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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Segredos ou crimes de estado?

Com o alegado objectivo de proteger a segurança dos EUA, a CIA, com o acordo expresso do próprio George W. Bush e do seu departamento de Justiça (?!), recorreu extensiva e repetidamente às orwellianas "enhanced interrogation techniques" (técnicas aperfeiçoadas de interrogatório) a coberto da "Guerra Global ao Terrorismo" proclamada subsequentemente aos acontecimentos de 11 de Setembro.

Eis então, já depois do escândalo supostamente "localizado" de Abu Ghraib (2004), que em 2007 surge alguém - John Kiriakou - já então um ex-agente da CIA, que veio denunciar publicamente o que, sem rodeios, não passava de tortura (como o relatório do próprio Senado americano, divulgado em Dezembro último, viria a reconhecer).

Mais de sete anos decorridos, não houve um único funcionário, civil ou militar, muito menos um político, que tivesse tido que responder por essas práticas hediondas e ilegais. Nem um. O único indivíduo incriminado e preso foi justamente aquele que as denunciou. Condenado a 30 meses de prisão, Kiriakou irá agora cumprir o remanescente da sua pena (6 meses) em regime de prisão domiciliária.

Tudo isto constitui mais uma vergonha para o nobelizado Obama que ostenta o pior registo que há memória de um presidente americano contra os que denunciam os crimes cometidos a coberto da "raison d'état" e do correlativo e arbitrário segredo - os whistleblowers - incorrendo em enormes riscos pessoais. A actual administração já instruiu mais casos contra os whistleblowers que a totalidade dos presidentes que o precederam! 589 meses de prisão em 6 anos de mandato contra apenas 24 meses acumulados desde a Revolução Americana! Que o digam, para além de Kiriakou, Chelsea (ex-Bradley) Manning, Barrett Brown, Jeremy Hammond, Jeffrey Sterling, Thomas Drake, William Binney, James Risen, James Rosen, Edward Snowden e até mesmo um cidadão australiano (Julian Assange).

Segue-se uma notável entrevista a Kiriakou (com transcrição):

terça-feira, 29 de abril de 2014

Em defesa da internet e da liberdade

Uma entrevista (legendada em português do Brasil) centrada na substância das revelações da espionagem maciça e ilegal por parte de agências de informações governamentais, entre as quais a NSA, que as acções de Edward Snowden já permitiram documentar (e irá haver ainda mais segundo o próprio). Que, após Manning (condenado a 35 anos de cadeia num processo de que se não conhecem vítimas), e Assange (há quase dois anos confinado à embaixada do Equador em Londres), só em Moscovo Snowden tenha encontrado um lugar de fuga ao braço policial americano é algo, a meu ver, terrivelmente revelador. (Filmado em Março passado talvez já antevendo o merecido Pulitzer)


Transcrição da entrevista: aqui

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Confiança e Legitimidade

Ladar Levison
Nos dias que correm, uma interpretação que desafie a versão normalizada dos factos é muitas vezes tratada como conspirativa. Procurar uma visão mais alargada e profunda dos acontecimentos é tarefa que, pelos vistos, apenas um punhado de indivíduos, com propósitos decadentes ou condenáveis, deseja alcançar. Sejamos honestos, esses propósitos existem e estão ao alcance de qualquer frequentador da internet. Deve o receio de ser apelidado de conspirativo traduzir-se na desistência de procurar, individualmente ou em grupo, coligir e compreender o máximo de informação factual relevante? Esse receio pode ser tão forte que nos faça desistir de dar enquadramento crítico ao que, numa velocidade cada vez maior, acontece por esse mundo fora? Disputando a versão oficializada? Devem os indivíduos abdicar de fazer perguntas? Devem os indivíduos desistir de lembrar que a Liberdade não se compatibiliza com a intromissão, com a ameaça (velada ou directa), com a violência, com o roubo?

Consideremos a seguinte intervenção de Ladar Levison. Se as perguntas acima elencadas lhe parecerem ser meros artifícios retóricos, volte a considerá-las depois de ouvir Ladar Levison.

Para enquadrar a intervenção de Levison, basta dizer que é um empresário que se encontra em litígio legal com o estado e a sua máquina de poder. No seguimento de uma política de intimidação e (suposta) prevenção anti-terrorista, foi requerido à sua empresa que permitisse o acesso aos dados dos seus clientes e que possibilitasse o controlo de algumas dimensões do seu negócio por parte das autoridades federais. Tudo em nome da luta contra o terrorismo, sublinhe-se. E, não esqueçamos, da liberdade. Levison decidiu fechar o seu negócio, pois tinha em alta estima os seus clientes, a sua privacidade e, presume-se, também a liberdade. Ouçamos a sua intervenção:

sábado, 28 de dezembro de 2013

À boleia da mensagem do Grande Ditador

Disclaimers: a) nada me liga a Simon Black exceptuando o facto de ser um leitor diário do seu blogue Sovereign Man que muito aprendi a apreciar. Se hoje veiculo um seu conselho específico em matéria financeira é porque creio (para quem pode, claro) ser de elementar prudência segui-lo; b) não me parece que o país que Black refere como estando numa "tendência decrescente" seja Portugal.

