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terça-feira, 17 de março de 2015

Quem de facto combate o Estado Islâmico no terreno

Foram as constantes interferências de ordem externa que transformaram grande parte do Médio Oriente no atoleiro letal que hoje conhecemos. Primeiro, pelo retalhar da história e geografia milenar através da criação de fronteiras totalmente arbitrárias após o fim do império Otomano. Depois, porque o controlo da incrível riqueza em petróleo da zona tudo justificava. Um dos marcos desse intervencionismo foi o golpe que em 1953 depôs o democraticamente eleito Mohammed Mossadegh no Irão e instalou no trono Reza Pahlavi (uma "teoria da conspiração" finalmente reconhecida pela CIA, 60 anos depois). Em 1979, com a fuga do Xá e a instalação de um regime para-teocrático, o Irão passou a ser demonizado, guerreado, ostracizado, e sujeito a pesadas sanções económicas. Com o apoio explícito dos EUA - logístico, militar e de informações - Saddam Hussein atacou o Irão (também com armas químicas que, como a CIA igualmente confirmaria, eram do perfeito conhecimento americano), daí resultando uma guerra que durou oito anos (1980-1988) e causou 400 mil mortos. Com George W. Bush, o Irão foi catalogado como pertencente a um "eixo do mal" que tem persistido até hoje, reforçado com novos membros. Como os neocons nunca esconderam, o Irão é o "grande prémio".

Não deixa portanto de ser irónico que da 2ª guerra do Iraque tenha resultado um fortalecimento de facto da posição estratégica do Irão, ou, talvez melhor, do Islão xiita. Como não deixa de ser do domínio do factual que são os xiitas, e em particular Assad (aqui, numa entrevista recente à RTP), quem de facto tem combatido no terreno essa entidade difusa que dá pelo nome de Estado Islâmico bem como as diversas declinações da Al-Qaeda na região como é o caso da Frente al Nusra. É esta a leitura, lúcida e serena como é habitual, que Pat Buchanan faz da situação actual ao deflectir a retórica tonitruante dos neocons e de Netanyahu, também preocupado com a sua própria sobrevivência no poder em Israel, que tudo estão a fazer para torpedear as negociações em curso com o Irão relativas ao seu programa nuclear.

10 de Março de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Patrick J. Buchanan
América, temos um problema.

No sangrento e caótico Médio Oriente, salvo raras excepções como a dos curdos, os nossos amigos ou não conseguem ou não querem combater.

O Exército Livre da Síria claudicou. As forças do movimento Hazm na Síria, armadas pelos Estados Unidos, desmoronaram-se depois de serem alvo da perseguição pela Frente al Nusra. O exército iraquiano, treinado e equipado por nós, fugiu de Mosul em grande debandada até Bagdad. Os turcos poderiam aniquilar o ISIS na Síria, mas não irão combater. A Arábia Saudita e os países árabes do Golfo enviaram zero militares para combater o ISIS. Ficaram-se por um punhado de ataques aéreos.

Consideremos agora o que os nossos velhos inimigos já fizeram e estão a fazer.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Pat Buchanan: A Ucrânia Precisa de Paz, Não de Bombas

Com especial incidência desde o 11 de Setembro de 2001, que oficialmente iniciou uma aparentemente perpétua "guerra contra o terrorismo", que assistimos à eclosão de guerras sobre guerras marcadas pelo protagonismo da superpotência vencedora da Guerra Fria. De uma forma unilateral, de forma mais aberta ou velada, é como se os EUA se tivessem outorgado a si próprios o papel de um global Robocop (na expressão de Pepe Escobar) que, na esteira do messianismo wilsoniano, tem por missão "resolver" qualquer situação em qualquer parte do mundo que necessite ser "resolvida". Para o efeito, um dos instrumentos preferenciais tem sido o recurso aos bombardeamentos "humanitários" (que, se não estou em erro, foram inaugurados por Bill Clinton nos Balcãs) sendo notórios os "sucessos" que têm sido conseguidos: do Afeganistão ao Iraque, da Síria ao Sudão e à Somália, da Líbia ao Iémen, etc. E tudo parece conjugar-se para mais um envolvimento noutra aventura militar, agora na Ucrânia, muito embora isso não esconda a relutância da "Europa". Mas não foi Victoria Nuland quem, famosamente, exclamou "fuck the EU!" há um ano atrás nas vésperas de Maidan? Pat Buchanan, um paleoconservador antigo candidato à presidência dos EUA, tem sido uma das figuras da intelectualidade americana que tem ousado colocar perguntas pertinentes na tentativa de apelar à razão. Em mais um excelente artigo, apela ao bom senso. E à paz.

3 de Fevereiro de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Entre os presidentes do período da Guerra Fria, de Truman a Bush I, havia uma regra não escrita: não desafiar Moscovo na sua esfera de influência na Europa Central e Oriental.

Patrick J. Buchanan
Nas crises de Berlim de 1948 e 1961, na Revolução Húngara de 1956 e na invasão do Pacto de Varsóvia de Praga em 1968, as forças americanas na Europa permaneceram nos seus quartéis. Víamos o Elba como a linha vermelha de Moscovo, e eles viam-no como a nossa. Apesar de Reagan ter enviado armas para os rebeldes anti-comunistas em Angola, Nicarágua e Afeganistão, para os heróicos polacos de Gdansk só enviou copiógrafos.

Essa cautela e prudência da Guerra Fria poderá ter terminado.

Isto porque o presidente Obama está a ser instigado pelo Congresso e pelos intervencionistas liberais [no contexto norte-americano, “progressistas”, de esquerda – NT] no seu partido para enviar armamento letal para Kiev, em guerra civil com rebeldes pró-russos em Donetsk e Luhansk. Esta guerra já custou 5000 vidas, entre soldados, rebeldes e civis. O cessar-fogo de Setembro em Minsk foi rasgado. Os rebeldes, recentemente, conquistaram cerca de mais 300 quilómetros quadrados, e dirigiram fogo de artilharia contra Mariupol, um porto do Mar Negro entre Donetsk e Luhansk e a Crimeia.

sábado, 13 de setembro de 2014

"A guerra para todo o sempre", por Pat Buchanan

Uma das maiores dificuldades, impossível de contornar, na compreensão dos fenómenos sociais foi apontada pelo francês Frédéric Bastiat, uma das grandes figuras do liberalismo do século XIX, no seu famoso conjunto de ensaios coligido sob o título de "Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas" (O que se vê e o que não se vê), publicado em 1850. Referindo-se à matéria económica, Bastiat explicava como a parte invisível, "submersa" e diferida no tempo dos fenómenos, poderia até ser mais importante que aquela que se apresenta imediatamente visível aos olhos de todos.

