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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Uma vitória da verdade e da liberdade

Citizenfour, pseudónimo que Edward Snowden escolheu para contactar a realizadora Laura Poitras e o jornalista Glenn Greenwald (ao centro na foto) quando fugiu para Hong-Kong, foi o vencedor do Óscar para o melhor documentário em 2015. Pelo seu simbolismo, uma importante vitória na perseguição da verdade e, consequentemente, da Liberdade. O filme estreará em Portugal a 13 de Março próximo (trailer).

"Quando as decisões mais importantes são tomadas em segredo, perdemos a capacidade de fiscalizar os poderes que detêm o controlo." - Laura Poitras

Foto: daqui

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Segredos ou crimes de estado?

Com o alegado objectivo de proteger a segurança dos EUA, a CIA, com o acordo expresso do próprio George W. Bush e do seu departamento de Justiça (?!), recorreu extensiva e repetidamente às orwellianas "enhanced interrogation techniques" (técnicas aperfeiçoadas de interrogatório) a coberto da "Guerra Global ao Terrorismo" proclamada subsequentemente aos acontecimentos de 11 de Setembro.

Eis então, já depois do escândalo supostamente "localizado" de Abu Ghraib (2004), que em 2007 surge alguém - John Kiriakou - já então um ex-agente da CIA, que veio denunciar publicamente o que, sem rodeios, não passava de tortura (como o relatório do próprio Senado americano, divulgado em Dezembro último, viria a reconhecer).

Mais de sete anos decorridos, não houve um único funcionário, civil ou militar, muito menos um político, que tivesse tido que responder por essas práticas hediondas e ilegais. Nem um. O único indivíduo incriminado e preso foi justamente aquele que as denunciou. Condenado a 30 meses de prisão, Kiriakou irá agora cumprir o remanescente da sua pena (6 meses) em regime de prisão domiciliária.

Tudo isto constitui mais uma vergonha para o nobelizado Obama que ostenta o pior registo que há memória de um presidente americano contra os que denunciam os crimes cometidos a coberto da "raison d'état" e do correlativo e arbitrário segredo - os whistleblowers - incorrendo em enormes riscos pessoais. A actual administração já instruiu mais casos contra os whistleblowers que a totalidade dos presidentes que o precederam! 589 meses de prisão em 6 anos de mandato contra apenas 24 meses acumulados desde a Revolução Americana! Que o digam, para além de Kiriakou, Chelsea (ex-Bradley) Manning, Barrett Brown, Jeremy Hammond, Jeffrey Sterling, Thomas Drake, William Binney, James Risen, James Rosen, Edward Snowden e até mesmo um cidadão australiano (Julian Assange).

Segue-se uma notável entrevista a Kiriakou (com transcrição):

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

No pasa nada! Que são vinte anos, afinal?


O Tribunal e Contas da UE (European Court of Auditors) recusou apor a sua assinatura no relatório da execução orçamental de 2013 apresentada pela burocracia de Bruxelas. Há vinte anos consecutivos(!) que tal sucede sem que nada de relevante aconteça para além de palavras pias e vagas promessas de introdução de mais e melhores controlos burocracia por parte da Comissão Europeia. Coisa que parece não incomodar as consciências profissionais dos profissionais da "Europa". Nada parece assim ter mudado de substantivo desde este apontamento sugerido pela leitura do livro de Marta Andreasen que, à semelhança do que antes dela tinham feito Bernard Connolly e Paul van Buitenen, demonstra à evidência que o que se passa sob as monstruosas construções burocráticas só é (levemente?) identificado pela acção dos whistleblowers, quase invariavelmente à custa de fortíssimas penalizações pessoais. A eles devemos o (pouco) que sabemos.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"

Recordo-me com razoável nitidez dos tempos em que a RTP, anos a fio, "informava" diligentemente os seus telespectadores das sucessivas "vitórias" dos "exércitos" do Vietname do Sul e do Cambodja de Lon Nol e das impressionantes baixas consistentemente infligidas aos vietcongs. Com o desaparecimento da Indochina francesa - Vietname, Cambodja e Laos -, os EUA tentaram instalar em seu lugar uma pax americana. O resultado é conhecido e dele ressalta, pela dimensão do horror indizível, o regime genocida de Pol Pot (que, por uma das ironias da História, só viria a ser derrubado pelo Vietname comunista).