Também eu, como várias vezes por aqui tenho feito eco, desconfio profundamente da exuberância que se continua a manifestar nos mercados bolsistas, accionistas e obrigacionistas, sem que descortine quaisquer fundamentos sólidos de um crescimento económico sustentado não assente em "estímulos" artificiais.  Não se cria riqueza imprimindo dinheiro ou pelo aumento do endividamento. Simon Black diz que já não escaparemos ao inferno em 2014. É dele a previsão, mas não a creio disparatada.

O texto que se segue é a minha tradução do artigo de ontem publicado no Sovereign Man:
Chile, 27 de Dezembro de 2013

Em Setembro de 1939, seis dias após o Reino Unido ter declarado guerra à Alemanha, Charlie Chaplin começou a rodar o que viria a ser um dos seus filmes mais épicos de sempre... e o primeiro filme sonoro da estrela do cinema mudo.

Tratava-se de um projecto corajoso - o "Grande Ditador" satirizava directamente Adolf Hitler.

No final do filme, Chaplin enfrentou a câmara e fez um discurso sobre princípios intemporais - a paz, o respeito mútuo, a liberdade de nos defendermos de homens perversos que aspiram a liderar nações.

Isto fez com que Chaplin não tivesse ganho amigos em Washington onde se ansiava pela manutenção da neutralidade oficial.

E pagou bem caro por isso - o Grande Ditador marcou o início de toda uma década de turbulentos problemas entre Chaplin e o governo dos EUA.

O director do FBI, J. Edgar Hoover, abriu um dossier sobre Chaplin e lançou uma campanha de difamação para manchar a sua imagem pública. Os principais meios de comunicação rapidamente ajudaram à "festa", ao acusarem Chaplin de ser um simpatizante comunista.

Acabariam por encontrar numa lei obscura um pretexto para o levar a tribunal e à prisão.

Chaplin ganhou o caso em julgamento... por pouco... mas acabou arrastado na  anti-comunista caça às bruxas do senador Joseph McCarthy.

Na sua autobiografia, Chaplin resume os seus problemas com o governo dos EUA:
"O meu prodigioso pecado foi, e ainda é, ser um não-conformista. Embora eu não seja um comunista, recusei-me a enfileirar-me nos que os odiavam... Em segundo lugar, opus-me à Comissão das Actividades Anti-Americanas - uma designação desonesta desde logo, suficientemente elástica para envolver o pescoço e estrangular a voz de qualquer cidadão americano cuja opinião honesta fosse minoritária."
Chaplin atingiu o ponto de ruptura quando, enquanto cidadão britânico, percebeu que seria de facto expulso da Terra dos Livres. Como ele escreveu,
"A minha reentrada naquele infeliz país teve pouca importância para mim. Gostaria de lhes ter dito que quanto mais cedo me livrasse daquela atmosfera sitiada de ódio , melhor, que eu estava farto dos insultos e da pomposicade moral da América e que todo o assunto foi terrivelmente entediante."
Ele levou a sua família para a Suíça e viveu o resto dos seus dias num cenário idílico, perto de Genebra.

Havia apenas um problema. A totalidade da substancial riqueza de Chaplin estava nos EUA. E ele esperou demasiado tempo - até ser exilado do país - para sequer pensar em colocar no estrangeiro algum capital.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Uma vasta conspiração bem real, desta vez não precedida de nenhuma "teoria"

Tenho, com frequência e não menos veemência, procurado fazer eco da atenção que se exige a todo o amante da liberdade para o progressivo caminhar em direcção a Estados de Vigilância cuja sofisticação e, sobretudo, abrangência indiscriminada fariam uma qualquer STASI ficar roxa de inveja. Tal como já tinha sucedido com o caso Manning, também Edward Snowden mereceu entre nós muito mais acinte que aplauso e, lamento dizê-lo, não apenas nos media do mainstream, o que já se esperaria, mas também na generalidade da blogosfera e, claro está, da esmagadora maioria da intelligentsia doméstica. Parece-me evidente existir uma relação entre a extrema leniência com que a cobertura destes casos foi tratada e tem sido tratada com o facto de o actual ocupante da Casa Branca ser quem é.