O artigo de Pat Buchanan que me propus hoje traduzir (imagens e links meus) ilustra bem, creio, esta ideia. Obama, tudo o indica, decide entrar numa nova guerra porque (convenientemente?) surgiram uns vídeos no YouTube (e portanto na televisão) coreografando a decapitação de dois jornalistas americanos pelo "Estado Islâmico". Sem surpresa, a comoção no mundo ocidental, e nos EUA em particular, foi de generalizado horror pelo barbarismo das imagens (mas acaso esta imagem será menos bárbara?). Daqui resultou a inversão da opinião americana, aferida pelas sondagens, relativamente à participação no atoleiro mortal em que se transformou a Síria. Aparentemente, o que se viu (o que se deu a ver?) produziu os seus efeitos e tornou dispensável uma ponderação de médio e longo prazos. Obama bin Laden, onde quer que esteja, não poderá deixar de sorrir.
Por Patrick J. Buchanan
12 de Setembro de 2014

A guerra para todo o sempre
(The Forever War)

A estratégia que o presidente Obama anunciou na quarta-feira à noite para "degradar e finalmente vir a destruir o grupo terrorista conhecido como ISIL", é incoerente, inconsistente e, em última análise, não credível.

Patrick J. Buchanan
Há um ano atrás, Obama e John Kerry estiveram entusiasticamente à beira de lançar ataques aéreos contra o presidente sírio, Bashar al-Assad, devido à sua alegada utilização de armas químicas para "matar o seu próprio povo".

Mas quando os americanos se ergueram como um todo exigindo ficar de fora do conflito na Síria, Obama rapidamente fez desaparecer a sua "linha vermelha" e anunciou uma nova política de não envolvimento nas "guerras civis de outros".

Agora, depois de vídeos das decapitações de dois jornalistas norte-americanos terem incendiado a nação, o presidente, lendo as sondagens, fez uma nova pirueta.

Agora, Obama quer conduzir o Ocidente e o mundo árabe directamente para a guerra civil da Síria. Só que, desta vez, iremos bombardear o ISIL e não Assad.

Quem fornecerá as legiões que Obama irá envolver para esmagar o ISIL na Síria? O Exército Livre da Síria, os mesmos rebeldes que foram derrotados uma e outra vez e cujas possibilidades de derrubar Assad foram ridicularizadas pelo próprio Obama em Agosto último como sendo uma "fantasia"? O ELS é uma força de "antigos médicos, agricultores, farmacêuticos e assim por diante", zombou o presidente.

Agora, Obama pretende que o Congresso autorize o dispêndio de 500 milhões de dólares destinados a treinar e armar aqueles médicos e farmacêuticos e a enviá-los para o combate contra um exército de terroristas jihadistas que acaba de se apoderar de um terço do Iraque.

Antes que o Congresso vote um cêntimo que seja, deverá obter algumas respostas.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pat Buchanan: Será Putin pior que Estaline?

O trágico derrube do avião civil no leste da Ucrânia no passado dia 17 desencadeou, nesse mesmo dia, o cortejo habitual de acusações indignadas e o brandir de novas ameaças de sanções por parte dos EUA/NATO para com a Rússia de Putin. O que volta a impressiona nos relatos dos media de "referência" é a sua absoluta disponibilidade para veicular o discurso da potência dominante (uma notável excepção aqui) sem que sequer tentem responder à pergunta essencial aquando de qualquer incidente que, sem muita dificuldade, pode desencadear tragédias subsequentes numa escala muitíssimo maior: Cui bono? Quem beneficia com o derrube do avião?

Talvez muitos já se tenham esquecido de umas certas "armas de destruição maciça" cuja existência constituía uma ameaça tão intolerável que "justificava" uma mortífera guerra no Iraque de que não se vê o fim, 11 anos decorridos. Havia provas, diziam, insofismáveis. Era mentira. Como mentira se revelou o cruzamento de uma certa "linha vermelha" pelo regime de Assad - as "provas" voltaram a ser insofismáveis - da utilização de gás sarin por parte do regime sírio. Novamente, cui bono?

É preciso parar de brincar com o fogo, actividade a que o transversal Partido da Guerra se dedica com afinco desmedido. E volta a ser da denúncia do Partido da Guerra, cuja sede principal se situa nos EUA, que trata este novo artigo de Pat Buchanan que pensei ser interessante partilhar com os leitores. A tradução é da minha responsabilidade bem como a adição de fotos, links e notas.
25 de Julho de 2014
Por Patrick J. Buchanan
Será Putin pior que Estaline?

Patrick J. Buchanan
Em 1933, o Holodomor decorria na Ucrânia.

Após os "kulaks", os agricultores independentes, terem sido liquidados na colectivização forçada da agricultura soviética, foi imposta à Ucrânia uma fome genocida através do confisco da sua produção de alimentos.

As estimativas dos mortos situam-se entre dois a nove milhões de almas.

Walter Duranty, do New York Times, que apelidou os relatos da fome de "propaganda maligna", ganhou um Pulitzer pela sua mendacidade.

Em Novembro de 1933, durante o Holodomor, o maior liberal [1] de sempre, FDR [o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) - NT], convidou o ministro dos Negócios Estrangeiros Maxim Litvinov para receber o reconhecimento oficial dos EUA do regime assassino do seu senhor Estaline [2].

O genocida José Estaline
No dia 1 de Agosto de 1991, apenas quatro meses antes da própria Ucrânia ter declarado a sua independência, George H. W. Bush advertiu o poder legislativo em Kiev:
"Os americanos não apoiarão aqueles que buscam a independência com o propósito de substituir uma tirania distante por um despotismo local. Eles não irão ajudar aqueles que promovem um nacionalismo suicida baseado num ódio étnico."
Em suma, a independência da Ucrânia nunca fez parte da agenda da América. De 1933 a 1991, nunca constituiu um interesse vital dos EUA. Bush I opunha-se a essa independência.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pat Buchanan: Quem é e o que é Vladimir Putin?

Encaro a secessão como um direito conexo ao direito natural (*) quer no plano das nações quer no plano individual que se poderá traduzir no direito a ser deixado em paz. Tenho assim por essencialmente benévola a leitura dos acontecimentos na Crimeia como de resto sucede quanto a outros processos secessionistas hoje em curso, até agora conduzidos por meios essencialmente pacíficos, como é o caso da Escócia, da Catalunha, de Veneza ou mesmo... de Vigo.

Se por momentos nos lembrarmos que: a própria América nasceu de um processo secessionista a cuja justeza se alude veementemente na Declaração de Independência; que Woodrow Wilson, nomeadamente no seu famoso discurso dos "quatorze pontos", impôs promoveu o estilhaçar dos impérios dos Hohenzollern e Habsburgos e redesenhou fronteiras e criou países em nome da "libertação dos povos" da Europa (pulverizando extensas populações germânicas pelo caminho...) e que o que aconteceu no Kosovo, em 1999, não caiu totalmente no esquecimento, parece-me difícil sustentar um outro ponto de vista. Tanto mais que a única alternativa enunciada, de forma ínvia ou desabrida, é o acentuar do cerco geopolítico (via NATO) à Rússia. E bem sabemos a que conduziu a política do cerco às potências centrais na Europa nos anos que antecederam a I Guerra Mundial.

