domingo, 3 de novembro de 2013

Gary North: O carácter messiânico da NSA

Sempre que acabo de ler um livro ou um ensaio da autoria de Gary North é certo acontecerem-me duas coisas: 1) aprender coisas novas com o singular académico e, 2) ver contrariado o pessimismo que há muito me ameaça. O mesmo voltou a suceder após a leitura de "The Messianic Character of the NSA". Na expectativa que o mesmo possa suceder com os leitores do EI, propus-me traduzi-lo. É um texto um tanto longo, como é habitual em North, mas creio valer a pena lê-lo até ao fim. Se possível, no original.
O estado moderno é messiânico. Apesar de negar a existência de Deus, procura substituí-Lo.

Gary North
O meu sogro, R. J. Rushdoony, costumava dizer que o estado pretende predestinar a humanidade, porque o estado quer tornar-se no deus desta sociedade. Exactamente há meio século atrás neste mesmo mês, surgiu o seu livro: "The Messianic Character of American" [O carácter messiânico da educação americana]. Os fundadores da educação pública nos Estados Unidos acreditavam na realidade que o estabelecimento da escola financiada através dos impostos conseguiria redimir os indivíduos e a ordem social americana. Eles afirmaram isto repetidamente e Rushdoony reuniu as citações e forneceu as notas de rodapé.

A mesma análise pode ser aplicada à comunidade dos serviços de informações. O seu impulso é messiânico.

Também há meio século atrás, estudei com o filósofo e teólogo Cornelius Van Til. Van Til fazia uso de muitos aforismos, e os seus aforismos eram muito mais poderosos que a sua prosa. Um deles dizia o seguinte: "O homem autónomo acredita ser possível conhecer realmente algo apenas quando conhece tudo de forma exaustiva". Num universo em que um dado acontecimento pode concebivelmente afectar tudo o resto, uma pessoa que pretenda compreender algo necessita conhecer todos os potenciais nexos de causalidade envolvidos. Mas estas relações são inerentemente infinitas. Este é o denominado efeito de borboleta. Se o bater de asas de uma borboleta na Califórnia pode provocar um furacão em Miami, então cabe aos serviços meteorológicos de Miami monitorizar cada borboleta.

MONITORIZANDO OS LÍDERES EUROPEUS

Nos últimos dias, uma nova divulgação de informações acumuladas por Edward Snowden revelou que há uma década que a NSA monitoriza as chamadas telefónicas dos líderes da Europa Ocidental. Por que razão fez a NSA isso?

Teve que ver com dois factores: o inerente compromisso burocrático para com a expansão versus o preço da expansão. O preço estabelece-se sempre em termos marginais. Alguém paga algo extra por um pouco mais de outra coisa. A NSA paga um pouco mais, ou talvez muito mais, de modo a acumular mais informações nas suas bases de dados. Há uma lei económica que diz o seguinte: quando o preço diminui, aumenta a procura. O preço da informação, e especialmente o do armazenamento de dados, tem diminuído a um ritmo sem par na história da humanidade. O que irá continuar a acontecer.



Existe uma teoria conhecida como o imperativo tecnológico. Ela diz o seguinte: "Se algo pode ser feito, deve ser feito". Por que razão deveria este imperativo ser verdadeiro? Por que razão se deveria fazer algo apenas porque é possivel fazê-lo? Essa foi a resposta de Bill Clinton relativamente a Monica Lewinsky. Este não foi um caso de imperativo tecnológico, mas de facto parecia ser um imperativo psicológico. Em nenhum dos casos devemos considerar legítimo um tal imperativo.

O imperativo burocrático, o imperativo estatista e o preço decrescente da recolha e armazenagem de dados, aliaram-se para criar um estado de espionagem. Que não pode ser reformado de modo a ultrapassar esses três imperativos. Apenas poderá ser "desfinanciado" [eliminando, ou pelo menos reduzindo, a respectiva rubrica orçamental].

O ESTADO COMO DEUS

A NSA, a CIA e o FBI não estão simplesmente a prosseguir um suposto imperativo tecnológico. Eles estão a prosseguir um imperativo messiânico. Estão em busca do conhecimento exaustivo, supondo que não consigam saber nada de modo preciso a menos que tudo saibam de forma exaustiva.

O mesmo se pode dizer da arte de curar. Houve um tempo em que os homens acreditavam que Deus conseguia curar as pessoas doentes. Hoje, maioria das pessoas acredita que a ciência médica consegue curar as pessoas doentes. Sob esta visão, é certo e sabido que o estado irá intervir. O estado procura o controlo sobre a medicina. Os seus agentes afirmam quer a autoridade quer a capacidade para servir como deuses funcionais da sociedade e, portanto, o estado não pode permitir que a medicina seja regida por acordos de livre mercado. O estado é visto como tendo um imperativo moral - que é em última análise um imperativo religioso -, para intervir na relação entre o prestador de serviços de saúde e o cliente.

O novo e gigantesco datacenter da NSA no Utah

A NSA, a CIA e o FBI vão continuar a acumular tantos dados quanto o seu orçamento permitir, e muito mais dados do que admitirão possuir. Isto é consistente com a visão moderna do estado. O estado é visto como a agência da salvação. É visto como a agência da cura. É visto como a agência da protecção. Os cidadãos não devem ter a expectativa de limitar a extensão da acumulação de dados por essas agências até que rejeitem a teologia que alicerça o estado messiânico. Colocar limites a estas agências corresponderia a rejeitar a teoria do funcionamento do moderno estado messiânico, ou seja, que o estado é o único deus funcional da sociedade, e, portanto, o supremo tribunal de recurso. Não há, supostamente, nenhum apelo para além do estado. Nas palavras de Stalin, "Quantas divisões tem o Papa?" Esta é doutrina do direito divino do estado. Esta teoria da soberania do estado substituiu o direito divino dos reis.