Ao nível dos estados europeus a hipocrisia com que têm tratado as revelações de Snowden é imensurável. Depois dos "arroubos" iniciais quanto ao carácter "intolerável" da espionagem levada a cabo pela NSA a residentes - e politicos! - desses países, eis que rapidamente se percebeu que realmente de meros arrufos se tratavam passadas umas semanas. Pois se até se ficou a saber que a NSA espiava por conta de serviços secretos europeus! Como de costume em matérias de "indignação", a França, pela voz do locatário do Eliseu, foi das primeiras e mais contundentes na retórica. Viu-se, agora mesmo, o que ela valia. Uma vergonha. (Ver, a propósito, o contundente e certeiro post de Gabriel Silva).

Perceba-se, de uma vez, que este não é um assunto próprio dos que se interessam pelo exotismo americano. Diz-nos respeito a todos, ou pelo menos àqueles que se opõem à servidão. Que este texto do juiz Andrew Napolitano possa contribuir para melhor esclarecer o que está em causa. Foi com esse intuito que o procurei traduzir.
«Os leitores desta página estão bem cientes das revelações que se foram sucedendo nos últimos seis meses sobre a espionagem levada a cabo pela Agência de Segurança Nacional (NSA). Edward Snowden, um ex-empregado de um fornecedor da NSA, arriscou a vida e a liberdade para nos informar da existência de uma conspiração governamental para violar o nosso direito à privacidade, um direito garantido pela Quarta Emenda.

Andrew P. Napolitano
A conspiração que ele revelou é vasta. Envolve o antigo presidente George W. Bush, o presidente Obama, membros dos seus gabinetes, cerca de uma dúzia de membros do Congresso, juízes federais, gestores e técnicos de empresas americanas de computadores servidores e de telecomunicações, e milhares de empregados da NSA e dos seus fornecedores que manipularam os seus companheiros de conspiração. Todos os conspiradores concordaram entre si que qualquer deles cometeria um crime caso revelasse a conspiração. O sr. Snowden violou esse acordo de modo a respeitar o seu juramento de ordem superior de defender a Constituição.

O objectivo da conspiração é o de emascular todos os americanos e muitos estrangeiros quanto ao seu direito à privacidade a fim de prever o nosso comportamento e tornar mais fácil encontrar aqueles que entre nós estão a planear provocar o mal.

Uma conspiração é um acordo entre duas ou mais pessoas para cometer um crime. Os crimes consistem na captura de mensagens de correio electrónico, SMS e telefonemas de todos os americanos, no seguimento dos movimentos de milhões de americanos e de muitos estrangeiros através do sistema GPS nos seus telemóveis, na apreensão dos registos bancários e das facturas dos serviços das utilities [electricidade, gás, água, etc.] da maioria dos americanos em violação directa da Constituição, e em pretender estar a agir no quadro da lei. O pretexto é que o Congresso de algum modo terá reduzido o padrão para definir espionagem que está estabelecido na Constituição. É, obviamente, inconcebível que o Congresso possa mudar a Constituição (só os estados o podem fazer), mas os conspiradores queriam fazer-nos acreditar que isso tivesse sucedido.

sábado, 23 de novembro de 2013

Fascismo sanitário em acção (act.)

Da edição do Expresso de hoje:


ACTUALIZAÇÃO: dou-me agora conta que o Ministério da Saúde  desmentiu "não se revê" nesta notícia e que os seus propósitos em matéria de "guerra" anti-tabágica se centram antes no pedagógico acto de "informar" e sempre no apelo ao "bom senso", pelo que a notícia do "Expresso" assentaria numa "interpretação abusiva e lesiva das palavras do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde", Leal da Costa.

Por que razão será que este "desmentido" me deixa tão inquieto?

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Espiando o presidente dos Estados Unidos

Num esclarecedor texto dotado do vigor usual do juíz Andrew P. Napolitano - Spying on the President -, passa-se em revista o que já se conhece do mega-escândalo da espionagem levada a cabo pela NSA. Este terá agora conhecido um pico (não digo zénite porque há ainda muito por conhecer) quando se concluiu que até o presidente dos EUA foi espiado pela própria NSA! (Não recordo que George Orwell ou Joseph Heller tenham chegado a tanto!) Napolitano proporciona-nos ainda uma perspectiva histórica da espiral vertiginosa em direcção ao Estado de Vigilância focando dois momentos notáveis da história americana: um mais recente - a "Guerra ao Terrorismo" lançada em sequência dos acontecimentos de Setembro de 2001 -, que justificaria o infame "Patriot Act" e um outro que nos leva a recuar 100 anos até à "Era Progressiva" em que, e por exemplo, foi criada legislação como o Sedition Act (em 1918) que serviu, para condenar (em 2013!) Chelsea (ex-Bradley) Manning.