Pat Buchanan, com a sua habitual frieza analítica e excelente memória histórica, é uma leitura particularmente aconselhável nos domínios da política externa quando as emoções (e a propaganda) se pretendem sobrepôr à razão. Daí o convite ao leitor que adiante se segue, resultado da tradução, da minha responsabilidade, deste texto de Buchanan.
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(*) Para uma incursão de índole filosófica neste tema, atente-se neste artigo de David Gordon ou nesta entrada da Wikipedia.
17 de Março de 2014
Por Patrick J. Buchanan

Quem é e o que é Vladimir Putin? (Who and What is Vladimir Putin?)

Vladimir Putin parece ter perdido o sentido da realidade, terá dito Angela Merkel a Barack Obama após ter falado com o presidente russo. Ele está "num outro mundo". "Concordo com o que Angela Merkel disse... que ele vive num outro mundo", declarou Madeleine Albright, "Isso não faz nenhum sentido". John Kerry deu o seu contributo para esta tonta teoria insinuando que Putin estava a seguir os passos de Napoleão: "Muito simplesmente, não é possível, no século XXI, comportar-se à moda do século XIX ao invadir um outro país sob um pretexto completamente forjado."

Patrick J. Buchanan
Agora que Putin assumiu o controlo da Crimeia sem disparar um tiro, e que 95% do eleitorado da Crimeia votou no Domingo pela reintegração na Rússia, será que as suas decisões continuam a parecer irracionais? Não seria previsível que a Rússia, uma grande potência que tinha acabado de ver o seu vizinho ser puxado para fora da órbita da Rússia por um golpe apoiado pelos EUA em Kiev, iria reagir para proteger uma posição estratégica no Mar Negro que mantém há dois séculos? Zbigniew Brzezinski sugere que Putin tem por objectivo recriar o império czarista. Outros dizem que Putin pretende recriar a União Soviética e o Império Soviético.

Mas por que razão a Rússia, hoje envolvida em sangrentas guerras secessionistas com terroristas muçulmanos nas províncias do norte do Cáucaso da Chechénia, do Daguestão e da Ingúchia, quereria invadir e reanexar o gigante Cazaquistão, ou qualquer outra república muçulmana da antiga URSS, o que garantiria a intervenção jihadista e uma guerra interminável? Se nós, americanos, queremos sair do Afeganistão, por que quereria Putin voltar ao Uzbequistão? Por que quereria ele anexar a Ucrânia Ocidental onde o ódio à Rússia remonta à fome organizada da era stalinista? A invasão e ocupação de toda a Ucrânia implicaria para Moscovo incorrer em custos infindáveis em sangue e dinheiro, a inimizade da Europa, e a hostilidade dos Estados Unidos. Qual seria o objectivo da Rússia, cuja população está a diminuir à razão de meio milhão por ano, de pretender voltar a ter soldados russos em Varsóvia?

Mas se Putin não é um imperialista russo que visa restabelecer o domínio russo sobre os povos não-russos, quem é e o que é ele?

quarta-feira, 5 de março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra

Tal como sucedeu aqui, a vertigem dos acontecimentos (reais ou veículos de mera desinformação) é de tal ordem que o risco da incorrecção (parcial) do relato é significativo. É o que tornou a acontecer agora com o artigo de Pat Buchanan, ontem publicado, que escolhi divulgar, em versão por mim traduzida.

Mas o meu interesse nesta matéria não é o da crónica de uma eventual guerra a propósito da Ucrânia. É, antes, o de convidar a reflectir sobre uma realidade que é bem mais complexa do que o maniqueísmo habitual propalado pelos políticos e media ocidentais - aqueles a que estamos directamente sujeitos - pretendem fazer passar ao grande público. A esta luz, o artigo de Buchanan, como é de resto habitual no seu autor, convida à análise serena e lúcida e, recorda algumas referências históricas e geográficas que, ainda que elementares, são fundamentais para a interpretação do que se vem passando. Sobretudo, que haja muito cuidado na aceitação acrítica das acusações de violação do "direito internacional" quando elas são esgrimidas por parte de quem age com o estatuto de império incontestado: "We're an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you're studying that reality—judiciously, as you will—we'll act again, creating other new realities, which you can study too, and that's how things will sort out. We're history's actors ... and you, all of you, will be left to just study what we do". Ainda anteontem morreram mais 97 pessoas no Iraque.

Ainda que naturalmente dirigido ao público norte-americano, é aos cidadãos dos países europeus que ele mais interessará. Afinal de contas, o epicentro das duas guerras mundiais aconteceu aqui no Velho Continente.

ACTUALIZAÇÃO: mais uma "pequena surpresa" (transcrição parcial aqui) a juntar a esta outra.
Por Patrick J. Buchanan
4 de Março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra! (Tune Out the War Party!)

A decisão de Vladimir Putin de enviar tropas russas para a Crimeia, pôs os nossos belicosos falcões a respirar fogo. A russofobia está desvairada e os artigos de opinião fervem de indignação.

Barack Obama deveria abstrair-se de tudo isto e reflectir sobre o modo como os presidentes ao longo da Guerra Fria lidaram com Moscovo a propósito de confrontos muito mais graves.

Patrick J. Buchanan
Quando as divisões de tanques do Exército Vermelho esmagaram os combatentes húngaros da liberdade em 1956, matando 50 mil deles, Eisenhower não levantou um dedo. Quando Khrushchev construiu o Muro de Berlim, JFK foi a Berlim e proferiu um discurso.

Quando as tropas do Pacto de Varsóvia esmagaram a Primavera de Praga em 1968, LBJ não fez nada. Quando Moscovo ordenou ao general Wojciech Jaruzelski que esmagasse o Solidariedade, Ronald Reagan recusou-se a colocar Varsóvia numa situação de isolamento.