Hoje já não vejo televisão. Também talvez por isso creio ajustados os paralelos que o veterano jornalista John Pilge estabelece entre a "criação" de Pol Pot e a do que hoje conhecemos por Estado Islâmico, ISIS/ISIL, e do "exército" iraquiano sem concluir pela paternidade comum. As acções têm consequências e muitas das vezes - as mais das vezes? - produzem efeitos inesperados, indesejáveis e até mesmo contraproducentes para com os objectivos de quem as iniciou. No texto que procurei traduzir (onde inseri imagens e links da minha responsabilidade) são invocados vários testemunhos a que é impossível ficar indiferente. Como esquecer estas palavras de Madeleine Albright ao programa 60 Minutos quando tacitamente aceita atribuir ao bloqueio iraquiano a causa da morte de meio milhão de crianças e ter a temeridade de afirmar que "foi um custo que valeu a pena incorrer"? Como ignorar estas declarações de Roland Dumas (antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros sob François Mitterand), proferidas no ano passado na TV francesa, para entender a guerra terrível que dura há 3 anos e meio na Síria? Ou não merece isto, literalmente visível da janela da Turquia, a urgente retirada de conclusões?
Por John Pilge
8 de Outubro de 2014

De Pol Pot ao ISIS: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova"
(From Pol Pot to ISIS: “Anything that flies on everything that moves”)

Quando transmitiu as ordens do presidente Richard Nixon para o bombardeamento "maciço" do Cambodja em 1969, Henry Kissinger disse: "Tudo o que voe, contra tudo o que se mova".

Agora que Barack Obama desencadeou a sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir uma nostalgia da honestidade assassina de Kissinger.

Enquanto testemunha das consequências humanas da selvajaria aérea - incluindo a decapitação das vítimas, cujos pedaços ornamentavam as árvores e os campos - não estou surpreendido pela desconsideração, uma vez mais, pela memória e pela história. Um exemplo revelador é o da ascensão ao poder de Pol Pot e dos seus Khmers Vermelhos, que tinham muito em comum com Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) dos dias de hoje. Também eles foram implacáveis ​​medievalistas que começaram por ser uma pequena seita. Também eles foram o produto de um apocalipse de fabrico americano, no caso na Ásia.

Foto do The Guardian
De acordo com Pol Pot, o seu movimento consistia em "menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto à estratégia, táctica, lealdade e líderes a seguir". Iniciados os bombardeamentos pelos B-52 de Nixon e Kissinger como parte integrante da "Operação Menu", o demónio supremo do Ocidente mal podia acreditar na sua sorte.

sábado, 11 de outubro de 2014

Por que é importante a privacidade

Glenn Greenwald estilhaça a usurpação do dito "quem não tem nada a esconder, não teme" para tentar justificar a tolerância, complacência e submissão perante o Estado de Vigilância e, em consequência, a aceitar o fim da privacidade de cada um de nós, o mesmo é dizer, da Liberdade. De caminho não poupa, como Julian Assange, estrelas do firmamento cibernético como Eric Schmidt (ex-CEO e actual Chairman da Google) ou Mark Zuckerberg (CEO da Facebook) de facto coniventes com a ilegal e maciça recolha cega de dados sem que para tal exista mandado judicial ou, sequer, "causa provável".


Um excelente fim-de-semana!

terça-feira, 29 de abril de 2014

Em defesa da internet e da liberdade

Uma entrevista (legendada em português do Brasil) centrada na substância das revelações da espionagem maciça e ilegal por parte de agências de informações governamentais, entre as quais a NSA, que as acções de Edward Snowden já permitiram documentar (e irá haver ainda mais segundo o próprio). Que, após Manning (condenado a 35 anos de cadeia num processo de que se não conhecem vítimas), e Assange (há quase dois anos confinado à embaixada do Equador em Londres), só em Moscovo Snowden tenha encontrado um lugar de fuga ao braço policial americano é algo, a meu ver, terrivelmente revelador. (Filmado em Março passado talvez já antevendo o merecido Pulitzer)


Transcrição da entrevista: aqui

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Uma vasta conspiração bem real, desta vez não precedida de nenhuma "teoria"

Tenho, com frequência e não menos veemência, procurado fazer eco da atenção que se exige a todo o amante da liberdade para o progressivo caminhar em direcção a Estados de Vigilância cuja sofisticação e, sobretudo, abrangência indiscriminada fariam uma qualquer STASI ficar roxa de inveja. Tal como já tinha sucedido com o caso Manning, também Edward Snowden mereceu entre nós muito mais acinte que aplauso e, lamento dizê-lo, não apenas nos media do mainstream, o que já se esperaria, mas também na generalidade da blogosfera e, claro está, da esmagadora maioria da intelligentsia doméstica. Parece-me evidente existir uma relação entre a extrema leniência com que a cobertura destes casos foi tratada e tem sido tratada com o facto de o actual ocupante da Casa Branca ser quem é.