Lamentando as limitações da minha tradução, aconselho vivamente a leitura do original.
Quando a chanceler alemã, Angela Merkel, comemorou a inauguração da nova embaixada dos EUA em Berlim, em 2008, ela não poderia imaginar que estava a abençoar o local de trabalho do maior e mais eficaz magote de espiões americanos fora dos EUA.

Andrew P. Napolitano
Isto parece saído de um filme de série B, mas é o que tem acontecido nos últimos 11 anos: a NSA tem vindo a usar Merkel para espiar o presidente dos Estados Unidos. Sabemos agora que a NSA escuta e grava as chamadas telefónicas do telemóvel de Merkel desde 2002. Em 2008, quando a nova embaixada abriu, a NSA começou a utilizar técnicas mais sofisticadas que incluiam não apenas a sua escuta, mas também o seu seguimento. Merkel usa o seu telemóvel com mais frequência que o telefone fixo, e utiliza-o para comunicar com o marido e com os seus famíliares, com a liderança do seu partido e com os seus colegas e funcionários do governo alemão.

Ela também usa o telemóvel para falar com líderes estrangeiros, entre os quais terão estado o presidente George W. Bush e o presidente Obama. Pelo que se conclui que a NSA - que Bush e Obama ilegal e inconstitucionalmente autorizaram a obter e a conservar cópias digitais de todas as conversas telefónicas, mensagens de texto e e-mails de toda a gente nos EUA, bem como de centenas de milhões de pessoas na Europa e na América Latina - tem escutado os telefonemas de ambos os presidentes americanos sempre que estes conversaram com a chanceler.

Poder-se-ia entender a propensão da NSA para escutar as conversas daqueles líderes estrangeiros que nos quisessem fazer mal. E seria de esperar que o fizessem. Mas o ímpeto em escutar a liderança dos nossos aliados não tem qualquer utilidade perceptível. Pelo contrário, alimenta a desconfiança entre as nossas nações e, no caso de Merkel, exacerba as memórias da Stasi que tudo via e tudo escutava, organização que era a versão alemã oriental da KGB que comandava o estado policial desde o final da II Guerra Mundial até ao seu colapso em 1989. Merkel foi criada na Alemanha de Leste e tem uma repulsa pessoal pelo conceito de estado de vigilância omnipresente.

Obama aparentemente não tem essa repulsa. Poder-se-ía pensar que ele não esteja contente com o facto de os seus próprios espiões o terem estado a escutar. Esperar-se-ia que ele tivesse conhecimento disso. Não por mim, afirma o general Keith Alexander, o director da NSA, que contestou alegações dos media segundo as quais ele informara Obama acerca da rede de espionagem da NSA na Alemanha no Verão passado. Ora, ou o presidente soube disto e nega-o, ou ele é insuperavelmente ignorante quanto às forças que lançou sobre nós e sobre si mesmo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Greenwald: "A NSA armazena dados para poder visar todo o cidadão, a todo o momento"

Uma espécie de um intolerável "pós-cog" que, como Greenwald explicitamente adianta (e Eric Margolis aqui antecipava), iremos em breve perceber que a sua expansão vai bem para além daquela que já é conhecida.

A Stasi encontra Steve Jobs

Não querendo de todo contribuir para desvalorizar o a todos os títulos intolerável "estado de vigilância" deixando "cair" o assunto como muitos "especialistas" de geopolítica vêm tentando, propus-me partilhar agora um texto recente de Eric Margolis cujo título me apossei para encimar este post. Sem quaisquer comentários adicionais, destacaria apenas a pergunta final do texto que Margolis enuncia: [C]omo é possível que a política externa dos EUA esteja num tal caos considerando que o Tio Sam está a escutar o telefone de todos e de cada um e a ler o seu correio?
Eric Margolis
26 de Outubro de 2013

"Os cavalheiros não lêem o correio de outros cavalheiros", fungou o secretário de Estado Henry Stimson EUA, em 1929, quando foi informado que os criptógrafos americanos tinham decifrado os códigos militares navais e diplomáticos do Japão.

Stimson, que mais tarde dirigiu o Departamento da Guerra, viria a ordenar o encerramento das actividades de descodificação.

Infelizmente, já não restam nenhuns cavalheiros da velha escola em Washington nos dias que correm. As revelações da espionagem electrónica levada a cabo pelos EUA denunciadas por Edward Snowden provocaram um furor na América Latina e agora na Europa.