Estes presidentes não viram nenhum interesse vital dos EUA ameaçado nessas acções soviéticas, por brutais que tivessem sido. Sentiram que o tempo estava do nosso lado durante a Guerra Fria. E a história veio a dar-lhes razão.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pat Buchanan: Não nos metamos nas guerras dos outros

Pat Buchanan, em Staying Out of Other People’s Wars, percorrre alguns dos principais focos de tensão que, pelo mundo fora, arriscam vir a desencadear novos e perigosos conflitos armados. O messianismo wilsoniano, que arrastou os EUA para a I Guerra Mundial e lançou os fundamentos para o intervencionismo americano pelas quatro partidas do mundo, permanece hoje bem vivo no seio do que Buchanan, muito justamente, designa pelo "Partido da Guerra". No Verão passado, assistiu-se a um muito improvável recuo por parte dos "falcões" em resultado directo da surpreendente derrota de Cameron no Parlamento britânico e subsequente revolta cívica que impediu que o Partido da Guerra voltasse a vencer na "Terra dos Livres e Lar dos Bravos". Evitou-se assim que a terrível guerra na Síria aumentasse ainda mais a sua intensidade e internacionalização. Falhando Cameron, entretanto, sobrou Hollande, outro membro do Partido da Guerra "de um país que se acostumou a humilhar outros durante 400 anos de guerras e agressões" (palavras de Hunt Tooley) e que reclama a grandeur de outrora. Buchanan termina o artigo exortando os republicanos (enfim, parte deles) a regressar às práticas que já foram as do Grand Old Party. Que o oiçam.

A tradução do texto é da minha responsabilidade assim como da inserção dos links e imagens.
Por Patrick J. Buchanan
7 de Fevereiro de 2014

Não nos metamos nas guerras dos outros (Staying Out of Other People’s Wars)

"Se estas negociações [com o Irão] falharem, há duas alternativas sombrias​​", afirmou o senador Richard Durbin, "um Irão nuclear, ou a guerra, ou talvez ambos".

Patrick J. Buchanan
Os senadores John McCain e Lindsey Graham regressaram da conferência de segurança de Munique declarando que até mesmo John Kerry concorda que a política do presidente Obama relativamente à Síria falhou. Eles exortam à reconsideração do recurso a ataques aéreos.

A Coreia do Norte vem avisando que, caso os exercícios militares anuais entre os EUA e a Coreia do Sul se venham a concretizar no próximo mês de Março, isso poderia significar a guerra, possivelmente uma guerra nuclear.

O presidente das Filipinas, Benigno Aquino III, comparou esta semana a situação do seu país com aquela que, em 1938, enfrentava a Checoslováquia, e as ilhotas sob disputa ao largo da sua costa no Mar do Sul da China, à região dos Sudetas. Tal como Hitler na Europa, Aquino está a dizer que a China está em marcha na Ásia.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Gramsci, o papa Francisco, jesuítas e proselitismo

Patrick J. Buchanan, uma presença frequente neste blogue, ainda que não pelos seus pontos de vista sobre economia (bem pelo contrário), não é um optimista. Explana longamente esse pessimismo informado, por exemplo, em Death of the West (2002) como no recente Suicide of a Superpower (2012). Como explica em artigo publicado na semana passada, Papal Neutrality in the Culture War, o papado de Francisco em nada contribuiu para moderar o seu pessimismo. Creio compreender o seu ponto de vista partilhando muitas das suas perplexidades perante a actuação do papa Francisco. A tradução que se segue é da minha responsabilidade.
Sexta-feira, 15 de Novembro de 2013

"O papa Francisco não quer guerreiros culturais; ele não quer ideólogos", disse o bispo Blase Cupich, de Spokane, Washington:

"O núncio disse que o Santo Padre pretende bispos com sensibilidade pastoral, pastores que conheçam o odor das ovelhas."

O bispo Cupich estava a veicular as instruções que o núncio papal havia trazido de Roma para guiar os bispos dos EUA no processo de escolha de um novo líder.

Eles escolheram o arcebispo Joseph Kurtz, de Louisville, Kentucky, detentor de um mestrado em assistência social, para suceder ao arcebispo Timothy Dolan que Laurie Goodstein, do New York Times, descreve assim [link]:
"Um loquaz evangelista, confortável em frente a uma câmara, que liderou os bispos no confronto de grande notoriedade contra a administração Obama quanto a uma disposição na legislação sobre cuidados de saúde que exige à maioria dos empregadores que tenha um seguro que cubra [a despesa com] os anticoncepcionais dos seus empregados."
Essa legislação exige igualmente aos empregadores a cobertura das drogas indutoras do aborto bem como das esterilizações.

Eis aqui mais uma confirmação que Sua Santidade procura mover a Igreja Católica para uma postura de não-beligerância, se não mesmo de neutralidade, na guerra cultural em curso pela alma do Ocidente.

Há um pequeno problema com a neutralidade. Como Trotsky observou, "Você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você". Para a igreja, a sua auto-exclusão da guerra cultural não visa pôr termo a essa guerra, significa perdê-la.

sábado, 7 de setembro de 2013

Mas afinal de quem é esta guerra?

É a pergunta que Patrick J. Buchanan formula em mais um artigo em que defende vigorosamente a auto-exclusão dos EUA de um envolvimento na guerra civil Síria que grassa há mais de dois anos - "Just Whose War Is This?". Neste artigo, Buchanan foca importante aspectos internos dos EUA que raramente são focados. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"Na Quarta-feira [dia 4 de Setembro], John Kerry disse ao Senado para não se preocupar com o custo de uma guerra americana na Síria.

Os sauditas e os árabes do Golfo, confortados com um rotundo barril de petróleo, vendido aos consumidores americanos a 110 dólares, irão pagar a conta dos mísseis Tomahawk.

Será que chegámos a isto - soldados, marinheiros, fuzileiros e aviadores norte-americanos, agindo como mercenários de sheiks, sultões e emires, quais Hessianos [mercenários de Hessen, Alemanha] da Nova Ordem Mundial, contratados para levar a cabo a matança pelos sauditas e pela realeza sunita?

Ontem [5ª feira], também, surgiu um relatório espantoso no Washington Post.

A Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas [link] juntou-se com o lobby israelita AIPAC [link] numa campanha pública a todo o gás em favor de uma guerra dos EUA contra a Síria.

Marvin Hier do Centro Simon Wiesenthal e Abe Foxman da Liga Anti-Difamação invocaram o Holocausto, tendo Hier acusado os EUA e a Grã-Bretanha de não terem conseguido salvar os judeus em 1942.

No entanto, se a memória for útil, em 1942 os britânicos estavam a combater Rommel no deserto e os americanos recolhiam ainda os seus mortos em Pearl Harbor e morriam em Bataan e Corregidor.

A Coligação Judaica-Republicana, também financiada por Sheldon Adelson, o magnata do casino de Macau, cuja preocupação pelas crianças que sofrem na Síria é uma espécie de lenda, está também a apoiar a guerra de Obama.

Adelson, que desembolsou 70 milhões de dólares para derrubar Barack, quer a sua recompensa - a guerra à Síria. E ele está a consegui-la. O Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, e o líder da maioria, Eric Cantor, já a saudaram e nela se alistaram. Sheldon, o mais rico de todos os ricos financiadores políticos, está a comprar uma guerra para si próprio.