Ao nível dos estados europeus a hipocrisia com que têm tratado as revelações de Snowden é imensurável. Depois dos "arroubos" iniciais quanto ao carácter "intolerável" da espionagem levada a cabo pela NSA a residentes - e politicos! - desses países, eis que rapidamente se percebeu que realmente de meros arrufos se tratavam passadas umas semanas. Pois se até se ficou a saber que a NSA espiava por conta de serviços secretos europeus! Como de costume em matérias de "indignação", a França, pela voz do locatário do Eliseu, foi das primeiras e mais contundentes na retórica. Viu-se, agora mesmo, o que ela valia. Uma vergonha. (Ver, a propósito, o contundente e certeiro post de Gabriel Silva).

Perceba-se, de uma vez, que este não é um assunto próprio dos que se interessam pelo exotismo americano. Diz-nos respeito a todos, ou pelo menos àqueles que se opõem à servidão. Que este texto do juiz Andrew Napolitano possa contribuir para melhor esclarecer o que está em causa. Foi com esse intuito que o procurei traduzir.
«Os leitores desta página estão bem cientes das revelações que se foram sucedendo nos últimos seis meses sobre a espionagem levada a cabo pela Agência de Segurança Nacional (NSA). Edward Snowden, um ex-empregado de um fornecedor da NSA, arriscou a vida e a liberdade para nos informar da existência de uma conspiração governamental para violar o nosso direito à privacidade, um direito garantido pela Quarta Emenda.

Andrew P. Napolitano
A conspiração que ele revelou é vasta. Envolve o antigo presidente George W. Bush, o presidente Obama, membros dos seus gabinetes, cerca de uma dúzia de membros do Congresso, juízes federais, gestores e técnicos de empresas americanas de computadores servidores e de telecomunicações, e milhares de empregados da NSA e dos seus fornecedores que manipularam os seus companheiros de conspiração. Todos os conspiradores concordaram entre si que qualquer deles cometeria um crime caso revelasse a conspiração. O sr. Snowden violou esse acordo de modo a respeitar o seu juramento de ordem superior de defender a Constituição.

O objectivo da conspiração é o de emascular todos os americanos e muitos estrangeiros quanto ao seu direito à privacidade a fim de prever o nosso comportamento e tornar mais fácil encontrar aqueles que entre nós estão a planear provocar o mal.

Uma conspiração é um acordo entre duas ou mais pessoas para cometer um crime. Os crimes consistem na captura de mensagens de correio electrónico, SMS e telefonemas de todos os americanos, no seguimento dos movimentos de milhões de americanos e de muitos estrangeiros através do sistema GPS nos seus telemóveis, na apreensão dos registos bancários e das facturas dos serviços das utilities [electricidade, gás, água, etc.] da maioria dos americanos em violação directa da Constituição, e em pretender estar a agir no quadro da lei. O pretexto é que o Congresso de algum modo terá reduzido o padrão para definir espionagem que está estabelecido na Constituição. É, obviamente, inconcebível que o Congresso possa mudar a Constituição (só os estados o podem fazer), mas os conspiradores queriam fazer-nos acreditar que isso tivesse sucedido.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Greenwald: "A NSA armazena dados para poder visar todo o cidadão, a todo o momento"

Uma espécie de um intolerável "pós-cog" que, como Greenwald explicitamente adianta (e Eric Margolis aqui antecipava), iremos em breve perceber que a sua expansão vai bem para além daquela que já é conhecida.

sábado, 5 de outubro de 2013

Quando o entrevistado dá uma lição de jornalismo e verticalidade à entrevistadora

O entrevistado é Glenn Greenwald que se pronuncia sobre o "caso" Edward Snowden e, portanto, sobre as actividades de espionagem (domésticas e internacionais) da NSA, mas também sobre o GHCQ (o equivalente da NSA no Reino Unido). Imprescindível ver para quem pretender melhor discernir o que é e como age um jornalista verdadeiramente independente e corajoso perante o Estado de vigilância, mesmo quando é directamente visado por este (via EPJ).


Leitura complementar: Why the NSA's attacks on the internet must be made public

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Admirável Estado de Vigilância

A Lavabit, criada há nove anos, tinha por objecto de negócio prestar um serviço de correio electrónico, em modo seguro, por recurso a encriptação do tráfego que assegurava. À data do seu encerramento (anunciado aqui pelo seu proprietário e gerente executivo, Ladar Levison, no dia 8 de Agosto passado, por sua decisão), tinha mais de 400 mil utilizadores entre os quais, ao que parece, se encontrava Edward Snowden.

