quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O estranho sucesso de um prejuízo de dez mil milhões de dólares

Não fosse um frequentador de mundividências além-Rectângulo, teria ficado com a ideia de que esta semana foi particularmente importante para a Government General Motors pelo facto, abundantemente amplificado entre nós, de ser sido anunciado que o próximo CEO será uma mulher, o que acontece pela primeira vez ha história daquela companhia. Para encontrar uma referência nos media portugueses à venda do último lote de acções que o Tesouro norte-americano ainda detinha, assim selando um prejuízo de dez mil milhões de dólares (!), tive que muito porfiar. Mais uma "pequena" evidência da informação (?) politicamente correcta.

Quando entre nós se desanca no governo  pela solução desenhada para os Estaleiros Navais de Viana do Castelo1 (e em parte bem, como faz hoje João Miguel Tavares no Público, ainda que o problema seja bem antigo e o governo anterior nada tenha feito senão adiar o inadiável) o caso do resgate à GM, que supostamente foi um sucesso, calcule-se!, merece uma dilucidação especial. Daí que tenha achado interessante amplificar o alcance deste texto de Chris Rossini (em definitivo, um grande blogger) através de tradução da minha responsabilidade
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1 Entidade que há muito teria sido alvo de liquidação, ou pelo menos de um profundo downsizing, caso fosse uma empresa privada sem especiais ligações ao poder. Tratando-se de uma empresa pública, com um passivo reconhecido de 280 milhões de euros (fora o resto como, por exemplo, activos sobrevalorizados, por exemplo), o estertor foi artificialmente prolongado à custa dos do costume: os contribuintes.
"Bem, é oficial. O governo dos EUA vendeu ontem [9 de Dezembro] as acções remanescentes que ainda detinha da resgatada GM [General Motors].
O secretário do Tesouro, Jack Lew, declarou: "... este importante capítulo na história da nossa nação está agora encerrado." Eu sustento que ele se parecido mais com uma nódoa na história da nação. A única forma que poderei admitir que se trata de um "importante capítulo" seria a de nos estarmos a referir à história criminal.

O presidente da GM afirmou: "Nós ficaremos para sempre gratos pela segunda oportunidade que nos foi concedida e estamos a fazer o nosso melhor e a tirar o máximo partido dela." Bem, a segunda oportunidade não foi "concedida" por aqueles que foram forçados a pagar a conta. A GM, pura e simplesmente, recebeu dinheiro de emergência [a curto prazo] para que pudesse salvar o seu negócio.

Uma manchete que eu continuo a ver nos media do mainstream é que "Nós perdemos 10 mil milhões de dólares no resgate à GM". Por outras palavras, a diferença entre o que o governo pagou pelas acções da GM e o valor obtido pela sua venda significou um prejuízo de 10 mil milhões de dólares. E uma vez que os principais meios de comunicação social sempre fazem equivaler o estado a "nós", isso significa que fomos "nós" que perdemos o dinheiro.

Ora realmente... há muito que dizer de tais alegações.

Primeiro de tudo, o estado/governo seguramente que não equivale a "nós". Eu nunca autorizei o governo a socorrer uma corporação crony com o meu dinheiro. De facto, eu nem sequer entreguei o meu dinheiro ao governo voluntariamente. Ele foi-me tirado (como a milhões de outras pessoas), sob a ameaça do emprego da força se o não fizesse.



Além de não termos autorizado o resgate, "nós" também não autorizámos o governo a incorrer num prejuízo de 10 mil milhões. E por falar nessa perda... será que realmente se trata apenas de 10 mil milhões? Acaso um dólar de 2009 tem o mesmo poder de compra de um dólar de 2013? Será que nos esquecemos de um personagem importante na nossa história do crime conhecido por Reserva Federal?

Além disso, agora que este "importante capítulo" terminou, posso "levantar" o meu quinhão? Muito embora o estado tenha perdido 10 mil milhões, eu definitivamente gostaria de colocar o meu dinheiro num outro local. Posso levantá-lo?

E caso o governo tivesse realizado um ganho de 10 mil milhões com a venda? Será que eu poderia nesse caso levantá-lo? E o caro leitor? "Nós" somos o estado, não é verdade? Talvez eu não tenha preenchido o formulário correcto... não sei.

Finalmente, as perdas incorridas pelos contribuintes americanos não são de 10 mil milhões de dólares. Na realidade, os prejuízos são incalculáveis. É impossível conhecer o verdadeiro prejuízo provocado. Repare-se que, quando o dinheiro nos foi subtraído pelo estado, tínhamos planos diferentes quanto à sua utilização.

Eu tenho uma longa lista de desejos, e há muitas pessoas que retirariam benefícios por satisfazerem as minhas necessidades. Infelizmente, essas transacções mutuamente vantajosas foram ceifadas pelo uso da força. E isso, só no que a mim me respeita. Multipliquem-se agora essas despercebidas oportunidades [que em linguagem económica se denominam por custos de oportunidade] por umas quantas centenas de milhões.

Mas o desastre é ainda pior!

Um dos principais elementos do mercado livre (elemento esse que os EUA têm cada vez menos) é que aqueles que não conseguem satisfazer os consumidores de modo rentável devem ceder os seus activos àqueles que estão a conseguir proporcionar aos consumidores o que eles pretendem com urgência. Nós não vivemos no Jardim do Éden. Os recursos são escassos. O mercado "proíbe" [impede] o desperdício de recursos aplicados na criação de coisas que as pessoas não desejam.

A GM falhou miseravelmente. Os seus activos deveriam ter sido vendidos e colocados em melhores mãos. No entanto não foi isso que aconteceu. Em vez disso, o governo usou o nosso dinheiro para manter os pobres administradores da GM no activo! De modo que também "nós" sofremos com esse bizarro retrocesso.

Uma vez mais, porém, as nossas perdas são incalculáveis. O facto de os recursos da GM poderem ter estado em melhores mãos, e que, por essa via, pudéssemos estar a colher os benefícios que agora passam despercebidos.

Que terrível "capítulo" na história dos EUA. Mas tenhamos esperança, e façamos o nosso melhor, para nos assegurarmos que o livro em si venha a ter um final feliz."

2 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Esperemos que muitos membros da Brigada das Colheres possa ler este post.Ler e compreender.

JS disse...

"....Primeiro de tudo, o estado/governo seguramente que não equivale a "nós"....."

Detestável e enganador realmente esse uso constante, pelos políticos (ir)responsáveis, de esse "nós".

Assim com é (de)formante para a personalidade uso do "nós" "descobrimos a India...".

Mais uma vez uma ilha de sanidade intelectal. Obg.