E todavia, será realmente inteligente que organizações judaicas coloquem um selo judeu numa campanha para arrastar a América para uma guerra que a maioria de seus compatriotas não quer travar?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Pat Buchanan: "A única coisa que aprendemos da história é que não aprendemos com a história"

Nas vésperas de ainda mais outra aventura guerreira (a caminho do Irão?) sob um amplo beneplácito bipartidário, entusiasta ou complacente, Patrick J. Buchanan defende, convincentemente, que o Congresso deveria impedir o presidente Obama de iniciar a participação aberta dos EUA na guerra civil síria. Congress Should Veto Obama’s War é o título da sua mais recente peça que procurei traduzir (algo livremente).
"O Congresso não tem um conjunto muito significativo de responsabilidades fundamentais", disse Barack Obama na semana passada numa espantosa observação.

De facto, na Constituição, o Congresso aparece como o primeiro poder do estado federal. E entre os seus poderes, enumerados, estão: o poder de tributar, o de cunhar moeda, o de criar tribunais, o de promover a defesa comum, o de criar e financiar um exército, o de manter uma marinha e o de declarar a guerra.

Mas, ainda assim, talvez o menosprezo de Obama seja justificado.

Senão, considere-se o amplo assentimento do Congresso às notícias de que Obama decidiu atacar a Síria, um país que não nos atacou e contra o qual o Congresso nunca autorizou uma declaração de guerra.

Porque está Obama a fazer planos para lançar mísseis de cruzeiro sobre a Síria?

De acordo com um "alto funcionário da administração (...) que insistiu no anonimato", o presidente Bashar al-Assad usou armas químicas contra o seu próprio povo, na semana passada, em dois anos de guerra civil na Síria.

Mas quem delegou nos Estados Unidos a autoridade para andar pelas ruas do mundo a dar coronhadas em maus actores? De onde vem a autoridade para o nosso presidente imperial traçar "linhas vermelhas" e dar ordens a países para que não as cruzem?

Nem o Conselho de Segurança nem o Congresso nem a NATO nem a Liga Árabe autorizaram o lançamento de uma guerra contra a Síria.

Quem outorgou a Barack Obama o papel de Wyatt Earp da Aldeia Global?

Além do mais, onde está a prova de que foram usadas armas de destruição maciça e que só Assad pôde ter ordenado a sua utilização? Tal ataque não faz qualquer sentido.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pat Buchanan: Depois de 58 mil mortos, saímos do Vietname. Quantos americanos mataram os vietnamitas desde que partimos?

É com esta simples pergunta, que roubei para título do post, que termina mais um lúcido artigo de Patrick J. Buchanan - To Stop al-Qaeda, Stop Bombing & Occupying Muslim Lands. A tradução é minha.

ACTUALIZAÇÃO: afinal, parece que a ameaça global terrorista se circunscreve ao Iémen.
Aparentemente, a ameaça é séria e específica.

Os Estados Unidos ordenaram o fecho de 22 missões diplomáticas e emitiram um alerta mundial para os cidadãos norte-americanos em viagem.

A ameaça vem da Al-Qaeda na Península Arábica (a AQPA), o ramo mais letal da organização terrorista.

"Depois de Benghazi", disse o senador Lindsey Graham (Republicano, da Carolina do Sul), "esses elementos da Al-Qaeda estão realmente 'sob esteróides' e pensam que nós estamos mais fracos e que eles estão mais fortes. (...)

"Eles querem expulsar o Ocidente do Médio Oriente e tomar o poder nesses países muçulmanos e criar uma entidade religiosa à imagem da Al-Qaeda (...) e, se nós alguma vez mordermos o isco e tentarmos voltar para casa e transformar a América numa fortaleza, haverá outros 11 de Setembro."

Na momento em que esta coluna for publicada, a América poderá já ter sido atingida. E no entanto, não será já tempo de colocar a Al-Qaeda em perspectiva e examinar se a nossa política no Médio Oriente está a criar mais terroristas do que aqueles que estamos a matar?

Em 2010, a América perdeu 15 cidadãos devido ao terrorismo. Treze deles morreram no Afeganistão. O pior ataque resultou no assassinato de seis americanos numa missão médica cristã na província de Badakhshan.

E no entanto, em 2010, nem uma morte aqui na América resultou de terrorismo.

Naquele ano, porém, 780 mil americanos morreram de doenças cardíacas, 575 mil de cancro, 138 mil de doenças respiratórias, 120 mil em acidentes (35 mil em acidentes de automóvel), 69 mil de diabetes, 40 mil induzidas por drogas, 38 mil por suicídio, 32 mil por doenças do fígado, 25 mil por mortes induzidas pelo álcool, 16 mil por homicídio e 8 mil pelo HIV/SIDA.

Será o terrorismo o assassino que mais devemos temer, nele investindo a parte de leão dos nossos recursos de combate?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Interesses vitais vs ideais democráticos

Para os que elevam o regime democrático como a descoberta do Santo Graal e, portanto, do "Fim da História", os recentes acontecimentos no Egipto (como antes com a Autoridade Palestina ou ainda com a catástrofe da Argélia de 1991, para já não falar dos resultados "incorrectos" de vários referendos no processo de "construção europeia") são perturbadores.Neste texto Patrick J. Buchanan proporciona uma viagem ao devir histórico dos EUA para concluir que não cabe aos EUA a defesa e a promoção universal do "democratismo". Pelo contrário, finda que foi a Guerra Fria (há 20 anos) e não havendo interesse vital dos EUA a preservar, defende caber aos países Árabes a resolução dos seus próprios problemas - no Egipto como na Síria, no Iraque como no Líbano.

No seu texto, Buchanan evoca a "Boa Guerra" de 1941-1945 como exemplo de uma intervenção americana implícita e moralmente justificável fora do seu território. Todavia não escrutina as consequências não-intencionais do voluntarismo wilsoniano, entre as quais, nomeadamente, a ascensão dos comunistas ao poder na Rússia, ou a "ferida aberta" pelo Tratado de Versalhes A tradução do texto é minha.
"Compreensivelmente, a Irmandade Muçulmana está enfurecida.

Depois de ter ganho a presidência do Egipto em eleições livres e justas após o derrube de Hosni Mubarak, o presidente Mohammed Morsi foi deposto por um golpe militar e colocado sob prisão domiciliária.

Os líderes da Irmandade, sem que tenham sido condenados por quaisquer crimes, estão a ser circunscritos em redis.

Eles jogaram pelas regras da América. Agora, com a bênção da América, estão a ser presos pelos amigos da América nas forças armadas egípcias.

Não que esta seja a primeira traição percebida. Quando o Hamas venceu as eleições livres exigidas por George W. Bush, a América recusou-se a reconhecer a sua legitimidade e conspirou para a queda violenta do Hamas em Gaza.

