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| Glenn Greenwald |
Admito que o tema do
artigo de Glenn Greenwald, que proponho na ocasião aos leitores do EI, possa ter aspectos delicados e me leve a incorrer num risco de (des)entendimentos que não são de todos os meus com os leitores. Apesar de por várias ocasiões ter manifestado o mais vivo repúdio (por exemplo,
aqui) da componente da "guerra ao terror" por recurso a drones para executar as "listas de morte" (normalmente sem danos directos para os seus promotores, razão pelo crescente recurso que fazem deles para além de evitar as "
boots on the ground"), não ignoro que as "nossas" mortes não são "iguais" às dos outros. Claro que não são. A proximidade familiar, comunitária, empresarial, clubística, regional, nacional, linguística, cultural, etc., são determinantes dessa desigualdade. Nada há de mal nisso, pelo contrário. Coisa diferente, porém, é tratar diferente o que é igual e, sem mais, disso fazer alarde ainda que pela via sinuosa da redefinição semântica ou pelo olímpico desprezo pelos obscenos danos "colaterais" tratando milhares de vítimas inocentes não com desdém mas com a borracha da memória instantânea.
Haverá diferença, afinal, para os
Untermenschen? Não vejo onde. É sobre isto que escreve Greenwald
24 de Abril de 2015
Por Glenn Greenwald
Em todos os anos que levo de escrita sobre as mortes provocadas pelos drones de Obama, foi ontem [23-04-2015] que aconteceu, de longe, a discussão crítica mais alargada nos círculos do jornalismo convencional. Esse facto sobre os drones, desde há muito suprimido mas crucial, foi na realidade anunciado no título principal na primeira página do The New York Times de ontem:
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| "Capa" do New York Times, versão online, de 23-04-2015 |
A razão para a anormalmente intensa cobertura, largamente crítica, das mortes de ontem provocadas pelos drones é óbvia: as vítimas deste ataque eram ocidentais e não-muçulmanas e, portanto, foram vistas como realmente humanas.
O advogado paquistanês Shahzad Akbar, que representa 150 vítimas de drones americanos e a quem foi por duas vezes negada entrada nos EUA para falar sobre elas, disse ao meu colega do Intercept Ryan Devereaux como dois dos seus clientes, duas crianças, provavelmente reagiriam ao pedido de "desculpas" de Obama de ontem:
"Hoje, se Nabila ou Zubair ou muitas das vítimas civis estiverem a ver na TV o presidente a mostrar-se tão pesaroso relativamente à morte de um ocidental, que mensagem estará ele a veicular?" A resposta, segundo ele, é: "Vós não tendes importância, sois filhos de um Deus menor, e só expressarei pesar aquando da morte de um ocidental."