quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O que não se disse acerca do Iraque (e assim continua a suceder)

Pelo menos os mais antigos frequentadores do blogue terão presente o contador macabro inscrito na coluna da direita sob a epígrafe "As acções têm consequências". É raro o dia que não dou conta de por lá haver "actividade" apesar de os jornais já praticamente terem deixado de se preocupar com as notícias da trágica sucessão de mortos e feridos que não mostra sinais de abrandar (bem pelo contrário, apesar de as próprias Nações Unidas terem retirado do seu website um "contador oficial" que mantinham desde 2003). Estranhamente (<sarcasmo/>) também não dou conta que os media se interroguem quanto à súbita "calmaria" no morticínio sírio (apesar disto) logo que, numa curva inesperada e in extremis, se regressou ao lá de cá da "linha vermelha". Mas nem por isso deixa de haver quem pretenda prosseguir na tresloucada doutrina intervencionista persistindo em alcançar o "Grande Prémio": a guerra contra o Irão.

É este o tema do artigo de Ron Paul que me propus traduzir, a propósito da visita que Nuri al-Maliki, primeiro-ministro do Iraque, fez a Obama na semana passada em Washington.
Por Ron Paul
3 de Novembro de 2013

Outubro foi o mês mais mortífero no Iraque desde Abril de 2008. Nesses cinco anos e meio, não só não houve qualquer melhoria nas condições de segurança no Iraque como, pelo contrário, elas se tornaram muito piores. Mais de 1000 pessoas foram mortas no Iraque no mês passado, na sua grande maioria civis. Outras 1600 ficaram feridas, com os carros-bomba e os tiroteios a continuar a mutilar e a assassinar.

Enquanto o Iraque pós-"libertação" mergulha na espiral descendente, o primeiro-ministro Nuri al-Maliki esteve em Washington na semana passada a suplicar por mais ajuda dos Estados Unidos para ajudar a restaurar a ordem numa sociedade destruída pela invasão dos EUA em 2003. A Al-Qaeda conseguiu avanços recentes significativos e o Iraque necessita de mais ajuda militar dos EUA para combater a sua influência crescente, disse Maliki ao presidente Obama na reunião que tiveram na sexta-feira passada.

Obama prometeu trabalhar em conjunto com o Iraque para enfrentar a crescente presença da Al-Qaeda, mas o que não foi dito foi que antes do ataque dos EUA não havia Al-Qaeda no Iraque. O aparecimento da Al-Qaeda no Iraque coincidiu com a ataque dos EUA. Alegaram que tínhamos que combater o terror no Iraque, mas a invasão dos EUA resultou na criação de redes terroristas onde antes não havia nenhuma. Que desastre.

Maliki também disse ao presidente Obama na semana passada que a guerra na vizinha Síria estava a espalhar-se ao Iraque, com os combatentes anti-Assad a colocar bombas e a desestabilizar o país. Já foram mortas mais de 5000 pessoas em todo o Iraque este ano, e os ataques transfronteiriços por parte dos rebeldes sírios no Iraque estão a fazer aumentar aqueles números. Uma vezmais, o que não foi dito foi que o governo dos EUA apoiou estes combatentes anti-Assad, tanto em segredo como abertamente, durante os últimos dois anos.

No início da semana um grupo de senadores - em que todos eles haviam apoiado a invasão do Iraque pelos EUA em 2003 - enviou uma carta a Obama, redigida em termos fortes, queixando-se que Maliki estava demasiado próximo do vizinho governo iraniano. O que não foi dito foi que esta nova aproximação entre os governos iraquiano e iraniano se desenvolveu sob um governo "instalado" pelos EUA após a invasão do Iraque pelos EUA.

Por certo que haverá muita culpa que pode ser assacada a Maliki e a vários políticos indisputavelmente corruptos que governam o Iraque nos dias de hoje. Mas como chegaram eles ao poder? Não nos prometeram aqueles que promoviam a guerra que ela iria criar uma testa-de-ponte da democracia no Médio Oriente e um governo pró-americano?

Segundo o ex-secretário do Tesouro Paul O'Neill, nos inícios de 2001, quando a nova administração Bush estava a debater um ataque ao Iraque, o então secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, disse: "Imagine-se como ficaria a região sem Saddam e com um regime que estivesse aliado aos interesses norte-americanos. Isso faria mudar tudo na região e mesmo para além dela. Demonstraria do que trata toda a política dos EUA." [link]

Anos passados, vemos agora quão ridícula era esta ideia.

Há muito que defendo a ideia que, uma vez que para lá marchámos, apenas nos resta marchar de lá para fora. Isto vale para as tropas dos EUA como também para os esforços dos EUA para refazer o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, e por toda a parte onde as guerras neocon de "libertação" não produziram nada para além do caos, da destruição e de mais inimigos dos EUA no estrangeiro. A melhor forma de melhorar a situação é simplesmente a de os deixar em paz.

Os intervencionistas, infelizmente, não aprenderam a lição da débacle do Iraque, nem mudaram o seu discurso. Continuam a promover a mudança de regime na Síria, mesmo responsabilizando o governo iraquiano pela desestabilização que alastra. Continuam a agitar as águas visando um ataque dos EUA ao Irão, com membros do Congresso a introduzir recentemente legislação que autorizaria de facto a utilização da força por parte dos EUA contra o Irão.

Tudo isto sugere uma curva de aprendizagem muito lenta por parte dos nossos líderes dos dois partidos em Washington. É tempo de mudar.

1 comentário:

Miguel Loureiro disse...

Caro Eduardo
É bonito falar do que a imprensa silencia e dar voz aos dramas criados por razões omissas...
O Iraque podia contratar as empresas privadas que os EUA contrataram para fazer parte da guerra... Já chegamos a isto, depois da Legião Francesa.