O alvoroço desta semana foi intensificado por alegações de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) tinha escutado o telemóvel da chanceler alemã, Angela Merkel, a mais importante e influente líder da Europa. Uma dose adicional de ultraje surgiu em França após relatos de que os seus líderes e diplomatas tinham sido escutados pelos grandes ouvidos da NSA [ontem mesmo, ficou-se a saber que também a Espanha foi alvo das escutas maciças da NSA].

Sem surpresa, o presidente Obama negou oficialmente a existência de escutas às conversas telefónicas de Merkel. Uma fonte dos EUA procurou mitigar os danos alegando que a NSA apenas tinha escutado o telefone do seu gabinete oficial, não o seu telemóvel. A ira alemã não se apaziguou.

Em tempos, os ministros franceses do Interior - nomeadamente Nicholas Sarkozy - costumavam ficar acordados noite fora a vasculhar as escutas telefónicas relativas aos pecadilhos dos seus próprios colegas. Tratava-se de uma boa diversão. Em contraste, hoje, a NSA e a CIA estão a "varrer" todas as comunicações de supostos aliados como uma componente do estado de segurança nacional dos EUA. Chamemos-lhe: a Stasi encontra o falecido Steve Jobs da Apple.

Consta que, só no mês passado, a NSA vasculhou 70 milhões de chamadas telefónicas de franceses, mensagens de texto e correio electrónico sob o pretexto, coxo, do combate ao terrorismo. O que realmente a NSA estava a descobrir eram os números de telefone das amantes ou namorados de proeminentes franceses - muito úteis para operações de chantagem por parte da CIA - e informações comerciais importantes. O terrorismo constitui uma manobra de diversão. A adopção pela NSA de uma actividade de espionagem descontrolada, alegadamente para combater o "terrorismo", está a fazer com que muitos americanos se questionem novamente acerca dos acontecimentos do 11 de Setembro que desencadearam a explosão do estado de espionagem americano, da legislação restritiva, e das guerras no estrangeiro.

sábado, 5 de outubro de 2013

Quando o entrevistado dá uma lição de jornalismo e verticalidade à entrevistadora

O entrevistado é Glenn Greenwald que se pronuncia sobre o "caso" Edward Snowden e, portanto, sobre as actividades de espionagem (domésticas e internacionais) da NSA, mas também sobre o GHCQ (o equivalente da NSA no Reino Unido). Imprescindível ver para quem pretender melhor discernir o que é e como age um jornalista verdadeiramente independente e corajoso perante o Estado de vigilância, mesmo quando é directamente visado por este (via EPJ).


Leitura complementar: Why the NSA's attacks on the internet must be made public

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Admirável Estado de Vigilância

A Lavabit, criada há nove anos, tinha por objecto de negócio prestar um serviço de correio electrónico, em modo seguro, por recurso a encriptação do tráfego que assegurava. À data do seu encerramento (anunciado aqui pelo seu proprietário e gerente executivo, Ladar Levison, no dia 8 de Agosto passado, por sua decisão), tinha mais de 400 mil utilizadores entre os quais, ao que parece, se encontrava Edward Snowden.

Sucede que, devido ao facto de a prestação do seu serviço inviabilizar a espionagem por parte da NSA, Levison foi pressionado a colaborar com aquela agência em termos que a lei americana não permite divulgar, como explica na comunicação que então endereçou aos seus utilizadores e que motivou a sua decisão de "suspender as operações" (cuja tradução, da minha responsabilidade, veiculo abaixo).

Sucede que, extraordinariamente (?), a decisão de encerrar as operações estará a ser tida por "ilegal" e "criminosa". George Orwell cruzou-se com Joseph Heller e o resultado é uma monstruosidade híbrida, real, de "1984" e "Catch 22". E se o leitor por acaso pensa que este é um problema essencialmente americano, tenha presente que Julian Assange, cidadão australiano, continua sitiado na embaixada do Equador em Londres. Acrescente-se a isso o facto de as autoridades policiais britânicas terem exercido o seu poder discricionário de deter uma pessoa (por "mero acaso" ligada a Glen Greenwald e, portanto, a Edward Snowden), durante nove horas, impedindo-a de contactar um advogado, por "suspeita" de ligações terroristas. E que, finda a sua detenção, não havendo lugar a qualquer tipo de acusação se arrogam o direito de arrestar os seus pertences (aqui).
Meus Caros Utilizadores

Fui forçado a tomar uma difícil decisão: tornar-me cúmplice de crimes contra o povo americano ou abandonar quase dez anos de trabalho árduo através do fecho da Lavabit. Após uma significativa introspecção, decidi suspender as operações. Gostaria de poder partilhar convosco, de forma legal, os acontecimentos que levaram à minha decisão. Mas não posso. Sinto que merecem conhecer o que está a acontecer - seria suposto que a primeira emenda me assegurasse a liberdade para falar em voz alta em situações como esta. Infelizmente, o Congresso aprovou leis que dizem o contrário. Na situação actual, não posso partilhar as minhas experiências ao longo das últimas seis semanas, apesar de eu ter, por duas vezes, formulado os pedidos apropriados.