Quando os islamitas ganharam a primeira volta das eleições argelinas em 1991, o regime, com a bênção de Bush I, cancelou a segunda volta, o que levou a uma guerra de guerrilha que custou entre 100 e 200 mil mortos.

Se os muçulmanos passaram entretanto a crer que os americanos pregadores pela democracia não passam de charlatães e hipócritas, não terão eles alguma razão?

A política externa dos EUA pareceu em tempos fazer sentido. Nós púnhamos os interesses vitais à frente da ideologia "democratista". Éramos por aqueles que eram por nós. Nós não gastávamos tempo a inspeccionar as credenciais morais daqueles que ficavam do lado da América. Nós jogávamos com as cartas que nos calhavam em sorte neste mundo.

O general Washington dançou quando soube que Luís XVI, um descendente do Rei Sol, apoiaria a causa da América contra a nossa mãe pátria [o Reino Unido].

Em 1917, Woodrow Wilson conduziu-nos à guerra "para tornar o mundo seguro para a democracia" enquanto potência associada de cinco impérios - o britânico, o francês, o italiano, o russo e o japonês. No fim da guerra, Wilson assinou tratados que levaram à pilhagem das terras e colónias dos três impérios derrotados, em benefício dos impérios vitoriosos.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A escalada da tragédia síria

Obama Escalates Syria’s Civil War é o título de mais um dos lúcidos artigos de Patrick J. Buchanan contra a tentação (e a prática) imperial dos EUA que resultou da instalação dos neocons nos corredores do poder. Não há - e de há muito que sabe ser assim - qualquer diferença na política externa (e interna) de Obama face à de George W. Bush. Só palas partidárias e uma cegueira e surdez incuráveis podem impedir esse reconhecimento (veja-se, por exemplo, esta notícia de ontem, esta outra de há uns dias ou ainda esta, em versão "animal feroz" na ausência de teleponto).

A "guerra ao terror" de Bush (na realidade, começada ainda por Clinton no Afeganistão) deu nisto: US drops demand Taliban renounce al-Qaeda to allow talks to progress e Afeganistão rompe negociações com os Estados Unidos. Não admira que Obama não se preocupe com a presença em força de terroristas entre os rebeldes que decidiu agora (como antes na Líbia) ajudar directamente com armas. Em nome de quê? Em nome de quê? Ou será que alguém acredita nisto? Se há, que reflicta nesta asserção famposa de Benjamin Franklin: "Those who would give up essential liberty to purchase a little temporary safety deserve neither liberty nor safety."

A tradução, algo livre, do artigo de Pat Buchanan é da minha responsabilidade.
Barack Obama acaba de dar os seus primeiros passos numa guerra na Síria que podem definir e destruir a sua presidência.

Na quinta-feira, enquanto festejava com os foliões LGBT o Mês do Orgulho Gay, um funcionário, Ben Rhodes, informou a imprensa na Casa Branca que irão ser fornecidas aos rebeldes sírios armas americanas.

Durante dois anos, Obama manteve-se fora desta guerra sectária/civil que já consumiu 90 mil vidas. Por que está entrando nela agora?

A Casa Branca alega ter agora provas que Bashar Assad usou gás sarin para matar 100-150 pessoas, desta forma ultrapassando uma "linha vermelha" que Obama tinha estabelecido como factor de "mudança de jogo". Desafiado, com a credibilidade contestada, ele tinha que fazer alguma.

No entanto, a alegada utilização por Assad de gás sarin para justificar a intervenção dos EUA, mais parece constituir um pretexto para entrar na guerra que uma racionalização para nela participar.

Porque a Casa Branca decidira intervir semanas atrás, antes da utilização do gás sarin ter sido confirmada. E por que razão teria Assad usado apenas minúsculos vestígios? Onde está a evidência fotográfica dos mortos desfigurados?

Que provas temos de que não foram os rebeldes que forjaram a utilização de gás sarin ou que o usaram eles próprios para conseguir que os crédulos americanos entrassem na sua guerra?

E todavia, por que razão o Presidente Obama, cuja orgulhosa jactância assenta na promessa de que ele nos irá desemaranhar das guerras do Afeganistão e do Iraque, tal como Dwight Eisenhower com a Guerra da Coreia, iria mergulhar-nos numa nova guerra?

Ele tem estado sob severa pressão política e internacional para fazer algo depois de Assad e o Hezbollah terem recapturado a cidade estratégica de Qusair e começado a preparar-se para recapturar Aleppo, a maior cidade.

Caso Assad tenha sucesso, isso significaria uma derrota decisiva para os rebeldes e seus apoiantes: os turcos, os sauditas e qataris. E isso significaria uma vitória geoestratégica para o Irão, o Hezbollah e a Rússia, que provaram constituir aliados confiáveis.

Para evitar essa derrota e humilhação, vamos agora enviar armas e munições para manter o controlo dos rebeldes sobre território suficiente para negociar uma paz que venha a remover Assad.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O orwelliano Obama e a falsificação da História

Imagem retirada daqui
No seu segundo Inauguration Address (transcrição aqui  em inglês e num bom português aqui) Obama revela-se, agora sem rebuço. Aí expôs a sua verdadeira agenda, incluindo temas que estiveram praticamente ausentes na campanha eleitoral (como a da "luta" contra as "alterações climáticas", coisa que irritou muito os seus apoiantes verdejantes). É o progressivismo, isto é, a doutrina do estatismo benevolente e suposto corrector das "imperfeições de mercado", estruturado e posto em prática com Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson (tema do recente livro do juiz Andrew Napolitano) que agora regressa, às claras, em todo o seu "esplendor".

Para o efeito, Obama não hesita em recorrer à máxima imortalizada por George Orwell: "Aquele que controla o presente, controla o passado. Aquele que controla o passado controla o futuro".O seu discurso, não sendo mais que a tentativa de conferir legitimação histórica (a famosa "excepcionalidade" americana) à sua agenda, é uma fraude desavergonhada. É isto que demonstra a crónica de Patrick J. Buchanan - Obama’s Egalitarian Revolution - cuja tradução, da minha responsabilidade, se segue:
"O Segundo Mandato Começa Com uma Arrebatadora Agenda para a Igualdade", era o título do artigo principal, a oito colunas, com que o Washington Post captou a essência do segundo discurso de posse de Obama. Nele ele declarou:

"O que une esta nação... o que nos torna excepcionais - o que nos faz americanos - é a nossa fidelidade a uma ideia, articulada numa declaração feita há mais de dois séculos atrás."

De seguida, Obama citou a nossa Declaração de Independência:

Consideramos estas verdades por si mesmo evidentes, que todos os homens são criados iguais, sendo-lhes conferidos pelo seu Criador certos Direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade [excerto transcrito daqui].

A nossa "união", continuou, "foi fundada nos princípios da liberdade e da igualdade."

Prosa agradável - e um disparate transparente.

