sábado, 28 de dezembro de 2013

À boleia da mensagem do Grande Ditador

Disclaimers: a) nada me liga a Simon Black exceptuando o facto de ser um leitor diário do seu blogue Sovereign Man que muito aprendi a apreciar. Se hoje veiculo um seu conselho específico em matéria financeira é porque creio (para quem pode, claro) ser de elementar prudência segui-lo; b) não me parece que o país que Black refere como estando numa "tendência decrescente" seja Portugal.

Também eu, como várias vezes por aqui tenho feito eco, desconfio profundamente da exuberância que se continua a manifestar nos mercados bolsistas, accionistas e obrigacionistas, sem que descortine quaisquer fundamentos sólidos de um crescimento económico sustentado não assente em "estímulos" artificiais.  Não se cria riqueza imprimindo dinheiro ou pelo aumento do endividamento. Simon Black diz que já não escaparemos ao inferno em 2014. É dele a previsão, mas não a creio disparatada.

O texto que se segue é a minha tradução do artigo de ontem publicado no Sovereign Man:
Chile, 27 de Dezembro de 2013

Em Setembro de 1939, seis dias após o Reino Unido ter declarado guerra à Alemanha, Charlie Chaplin começou a rodar o que viria a ser um dos seus filmes mais épicos de sempre... e o primeiro filme sonoro da estrela do cinema mudo.

Tratava-se de um projecto corajoso - o "Grande Ditador" satirizava directamente Adolf Hitler.

No final do filme, Chaplin enfrentou a câmara e fez um discurso sobre princípios intemporais - a paz, o respeito mútuo, a liberdade de nos defendermos de homens perversos que aspiram a liderar nações.

Isto fez com que Chaplin não tivesse ganho amigos em Washington onde se ansiava pela manutenção da neutralidade oficial.

E pagou bem caro por isso - o Grande Ditador marcou o início de toda uma década de turbulentos problemas entre Chaplin e o governo dos EUA.

O director do FBI, J. Edgar Hoover, abriu um dossier sobre Chaplin e lançou uma campanha de difamação para manchar a sua imagem pública. Os principais meios de comunicação rapidamente ajudaram à "festa", ao acusarem Chaplin de ser um simpatizante comunista.

Acabariam por encontrar numa lei obscura um pretexto para o levar a tribunal e à prisão.

Chaplin ganhou o caso em julgamento... por pouco... mas acabou arrastado na  anti-comunista caça às bruxas do senador Joseph McCarthy.

Na sua autobiografia, Chaplin resume os seus problemas com o governo dos EUA:
"O meu prodigioso pecado foi, e ainda é, ser um não-conformista. Embora eu não seja um comunista, recusei-me a enfileirar-me nos que os odiavam... Em segundo lugar, opus-me à Comissão das Actividades Anti-Americanas - uma designação desonesta desde logo, suficientemente elástica para envolver o pescoço e estrangular a voz de qualquer cidadão americano cuja opinião honesta fosse minoritária."
Chaplin atingiu o ponto de ruptura quando, enquanto cidadão britânico, percebeu que seria de facto expulso da Terra dos Livres. Como ele escreveu,
"A minha reentrada naquele infeliz país teve pouca importância para mim. Gostaria de lhes ter dito que quanto mais cedo me livrasse daquela atmosfera sitiada de ódio , melhor, que eu estava farto dos insultos e da pomposicade moral da América e que todo o assunto foi terrivelmente entediante."
Ele levou a sua família para a Suíça e viveu o resto dos seus dias num cenário idílico, perto de Genebra.

Havia apenas um problema. A totalidade da substancial riqueza de Chaplin estava nos EUA. E ele esperou demasiado tempo - até ser exilado do país - para sequer pensar em colocar no estrangeiro algum capital.


O seu empolgante discurso no final do Grande Ditador apela a um mundo livre de violência, de intimidação e de controlo estatal. Infelizmente, nós não vivemos num mundo desses.

Vivemos num mundo onde homens ambiciosos estão dispostos a fazer o que quer que seja para assumir o poder absoluto... onde possam regular cada aspecto das nossas vidas, desde o que pomos nos nossos corpos até à possibilidade de podermos ou não captar a água da chuva.

Eles confiscam os nossos salários, duramente obtidos, sob a ameaça das armas. Eles desvalorizam as nossas economias. Eles espiam absolutamente toda a gente, incansável e descaradamente. Eles travam guerras desprovidas de sentido em terras estrangeiras. Eles desperdiçam. Eles frustram. Eles destroem.

Esta é a nossa realidade. O mundo é maravilhoso. A vida é maravilhosa. Mas os líderes da humanidade tornam por vezes muito difícil que a consigamos apreciar.

É por isso que faz muito sentido que cada um de nós tenha um pouquinho de segurança - certificando-nos que não estamos a cometer o mesmo erro que Chaplin ao mantermos a totalidade das nossas poupanças e meios de subsistência no mesmo país em que vivemos e... e um que está claramente numa tendência descendente.

Este é o nosso foco no Sovereign Man. E a cada dia que passa, as razões tornam-se mais evidentes. Não iremos poder escapar ao inferno em 2014.

E agora, sem mais delongas, por favor desfrute do discurso final de Chaplin no Grande Ditador:


Simon Black

4 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Aprendo sempre algo aqui. Afinal a pratica dos FiveEyes em controlar ainformação já é mais antiga que eu. Pensava eu que tinha descoberto uma tendencia perigosa que deveria repudiar para alertar outros. A experiencia de ingleses e associados já é muito velha. Obrigado

Floribundus disse...

ao contrário de CC, os devoristas desta revolução estão cá, mas têm o dinheiro fora

Aprendiz disse...

Não consigo entender uma coisa. Se ele era tão avesso assim à servidão e totalitarismo, porque era tão entusiasta da URSS?

Eduardo Freitas disse...

Caro Aprendiz,

Tanto quando julgo saber - e pode ser que esteja enganado - não creio que Chaplin tenha sido um assim tão grande entusiasta da URSS. Veja-se, por exemplo, como o partido comunista dos EUA passou a desconsiderar o "Grande Ditador" logo após a celebração do pacto germano-soviético.

Se se refere as acções de Chaplin para auxiliar a URSS durante e logo após a II GG, em nada as vejo diferentes das levadas ao cabo pela sua, essa sim, grande referência: Franklin Delano Roosevelt.