O que vai acontecer agora? Nós já começámos a preparar a documentação necessária para continuar a lutar pela Constituição no Tribunal de Recursos do 4º Círculo. Uma decisão favorável permitir-me-ia ressuscitar a Lavabit como uma empresa americana.

Esta experiência ensinou-me uma lição muito importante: sem a intervenção do Congresso ou sem que ocorra um forte precedente judicial, gostaria de veementemente recomendar que ninguém confie os seus dados privados a uma empresa com ligações físicas aos Estados Unidos.

Melhores cumprimentos,

Ladar Levison
Proprietário e operador, Lavabit LLC

Defender a constituição é dispendioso! Ajude-nos fazendo uma doação ao Fundo de Defesa Legal da Lavabit aqui.

sábado, 10 de agosto de 2013

Armas, crimes e acidentes nos EUA nos últimos 20 anos

Continua animada a caixa de comentários a propósito do post O controlo de armas, e não a sua posse, é a principal causa do crime. Na troca de argumentos, a certa altura, é manifestada a preocupação com os acidentes com armas de fogo como razão relevante para circunscrever a sua posse (legal) a quem, a par das forças das seguranças, tenha "razões plausíveis para as transportar".

Não sendo eu um empirista, não deixo de registar a extraordinária ausência por parte dos proibicionistas (no caso, de armas de fogo) do recurso a estudos empíricos para sustentar a sua posição. Em contrapartida, existe muito material investigativo, inclusive académico, que sustenta a tese que o título do post citado veiculava. Sucede que acaba de ser publicada uma infografia que também endereça precisamente a matéria dos acidentes. Apresento-a abaixo.

Fonte: http://www.nssfblog.com/infographic-gun-crimes-plummet-even-as-gun-sales-rise/

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O controlo de armas, e não a sua posse, é a principal causa do crime

Um virulento e assertivo artigo, assinado por Jon Christian Ryter, onde cheguei via Olavo de Carvalho (no facebook) que confirma, ainda que muito sinteticamente, por via empírica quanto aos EUA, a experiência histórica inglesa acolhida no livro que ocupa a vitrina "Guns and Violence" (indicação de Thomas Sowell). A tradução, é parcial e adaptada (os realces são do autor).
"Pense-se nisto. Os Estados Unidos da América têm a terceira maior taxa de homicídios do mundo. Mas, caso não se considerassem três das suas cidades -Chicago, Detroit e Washington DC -, os Estados Unidos ficariam com a quarta menor [itálico meu] taxa de homicídios do mundo. Aquelas três cidades, por sinal, têm as leis mais duras de controlo de armas dos Estados Unidos. Nenhuma delas, porém, é a capital dos assassinatos do país. Detroit é a número #2. A elevada taxa de criminalidade é devida à pobreza e à dependência das drogas. A sua vizinha, Flint, é a número #1. New Orleans é a número #3, St. Louis é a número #4 e Baltimore a número #5. A sexta é a Birmingham. Empatadas no sétimo lugar estão Newark e Oakland, Baton Rouge é a oitava. Cleveland é a nona e Memphis a décima. As doze cidades no topo da lista dos assassinatos (acima indicadas) têm uma coisa em comum. E não é a das violações dos progressistas sociais à 2 ª Emenda [Direito dos cidadãos à detenção de armas]. É a pobreza.

As cidades mais pobres do país têm as mais elevadas taxas de criminalidade. Detroit é a cidade mais pobre dos Estados Unidos. Cleveland é a 4ª mais pobre seguida por St. Louis, que é a 6ª e Newark como a 10ª cidade mais pobre. Entre as dez cidades mais perigosas dos Estados estão St. Louis (#1), Detroit (#2), Memphis (#3), Oakland (#4), Baltimore (#8), Cleveland (#9) e Baton Rogue (#10). Estas cidades estão entre as dez primeiras onde se tem a maior possibilidade de ser assaltado à mão armada - e morto. Quanto mais convictos estiverem os criminosos que as suas potenciais vítimas não estão armadas, mais provável será que aqueles cidadãos virão a ser atacados. O que significa isto quanto ao controlo de armas? O controlo de armas, e não a sua posse, é a principal causa do crime. Tornem-se os fortes fracos, através do seu desarmamento, e os fracos tornar-se-ão suficientemente fortes para os atacar. Isso não é uma declaração extravagante vinda do nada. Isto é um facto comprovado pelas estatísticas. Deste modo, sendo isto tão obviamente verdade, por que razão é que o governo federal - e os senhores da Nova Ordem Mundial - estão tão determinados nos seus esforços para proibir a posse privada de armas? Acreditem-me, não é para proteger os cidadãos da violência armada. Eles pretendem proibir a posse privada de armas de fogo não porque se esteja com medo de bandidos armados na rua, mas porque têm medo dos cidadãos honestos que detêm armas legais que já disseram ao governo dos Estados Unidos "já chega!" vezes demais.