Sucede que, devido ao facto de a prestação do seu serviço inviabilizar a espionagem por parte da NSA, Levison foi pressionado a colaborar com aquela agência em termos que a lei americana não permite divulgar, como explica na comunicação que então endereçou aos seus utilizadores e que motivou a sua decisão de "suspender as operações" (cuja tradução, da minha responsabilidade, veiculo abaixo).

Sucede que, extraordinariamente (?), a decisão de encerrar as operações estará a ser tida por "ilegal" e "criminosa". George Orwell cruzou-se com Joseph Heller e o resultado é uma monstruosidade híbrida, real, de "1984" e "Catch 22". E se o leitor por acaso pensa que este é um problema essencialmente americano, tenha presente que Julian Assange, cidadão australiano, continua sitiado na embaixada do Equador em Londres. Acrescente-se a isso o facto de as autoridades policiais britânicas terem exercido o seu poder discricionário de deter uma pessoa (por "mero acaso" ligada a Glen Greenwald e, portanto, a Edward Snowden), durante nove horas, impedindo-a de contactar um advogado, por "suspeita" de ligações terroristas. E que, finda a sua detenção, não havendo lugar a qualquer tipo de acusação se arrogam o direito de arrestar os seus pertences (aqui).
Meus Caros Utilizadores

Fui forçado a tomar uma difícil decisão: tornar-me cúmplice de crimes contra o povo americano ou abandonar quase dez anos de trabalho árduo através do fecho da Lavabit. Após uma significativa introspecção, decidi suspender as operações. Gostaria de poder partilhar convosco, de forma legal, os acontecimentos que levaram à minha decisão. Mas não posso. Sinto que merecem conhecer o que está a acontecer - seria suposto que a primeira emenda me assegurasse a liberdade para falar em voz alta em situações como esta. Infelizmente, o Congresso aprovou leis que dizem o contrário. Na situação actual, não posso partilhar as minhas experiências ao longo das últimas seis semanas, apesar de eu ter, por duas vezes, formulado os pedidos apropriados.

O que vai acontecer agora? Nós já começámos a preparar a documentação necessária para continuar a lutar pela Constituição no Tribunal de Recursos do 4º Círculo. Uma decisão favorável permitir-me-ia ressuscitar a Lavabit como uma empresa americana.

Esta experiência ensinou-me uma lição muito importante: sem a intervenção do Congresso ou sem que ocorra um forte precedente judicial, gostaria de veementemente recomendar que ninguém confie os seus dados privados a uma empresa com ligações físicas aos Estados Unidos.

Melhores cumprimentos,

Ladar Levison
Proprietário e operador, Lavabit LLC

Defender a constituição é dispendioso! Ajude-nos fazendo uma doação ao Fundo de Defesa Legal da Lavabit aqui.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O incidente do Golfo de Tonkin, as mentiras e o elogio ao whistleblower que as pôs a nu

Na 4ª feira desta semana, Barack Obama foi ao programa de Jay Leno (vídeo e transcrição da entrevista aqui). A certa altura, afirmou: "Nós não temos um programa de espionagem doméstica. O que temos são alguns mecanismos através dos quais podemos seguir o rasto de um número de telefone ou de um endereço de email que nós sabemos estar de algum modo ligado a alguma espécie de ameaça terrorista". Espantoso! Apenas algumas semanas após Edward Snowden (por exemplo, aqui)!

No texto que se segue, Ellberg's Lessons For Our Time, que procurei traduzir o melhor que soube, publicado em 1 de Maio de 2008, James Bovard, um colunista frequente da American Conservative recorda uma das reflexões de Daniel Ellsberg que, creio, pode ajudar à compreensão da lógica que preside a uma tal descarada declaração do presidente americano em exercício: "a concentração de poder no Executivo desde a II Guerra Mundial tinha focado praticamente toda a responsabilidade pelo "fracasso" político sobre um homem, o presidente. Em simultâneo, isso deu-lhe uma enorme capacidade para evitar ou adiar ou ocultar um fracasso pessoal através da força ou da fraude. Confrontado com uma resistência externa resoluta, como aconteceu no Vietname, esse poder não poderia deixar de corromper o homem que o detinha."

O meu objectivo é, porém, ajudar a melhor compreender o papel insubstituível (e heróico) dos whistleblowers o aproveitando o aniversário de uma das muitas operações de false-flag (o incidente do Golgo de Tonkin). A bem da verdade.
Daniel Ellsberg
Daniel Ellsberg é o tipo de americano que deveria receber uma Medalha da Liberdade. Só que as Medalhas da Liberdade são distribuídas por presidentes que rotineiramente as atribuem aos "idiotas úteis" e apologistas das suas guerras e tomadas de poder. Ela devia ser renomeada para Medalha pela Capacitação ou Aplauso de Crimes Oficiais em Nome da Liberdade.