Como poderia a União Americana ter sido fundada no princípio da igualdade, quando a "igualdade" não é mencionada na Constituição, na Declaração dos Direitos dos Cidadãos ou nos textos d' O Federalista? Como poderia ser a igualdade um princípio fundador de uma nação em que seis dos 13 estados originais tinham legalizado a escravidão e cinco dos primeiros sete presidentes possuíram escravos durante todas as suas vidas?

O que Obama pregou no seu discurso de posse não foi a verdade histórica, mas a propaganda "progressiva" [progressive], numa reescrita orwelliana da história da América.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Elogio a Gérard Depardieu


Ou, como titula Pat Buchanan, "The Depardieu Revolution". A tradução é minha
Quando o presidente socialista François Hollande assumiu funções, rapidamente concretizou a sua promessa de aumentar a taxa máxima de imposto [sobre o rendimento], para os franceses que ganham um milhão de euros por ano, para 75 por cento.

O regime passava agora a confiscar três dos quatro dólares que os franceses melhor sucedidos ganham. Paris também impõe um imposto sobre a riqueza para activos no valor de mais de 1,7 milhões de dólares.

Isso foi a gota de água para Gérard Depardieu, o actor famoso e bon vivant que já participou em inúmeros filmes interpretando papeis como o de Jean Valjean em "Les Misérables" [com estreia em breve em Portugal] e Cyrano de Bergérac.

Depardieu pôs a sua mansão de Paris à venda, atravessou a fronteira para a aldeia belga de Nechin, entregou o seu passaporte francês e vai renunciar à cidadania francesa. Uma pequenina comunidade de franceses já reside em Nechin, a um quilómetro fora do alcance da polícia fiscal de Hollande.

Depardieu diz que no ano que passou, 85 por cento [!] de tudo o que ganhou foi para pagar impostos. Ao longo de uma carreira de 45 anos, afirma, quase 200 milhões de dólares dos seus rendimentos foram-lhe retirados pelo fisco francês.

"Eu não gosto dos ricos", disse Hollande [20" do vídeo].

O sentimento é recíproco. Uma estação de rádio francesa afirma que 5 mil cidadãos franceses saíram do país desde que ele tomou posse.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O precipício

Enquanto os media mainstream ocidentais continuam preocupadíssimos com um tal de "precipício fiscal" e assinalam, pressurosos, o sacrifício de Obama para o ultrapassar, é notável o autismo perante a crua realidade. O problema nos EUA, o real, como aqui se assinala, é da ordem dos trillions. Entre nós, à escala, o problema não é menor, constituindo o recente caso Baptista da Silva mais uma exuberante manifestação da alienação que os jornais e as televisões activamente promovem.

Imagem retirada daqui
Patrick J. Buchanan, em "Como o Leviatã engoliu o GOP", é uma das vozes a contra-corrente. Infelizmente, não vejo razões para objectar ao seu pessimismo quanto ao futuro, tanto dos EUA como do Ocidente em geral. A tradução, e eventuais erros nela cometidos, é da minha responsabilidade.
"Deus colocou o Partido Republicano na terra para reduzir os impostos. Se eles não o fizerem não terão qualquer função útil."

O colunista Robert Novak estava falando do partido que abraçou a revolução de Ronald Reagan, que tinha pendurado um retrato de Calvin Coolidge na Sala do Gabinete e posto em prática a redução das taxas do imposto sobre o rendimento para [um máximo de] 28 por cento.

Mas, a bem da precisão histórica, o Partido Republicano não foi aqui colocado para cortar impostos. Desde a infância, na década de 1850, a sua missão era a de deter a propagação da escravidão. De 1865 a 1929, foi o partido das tarifas elevadas. Missão: construir a nação e proteger a indústria dos EUA e os salários dos trabalhadores americanos.

E se a Divindade ordenou ao Partido Republicano que reduzisse impostos, o partido tem tido um registo irregular. Warren Harding e Coolidge cortaram as taxas de imposto dos tempos de guerra de Woodrow Wilson em dois terços, mas Herbert Hoover quase triplicou a taxa máxima.

Sob o presidente Dwight Eisenhower, quando a taxa marginal de imposto estava nos 91 por cento, o Partido Republicano ratificou o New Deal e proporcionou a receita fiscal para equilibrar o orçamento aos níveis elevados de despesa que 20 anos de regime democrático haviam estabelecido.

Richard Nixon seguiu o exemplo. O Medicare, o Medicaid, os vales de alimentos, auxílio à educação, o Corpo da Paz, as dotações às artes e humanidades, todos os programas da Grande Sociedade [de Lyndon Johnson] cresceram - com Nixon acrescentando a OSHA [Agência Federal para a Segurança e Saúde Ocupacional], a EPA [Agência de Protecção do Ambiente], a Comissão para a Segurança ao Consumidor e o Instituto do Cancro.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A paz é o bilhete para a vitória

Patrick J. Buchanan, na sua coluna habitual na The American Conservative: Peace Is the Ticket to Victory. A tradução é da minha responsabilidade. Ver-se-á, dentro em pouco (quando acabar o debate que agora decorre), se Buchanan tinha razão.
Normalmente, não sempre, o partido da paz ganha.

O atear do fogo a Atlanta e a Marcha para o Mar do general Sherman asseguraram a Abraham Lincoln a reeleição em 1864. William McKinley, com o seu triunfo sobre a Espanha e a determinação em pacificar e manter as Filipinas, facilmente afastou William Jennings Bryan [da corrida presidencial] em 1900.

No entanto, Woodrow Wilson ganhou em 1916 com o slogan: "Ele manteve-nos fora da guerra!" E Dwight Eisenhower conquistou uma vitória esmagadora com a sua declaração sobre o impasse da guerra de Harry Truman: "Irei à Coreia." Richard Nixon prometeu em 1968 que "a nova liderança porá fim à guerra e ganhará a paz". O vice-presidente Hubert Humphrey, com dois dígitos de desvantagem nas sondagens, em 1 de Outubro, prometeu suspender o bombardeamento do Vietname do Norte. Ele uniu o seu partido e diminuiu a diferença para menos de um ponto no dia da eleição.

George McGovern concorreu como o candidato anti-guerra em 1972. Em Novembro, porém, quase todas as tropas americanas no Vietname tinham regressado a casa, e no final de Outubro Henry Kissinger tinha anunciado: "A paz está próxima." Nixon tinha expropriado a questão da paz. Resultado: 49 estados.

Hoje, após as mais longas guerras da nossa história no Afeganistão e no Iraque, os americanos estão fartos dos 6.500 mortos e dos 40.000 feridos, fartos dos 2 milhões de milhões de dólares do custo da guerra e desiludidos com os resultados que uma década de sacrifícios produziu em Bagdad e em Cabul.