Hoje, esses honestos cidadãos estão energicamente a recordar aqueles que o elegeram - o governo central - que ele deriva 100% do seu poder não dos príncipes da indústria e dos barões da banca que os subornam, mas do consentimento dos governados que, hoje, estão prontos a dissolver os laços políticos que unem os homens honestos aos políticos corruptos que desperdiçaram a riqueza da maior nação da Terra. Porque se "Nós, o Povo" não lidarmos com o governo politicamente mais corrupto na Terra - a Administração de Obama - os Estados Unidos da América deixarão de existir antes que "o poço de moeda fiduciária", que financia o nosso falido sistema de Segurança Social, venha a secar ou antes que a Avó vá a um hospital Obamacare para lancetar o furúnculo purulento na sua nádega e acabe por morrer na mesa de tratamento. Por outras palavras, quando o direito a possuir armas morrer, o mesmo acontecerá à nação."

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

7 coisas com que estou mais preocupado do que com um ataque terrorista

A propósito da "chuva" de notícias quanto à "iminência" de ataques terroristas (num timing muito conveniente para uma administração fortemente abalada por sucessivos escândalos, em particular o da revelação da extensão das actividades de espionagem interna sobre a generalidade dos seus próprios cidadãos), e com a permissão de Robert Wenzel (que há pouco mais de um ano atrás foi convidado a dar uma palestra na Reserva Federal de Nova Iorque), de seguida traduzo o seu post de hoje (ontem) - 7 Things I Am More Concerned About Than a Terrorist Attack:
"O que estou a fazer na sequência do novo alerta terrorista lançado pelo governo dos EUA? Absolutamente nada.

A probabilidade de vir a ser alvo de um ataque terrorista é inferior a 0,0000000001%. Todavia, há coisas com que estou realmente preocupado:
  1. Com o caminhar pelas ruas, noite dentro, com medo de ser assaltado por jovens praticamente iletrados saídos de uma escola pública, que são impedidos de dar os primeiros passos para conseguir um emprego, devido às leis do salário mínimo.
  2. Com o Obamacare que outra coisa não irá fazer que não seja introduzir o socialismo no sector médico e, em última análise, conduzir ao declínio da esperança de vida nos EUA.
  3. Com o crescimento do estado de vigilância. Edward Snowden tinha toda a razão ao salientar que aquilo que temos é um estado  que, de um momento para o outro, pode mudar a agulha da espionagem para a tirania. Essa mudança não ocorreu, ainda, de uma forma que impacte com a maioria de nós. Mas é uma mudança que pode acontecer a qualquer momento.
  4. Com os negócios crony capitalist/governo que sufocam o sistema de mercado livre e movimentam mais poder para as mãos dos crony capitalists, que se alimentam cada vez mais à conta do estado.
  5. Com o activismo das operações por parte do governo para silenciar os whistleblowers e outros desmascaradores de actividades governamentais ( Bradley Manning, Edward Snowden, Julian Assange), de modo a tornar mais difícil de compreender aquilo que o governo anda a fazer.
  6. Com a emissão de moeda por parte da Reserva Federal que pode levar à explosão de uma muito forte inflação a qualquer momento.
  7. Com a emissão de moeda por parte da Reserva Federal resultando numa economia manipulada que leva a economia a entrar em cíclicos estados maníaco-depressivos.
Estes são todos perigos reais criados pelo estado. Quando o estado nos adverte para um potencial ataque terrorista, tenham em mente o que o estado está a fazer-nos diariamente - coisas que têm um impacto muito real sobre as nossas vidas diárias. O estado representa uma ameaça muito maior para nós que uma probabilidade inferior a 0,0000000001% de sermos afectados directamente por um ataque terrorista.

Aqui fica o meu alerta: TEMAM O ESTADO, ELE ESTÁ-NOS ATACANDO AGORA."

sábado, 3 de agosto de 2013

Nada a esconder, nada a temer? Cuidado!