Ellsberg, conscientemente, arriscou passar uma vida na prisão para levar a verdade sobre a Guerra do Vietname aos americanos. Ele tinha tido a esperança que a verdade libertaria os americanos do feitiço das mentiras oficiais. Mas a experiência no Iraque indica que os americanos pouco ou nada aprenderam com os logros da era do Vietname.

Flora Lewis, uma colunista do New York Times, escrevendo três semanas antes do 11 de Setembro, comentava numa recensão a um livro sobre as mentiras do governo dos EUA relativas à Guerra do Vietname, "Provavelmente nunca haverá um retorno à discrição, na verdade, conluio, com o qual os media costumavam lidar com os presidentes, e é melhor que assim seja". Mas, poucos meses após o seu comentário, os media provaram ser tão cobardes como sempre.

No ano seguinte, saía o livro de Ellsberg - "Secrets: A Memoir of Vietnam and the Pentagon Papers". Eu deveria ter lido este livro antes de escrever o capítulo "Lying and Legitimacy" de "Attention Deficit Democracy". As amargas experiências de Ellsberg teriam refreado o meu idealismo juvenil. O seu livro foi publicado numa época em que os americanos ainda tendiam a ver Bush através da santa névoa do 11 de Setembro. As suas mentiras sobre o Iraque só vieram a ser amplamente reconhecidas depois da queda de Baghdad e da não materialização das armas de destruição maciça.

Ellsberg conta a história de como ele, enquanto antigo tenente dos Marines com um doutoramento pela Universidade de Harvard, foi contratado por John McNaughton, assistente do Secretário da Defesa, e começou a trabalhar, em Agosto de 1964, no dia em que a crise do Golfo de Tonkin eclodiu. Ele relata a recepção dos despachos por telegrama emitidos pelo navio de guerra USS Maddox.

Poucas horas após o destroyer dos EUA ter informado que estava a ser atacado por lanchas torpedeiras norte-vietnamitas [PT boats, no original], o comandante do navio telegrafara para Washington que os relatos de um ataque contra o seu navio podiam ter sido muito exagerados: "Toda a acção deixa muitas dúvidas".

Imagem wikipedia
Mas isso não importava, porque este foi apenas o pretexto que Lyndon Johnson estava à procura. Johnson e o Secretário da Defesa, Robert McNamara, apressaram-se a anunciar que o ataque tinha sido não provocado. Mas, numa reunião do Conselho de Segurança Nacional na noite em que o primeiro relatório chegou, quando Johnson perguntou, "Será que eles querem a guerra ao atacar os nossos navios no meio do Golfo de Tonkin?" o chefe da CIA, John McCone, respondeu:
Não. Os norte-vietnamitas estão reagindo defensivamente ao nosso ataque às suas ilhas ao largo da costa. Eles estão respondendo por questões de orgulho e na base de considerações de defesa.
O facto era que os Estados Unidos tinham orquestrado um ataque de comandos sul-vietnamitas em território norte-vietnamita antes do alegado conflito ter começado. Mas Johnson mentiu e começou os bombardeamentos, e o Congresso apressou-se a apoiá-lo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

7 coisas com que estou mais preocupado do que com um ataque terrorista

A propósito da "chuva" de notícias quanto à "iminência" de ataques terroristas (num timing muito conveniente para uma administração fortemente abalada por sucessivos escândalos, em particular o da revelação da extensão das actividades de espionagem interna sobre a generalidade dos seus próprios cidadãos), e com a permissão de Robert Wenzel (que há pouco mais de um ano atrás foi convidado a dar uma palestra na Reserva Federal de Nova Iorque), de seguida traduzo o seu post de hoje (ontem) - 7 Things I Am More Concerned About Than a Terrorist Attack:
"O que estou a fazer na sequência do novo alerta terrorista lançado pelo governo dos EUA? Absolutamente nada.