As boas notícias são estas: os burocratas que preenchem os quadros de efectivos nestas agências não são omniscientes. Eles estão submergidos pela quantidade de dados que a sua tecnologia digital acumulou. Eles são incapazes de "unir os pontos" [e assim descobrir a imagem que eles ocultam]. Eles são incapazes de proteger a sociedade de pessoas dedicadas que estão dispostos a morrer por uma causa e que adoptaram o terrorismo como a ferramenta apropriada à sua causa. Os burocratas não estão dispostos a morrer em defesa da sua causa. Eles também são incapazes de unir os pontos digitais. As agências irão continuar a acumular dados, mas não serão capazes de pôr em prática políticas eficazes para controlar os actos de terrorismo contra o estado. Há uma resistência crescente ao estado. A decisão das agências de acumular uma tal informação testemunha a sua teologia da salvação estatista, uma teologia que os terroristas rejeitam relativamente aos Estados Unidos. O imperativo tecnológico é de facto o imperativo messiânico, que criará sempre resistência.

A acumulação de dados e os sistemas de busca não são melhores que a coragem, a sabedoria e a capacidade para unir os pontos digitais na posse dos funcionários das diversas burocracias que acumulam os dados. Quanto maiores forem as burocracias, menor será a sua aplicação da coragem, da sabedoria e da capacidade para unir os pontos. Este é um imperativo burocrático.

A BUROCRACIA E A MEDIOCRACIA

O impulso inerente à burocracia dirige-se à mediocridade. Nenhum funcionário burocrático quer contratar pessoas com capacidades significativamente maiores que as suas, porque elas fá-lo-iam parecer incompetente. Ele também não pretende contratar ninguém com óbvias capacidades inferiores, porque isso convidaria à intervenção de um nível mais elevado da burocracia. Deste moso, os imperativos burocráticos inclinam-se para a mediocridade, e a mediocridade não é o material da divindade.

O estado messiânico é um falso deus. Ele irá continuar a intervir sempre que possível, independentemente da lei, inclusive da lei moral. Este é o imperativo messiânico. Mas isto é inerentemente auto-destrutivo. A dado momento, o estado ficará sem dinheiro. Ele estará sempre ameaçado pelos seus limitados fornecimentos de coragem, de sabedoria e da capacidade dos seus membros para unir os pontos.

O alvoroço associado às escutas dos telefones dos líderes europeus pela NSA irá em breve desvanecer-se. Existe apenas um teste com alguma relevância relativamente à extensão da autoridade da burocracia, e é a decisão dos políticos de cortar o orçamento da burocracia. Nada mais importa aos burocratas. O Congresso não vai cortar o orçamento da NSA que, supostamente, é da ordem dos 52 mil milhões dólares por ano. Deste modo, o imperativo messiânico continuará a operar. O custo de acumular informação continuará a declinar.

Não obstante, a NSA sofreu um grande revés. O seu orçamento vai crescer, mas o mesmo sucederá à sua timidez. Os altos burocratas querem proteger os seus orçamentos. Eles querem proteger as suas posições de senioridade. Eles querem as suas promoções, e, para obter essas promoções, têm de aderir ao supremo imperativo burocrático: "Não cometer um erro."

CONCLUSÃO

A NSA é parte do imperativo messiânico, e esse deus irá falhar.

A NSA, a CIA e o FBI estão todos envolvidos na implementação de uma teologia da omnisciência do estado. Estão todos envolvidos num logro gigantesco, um jogo da cabra-cega. A fonte deste logro não está no seio das agências. É inerente à cidadania, que adoptou por predefinição uma teologia da salvação pela legislação. O carácter messiânico da política é partilhado em todo o mundo, nação a nação. Esta teologia conduz sempre aos mesmos tipos de erros burocráticos em todas as sociedades que a adoptaram.

Parte dessa teologia assevera a capacidade dos cidadãos para reformar o estado, mas sem rejeitar a teologia da salvação pela legislação. Esse é um outro grande logro.

Quanto mais os agentes do estado invocarem a omnisciência digital, mais cegos se tornarão. Há demasiados pontos para unir; demasiadas borboletas para monitorizar.

2 comentários:

Antonio Cristovao disse...

a explicação fez-me lembrar o ensaio de Luis Portela :Estado Messianico e aspraticas tornadas publicas da Bial; uma contradição tão canhestra que nos leva para o radicalismo de muitas seitas em que a realidade é a negação a 100% das maximas reafirmadas. As justificações para o controle dos media e informação é uma pratica inglesa-agora dos FiveEyes que tem dado grandes resultados economicos o que justifica plenamente os orçamentos fabulosos que NSA, GCHQ e BBC têm comparado aos congeneres. Veja-se só as vezes que qualquer facto(nascimentodo principe, morte da princesa, gripe do mordomo)são vendidos para todo o mundo, dezenas de vezes antes, apos e depois dos factos. Alem da publicidade há o lucro imediato das agencias e a presença de toda a panoplia de modo de vida,locais turisticos, enfim influencia que compensa: Nimguem caça com furoes cegos a não ser os papalvos que infelizmeente são muitos.

Anónimo disse...

Gostei, enfim uma luz alumiando ao longe.