Para aqueles que subscrevem  a ideia que subjaz ao título do post - que também creio serem a larga maioria -, Simon Black, o editor do Sovereign Man, apela aqui a que se exerça a faculdade de pensar ao mesmo tempo que se veja o que se passa à nossa volta.

Porque me revejo na sua análise,  porque a liberdade não pode submeter-se à segurança, pois esta deriva daquela, procurei traduzir os excertos que se seguem, convidando ainda os leitores, mesmo que tecnologicamente mais avessos, a ler - e a seguir -, os conselhos que aqui se elencam para conseguir um melhor grau de protecção da sua privacidade na utilização de meios digitais (e que já em Perigo Público, num filme de 1998, se podia antever (ou seria já então realidade?)).
Em qualquer discussão sobre a privacidade, há invariavelmente alguém que diz: "Bem, se não se tem nada a esconder, nada se tem a temer."

Que treta pegada! Esta, que talvez seja uma das mais ignorantes declarações jamais proferidas, é, porém, aceite pela grande maioria das pessoas que ainda confia nos seus governos.

Ontem, o jornal britânico The Guardian publicou mais um exemplo da falácia total que constitui esta maneira de pensar .

Na quarta-feira desta semana, Michele Catalano e o seu marido, ambos residentes em Long Island, foram saudados por um bater à sua porta por uma brigada de luta anti-terrorista.

Aparentemente, as suas pesquisas no Google haviam despertado uma suspeita intensa. Ela estava pesquisando panelas de pressão. O seu marido estava à procura de mochilas.

Normalmente esses dois itens pareceriam completamente inofensivos. Mas, num mundo tão absurdo, dominado por uma consciência securitária, onde os corta-unhas são considerados armas mortíferas, uma panela de pressão e uma mochila são vistos como instrumentos vitais no kit de ferramentas de um terrorista... praticamente, Armas de Destruição Maciça.

E assim, uma equipa de seis agentes do governo Big Brother chegou à casa da família com armas no coldre e dispondo tacticamente os seus veículos para bloquear qualquer saída do local.

O marido foi interrogado e os agentes revistaram a casa à procura de quaisquer outras pistas terroristas.

No decorrer da troca de palavras, os agentes declamaram levar a cabo actividades como aquela "cerca de 100 vezes por semana".

Aparentemente, é isto que passa por ser uma sociedade livre nos dias de hoje, onde até mesmo as interacções online mais inofensivas acabam sendo escrutinadas por agentes armados.

E graças a um aparato interminável e crescente de vigilância online, os governos têm os meios para monitorizar... quase toda a gente.

É claro que eles querem que nós achemos que nada temos a temer desde que não tenhamos nada a esconder. Mas uma pessoa que exercite o pensamento e seja racional não pode neste momento ignorar os múltiplos sinais que estão diante de si sem compreender o quão fora de controlo se tornou o estado policial." (...)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

De quantos avisos precisaremos?

Questiona-se Mary Theroux, após as sucessivas revelações de Edward Snowden, que, em boa verdade, eram em parte já conhecidas graças à coragem de outros whistleblowers no passado recente. Theroux destaca a seguinte passagem da intervenção de Thomas Drake (na mesa redonda em que participou, cujo vídeo e transcrição completa está acessível aqui), que trabalhou para a  NSA durante 12 anos e foi mesmo seu empregado por sete anos:
"O governo libertou-se das correntes que o prendiam à Constituição em resultado do 11 de Setembro. E no segredo absoluto dos gabinetes, aos mais altos níveis do estado, e com o selo de aprovação da Casa Branca, a NSA tornou-se no agente executivo de um programa de vigilância que efectivamente transformou os Estados Unidos da América, no equivalente a uma nação estrangeira para efeitos de vigilância electrónica através da técnica da "pesca de arrasto". (...)

E estamos a assistir aos esboços iniciais e aos contornos de um muito sistemático e amplo estado de vigilância leviatão, boa parte dele constituindo uma violação das bases fundamentais do nosso próprio país - na realidade, a mesma razão que nos levou à própria Revolução Americana . E a Quarta Emenda, para todos os fins e propósitos, foi revogada após o 9 de Setembro."
Pergunta Theroux: "Se isto não constitui razão suficiente para revogar o PATRIOT Act [link], a NDAA [link], as ordens executivas de Bush e de Obama, e todas e cada uma das actividades das agências que elas [leis] permitem, o que será preciso?" (Vídeo e transcrição do debate provenientes daqui, de que aconselho a leitura integral).


Ao centro, da esquerda  para a direita, William Binney, Thomas Drake, J. Kirk Wieber antigos altos responsáveisda NSA com uma experiência conjunta de mais de 100 anos na comunidade dos serviços de informações (clicar na imagem para aceder ao vídeo)