A probabilidade de vir a ser alvo de um ataque terrorista é inferior a 0,0000000001%. Todavia, há coisas com que estou realmente preocupado:
  1. Com o caminhar pelas ruas, noite dentro, com medo de ser assaltado por jovens praticamente iletrados saídos de uma escola pública, que são impedidos de dar os primeiros passos para conseguir um emprego, devido às leis do salário mínimo.
  2. Com o Obamacare que outra coisa não irá fazer que não seja introduzir o socialismo no sector médico e, em última análise, conduzir ao declínio da esperança de vida nos EUA.
  3. Com o crescimento do estado de vigilância. Edward Snowden tinha toda a razão ao salientar que aquilo que temos é um estado  que, de um momento para o outro, pode mudar a agulha da espionagem para a tirania. Essa mudança não ocorreu, ainda, de uma forma que impacte com a maioria de nós. Mas é uma mudança que pode acontecer a qualquer momento.
  4. Com os negócios crony capitalist/governo que sufocam o sistema de mercado livre e movimentam mais poder para as mãos dos crony capitalists, que se alimentam cada vez mais à conta do estado.
  5. Com o activismo das operações por parte do governo para silenciar os whistleblowers e outros desmascaradores de actividades governamentais ( Bradley Manning, Edward Snowden, Julian Assange), de modo a tornar mais difícil de compreender aquilo que o governo anda a fazer.
  6. Com a emissão de moeda por parte da Reserva Federal que pode levar à explosão de uma muito forte inflação a qualquer momento.
  7. Com a emissão de moeda por parte da Reserva Federal resultando numa economia manipulada que leva a economia a entrar em cíclicos estados maníaco-depressivos.
Estes são todos perigos reais criados pelo estado. Quando o estado nos adverte para um potencial ataque terrorista, tenham em mente o que o estado está a fazer-nos diariamente - coisas que têm um impacto muito real sobre as nossas vidas diárias. O estado representa uma ameaça muito maior para nós que uma probabilidade inferior a 0,0000000001% de sermos afectados directamente por um ataque terrorista.

Aqui fica o meu alerta: TEMAM O ESTADO, ELE ESTÁ-NOS ATACANDO AGORA."

domingo, 4 de agosto de 2013

Obrigado, Rússia?

O título do post, roubado do belo artigo que Jeffrey Tucker publica hoje, endereça muitas das perplexidades que suscitaram a anuência pelas autoridades russas ao pedido de asilo de Edward Snowden. Mas, afinal, poder-se-ão comparar as credenciais de defesa da liberdade dos EUA perante as da Rússia? O  acolhimento pela plutocracia patrocinada por Putin (e pelo intermitente clone Medvedev) não constituirá "prova" da "culpa" de Snowden?

A resposta à sua própria interrogação leva Tucker a fazer uma rápida viagem pelos séculos XX e XXI, recorrendo também à original interpretação de Murray Rothbard quanto ao tempo real em que decorre o famosíssimo "1984" de Orwell que permite lançar uma luz diferente sobre ortodoxias tidas por definitivas. Em qualquer caso, fundamental se torna observar a volatilidade de quem são os "Bons" e os "Maus" nas potências imperiais. Sobretudo, não deixar passar por verdade o que se inculca nas fracas memórias.

Tucker não teme juntar-se ao pai de Edward nos agradecimentos às autoridades russas. Evidentemente que me associo a ele. A tradução do texto é, como habitualmente, minha.
"Lon Snowden, o pai do Edward Snowden, deu uma entrevista aos meios de comunicação esta semana. O local escolhido: Rossiya 24, uma estação de propriedade estatal [russa]. A sua era uma mensagem de gratidão para com a Rússia por ter contemplado o pedido de asilo do seu filho. Edward, como todos sabem, está em fuga por ter revelado ao povo americano que o seu governo está registando todas as comunicações armazenando-as para utilização posterior.

Por outras palavras, Edward está em apuros por ter revelado que o nosso governo está fazendo aos seus próprios cidadãos o que os EUA, em tempos, acusaram a Rússia de fazer aos seus cidadãos. No que é realmente uma reviravolta bizarra nos acontecimentos, a Rússia tornou-se num refúgio seguro para um whistleblower americano. Qualquer amigo da liberdade tem que se juntar a Lon Snowden, para expressar gratidão. Porque, como se vê, há apenas um punhado de países no mundo que o governo dos EUA não consegue intimidar a observar os seus desejos.

Estou tão contente quanto o homem comum, por "nós" termos vencido a Guerra Fria. Mas, por vezes, não é possível evitar a pergunta: qual foi o objectivo desses 45 anos de impasse nuclear? Durante todo esse tempo foi-nos dito que aquela era uma poderosa luta entre o individualismo e o colectivismo, entre a liberdade e a tirania, entre o capitalismo e o comunismo.

Mas, ao fim e ao cabo, depois de toda a poeira ter assentado, é a Rússia que está proporcionando santuário aos nossos melhores cidadãos.

Será isto uma espécie de um estranho romance distópico? Bem, sim, e tem um nome: 1984, de George Orwell. Murray Rothbard levou uma vez a cabo uma reconstrução do significado oculto desse romance. Ele demonstrou que Orwell estava escrevendo sobre a realidade do período da guerra e do período do pós-guerra. Um tempo em que o estatuto da Rússia, vista como o inimigo, se tornava em amigo e de novo em inimigo num piscar de olhos.