Consciente deste cansaço de guerra, especialmente entre as mulheres, o presidente Obama e o vice-presidente Biden parecem dispostos a comparecer perante a nação no dia da eleição como o único partido da paz. Este facto ressalta de uma leitura atenta da transcrição do debate por parte de Biden.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Por detrás do encobrimento de Benghazi

Patrick J. Buchanan, em Behind the Benghazi Cover-up, termina assim o seu artigo de ontem, publicado na The American Conservative (minha tradução):
Porque é que a Casa Branca persistiu  na falsa história de ter sido um protesto contra um vídeo a causa da morte do embaixador Stevens, quando não podia deixar de saber que não tinha havido protesto algum?

A explicação mais plausível é que a verdade - que estávamos sendo atingidos  pelo pior ataque terrorista desde o 11 de Setembro, numa cidade que salvámos - teria exposto a vanglória de Obama quanto ao seu triunfo na Líbia e da Al-Qaeda estar "em fuga" e "em vias de ser derrotada" como mera propaganda absurda.

A Al-Qaeda está agora na Líbia, no Mali, no Iémen, na Síria, no Iraque e no Paquistão.

E a epidemia de motins anti-americanos em todo o mundo muçulmano, com as eleições da Primavera Árabe levando ao poder regimes islâmicos, testemunha a verdade real. Após quatro anos de Obama, é a América que está em fuga do Médio Oriente .

Mas não podemos deixar que as pessoas o descubram até 6 de Novembro.

Daí a tentativa de encobrimento do que se passou em Benghazi.
Nota: é bom que os EUA estejam de saída do Médio Oriente. Para todos.

sábado, 15 de setembro de 2012

A Primavera Árabe complica-se para os EUA

Pat Buchanan, na sequência do cerco às embaixadas americanas e do assassínio do embaixador americano na Líbia, pergunta: Time To Come Home? A tradução é de minha responsabilidade.
Não terá passado já suficientemente tempo para fazer uma análise custo-benefício do nosso envolvimento no Médio e Próximo Oriente?

Contando apenas este breve século, foi lá que travámos as duas mais longas guerras de nossa história, que colocámos a nossa autoridade moral por trás de uma "Primavera Árabe"que derrubou aliados na Tunísia, no Egipto e no Iémen, e que fornecemos o poder aéreo que salvou Benghazi e derrubou Muammar Khadafi.

Contudo, esta semana, as embaixadas dos EUA estiveram sob cerco na Tunísia, no Egipto e no Iémen, e diplomatas norte-americanos foram massacrados em Benghazi.

O custo das nossas duas guerras é de 6.500 mortos, 40.000 feridos e 2.000 milhões de dólares que foram empilhados sobre uma dívida nacional que é de 16 milhões de milhões de dólares, maior do que toda a economia dos EUA. E o que é que, em nome de Deus, temos nós para mostrar em troca?

Enfrentamos o ódio pandémico sobre o nosso país de Marrocos ao Paquistão. A visão de bandeiras americanas a serem rasgadas em pedaços e queimadas por turbas tornou-se tão comum por lá que quase parece que nos acostumámos a ela.

Quais são as raízes deste ódio árabe e islâmico?

Osama bin Laden, na sua declaração de guerra contra nós, deu três razões para o seu casus belli.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O Homem Mais Perigoso do Mundo

Com o som do rufar dos tambores de guerra a aumentar significativamente esta semana (veja-se, por exemplo, aquiaqui ou aqui) Patrick J. Buchanan tenta apelar à sanidade. A tradução, algo livre, é minha.
No Outono, os jornais dos EUA irão dedicar inúmeros centímetros de colunas de artigos assim como as redes de TV reservarão intermináveis horas revisitando o mês mais perigoso da história da república, se não mesmo do mundo.

A decisão de Nikita Khrushchev de, secretamente, instalar em Cuba mísseis balísticos de médio alcance, equipados com armas nucleares, começou a formar-se na sua mente algum tempo antes, talvez em Abril de 1961.

Foi nessa altura que o novo e jovem presidente dos EUA, John F. Kennedy, promoveu o desembarque de uma brigada de cubanos com a intenção desta se vir a tornar a vanguarda de um exército de guerrilha tendo em vista o derrube do regime de Fidel Castro.

A Baía dos Porcos tornou-se uma metáfora para a loucura irresponsável e para o fracasso.

Khrushchev tinha ordenado a um exército de tanques que entrasse em Budapeste para esmagar a Revolução Húngara de 1956 e assistiu, atónito, à recusa de um presidente dos EUA em usar seu poder para eliminar uma base soviética situada a 90 milhas da costa da América.

Em Junho, Kennedy encontrou Khrushchev em Viena e foi verbalmente atacado. Em Agosto, Khrushchev voltou a testar Kennedy construindo um muro para separar Berlim Oriental e selar o sector soviético. Os berlinenses que procuravam fugir foram baleados.

Kennedy ordenou um ano de mobilização dos reservistas.

Moscovo, em seguida, quebrou uma moratória sobre testes atmosféricos de armas nucleares, fazendo explodir uma gigantesca bomba de 57 megatoneladas no Árctico.

Em meados de Outubro de 1962 os mísseis soviéticos estavam em Cuba. O seu raio de alcance de 2400 quilómetros colocava Washington, D.C., ao seu alcance.

O chefe da Força Aérea era o general Curtis LeMay, ex-chefe do Comando Aéreo Estratégico, que se gabava da actuação da sua frota de B-29 durante a guerra do Pacífico, "Nós incendiámos, cozemos e assámos até à morte mais pessoas em Tóquio naquela noite de 9 para 10 de Março da que foi reduzida a vapor no conjunto de Hiroshima e Nagasaki."

LeMay queria bombardear e invadir Cuba, mesmo depois de Khrushchev ter retirado os mísseis. Quando Mao Zedong denunciou o recuo de Khrushchev, chamando à América "um tigre de papel", Khrushchev terá recordado a  Mao que "Este tigre de papel tem dentes nucleares." Mao, alegadamente, teria então indicado a sua disposição para perder 300 milhões de chineses numa guerra nuclear se tal guerra acabasse com os Estados Unidos.

Estes foram tempos graves e de homens perigosos. O que leva a esta recitação de como era o nosso mundo há 50 anos é a história da mais recente capa da The Weekly Standard, "O Homem Mais Perigoso No Mundo."

A foto da capa é do Ayatollah Ali Khamenei, o "homem com uma missão" no Irão, de quem se diz estar tentando obter uma bomba atómica e que "abomina os Estados Unidos num grau superior ao de Stalin, Mao, Tojo e Hitler em conjunto." Se este "líder supremo obtiver armas nucleares, será necessário um milagre para que ele não conduza estupidamente o seu país à guerra."

O objectivo último do artigo de 5000 palavras é: Tenha medo. Tenha muito medo deste homem.