas vezes, ajudar à propagação (e à memória) destas declarações de Wesley Clark, general americano, ex-comandante da NATO entre 1997 e 2000. Hoje, com a ajuda do ZH, volto a convocá-lo. Entretanto, estou a terminar de ler o livro de memórias de Daniel Ellsberg sobre a guerra do Vietname e os Papéis do Pentágono sobre o qual tenciono fazer um apontamento brevemente.