Na representação de Orwell, o mundo é dominado por três superpotências: Oceania, Eurásia e a Lestásia. As alianças são totalmente voláteis em função das prioridades políticas. "Nós sempre estivemos em guerra com a Lestásia", diz o slogan. Soa como algo que ouvíssemos hoje.

Na minha memória viva, os fundamentalistas islâmicos foram aliados dos EUA. Eles eram anunciados em 1980 como combatentes da liberdade que preservavam os valores tradicionais da família e que serviram como um poderoso baluarte contra o comunismo ateu. Após a Guerra Fria, os nossos amigos tornaram-se nossos inimigos. Agora, nos talk shows de direita fala-se diariamente de como nós sempre estivemos em guerra contra o Islão.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Bradley Manning - a vergonha de condenar um culpado sem que haja vítimas

Das promessas que o presidente eleito Barack Obama formalizou, nos finais de 2008, e que foram compiladas no site change.gov, constava a seguinte:


Como nos informa Gary North, de lá foi retirada1 há uns dias (por volta de 25 de Julho) embora possa ser ainda acedida através do Archive.org a bem da verdade histórica e do combate cívico contra conhecidas práticas ignominiosas que, como se constata, Obama sanciona.

Vá-se lá saber o porquê desta coincidência com o final do julgamento (?) de Bradley Manning. Mas não me parece ser muito difícil de adivinhar por parte de quem - um ex-professor de direito constitucional e Nobel da Paz! - defende a espionagem maciça de toda uma nação (e dos contactos dos americanos com estrangeiros) porque existe um tribunal (secreto, evidentemente, e do qual não há contraditório, muito menos apelo) que assim o "atesta"; por parte de quem se arroga o poder de elaborar listas de morte (kill-lists) e ordenar o assassínio dos que lá constem - mesmo se cidadãos americanos - e, claro, de todos os demais cidadãos inocentes (os danos colaterais); por parte de quem arma, ou manda armar, aqueles que já foram (ainda são?) os inimigos que levaram à instauração da "guerra ao terrorismo". Etc, etc. 

Imagem retirada daqui
_________________________________________
1 Uma possível tradução (mantenho o termo whistleblower por não conhecer nenhuma palavra em português que tenha a necessária nobreza semântica para designar aqueles que, não querendo fazer parte de uma orquestra criminosa, põem a boca no trombone): 
Proteger os whistleblowers: com frequência, a melhor fonte de informação acerca do desperdício, da fraude e do abuso no governo está num funcionário do governo comprometido com a integridade pública que está disposto a falar. Tais actos de coragem e patriotismo, que às vezes podem salvar vidas e frequentemente poupar o dinheiro do contribuinte, devem ser incentivados e não sufocados. Necessitamos de capacitar os funcionários federais como guardiões contra as irregularidades e como parceiros no desempenho [da administração]. Barack Obama irá reforçar as leis de protecção aos whistleblowers para defender os trabalhadores federais que denunciem o desperdício, a fraude e o abuso de autoridade no governo. Obama irá assegurar que as agências federais agilizem o processo de revisão das alegações dos  whistleblowers e que os whistleblowers tenham pleno acesso aos tribunais e ao devido processo legal.

domingo, 28 de julho de 2013

Liberdade e segurança

Num belo texto que merece uma leitura completa, se possível no original, o juiz Andrew Napolitano desmonta a tentativa, abusiva, daqueles que pretendem equiparar a liberdade e a segurança a propósito do "caso" Edward Snowden. A tradução, particularmente arriscada, é minha.
"Quando Edward Snowden revelou que o governo federal, num desafio directo à Quarta Emenda da Constituição, estava ilícita e inconstitucionalmente a espiar todos os americanos que usam telefones, mensagens de texto ou e-mails para comunicar com outras pessoas, ele abriu uma caixa de Pandora de alegações e recriminações. As alegações que desencadeou são as de que os americanos têm um governo que assalta as nossas liberdades pessoais, actua em segredo e viola a Constituição e os valores em que ela se baseia. As recriminações são as de que a segurança é um bem maior do que a liberdade, e Snowden interferiu na capacidade do governo para nos manter seguros, expondo os seus segredos, e por isso deve ser silenciado e punido.

No decorrer deste debate, já se ouviu o argumento de que todos nós precisamos de sacrificar alguma liberdade de modo a garantir a nossa segurança, que a liberdade e a segurança são contrapesos que, quando chocam entre si, é ao governo que deve assegurar um novo equilíbrio decidindo qual deverá prevalecer. Este é, naturalmente, um argumento que o governo adora, pois pressupõe que o governo tem o poder moral, legal e constitucional para fazer esse rearranjo satânico.

Ora ele não tem esse poder.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

De quantos avisos precisaremos?

Questiona-se Mary Theroux, após as sucessivas revelações de Edward Snowden, que, em boa verdade, eram em parte já conhecidas graças à coragem de outros whistleblowers no passado recente. Theroux destaca a seguinte passagem da intervenção de Thomas Drake (na mesa redonda em que participou, cujo vídeo e transcrição completa está acessível aqui), que trabalhou para a  NSA durante 12 anos e foi mesmo seu empregado por sete anos:
"O governo libertou-se das correntes que o prendiam à Constituição em resultado do 11 de Setembro. E no segredo absoluto dos gabinetes, aos mais altos níveis do estado, e com o selo de aprovação da Casa Branca, a NSA tornou-se no agente executivo de um programa de vigilância que efectivamente transformou os Estados Unidos da América, no equivalente a uma nação estrangeira para efeitos de vigilância electrónica através da técnica da "pesca de arrasto". (...)

E estamos a assistir aos esboços iniciais e aos contornos de um muito sistemático e amplo estado de vigilância leviatão, boa parte dele constituindo uma violação das bases fundamentais do nosso próprio país - na realidade, a mesma razão que nos levou à própria Revolução Americana . E a Quarta Emenda, para todos os fins e propósitos, foi revogada após o 9 de Setembro."
Pergunta Theroux: "Se isto não constitui razão suficiente para revogar o PATRIOT Act [link], a NDAA [link], as ordens executivas de Bush e de Obama, e todas e cada uma das actividades das agências que elas [leis] permitem, o que será preciso?" (Vídeo e transcrição do debate provenientes daqui, de que aconselho a leitura integral).


Ao centro, da esquerda  para a direita, William Binney, Thomas Drake, J. Kirk Wieber antigos altos responsáveisda NSA com uma experiência conjunta de mais de 100 anos na comunidade dos serviços de informações (clicar na imagem para aceder ao vídeo)

O voo de Snowden para a liberdade

Jeffrey Tucker assina um belo texto - Snowden’s Flight to Freedom. Espero não o ter desfigurado excessivamente. Edward Snowden, como Bradley Manning e outros whistleblowers não o mereceriam.
Edward Snowden
Caro resto do mundo: por favor saiba o quão doloroso é para nós americanos ver o que está a acontecer no caso de Edward Snowden.

Ei-lo voando de Hong Kong para a Rússia - países que parecem constituir refúgios do longo braço do império dos EUA. Onde acabará ele? Pode ser a Islândia, a Venezuela ou o Equador. Ele precisa de ir para um lugar onde as autoridades não possam ser intimadas a entregá-lo aos seus carcereiros e possíveis executores.

Ou isso ou arriscar enfrentar a cadeira eléctrica por ter feito o que era correcto. Embora eu compreenda a corrupção do sistema - e quão más as coisas realmente estão - não deixa de ser difícil de "processar". A lei segundo a qual ele foi acusado data de 1917, e o seu único propósito era destruir o movimento pacifista da época. Como Woodrow Wilson disse antes de a lei ter sido aprovada, "Criaturas de paixões, a deslealdade e a anarquia devem ser esmagadas".

E foram. Se alguém se manifestava contra a guerra, era preso. Os jornais foram efectivamente nacionalizados. Os preços foram controlados. Os pensadores independentes de todo o tipo foram presos. Na verdade, à época, um número de norte-americanos fugiu para a Rússia em busca da liberdade para se verem em plena Revolução Bolchevique. Então, como agora, a escolha foi entre a frigideira ou o fogo.

Sim, é verdade, sabemos que a América não tem sido ela própria de há muito tempo. Talvez nunca o tenha sido. Mas, ainda assim, lemos os Federalist Papers ["O Federalista"]. Lemos Thomas Jefferson. Lemos a Declaração [de Independência], a Constituição, as palavras de Madison e de Paine. Nós simplesmente não podemos afastar a ideia de que há algo nesta noção de que o estado tem de ser limitado e que as pessoas têm o direito à liberdade.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O cada vez mais curioso Glenn Beck perdeu a voz

mas proporciona um grande momento de televisão no vídeo que se segue.


P.S. - Pena que tenha escolhido para imagem de fundo aquele que iniciou a destruição da república, pela submissão dos estados ao centro federal, erigindo as fundações do império com uma guerra que ceifou a vida de 750 mil pessoas. Vou admitir que o tenha feito por continuar a ser vítima de um culto que dura há quase 150 anos.